SARS WARS

por Bruno C. Martino

"Zumbis, heróis atrapalhados e muito sangue nesse divertido filme Tailandês"

Se as únicas coisas que você conhece da Tailândia são o Sagat do Street Fighter ou aquelas moças que atiram bolinhas de pingue-pongue por lugares peculiares é melhor você ficar mais informado. Por mais estranho que possa parecer esse país é um dos que mais produz filmes no mundo, claro que nem 1% das produções tailandesas chegam ao Brasil. Até que ultimamente vários exemplares de ótimos filmes estão chegando a nós. Filmes que vão de ação como o ótimo Ong Bak, a terror como o surpreendente Shutter que será exibido em nossos cinemas como "Espíritos - A Morte Está a Seu Lado" pela Playarte. Pois este Sars Wars é mais um exemplar de bom filme vindo do país. Tem alguns problemas e fica irregular lá pro final mas é um ótimo passatempo.
A tal SARS do título é a Síndrome respiratória aguda grave ou Severe acute respiratory syndrome em Inglês, uma doença que deu as caras recentemente na Ásia, América do Norte e Europa. No Brasil é também conhecida como Pneumonia (ou Gripe) Asiática. As formas de propagação da SARS são tocar a pele de outras pessoas ou objetos contaminados e depois tocar os olhos, o nariz ou a boca. Isto pode ocorrer quando alguém infectado com SARS tosse ou espirra gotículas que caem sobre outras pessoas ou em superfícies próximas. Pois o vírus da SARS (na verdade uma mutação do vírus original, claro!) é o responsável por ocasionar uma epidemia de zumbis em um condomínio Tailandês!



Tudo começa quando a filha de um mafioso é seqüestrada pela gangue mais incompetente do Cinema provavelmente. Eles mandam uma fita VHS pro pai da menina dizendo que se não entregar o dinheiro irão tirar a virgindade dela (!!!). O tal mafioso tem uma ótima idéia: contratar um caçador de recompensas, o hilário Mestre Thep (Suthep Po-ngam) para que ache sua filha. Só que Mestre Thep está aposentado por isso envia em seu lugar seu melhor aprendiz chamado Khun (Supakorn Kitsuwon) . E advinha como eles acham os seqüestradores? As antas colocaram o endereço do cativeiro no envelope aonde enviaram a fita VHS! Hahahahha.. não disse que eram incompetentes?

Logo descobre-se que o cativeiro é um condomínio habitado por tipos tão estranhos quanto os heróis. Paralelamente a isso, um mosquito infectado com a SARS mutante pica um americano que começa a passar mal. Chegando no tal prédio (claro!) o americano se transforma em zumbi exibindo feridas pustulentas e passa a infectar várias pessoas. Assim o condomínio vira um inferno com centenas de zumbis e até uma cobra gigante estilo Anaconda!



Sars Wars é um filme do tipo que você não acredita existir até o momento que o assiste. Isso devido ao humor totalmente nonsense do filme que é puro desenho animado. É claro que muitas piadas não funcionam (a maioria devido a questões culturais), mas grande parte delas são visuais bem ao estilo dos filmes do chinês Stephen Chow (Kung Fu Futebol Clube; Kung Fusão). Certas piadas ainda são inteligentíssimas e bem sacadas, a melhor delas se passa em um elevador onde o tal chefe da gangue de seqüestradores, Yai (Somlek Sakdikul) ao constatar que o elevador parou grita : "Vou matar esse elevador" e começa a atirar! O desfecho da situação (que não pretendo contar) é simplesmente hilário. Em outras ocasiões o humor se assemelha a um Chaves e Chapolin por ser tão ingênuo e outras vezes ainda apela pra piadas de sexo chulas bem ao estilo de um "Todo Mundo em Pânico". O bom humor já começa com o título em inglês para o mercado internacional que é uma tiração de sarro mais que explícita com Star Wars, e adivinhem tem até um sabre de luz no filme que funciona... à pilha!

Mas voltemos à história. Como disse, Mestre Thep decide mandar em seu lugar pra salvar Liu, a menina seqüestrada (a gracinha Phintusuda Tunphairao que fica o filme todo de roupa de colegial), o seu discípulo Khun, que é simplesmente uma figura. O sujeito usa uma armadura feita de tampas de panela e sempre solta umas frases totalmente altruístas como em um momento numa festa rave: "Drogas fazem mal à saúde e são um veneno para a sociedade", ou ainda quando trata Liu de "minha donzela" a todo momento.



Enquanto Khun procura Liu e seu cativeiro pelo condomínio, o tal americano contaminado (Andrew Biggs, um famoso apresentador de TV da Tailândia que aqui faz papel de si próprio) contamina um casal no estacionamento e depois começa a vagar pelo prédio. Em um desses "passeios" chega ao quarto da gostosíssima Jane que infelizmente aparece pouco, mas consegue em uma cena bem sacada enfiar um ferro de passar roupa no pescoço do zumbi! Aliás o filme não economiza no sangue e nojeiras mostrando zumbis sem cabeça, mordidas, feridas pustulentas, cabeças explodindo e até um bebê zumbi recém-nascido! (feito em um CGI bem ruim)

A contaminação se espalha rapidamente transformando quase todos no prédio em zumbis que ora lembram vampiros e ora os demônios de Demons, de Lamberto Bava. Não demora para a Swat interditar o prédio e coloca-lo sob quarentena para que a doutora Diana (Lene Christensen) teste sua vacina contra a Sars mutante.



Mas o destaque mesmo são as hilárias interpretações dos atores e as situações totalmente irreais vividas pelos personagens. A gangue de seqüestradores se destaca, além do hilário Yai temos Noi - um loirinho que traja uma camisa do Mickey Mouse o filme inteiro -, Pued (Peud Blackcat) - que rouba a cena com seu jeito esganiçado de falar-, temos ainda Goh (Chatchai Doroman) um personagem que some no começo e só volta no fim pra atazanar os heróis, e ainda Yak, um gordão que nunca fala mas sempre chega na "hora certa" com uma escopeta em punho e é um sósia do Edgar Vivár, o intérprete do Seu Barriga do seriado Chaves! Hahaha. A gangue simplesmente dá um show chegando até a ofuscar o herói Khun, veja a cena em que a gangue tem o primeiro encontro com um zumbi, é de chorar de rir não fazendo feio à cena do encontro da morta-viva Mary com os heróis de "Todo Mundo Quase Morto".



Lá pro fim do filme Mestre Thep decide ajudar seu pupilo e invade o prédio aonde acabara de entrar a tal Doutora Diana com uma fórmula capaz de reverter os sintomas da Sars mutante. E dá-lhe mais zumbis, cenas de luta, e até a tal cobra gigante já citada! Mas é em seu terceiro ato que Sars Wars perde o fôlego ao se esquecer completamente dos zumbis e dar mais atenção a tal cobra gigante e piadas sexuais estilo American Pie que tomam tempo além do necessário. Mas pode se dar um desconto já que é o primeiro filme do diretor Taweewat Wantha que antes só havia feito um curta-metragem que tinha a mesma história do filme. O produtor Uncle viu potencial no curta, ganhador do FAT FILMS AWARDS e decidiu transformá-lo em um longa.



Mas tirando o fim que deixa a desejar, Sars Wars é um ótimo passatempo que ainda tem boas sacadas como todos os flashbacks em desenho animado ou ainda os personagens, tão carismáticos a ponto da morte de alguns serem até sentidas, mesmo sendo tudo uma comédia descompromissada. Além disso conta com ótimos efeitos (tirando o tal bebê zumbi que é muito falso) mostrando que a Tailândia não faz feio pra Hollywood. E ainda dá pra brincar de "pescar" as referências a outros filmes como Demons 2, Calafrios, Fome Animal e mais. Nem precisa dizer que Sars Wars é inédito em DVD em nosso país, consegui assistí-lo "baixando" da Internet e convenhamos ver filmes em computador não é uma das coisas mais divertidas. Mas quem sabe quando o mundo for mais justo poderemos ver nas locadoras filmes divertidos como esse ao invés de tranqueiras como Mosquito Man, Sharkman e derivados.



Portanto, desligue seu cérebro e curta uma hora e meia de situações engraçadas, muito sangue e diversão com Sars Wars. Mas não o leve muito a sério já que até em uma cena - ao descobrir que existe uma cobra gigante no prédio- Mestre Thep se utiliza da metalinguagem e tira um sarro: "Esse filme está querendo mesmo fazer dinheiro!"... hahaha. Se os produtores não se levam a sério quem somos nós pra levar?



Bruno C. Martino


SARS WARS (Khun Krabii Hiiroh, Tailândia, 2004). Duração: 88 minutos
Direção: Taweewat Wantha
Roteiro: Sommai Lertulan, Kuanchun Phemyad, Uncle, Taweewat Wantha, Adirek Wattaleela
Produção: Kim, Akaradech Maneeploypech, Adirek Wattaleela
Produção Executiva: Pracha Maleenont, Brian L. Marcar, Adirek Wattaleela
Fotografia: Art Srithongkul Edição: Doctor Head
Desenhos de Produção: Rachata Panpayak
Maquiagem: Ardit Yeamchavee
Elenco: Suthep Po-ngam (Mestre Thep), Suppakorn Kitsuwan (Khun Krabii), Lene Christensen (Dra. Diana), Phintusuda Tunphairao (Liu), Andrew Biggs (Sars Zombie), Naowarat Yuktanan (Minister Ratsuda), Somlek Sakdikul (Yai), Peud Blackcat (Pued), Chatchai Doroman (Goh).


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