R-POINT
FANTASMAS DA GUERRA


por João Pires Neto

Durante a Guerra do Vietnã, uma base militar sul-coreana recebe estranhas mensagens de rádio de um esquadrão desaparecido meses antes. O experiente tenente Choi-Tae (Gam Woo-Sung) lidera uma missão de resgate, que parte em direção a “R-point” (Romeu Point), o local onde os soldados sumiram.

“Sem Retorno”, alertam as inscrições numa pedra encontrada pelos soldados quando adentram a selva rumo a região onde seus companheiros desapareceram. O aviso é ignorado, e o que parecia uma missão rotineira lentamente se transforma num pesadelo maior do que a própria guerra.

O Ponto Romeo é um misterioso território situado numa ilha a pouco mais de 150 quilômetros de Ho Chi Minh, no Saingon. O exército francês construiu no local um enorme hospital militar e ainda no final da década de 50, durante a primeira guerra vietnamita, 12 soldados franceses foram dados como desaparecidos. Em 1972, outros 9 soldados coreanos também sumiram. Os moradores da região evitam o local, afirmando que ele é amaldiçoado e que mais de 600 pessoas já desapareceram desde a construção do hospital. É partindo desta lenda local que a trama do longa dirigido pelo sul-coreano Su-chang Kong se desenvolve.
Se não é brilhante ou inovador, “R-Point” é no mínimo um suspense competente. Su-chang Kong já tinha em seu currículum o ótimo “Tell me Something” (Telmisseomding), um thriller de 1999 onde um sangrento serial-killer “coleciona” os pedaços de suas vítimas. Em “R-Point”, o realizador sul-coreano investe na mistura entre dois horrores distintos: a insanidade da guerra e o sobrenatural.



Embora convencional no geral, a fotografia e o desenvolvimento do roteiro constroem aos poucos um ambiente totalmente aterrorizador e claustrofóbico, num cenário onde a selva e a escuridão cercam os soldados, os levando a loucura e a não distinguirem mais os mortos e os vivos. Não há exageros estéticos ou violência desenfreada, as ações são quase sempre contidas e fragmentadas, até culminarem na excelente e sinistra seqüência final.

O roteiro é simples e não apresenta grandes reviravoltas, fato que deve frustrar bastante os que esperam as tramas deliciosamente indecifráveis ou os finais com múltiplas interpretações que tornaram-se marca registrada do atual cinema de horror oriental.

Algumas idéias acabam sendo desperdiçadas, como o drama real da violência na guerra, que poderia compor um clima mais sombrio quando somado a narrativa sobrenatural do longa.
O pouco expressivo elenco acaba contribuindo para o mediano resultado final de “R-Point”, que é suficiente para entreter, mas não para tornar a obra de Su-chang Kong memorável.

Outros filmes já tentaram adicionar o sobrenatural ao horror da guerra, como em “Guerreiros do Inferno” (Deathwatch, Inglaterra/Alemanha, 2002), escrito e dirigido por Michael J. Bassett, que parte de uma premissa semelhante a de “R-Point”, onde soldados ingleses enlouquecem durante a primeira guerra mundial e acabam matando seus próprios aliados. “The Bunker” (EUA, 2001, do diretor estreante Rob Green) mostra-nos um grupo de soldados alemães em luta contra um inimigo desconhecido, que se movimenta sorrateiramente em galerias subterrâneas não terminadas.
Em “A Fortaleza Infernal” (The Keep, EUA, 1983), do diretor Michael Mann (dos blockbusters “Miami Vice” e “Colateral”), soldados nazistas enfrentam uma criatura maligna dentro de um acampamento militar. Vampiros e lobisomens também já se alistaram, como nos longas “Pelotão Vampiro” (The Lost Platoon, EUA, 1991), lançado em DVD no Brasil pela Editora Works, e o ótimo “Cães de Caça” (Dog Soldiers, Inglaterra, 2002), onde um grupo de soldados é atacado por gigantescos lobisomens numa remota floresta escocesa. No pouco conhecido, mas interessante, “Dead of Night” (aka Deathdream, EUA, 1974) dirigido por Bob Clark (responsável pela primeira versão de “Black Christmas”, também de 1974), um ex-combatente do Vietnã volta para casa como um zumbi. No episódio “Candidato Maldito” (Homecoming, 2005) da primeira temporada da série “Mestres do Terror”, dirigido por Joe Dante (de “Gremlins”, 1984), soldados voltam à vida e resolvem, pasmem, votar.



R-Point” assemelha-se a maioria dos filmes anteriores não apenas na associação dos temas guerra/sobrenatural, mas no resultado “apenas” satisfatório. Mas ainda assim, é um bom representante do promissor e produtivo mercado cinematográfico “de terror” sul-coreano, que já é conhecido internacionalmente como “K-Horror” (por assimilação ao “J-Horror”). Desta safra de filmes sul-coreanos fazem parte, entre outros, os seguintes filmes: “301, 302” (1995), “Acacia” (2003), “Antarctic Journal” (2005), “Medo” (A Tale of Two Sisters, 2003), “Haebyeoneuro gada” (2000), “Bunshinsaba” (2004), “Chello hongmijoo ilga salinsagan” (2005), “Face” (2004), “H” (2002), “Into the Mirror” (aka Geoul sokeuro, 2003), “Memento Mori” (aka Yeogo goedam II, 1999), “Nightmare” (aka Gawi, 2000), “Phone” (2002), “Red Eye” (Redeu-ai, 2005), “Say Yes” (Sae-yi yaeseu, 2001), “Sorum” (2001). “Spider Forest” (2004), “The Host” (2006) e “The Doll Master” (Inhyeongsa, 2004). Infelizmente a grande maioria destes filmes permanece inédito em DVD no mercado brasileiro.



Aquele inevitável comentário sobre uma inevitável refilmagem americana não poder ser evitado novamente. Desta vez foi um grande estúdio chinês que comprou os direitos pela refilmagem nos Estados Unidos. Inicialmente o nome do diretor chinês Zhang Yimou (“Herói” (2002) e “O Clã das Adagas Voadoras” (2004)) esteve ligado ao projeto. Entretanto, já é possível visualizar um desgaste na fórmula “remake asiático”, com os fracassos recentes de “Pulso” (Pulse, EUA, 2006) e das seqüências “O Chamado 2” (The Ring Two, EUA, 2005) e “O Grito 2” (The Grudge 2, EUA, 2006), o que pode deixar a refilmagem de “R-Point” engavetada. Fato que, diga de passagem, não é má idéia.

João Pires Neto


R-POINT (R-Point, Coréia do Sul, 2004)
Direção: Su-chang Kong
Roteiro: Su-chang Kong
Fotografia: Hyeong-jing Seok
Música: Pa-lan Dal.
Edição: Na-yeong Nam.
Maquiagem: Chang-man Lee.
Elenco: Woo-Seong Kam (Choi Tae-in), Won-Sang Park, Byung-ho Son, Tae-kyung Oh, Seon-gyun Lee, David Joseph Anselmo (David-in).

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