BLACK SABBATH
AS TRÊS MÁSCARAS DO TERROR

por João Pires Neto

“Esta é a noite do pesadelo!!”

Sir Ozzy Osbourne nunca viu este filme. Mas numa bela tarde dos psicodélicos anos sessenta, notou um cartaz publicitário de "I Tre volti della paura", ou "Black Sabbath", como seria chamado na Terra da Rainha. Neste cartaz, Boris Karloff cavalga alucinado, carregando uma cabeça decepada.

"- Se eles ganham dinheiro fazendo filmes que assustam as pessoas, nós ganharemos fazendo músicas que assustam as pessoas!".

Então Ozzy mudou o nome de sua banda de Earth para Black Sabbath. Formava-se então uma das maiores bandas de rock de todos os tempos.

Black Sabbath: As Três Máscaras do Terror” é uma coleção de três contos que se tornaram clássicos do cinema de horror. O primeiro, "O Telefone" (The Telephone), conta a história de uma bela mulher que é ameaçada de morte pelo telefone. No episódio seguinte, "O Wordulak" (The Wordulak), uma família aguarda o retorno do patriarca, que enfim volta ao lar, porém contaminado por um vampiro. No último episódio, chamado "A Gota d'água" (The Drop of Water), o fantasma de uma condessa retorna do além para cobrar um anel roubado durante o preparativo para seu funeral.
O cinema italiano revisitou o gênero horror, ao construir, na década de 50/60, as diretrizes de um novo universo, repleto de sofisticação visual, forjado em cores berrantes e ambientado em uma atmosfera barroca regada pelo sobrenatural e pelas forças ocultas.
Mario Bava foi o primeiro grande expoente deste movimento. Mais do que isso, Bava foi o responsável pela concepção de uma variante do gênero que se chamaria Giallo. Para quem não sabe, "Amarelo" (Giallo, em italiano), é uma espécie de thriller que derivou dos livretos de suspense e mistério (em especial os escritos por Edgar Wallace), cujas capas eram amarelas (assim como o cinema Noir, preto em francês, vem dos livros policiais cujas capas eram negras). Nos Giallo de Bava e Dario Argento alguns elementos se tornariam marca registrada, como o assassino em série mascarado, sempre impiedoso, qual vemos apenas seus passos e suas mãos armada com instrumentos cortantes.



O segmento "O Telefone" é um genuíno Giallo. Repleto de detalhes, que sufocam o expectador, assim como sufoca a vítima, uma bela prostituta chamada Rosi. Um enredo simples, que se resume a uma noite em que a jovem recebe várias ligações a ameaçando de morte. Com medo de ficar só, Rosi convida sua ex-amante Mary para dormir em sua casa. A trama polêmica culmina num terrível assassinato. Ciúmes, libido e morte. O expectador mais atento vai notar ainda uma influência direta deste conto na seqüência inicial do horror teen de Wes Craven, “Pânico”. Adaptado por F. G. Snyder, inspirado levemente numa história de Guy de Maupassant, o episódio traz no elenco as belas Michèle Mercier como Rosy e Lidia Alfonsi como Mary. Ousou ainda em apresentar cenas de nudez feminina em pleno início dos anos 60. As peladonas se tornariam também marca registrada nas produções de horror italianas da próxima década.

A brilhante união entre dois monstros sagrados do cinema de horror, Boris Karloff e Mario Bava, resultou no segundo conto, "O Wurdulak". Este é o mais longo dos segmentos. É uma história de vampiros, onde Gorka (Karloff), um camponês russo é transformado em um Wurdulak (um tipo de vampiro que suga apenas o sangue das pessoas que ama) e ameaça toda sua família. A fotografia repleta de cores vivas, as sombras e formas "expressionistas", a direção de arte e os cenários, tudo perfeitamente entrelaçado numa verdadeira obra-prima de horror. Tudo isso ainda estrelado pelo veterano Karloff. Destaque para a sinistra seqüência em que o "garotinho", já transformado, grita pela mãe. Excelente adaptação do conto escrito pelo russo Aleksei Tolstoy (primo de Leon Tolstoy).

A trama do último episódio, escrito por Ivan Chekhov, bem que poderia ser o roteiro de um filme de terror Japonês. Apesar da simplicidade do enredo, onde um espírito se vinga de uma enfermeira que lhe roubou uma jóia, "A Gota d'água" é o mais aterrorizante dos três segmentos. E o terror é resultado da soma de pequenos detalhes, como os estranhos ângulos da câmera, o som sufocante da "gota d'água", a mosca, a iluminação deficiente e a trilha sonora perturbadora. Mais uma prova da maestria e do brilhantismo de Bava.



O título original italiano “I Tre Volti de La Paura” poderia ser traduzido como "As Três Faces do Medo". São três contos, três faces, três máscaras do terror. A primeira máscara, em "O Telefone" é a sexualidade, que acaba motivando a violência e o assassinato. A segunda, em "O Wurdulak", é a família corrompida por um membro contaminado. A terceira máscara, em "A Gota d'água" é a loucura, a perda da capacidade de distinguir o real do pesadelo.

Alguns trabalhos de Mario Bava estão disponíveis em DVD por aqui. Dentro do gênero horror/fantástico, além de “Black Sabbath – As Três Máscaras do Terror”, foram lançados o ótimo "A Máscara de Satã" (1960, pela Works), com Barbara Steele e o psicodélico "Hércules no Centro da Terra" (1961, pela Classic Line), com Christopher Lee e Reg Park.

A versão de "Black Sabbath: As três Máscaras do Terror" lançada pela Works aqui no Brasil é a original, italiana. Os distribuidores americanos, na época em que o filme foi lançado nos EUA, inverteram a ordem dos contos, mudaram a trilha sonora, deceparam o filme conseguindo transformar uma obra-prima em um filme medíocre (parecem que são experts nisso, não?).



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por Renato Rosatti

"Aproximem-se, por favor. Tenho algo a lhes contar. Senhoras e senhores, sou Boris Karloff. Estou aqui para lhes apresentar três pequenos contos de terror e do sobrenatural. Espero que não tenham vindo ao cinema sozinhos. Como perceberão vendo este filme, os espíritos, os vampiros, estão por toda parte. Talvez haja um sentado ao seu lado agora. Sim, porque eles também vão ao cinema, eu lhes asseguro. Os vampiros têm um aspecto perfeitamente normal e na verdade, o são. Apenas tem o estanho hábito de beber sangue, especialmente o sangue daqueles que amam... Mas estou falando e perdendo tempo... Portanto, vamos ao primeiro conto." - narração de abertura de Boris Karloff

Um filme europeu de horror do início dos anos 60 do século passado, dividido em três histórias independentes, narradas pelo lendário ator Boris Karloff (que também atua num dos episódios, que aliás é o melhor deles), com direção do mestre Mario Bava, e com um elenco de lindas e maravilhosas mulheres como as atrizes Michèle Mercier e principalmente a estonteante Suzy Andersen. O resultado disso tudo pode ser encontrado sob o título "Black Sabbath - As Três Máscaras do Terror" (Black Sabbath - The Three Faces of Fear / I Tre Volti Della Paura, 63), que por todas essas características atraentes e qualificações inegáveis, obtemos momentos absolutos de entretenimento e satisfação numa sessão de cinema.
"O Telefone" (Il Telefono / The Telephone) é o primeiro episódio apresentado. Nele, uma bela mulher, Rosy (a francesa Michèle Mercier), está em sua casa e recebe vários telefonemas ameaçadores contra sua vida, supostamente vindos de um ex-amante, Frank Rainer (o argentino Milo Quesada, não creditado), que fugiu da cadeia depois de ser denunciado por ela. Rosy pede ajuda para sua amiga Mary (a italiana Lidia Alfonsi), e juntas elas tentam se proteger das ameaças.
Em seguida vem a história "O Wurdalak" (I Wurdalak / The Wurdalak), mostrando uma família do leste europeu composta por Giorgio (Glauco Onorato), sua esposa Maria (a grega Rika Dialina) e o filho pequeno Ivan, além de seu irmão Pietro (Massimo Righi) e a bela irmã Sdenka (Suzy Andersen). Eles estão esperando a chegada do patriarca, Gorca (Boris Karloff), que havia partido com o objetivo de matar um perigoso bandido turco que estava aterrorizando a região. Enquanto isso, o jovem Conde Vladimire d´Urfe (o americano Mark Damon, de "A Queda da Casa de Usher", 60) está de passagem e é convidado para passar a noite com a família de camponeses, criando instantaneamente uma atração
mútua entre ele e a jovem Sdenka. A preocupação da família é que no retorno do patriarca ele poderia ter se tornado vítima de uma lenda local, transformando-se num "wurdalak", uma espécie de cadáver ambulante, um vampiro que tem sede de sangue justamente das pessoas que mais amou na vida.
O último conto de horror chama-se "A Gota d´Água" (La Goccia d´Acqua / The Drop of Water), baseado numa obra de Ivan Chekhov. Uma enfermeira, Helen Chester (a francesa Jacqueline Pierreux), é chamada às pressas durante uma noite chuvosa pela empregada (Milly Monti) de uma velha condessa, para preparar o cadáver dela para o funeral, pois ela havia morrido pouco tempo antes de ataque cardíaco durante uma sessão espírita, na tentativa de comunicação com os mortos. Durante os preparativos do corpo, Helen não resiste e rouba um anel de diamantes do dedo indicador da mão direita da falecida. Porém, ela não imaginaria o tormento que enfrentaria em sua volta para casa, assombrada pelo fantasma da condessa em busca de vingança.

Dos três episódios da antologia, "O Telefone" é o mais fraco, principalmente pelo roteiro apenas convencional, baseado em história do desconhecido F. G. Snyder, constituindo-se num "thriller" ou "giallo" (para os italianos) mediano apresentando o drama enfrentado pela personagem principal, a bela Rosy, presa em sua própria casa e sendo ameaçada de morte por uma voz no telefone. O episódio explora o tema do lesbianismo, um assunto considerado tabu e ainda mais difícil de se lidar no cinema há quase meio século atrás. A história é praticamente filmada num único ambiente, lembrando vários episódios da série de TV "Além da Imaginação" (1959/64), criada por Rod Serling, e que usava o mesmo recurso, gerando grande economia no orçamento. Curiosamente, a versão americana traz uma sequência final diferente do filme italiano, e que realça uma sugestão até então inexistente de elementos sobrenaturais, concluindo a história de forma bem mais interessante. "O Telefone" também antecipou em mais de trinta anos a idéia utilizada pelo cineasta Wes Craven no prólogo de "Pânico" (96), o cultuado filme de horror adolescente que impulsionou uma imensa safra de filmes similares com psicopatas assassinos mascarados.



O segundo episódio, "O Wurdalak", baseado numa história do escritor russo Aleksei Tolstoy, é disparado o melhor de todos e o mais comprido em duração, sem contar o fato decisivo de termos o lendário ator Boris Karloff como o protagonista Gorca, numa performance digna de seu imenso talento e carisma dentro do cinema de horror em todos os tempos. A história lembra fortemente as características e estilos explorados pelo estúdio inglês "Hammer", com todos aqueles elementos góticos que tanto despertam fascínio entre os apreciadores deste tipo de cinema de horror. Não faltam a tradicional floresta bizarra com árvores de aspecto fantasmagórico, a constante névoa sinistra, o ruído assustador do vento noturno, o perturbado cachorro uivando, a casa isolada no meio do mato, com suas portas rangendo, as ruínas ameaçadoras (nesse caso um convento antigo, abandonado e destruído pela ação impiedosa do tempo), uma família atormentada por uma lenda maldita sobre vampiros (chamados de "wurdalak"), entre outras coisas mais. E para completar, temos também um desfecho pessimista e trágico, totalmente diferente daqueles finais previsíveis e descartáveis onde todos "viveriam felizes para sempre". É uma história verdadeiramente sinistra e memorável, num dos mais marcantes trabalhos de Boris Karloff, que faleceria poucos anos depois por causa de complicações respiratórias, no início de 1969.

O terceiro e último episódio (ou "face do medo" como sugere os títulos originais italiano e americano) também é muito interessante, abordando os temas do medo e a vingança de um fantasma. "A Gota d'Água" explora com sucesso o efeito perturbador que simples ruídos gerados por gotas d'água caindo das torneiras podem exercer sobre a fragilidade psicológica da protagonista, a enfermeira Helen Chester, que está assombrada pelo sentimento de culpa após ter roubado um anel valioso da mão do cadáver de uma velha decrépita quando preparava seu corpo para o funeral. É como diz Boris Karloff no encerramento do filme: "Com os fantasmas não se brinca, porque eles se vingam..."



Para o deleite dos apreciadores do cinema fantástico do passado, em especial dos fãs do ator inglês Boris Karloff e do cineasta italiano Mario Bava, "Black Sabbath - As Três Máscaras do Terror" (versão italiana) foi lançado em DVD no Brasil pelo selo "Dark Side" da "Works Editora", recheado de interessantes materiais extras. Temos um trailer original italiano com legendas em português e duração de três minutos e meio (que curiosamente revela "spoilers" que denunciam detalhes importantes, principalmente sobre o episódio "O Telefone"), além de uma galeria de fotos e cartazes originais. Temos também as biografias de Boris Karloff e Mario Bava, sendo no caso desse último um texto detalhado sobre sua carreira e uma filmografia caprichada, onde destacam-se filmes como "A Máscara de Satã" (60), com Barbara Steele, "Hércules no Centro da Terra" (61), com Christopher Lee, "O Planeta dos Vampiros" (65), com a brasileira Norma Bengell, "Mata, Bebê, Mata" (66), e "Banho de Sangue" (71), entre outros títulos. Além disso, o material extra ainda inclui uma seleção de cenas exclusivas da versão americana do filme, lançada pela AIP ("American International Pictures"), trazendo a narração de introdução de cada episódio, feita por Boris Karloff no original em inglês e sem legendas em português, e os créditos de abertura. Porém, ficou faltando o final alternativo do episódio "O Telefone", com ênfase no sobrenatural, e cujo resultado é bem superior ao da versão italiana.

"Pronto. Não lhes parece que devia terminar assim? Com os fantasmas não se brinca, porque eles se vingam... Bem, chegamos ao fim de nossas histórias e agora infelizmente devo deixa-los. Mas tomem cuidado quando voltarem para casa. Olhem ao redor, olhem para trás. Cuidado quando abrirem a porta, não entrem no escuro... Sonhem comigo! Nós nos tornaremos amigos!" - narração de encerramento de Boris Karloff

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BLACK SABBATH - AS TRÊS MÁSCARAS DO TERROR (Black Sabbath - The Three Faces of Fear / I Tre Volti Della Paura, Itália / França / Estados Unidos, 1963). Duração: 92 minutos
Direção: Mario Bava; Salvatore Billitteri
Roteiro: Marcello Fondato, Alberto Bevilacqua e Mario Bava, a partir de histórias de Ivan Chekhov ("A Gota d'Água"), Alekxei Tolstoy ("O Wurdalak") e F. G. Snyder ("O Telefone")
Produção: Salvatore Billitteri e Paolo Mercuri
Fotografia: Ubaldo Terzano
Música: Roberto Nocolosi e Les Baxter (versão americana).
Edição: Mario Serandrei
Direção de Arte: Giorgio Giovannini
Desenho de Produção: Riccardo Dominici
Maquiagem: Otello Fava
Elenco: Episódio "O Telefone" - Michèle Mercier (Rosy), Lidia Alfonsi (Mary), Milo Quesada (Frank Rainer). Episódio "O Wurdalak" - Boris Karloff (Gorca), Mark Damon (Conde Vladimire d´Urfe), Suzy Andersen (Sdenka), Massimo Righi (Pietro), Rika Dialina (Maria), Glauco Onorato (Giorgio). Episódio "A Gota d´Água" - Jacqueline Pierreux (Helen Chester), Milly Monti (a empregada), Harriet Medin (a vizinha), Gustavo de Nardo (Inspetor de Polícia).


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