Ou seja: "Ringu" é o primeiro e único filme no mundo a ter duas "parte 2", uma oficial e outra "bastarda".
A história é meio gozada: a produtora de "Ringu", a Asmik Ace Entertainment, contratou duas equipes diferentes para realizar, no mesmo ano (1998), simultaneamente, "Ringu" (dirigido por Nakata) e uma continuação chamada "Rasen", baseada no segundo livro da série, escrito por Kôji Suzuki. "Rasen" foi dirigido por outro cineasta, Jouji Iida, mas alguns atores do original fazem participações.




A idéia da produtora era lançar os dois filmes no mesmo ano: se o público gostasse de "
Ringu", obviamente iria ver também a seqüência "
Rasen", o que geraria uma boa renda à Asmik Ace - que realizou dois filmes praticamente pela metade do preço. Entretanto, o resultado não ficou dos melhores e "
Rasen" acabou sendo considerada uma continuação não-oficial quando o diretor do filme original, Nakata, realizou "
Ringu 2" em 2000, sem qualquer relação com a história de "
Rasen". O mesmo já foi feito nos Estados Unidos quando
Steve Miner dirigiu "
Halloween H20", a sétima continuação de "
Halloween", de
John Carpenter, ignorando totalmente as continuações feitas após a parte 2.
Mas o enredo de "
Rasen" é no mínimo interessante, e baseado fielmente no livro de Suzuki: voltam os personagens de Hiroyuki Sanada como Ryuji (o ex-marido de Reiko, morto no final de "
Ringu") e de Mai Takano, a aluna que estava namorando Ryuji, interpretada por Miki Nakatani. O filme começa com Mitsuo Andou, um médico-legista, fazendo a autópsia de Ryuji - que, logo descobrimos, foi seu colega de escola. A morte do amigo permanecia inexplicável pela polícia (mas todos que viram "
Ringu" sabem que ele foi morto por Sadako).




A história dá uma reviravolta quando Mitsuo descobre uma estranha mensagem no estômago do morto. Assim o legista toma conhecimento da história da fita amaldiçoada que teria matado Ryuji, e cria a teoria de que a vingança de Sadako aconteceria pela infecção das pessoas que assistiam a fita com um vírus mortal, que demoraria sete dias para incubar no organismo, matando a pessoa logo depois deste prazo - além de provocar alucinações referentes a Sadako.
Neste caso, as aparições sobrenaturais de Sadako surgindo da TV em "
Ringu" seriam um mero efeito colateral de um misterioso vírus que impregna o organismo de quem assiste a fita amaldiçoada, e assim fica explicada a morte de todas as vítimas após sete dias. Trata-se de uma reviravolta muito maluca na trama original, e por isso talvez o filme não tenha sido bem recebido pelo público.
Como "
Rasen" não alcançou o sucesso planejado, a estratégia da produtora foi no mínimo corajosa: eles resolveram esquecer que "
Rasen" existia e contrataram o mesmo diretor do "
Ringu" original, Hideo Nakata, e os mesmos atores para fazer a seqüência oficial, "
Ringu 2", em 2000, sem qualquer menção à história de "
Rasen".
Desta vez, além dos personagens de Mai Takano e Ryuji, voltam também a repórter Reiko e seu filho Yoichi, todos interpretados pelos mesmos atores do original. O pior é que a trama do filme ficou semelhante à da seqüência
"bastarda": o filme também começa com um autópsia, mas não é a de Ryuji, e sim a do corpo putrefato de Sadako, retirado do fundo do poço no final de "
Ringu". O roteiro lança a idéia de que Sadako não teria vivido apenas sete dias no poço, mas sim 30 anos!!!
Enquanto isso, a namoradinha de Ryuji, Mai, sai em busca de Reiko e seu filho Yoichi, em busca de respostas para a misteriosa morte do professor universitário. Ela descobre que o pequeno Yoichi está desenvolvendo ainda mais os poderes paranormais herdados do pai, e provavelmente será uma arma importante no combate aos poderes destruidores de Sadako.


Mesmo com algumas cenas assustadoras, "
Ringu 2" também não chegou nem perto do estrondoso sucesso de "
Ringu". O problema é que em "
Ringu 2" não há mais aquele gostinho de novidade: o espectador já sabe a história por trás da fita e de Sadako. Por isso, a continuação se limita a dar algumas explicações sobre as origens de Sadako e sobre a lógica científica da fita amaldiçoada e como ela age na morte das pessoas que a assistem, eliminando o encanto sobrenatural do filme original.
Como curiosidade, existe uma cena em "
Ringu 2" que foi aproveitada no remake americano de "
Ringu", que é a visita ao manicômio onde está internada a amiga de Tomoko (a jovem sobrinha de Reiko, morta no início de "
Ringu"). Em um flashback, descobrimos que a amiga voltou do banheiro bem a tempo de ver Sadako saindo da TV e matando Tomoko. Por isso, ficou mentalmente perturbada e foi internada em um manicômio, onde simplesmente não pode ver um aparelho de TV - isto foi aproveitado na versão americana, onde a jovem perturbada, rebatizada como Becca, passa por um corredor onde há uma televisão apenas escondida por trás de uma cortina, para não ter um colapso.


Com esta segunda seqüência oficial, o culto a "
Ringu" já estava mais do que deflagrado. A onda tomou o Japão de assalto, originando uma minissérie na TV e muitas histórias em quadrinhos baseadas nos personagens e situações mostradas tanto nos livros de Suzuki quanto na série cinematográfica. Assim, era questão de tempo para que uma terceira continuação de "
Ringu" (sem contar "
Rasen") saísse do papel.
Foi o que aconteceu ainda em 2000. Os produtores sabiam que não havia mais história para contar (tanto a trama da fita amaldiçoada quanto a vingança de Sadako já tinham sido satisfatoriamente aproveitadas, e não havia uma forma de usar novamente estes elementos sem chatear os fãs da série). Assim, resolveram contratar o escritor Kôji Suzuki (embora os créditos sejam para Hirsohi Takahashi, o IMDB informa que o autor realmente esteve envolvido na roteirização de um de seus contos, escrito em 1999) para escrever uma chamada
"prequel", ou seja, uma história que se passa antes de "
Ringu 1" e "
Ringu 2". O diretor Nakata, responsável pelos dois primeiros filmes, não topou dirigir um terceiro e foi substituído por Norio Tsuruta.
 | Apropriadamente batizada de "Ringu Zero" - conhecida nos EUA como "Ringu Birthday" -, esta nova (e até agora última) aventura no universo de "Ringu" conta uma história que se passa 30 anos antes dos acontecimentos mostrados nos dois primeiros filmes. Sadako é apresentada não como uma entidade do mal, mas sim como uma adolescente normal (interpretada por Yukie Nakama), que não entende seus misteriosos poderes. O filme está mais para drama do que para horror, embora envolva uma trama paralela sobre mortes assombrosas e magia.
Como o filme traça uma verdadeira biografia da jovem Sadako, muita gente comparou o ato de assistir "Ringu Zero" a ler o diário de uma inimiga mortal e descobrir que ela não é muito diferente de nós mesmos. |
Segundo uma reportagem da edição de fevereiro/2003 da revista
"Sci-Fi News", a distribuidora brasileira Califórnia Home Vídeo teria comprado os direitos de distribuição de "
Ringu" (cinco anos após seu lançamento, para a vergonha dos fãs de horror brasileiros) e suas continuações, "
Ringu 2" e "
Ringu Zero" - eles nem devem saber que existe "
Rasen" e muito menos a refilmagem coreana,
"Ringu Virus".


Entretanto, por enquanto, pelo que relata a matéria da revista, apenas o "
Ringu" original vai sair em VHS e DVD. Espero que os fãs de horror se mobilizem e façam deste um dos vídeos mais locados do ano (acreditem, vale a pena!), pois somente assim a Califórnia vai tomar vergonha na cara e lançar também as duas continuações, vergonhosamente inéditas no Brasil, enquanto qualquer porcaria que vem dos EUA é lançada com toda pompa! Terceiro mundo é foda!
O REMAKE DESCONHECIDO | Nem Gore Verbinski, nem o estúdio Dreamworks foram os primeiros a refilmar o "Ringu" original. Na verdade, a primeira refilmagem do surpreendente "Ringu" foi feita e lançada já no ano anterior ao original, em 1999, numa produção conjunta entre duas produtoras, uma japonesa, outra coreana. O remake, para não confundir o público oriental (afinal, na época, acabava de sair "Rasen", a continuação não-oficial de "Ringu"), foi batizado como "Ringu Virus".
Fãs da série consideram "Ringu Virus" um filme tão bom quanto o original. Apesar da maioria dos detalhes serem iguais, este remake dirigido e roteirizado pelo coreano Kim Dong-Bin é mais fiel ao livro de Kôji Suzuki do que o "Ringu" dirigido em 1998 por Hideo Nakata.
Isso aconteceu porque Nakata, espertamente, resolveu contar a história ao seu modo, utilizando apenas os elementos principais do livro. |
A história é praticamente a mesma: uma jornalista chamada Sun-Ju (Shin Eun-Kyung) investiga a misteriosa lenda de uma fita de vídeo maldita depois que sua sobrinha morre junto com três amigos, todos no mesmo dia. Ela se une ao neurocirurgião Choe Yol (Chong Chin-yong), que fez a autópsia nos corpos dos jovens mortos e acredita haver algo sobrenatural no caso. O restante da história segue praticamente da mesma forma que "Ringu". Uma das principais diferenças é que Sadako agora foi rebatizada como Eun-Suh, e a menina é estuprada antes de ser atirada no poço. Há outras pequenas diferenças, todas relativas ao romance original, mas elementos de "Ringu" também são aproveitados. O remake ficou com 105 minutos, seis a mais que o original. | |
Alguns anos depois, em 2002, era a vez dos americanos aproveitarem a onda "Ringu" lançando a refilmagem "The Ring", desta vez mais baseada no filme do que no livro. Todas as situações básicas foram mantidas, mas a história por trás da origem da fita foi totalmente mudada para o mundo ocidental, envolvendo um rancho de cavalos e parapsicologia. Prefira "Ringu": de alguma forma, a história parece perder boa parte do seu encanto quando muda do Japão para os Estados Unidos...
OS LIVROS
 | Kôji Sizuki lançou quatro livros baseados no universo de "Ringu". Como vivemos num país de Terceiro Mundo, nenhum deles foi lançado por aqui. Isso pode mudar agora, com o relativo sucesso do "The Ring" americano em terrar tupiniquins.
O primeiro livro, que deu origem ao filme japonês de 1998, foi lançado sete anos antes, em 1991. Trata-se da história do repórter Kazuyuki Asakawa (isso mesmo, homem, e não mulher, como na adaptação para o cinema), cuja sobrinha morre em circunstâncias misteriosas. Ele descobre uma misteriosa lenda urbana sobre uma fita VHS que mata quem a assiste após sete dias. A maior diferença do livro para o filme, além do personagem principal masculino, é que não existe a famosa cena de Sadako saindo da TV para matar.
Nas páginas do livro de Suzuki, o espírito de Sadako pode sair de qualquer superfície reflexiva - não só da tela da TV, mas também do espelho retrovisor de um automóvel ou do capacete de um motociclista. |
Isso explica um dos grandes furos do filme original, onde alguns dos jovens amaldiçoados morrem muito longe de um aparelho de TV (um estava dirigindo uma moto, outros dois estavam trancados dentro de um carro parado). O diretor de "Ringu", Hideo Nakata, confidenciou em entrevistas que colocou a cena de Sadako saindo da tela da TV em homenagem a um de seus filmes preferidos, "Videodrome", do canadense David Cronenberg.
A saga de "Ringu" continua no segundo livro "Spiral", também conhecido como "Rasen", que foi lançado em 1995 e adaptado para o cinema também em 1998 - naquela que acabou virando uma continuação "bastarda" ao ser renegada pela produtora. No enredo do livro, o patologista Mitsuo Andou faz a autópsia no corpo de um amigo dos tempos do colégio, Ryuji Takayama - morto no final do "Ringu" original - e encontra uma mensagem em código no interior do seu cadáver.
Ao lado do colega Miyashita, o médico tenta descobrir a verdade sobre a fita amaldiçoada, através de um relato deixada pelo sobrevivente da história original.  | |
É aqui que surge a idéia de que a vingança de Sadako se daria por meio de um vírus desconhecido, que infecta todas as pessoas que assistem à fita, ficando incubado e matando seu hospedeiro em sete dias. Mas a história ainda reserva várias surpresas, como o suposto renascimento de Sadako.
 | Em 1998, enquanto Hideo Nakata começava a filmar seu primeiro livro, Suzuki lançava a terceiro obra do universo "Ringu", chamado "Loop". Agora a história envolve um jovem estudante de Medicina chamado Kaoru Futami, cujo pai e namorada morrem após contrair uma espécie desconhecida de câncer. Kaoru ouve boatos de que o vírus teria relação com um projeto ultrasecreto de guerra bacteriológica desenvolvido nos Estados Unidos, e assim começa a investigar. O incrível de "Loop" é como o escritor consegue pegar elementos de "Ringu" e "Rasen" e escrever uma nova história, com um rumo totalmente diferente, embora contenha detalhes relacionados nas duas histórias anteriores. Este ainda não foi adaptado para o cinema. |
Vejam bem: AINDA!
Finalmente, em 1999, aproveitando a fama do filme "Ringu", baseado no primeiro livro da série, Suzuki lançou a quarta (e até agora última) história baseada em seu universo, chamada simplesmente "The Birthday". Surpreendendo os leitores que esperavam uma continuação da aventura anterior, o autor preferiu escrever um livro com três contos, dando mais desdobramentos na história de Sadako, do seu vírus da vingança e da lenda da fita amaldiçoada.O primeiro conto, chamado "Floating Coffin", continua a história da investigação de Mai Takano no livro "Rasen" (o segundo da série); em seguida vem "Lemonheart", conto sobre a juventude de Sadako, adaptado no ano seguinte (2000) para o cinema, em "Ringu Zero", cujo roteiro teve uma mão do próprio autor Suzuki. Para o fim ficou o conto "Happy Birthday", uma continuação dos eventos mostrados no último livro, "Loop". | |
"The Birthday" foi o último livro de Kôji Suzuki situado no universo de "Ringu". Por enquanto...
