RINGU 2: O Horror de Sadako Continua!

Texto escrito por Felipe M. Guerra



"Este garoto que você abraça não é Yoichi. Não é mais".

As diferenças entre Ocidente e Oriente são muitas e também passam pela questão cultural. A seqüência do fenômeno RINGU, dirigido por Hideo Nakata em 1998, assinala bem estas diferenças. Se a seqüência fosse feita nos Japão, provavelmente a idéia seria: "O primeiro fez sucesso? Então vamos EXPANDIR a idéia original na continuação".
Nos EUA, onde o que vale é a grana fácil, o pensamento seria outro: "O primeiro fez sucesso? Então vamos COPIAR a idéia original".
Basicamente, foi isso que aconteceu. O primeiro RINGU foi um sucesso estrondoso e gerou uma continuação natural, RINGU 2, de 1999, que não apenas utiliza as melhores idéias do filme original como expande surpreendentemente o universo da história, maravilhando (e por outro lado chocando) quem gostou da primeira parte.



Ao mesmo tempo, RINGU foi refilmado em 2002 como THE RING: O CHAMADO nos Estados Unidos, e já se fala em uma continuação. Entretanto, como eu disse, as idéias são diferentes, e os produtores da seqüência americana já divulgaram aos quatro ventos que não vão levar em consideração nem uma linha do roteiro de RINGU 2 na hora de fazer a "sua" continuação. Quem concorda comigo que eles vão simplesmente repetir o que já foi feito no primeiro filme???
Quando me propus a escrever este artigo sobre RINGU 2, sabia que seria um trabalho difícil. Uma que o filme é muito complicado para nós, seres humanos normais, acostumados com histórias normais de pessoas normais - tanto que vi o filme originalmente em japonês, sem legendas, e entendi muito pouco.
Por isso, tive que revê-lo agora, quando ele finalmente foi lançado em vídeo no Brasil, para compreender melhor alguns pontos do roteiro - apesar da história continuar intencionalmente confusa.
Na verdade, a história nos bastidores da produção também é complicada: logo após o sucesso de RINGU no Japão, a produtora Asmik Ace decidiu filmar uma continuação baseada no segundo livro de Kôji Suzuki (o autor dos livros sobre o universo de RINGU - foto), com outro diretor, Jôji Iida. A seqüência bastarda foi feita no mesmo ano do original, 1998, rapidamente e utilizando parte do elenco do primeiro filme, especialmente Miko Nakatami (Mai Takano) e Hiroyuki Sanada (Ryuji Takayama).
O resultado foi RASEN, um filme fiel ao livro, mas que acabou se transformando em um fracasso de bilheteria - em parte por ter uma história muito técnica, com explicações científicas e médicas em demasia e pouco horror. Preocupados com o fracasso da seqüência, os produtores resolveram simplesmente desaparecer com RASEN e chamar de volta Hideo Nakata (o diretor de RINGU - foto) para fazer uma continuação oficial. Para não confundir os espectadores, ao invés de RASEN foi usado o simples título de RINGU 2.
O roteiro da "nova" continuação deixa de lado o livro de Suzuki e prefere contar uma história original inspirada no primeiro filme, e não no universo literário do autor. Como roteiristas assinaram o próprio diretor Nakata mais Hiroshi Takahashi. O resultado surpreende, embora para alguns vá parecer que a idéia do primeiro filme foi mudada e transformada demais.
É claro que é impossível comparar RINGU 2 com o original de Hideo Nakata. O primeiro filme desde já se inscreve como um dos clássicos modernos do cinema de horror, e dificilmente seria possível fazer outro filme semelhante, copiando as mesmas idéias - afinal, como alguém conseguiria repetir o impacto do assustador final de RINGU, que me fez tremer no sofá enquanto assistia?



Como continuação, RINGU 2 tem o mérito de ter idéias novas, mantendo a atenção do espectador com um ritmo lento, de muitas explicações e clima de mistério, com menos ação e agonia que o RINGU original - onde a heroína tinha o tempo de vida limitado em sete dias, o que provocava uma sensação de pânico no espectador à medida que o prazo ia se encerrando.
Hideo Nakata também sabia que o espectador já conhecia muito sobre o universo de RINGU, ao contrário dos personagens desta continuação. Todos nós já vimos as cenas da fita amaldiçoada, sabemos como as vítimas morrem após sete dias e sabemos tudo sobre Sadako e seu triste destino. Por isso, seria perda de tempo contar uma história onde novamente algum personagem desafortunado assistisse à fita e tivesse sete dias para descobrir como vencer a maldição e escapar da morte.
Neste ponto, Nakata tem o mérito de surpreender seu espectador. Não tanto quanto fez no primeiro RINGU, mas o diretor surpreende, sim, por não buscar o susto fácil ou as saídas fáceis, complicando ainda mais a história e acrescentando outros elementos para manter a atenção do espectador até o final.
É óbvio que os espectadores (fãs do primeiro filme, principalmente) não podem esperar um filme superior a RINGU, o original, pois este é uma preciosidade. Mas eu diria que RINGU 2 não faz feio em comparação com o original, mantém a essência, amplia a mitologia e acrescenta algumas boas novas idéias, apesar de confundir um pouco a cabeça, sim. Mesmo assim, o cinema de horror atual é tão carente de boas histórias que um filme que faça o espectador pensar já deve ser considerado.
Pelo menos não é aquele feijão-com-arroz de assassinos mascarados, onde a única coisa que vale são as muitas mortes absurdamente violentas por minuto. RINGU 2 é um filme que exige do espectador muito mais neurônios do que estômago! Talvez peque um pouco por ser excessivamente técnico e buscar explicações científicas no que simplesmente não deveria ser explicado, mas alguns vão gostar mais justamente por este detalhe
Ah sim: um outro problema que enfrentei para escrever este artigo é o fato de ser impossível falar sobre a história de RINGU 2 ou tentar explicar seus mistérios sem disparar milhares de spoilers (ou seja, entregar as surpresas) desta continuação e também do filme original.
Por isso, optei por dividir o artigo em partes. Este é o início, e só continue lendo por sua conta e risco, pois à medida que o texto for passando você saberá mais e mais sobre os segredos dos dois filmes, RINGU e RINGU 2.
E acredite: você só terá a sensação de descobrir estes segredos uma única vez!
Mas esperem um pouco!!! E o que aconteceu com RASEN, a seqüência bastarda de RINGU???
Bem, acabou virando um daqueles objetos de culto entre adoradores do horror justamente por ser obscuro! Até onde sei, o filme nem foi lançado oficialmente nos Estados Unidos, onde só existe em cópias piratas, graças à tentativa da produtora Asmik Ace de acabar com qualquer traço da fracassada produção. Por sinal, também foi feita no Japão uma minissérie utilizando o livro RASEN como base.
Se a série RINGU demorou cinco anos para chegar ao Brasil, imaginem quanto tempo demorará até que alguma distribuidora nacional sequer cogite lançar RASEN por aqui! Triste esta vida de povo de terceiro mundo...
(E nem vamos falar de outras obras-primas do cinema oriental que continuam injustamente desconhecidas do público brasileiro e que jamais devem sair em VHS ou DVD por aqui, como a fantástica trilogia "Evil Dead Trap", o magnífico "Battle Royale", a violenta série "All Night Long" e muita, mas muita coisa mesmo, que boa parte dos fãs de horror, infelizmente, nem sabe que existe...)



Ring 2: O Chamado (Ringu 2,JAPÃO, 1999, Califórnia Filmes)
Direção:Hideo Nakata
Elenco: Miki Nakatani / Kyoko Fukada / Hitomi Sato / Nanako Matsushima / Hiroyuki Sanada Cores

Texto: Felipe M.Guerra
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