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Quem diria: um raio pode, sim, cair duas vezes no mesmo lugar! Quando eu escrevi sobre SAW - JOGOS MORTAIS, uma pequena gema do cinema independente de horror, em janeiro deste ano (2005), terminei o artigo com a informação de que os produtores já tinham dado sinal verde para uma continuação. Pessimista, como sempre, escrevi o seguinte: "É muito difícil, quase impossível, que o raio possa atingir o mesmo local duas vezes, e um outro novo clássico, como SAW, saia deste novo projeto". Meu medo na ocasião era justificado; afinal, trata-se da tradicional fobia das continuações caça-níqueis feitas às pressas após o sucesso do original.
Foi com pouca expectativa, portanto, que entrei na sala de cinema para ver SAW 2 - no Brasil, JOGOS MORTAIS 2; mas prefiro o título original, SAW 2, mais curto e sonoro. Me impressionei com o fato da sala estar lotada, mesmo sendo uma terça-feira à noite. Pensei: "Será que toda esta gente viu o primeiro filme?". Infelizmente, 90% dos espectadores eram pirralhos (aparentemente, o cinema não respeitou a censura 16 anos), daquele tipo mais chato, que vai ao cinema em bando para fazer bagunça. À minha esquerda, do outro lado do corredor, um desses xaropes brincava com seu celular luminoso, morrendo de rir ao ver como a luz refletia nas paredes e na tela do cinema - brincadeira que fez durante o maior tempo de projeção, diga-se. Eu já estava pensando em levantar e sair quando SAW 2 começou. E começou tão marcante que a maioria do cinema calou a boca na hora e ficou com os olhos grudados na tela o restante da projeção. |
Eu, inclusive. Só o imbecil com o celular luminoso continuou na dele, pensando que estava abafando.
Pois é, minha gente, na saída da sessão de SAW 2, rememorando aquela minha previsão pessimista no artigo do primeiro filme, cheguei a duas conclusões distintas. Primeiro, que aí está uma rara seqüência digna do original, e isso que foi rodada menos de um ano após o lançamento de SAW. Segundo, que vou parar de "pagar a língua", falando mal dos filmes antes de ver - coisa que, este ano, eu já havia feito também com CONSTANTINE e DOIS FILHOS DE FRANCISCO. Realmente, não se julga um livro pela capa, e essa história do "não vi e não gostei" não funciona, a não ser quando o assunto em debate é a nova obra de Uwe Boll. Se você é daqueles que gosta de ser surpreendido e prefere saber pouco, ou quase nada, sobre os filmes em cartaz, pare de ler este artigo imediatamente e corra para o cinema antes que SAW 2 saia de cartaz. Se você já gostou do primeiro filme, tem mais um motivo para não perder esta competente - e nem um pouco caça-níqueis - continuação.
SAW, o original, feito pela dupla James Wan (diretor/roteirista) e Leigh Whannell (ator/roteirista), custou pouco mais de um milhão de dólares e rendeu 55 vezes isso (bilheteria total de US$ 55.153.403 só nos Estados Unidos, e sem contar a grana com locações e venda de DVDs). Este sucesso estrondoso é o sonho de todo cineasta independente, mas principalmente do estúdio pequeno que acreditou na idéia, produziu e distribuiu o filme - neste caso, a Lions Gate Films. E, como acontece sempre que uma produção independente e de baixo orçamento faz sucesso, o público se dividiu: alguns, como eu, aprovaram a obra; outros trataram de taxá-la de pretensiosa e super-estimada. A mesma coisa aconteceu em 1999, na época da febre de
A BRUXA DE BLAIR, lembram?
Os que falaram mal de
SAW certamente ficaram nervosinhos com o fantástico final-surpresa de
SAW, uma daquelas conclusões de deixar o espectador grudado na poltrona - mesmo que soe um tanto inverossímil. Bem, se você não gostou do original, e acha que o final foi uma
"enganação", são muito boas as chances de que você goste desta continuação: sem a participação direta dos dois mentores do primeiro filme (só Leigh Whannell deu uma mão no roteiro e assinou, com Wan, a produção executiva),
SAW 2 é apresentado de uma maneira mais convencional, com mais personagens, mais efeitos e a violência explícita que, no original, era terrivelmente sugerida. E foram suprimidas as idas e vindas no tempo usadas para explicar a trama no original. Nesta seqüência, as coisas acontecem em tempo real. Ou quase. Mas, analisando a parte técnica, os dois filmes são bem semelhantes, até porque a equipe é a mesma - David Armstrong no comando da câmera, Charlie Clouser compondo a trilha sonora e Kevin Greutert na edição.
SAW 2 surgiu, na verdade, de um roteiro do diretor de comerciais e videoclipes Darren Lynn Bousman, chamado
"The Desperates". Era uma história sobre um serial killer que fazia um jogo mortal com oito pessoas trancadas numa casa. Bousman passou anos oferecendo seu roteiro de estúdio em estúdio, até que
SAW começou a fazer sucesso no Festival de Sundance e algum executivo espertinho achou que
"The Desperates" era bem parecido com o filme de Wan e Whannell, podendo ser facilmente adaptado para virar continuação. O próprio Leigh Whannell resolveu colaborar na adaptação do roteiro, adequando o trabalho original de Bousman ao universo de
SAW e de seu vilanesco personagem central, o psicopata Jigsaw (
"Quebra-cabeça"). Foi por isso que, antes mesmo do
SAW original sair dos cinemas, o estúdio já tinha um roteiro prontinho para a continuação (caso, claro, o primeiro fosse um sucesso), economizando um tempão danado entre o lançamento do original e sua seqüência. Por ter surgido com a idéia, Bousman acabou sendo contratado para a direção da seqüência, além de ganhar crédito como roteirista.
Em comparação com o filme independente que é
SAW, muita coisa mudou - principalmente o orçamento, que saltou de um milhão para 4 milhões de dólares. Também há mais ação, um ritmo acelerado e menos flashbacks. Se
SAW era um suspense mais intimista, mostrando dois desconhecidos que acordavam algemados num banheiro e passavam o filme todo tentando lembrar como foram parar ali e porquê,
SAW 2 concentra-se em duas tramas distintas: o confronto de um policial com o Jigsaw em pessoa (que agora aparece o tempo todo, após a surpreendente revelação de sua identidade no final do primeiro filme) e o drama de oito (sim, oito!!!) desconhecidos que acordam presos no interior de uma casa em ruínas. Ao contrário do original, não importa tanto a relação entre os oito personagens e nem a forma como foram parar ali (praticamente não há flashbacks mostrando-os antes da prisão), mas sim se eles vão ou não conseguir vencer a prova mortal do Jigsaw e sair do casarão. O desenvolvimento dos 8 prisioneiros é praticamente nulo - e nem teria como desenvolvê-los apropriadamente em 93 minutos de duração!

Filmada em apenas 25 dias, a continuação já começa pegando pesado, jogando o espectador diretamente no universo do criminoso Jigsaw (lembra que eu disse que toda a sala de cinema ficou quietinha em poucos segundos?). Assim como acontecia no original, Jigsaw não pode ser considerado exatamente um serial killer ou um assassino, já que, teoricamente, não mata ninguém, apenas seqüestra pessoas e as faz participar de
"jogos mortais", para que elas redescubram a bênção que é estar vivo - porque se você consegue escapar de uma das malignas torturas do homem, pode ter certeza que ficará tão grato por ter sobrevivido que passará a ver a vida com outros olhos...
SAW 2 inicia, aparentemente, alguns meses após os eventos do primeiro filme, mostrando uma das novas vítimas de Jigsaw, que é um informante da polícia chamado Michael (Noam Jenkins). O pobre Michael acorda numa sala escura e descobre que está com uma enorme máscara de metal, repleta de pontas, presa à cabeça. Se não encontrar a chave para soltar-se da armadilha em pouquíssimo tempo, a máscara se fechará sobre a cabeça do sujeito, esmagando-a!!! O detalhe é que, para conseguir a chave, Michael terá que fazer um
"pequeno" sacrifício, já que Jigsaw operou-o enquanto estava desacordado e colocou a chave bem atrás de um de seus olhos - propondo que a vítima utilize um bisturi no interior da sala para arrancar, sem anestesia, aquele item essencial para a sua liberdade! Filmada de maneira insuportavelmente tensa, com closes e cortes rápidos, esta cena inicial já dá uma idéia do que vem pela frente e consegue passar uma arrepiante sensação de desconforto - até nesse velho de guerra aqui, que sempre acha que já viu de tudo...

Após a arrebatadora introdução, somos rapidamente apresentados aos nossos dois personagens centrais, o detetive Eric Matthews (Donnie Wahlberg, irmão mais velho e menos famoso de Mark Wahlberg) e seu filho rebelde Daniel (Erik Knudsen). Divorciado, o policial não se dá bem com o garoto, que volta-e-meia apronta das suas e vai parar em instituições para menores contraventores. Após uma briga de rotina com o filho, Eric é chamado às pressas para a cena de mais um crime de Jigsaw (sim, o informante do início do filme). Ali encontra sua ex-parceira Kerry (Dina Meyer, que ja aparecia em
SAW). E, também no local, uma mensagem do próprio criminosos dirigida a ele:
"Olhe mais de perto, detetive Matthews". Eric segue a recomendação e olha mais de perto, descobrindo, na máscara presa à cabeça esmagada do defunto, o nome de uma empresa.
A polícia mobiliza um esquadrão da SWAT para uma operação de guerra, chegando ao galpão da tal empresa que é, na verdade, uma fachada para o esconderijo de Jigsaw. O vilão está sentado atrás de uma mesa, doente e sem qualquer pretensão de fugir, sendo facilmente cercado pelos homens com metralhadoras. Ao contrário do primeiro filme, onde Jigsaw (o ator Tobin Bell) aparecia durante menos de cinco minutos, agora o vilão é presença constante na tela, mas sempre dominado pela polícia, o que já revela uma interessante mudança na linha narrativa da história: ao invés dos policiais passarem o tempo todo à procura do vilão, ele já está voluntariamente preso desde os primeiros 10 minutos!!! Jigsaw, como todos que viram
SAW sabem, é um homem doente, com câncer terminal, e parece estar convencido de que seus dias de vilão lunático estão chegando ao fim - tanto que mal consegue levantar da cadeira onde passa o filme inteiro. Por isso, o vilão propõe ao detetive Matthews um último e definitivo
"jogo mortal", valendo a vida de seu próprio filho, Daniel.

Por meio de diversos monitores espalhados pelo esconderijo do vilão, a polícia e o espectador descobrem que Jigsaw trancafiou oito pessoas no interior de uma casa abandonada - o que representa um significativo progresso na carreira do cara, considerando que no filme anterior o máximo de vítimas que ele manipulava de uma única vez eram duas. A partir de então,
SAW 2 se divide entre acompanhar o tenso jogo psicológico entre Jigsaw e a polícia e os perigos que os oito aprisionados passam no interior do casarão. Os participantes do reality show mortal de Jigsaw são, além de Daniel, ex-presidiários que parecem não ter qualquer relação: Xavier (Franky G, em papel que foi oferecido ao rapper Eminen), Jonas (Glenn Plummer, coadjuvante numa pá de filmes), Addison (Emmanuelle Vaugier, que este ano aparece ainda em... cof cof!,
HOUSE OF THE DEAD 2), Laura (Beverly Mitchell), Oby (Tim Burd), Gus (Tony Nappo) e Amanda (Shawnee Smith). Esta última todo mundo vai lembrar do filme original, pois ela foi a única pessoa a escapar com vida de uma armadilha de Jigsaw - e, por isso mesmo, estava eternamente agradecida ao psicopata por tê-la feito ver a beleza de sua vida. Aparentemente, Amanda cometeu um novo deslize que levou Jigsaw a prendê-la de novo para ver se desta vez ela aprende a lição - ou morre de vez! Depois de uma pequena participação no original, Shawnee Smith (que no passado estrelou o remake
A BOLHA ASSASSINA) se transforma definitivamente na personagem central desta seqüência.
Pelo resumo da trama até agora, você deve ter percebido certa semelhança com o clássico cult
CUBO, do canadense Vicenzo Natalli. Pois se o original já era confessadamente inspirado em
CUBO, agora
SAW 2 torna esta referência mais explícita, apresentando também uma estrutura de onde não há fuga, repleta de armadilhas, e que exige a união dos prisioneiros numa desesperada tentativa de sobrevivência. O jogo mortal proposto por Jigsaw aos oito prisioneiros é sobreviver a um período de três horas, ao final das quais a porta principal do casarão se abrirá automaticamente, permitindo que eles escapem. Claro que há um
"porém": todos os oito estão contaminados com um gás venenoso, semelhante ao Sarin jogado por terroristas no metrô de Tóquio, e morrerão por hemorragia interna em duas horas.

Aí é que entra a
"luta pela sobrevivência" típica dos joguinhos de Jigsaw: há diferentes aparatos espalhados pela casa onde os prisioneiros poderão encontrar seringas com o antídoto para o veneno mortal. O problema é que, além de sobreviver aos tais aparatos, os personagens começarão a lutar entre si pela posse do antídoto, ao invés de trabalhar em equipe, como propõe o vilão. Neste ponto, o filme enfoca outro aspecto que remete a
CUBO: o
"valentão" do grupo resolve agir por conta própria, agredindo os colegas na tentativa desesperada de salvar a própria pele, levando a situação ao caos total. Este valentão (óbvio que não revelarei qual dos oito personagens é) acaba se tornando uma figura mais malvada que o próprio Jigsaw - ainda mais quando percebemos que, se o grupo realmente trabalhasse unido, talvez todos tivessem chance de escapar do jogo mortal... Isso remete à grande sacada de
SAW: colocar pessoas normais em situações-limite, fazendo com que se transformem em monstros para sobreviver. O que você faria para escapar de uma das armadilhas de Jigsaw?
Quem gostou dos apetrechos utilizados pelo vilão no primeiro filme vai salivar de satisfação ao ver as armadilhas que ele prepara nesta continuação. Elas estão muito mais tenebrosas e elaboradas. Na época do lançamento de
SAW, muita gente comparou o criativo Jigsaw com o dr. Phibes, interpretado por
Vincent Price em dois divertidos filmes dos anos 70. Tanto Jigsaw quanto Phibes utilizam as engenhocas mais criativas (e absurdas) para despachar suas vítimas. Em
SAW 2, Jigsaw se transforma, definitivamente, no dr. Phibes do século 21. Principalmente em duas cenas que são de gelar o sangue mesmo do mais insensível dos espectadores. Numa delas, uma vítima cai num poço repleto de seringas (e, conseqüentemente, rola sobre centenas de agulhas); na outra, uma caixa de vidro aprisiona outra vítima pelas mãos, mutilando-as com afiadas navalhas na altura dos pulsos. Brrrrrr... As duas cenas são mostradas em generosos takes sangrentos, o que diferencia os dois
SAW: enquanto no original a violência era implícita (mas nem por isso menos chocante), em
SAW 2 o diretor usa e abusa de sangue e mutilações explícitas, como o diabo gosta. Prepare-se para ver muito sangue rolando, e periodicamente - quem tem estômago fraco vai se sentir tentado a abandonar o cinema.

E isso que o roteiro foi bastante alterado pelos produtores, justamente para ser extremamente violento.
"Na primeira vez em que discutimos o roteiro com os produtores, um deles tinha uma caneta hidrocor preta. Ele abriu na primeira página do script, fez um enorme X bem no meio e arrancou fora a página, dizendo: 'Você não pode filmar isso'. Cortaram duas cenas em particular", confessou o diretor Bousman, numa entrevista a um site da internet, ao comentar os momentos mais fortes que tiveram que ser substituídos.
Desenvolvendo duas linhas narrativas ao mesmo tempo (os oito prisioneiros na casa e o trabalho policial do lado de fora),
SAW 2 é um filme de ritmo frenético, onde a ação nunca pára, pulando rapidamente de dentro para fora da casa, mantendo o suspense e jamais tornando-se chato ou repetitivo. Pena que essa agilidade tem um preço: há pouquíssimo tempo para desenvolver melhor os personagens. O roteiro não se preocupa em mostrar quem são e como foram seqüestrados. Aliás, alguns deles são despachados tão rapidamente que nem temos tempo de lembrar seus nomes. Lá pelas tantas, você vai chegar à conclusão de que alguns deles, aparentemente, não têm qualquer importância na trama que não seja morrer violentamente. Tem uma loirinha insuportável que passa o filme inteiro se esgueirando pelos cantos, choramingando e gritando, e que morre de forma cretina, sem nem ao menos cair numa armadilha, o que leva à inevitável pergunta: qual seu papel na trama, além de ocupar espaço? Há um personagem secundário é despachado após menos de cinco minutos preso na casa e não chega a falar cinco frases. Ora, qual sua importância no enredo além, é claro, de mostrar aos
"colegas" o destino trágico que os espera? Também chama a atenção o fato de existirem oito pessoas no interior da casa, mas não oito
ARMADILHAS para cada uma delas - ou será que as armadilhas existem e só não teve tempo para que fossem colocadas em prática?
Outro detalhe a observar é que se no filme original o vilão tinha o domínio completo da situação e do seu desenrolar, o mesmo definitivamente NÃO acontece nesta seqüência. E, mesmo assim, tudo funciona conforme o planejado pelo psicopata, o que não deixa de ser um imperdoável furo do roteiro. Acontece que a revelação no final-surpresa (vá se preparando para ela!!!) é algo que depende bem mais da sorte do que propriamente de planejamento, como acontecia no primeiro filme. Quem já viu
SAW 2 deve saber do que estou falando. Jigsaw contou com a sorte em outro detalhe importante: suas instruções aos prisioneiros na casa são passadas através de fitas de áudio encontradas junto às armadilhas, com pistas de como as pessoas podem escapar ilesas das tais armadilhas. É claro que um dos prisioneiros leva sempre consigo um pequeno gravador para tocar as fitinhas. Bem, o que aconteceria se o cara que levava o gravador fosse o mesmo que, logo no início, cai numa armadilha envolvendo fogo? Neste caso, adeus, gravador - e adeus comunicação do psicopata com seus prisioneiros! Logo, fica evidente que Jigsaw, desta vez, não tem controle algum sobre o que acontece na casa, e por isso mesmo é frustrante quando o filme termina e você percebe que tudo (mas tudo mesmo) era um grande plano do vilão, e uma coisa mirabolante que jamais funcionaria na
"vida real". Juro que não entendo como as mesmas pessoas que criticaram o roteiro do primeiro filme dizem que este é mais bem bolado!!!
SAW 2 deixa uma outra ponta solta, e é justamente um dos principais detalhes do plano principal do vilão: na mensagem inicial aos seus prisioneiros, Jigsaw diz que existe um cofre na casa contendo antídoto para todos eles. A combinação do tal cofre é algo que os próprios personagens devem descobrir, porque diz respeito a eles (não, não posso dar mais detalhes sobre isso), e a ordem dos números estaria
"acima do arco-íris", segundo a charada proposta pelo psicopata. Bem, um dos prisioneiros até descobre onde estão os números, mas isso não faz qualquer diferença, considerando que o roteiro não se preocupa em fazer evoluir esta charada - nem nunca sabemos o que significa a enigmática frase
"acima do arco-íris". Acredite, você vai ficar o tempo inteiro procurando pelo tal arco-íris, e simplesmente não há uma solução para o enigma!!! Em alguns sites da internet, fãs argumentam que a ordem dos números da combinação do cofre provavelmente seguiria a ordem das cores no arco-íris (daí o motivo da citação). Como o filme não se preocupa em esclarecer este detalhe, o espectador fica boiando - um grande pecado, considerando que a busca pelos tais números ganha um destaque enorme na maior parte da trama e no final é simplesmente abandonada sem justificativa!
Porém, estes pontos negativos são muito pouco para depreciar
SAW 2, que é realmente um bom filme, com várias cenas fortes e algumas interessantes surpresas para brincar com as expectativas do espectador - incluindo, como eu citei anteriormente, uma bem bolada reviravolta final, que deixará muitos espectadores tão enfurecidos quanto ficaram com a conclusão do original (que é incontestavelmente superior). E isso que o diretor Bousman filmou nada mais nada menos de cinco finais diferentes, um deles usado na versão oficial e outros quatro para a edição em DVD; com isso, ninguém sabia qual conclusão seria utilizada e o
"segredo" não poderia vazar para a Internet, estragando a surpresa de nerds do mundo inteiro. O roteiro de Bousman e Whannell também reserva espaço para citações a vários filmes do gênero, não só o já citado CUBO, mas, mais notadamente,
LAST HOUSE ON THE LEFT, de Wes Craven (na cena em que Jigsaw orienta o detetive Matthews para ir até a
"última casa à esquerda"), e o clássico italiano
A MÁSCARA DO DEMÔNIO, de Mario Bava, de onde deve ter vindo a inspiração para a máscara metálica cheia de pontas utilizada por Jigsaw na primeira cena do filme.

Finalmente, outro aspecto digno de nota em
SAW 2 é jamais perder a relação com o original, como normalmente fazem as continuações de filmes de sucesso: além de resgatar diversos personagens de
SAW e dar mais destaque ao próprio Jigsaw, esta seqüência retorna ao principal cenário da história anterior, o banheiro onde os dois personagens ficavam aprisionados, num momento que inclusive esclarece o destino dos protagonistas - que ficou apenas implícito na conclusão do primeiro filme. Até a serra (
saw, em inglês) utilizada no original reaparece na cena final, sendo utilizada de maneira bastante proveitosa por um dos personagens, assim como o tétrico robozinho em forma de palhaço usado pelo vilão e a máscara de
"cara-de-porco", que é mostrada num daqueles momentos de fazer o espectador pular da poltrona. Para arrematar, o filme mantém o tom sombrio, com cenas que se passam sempre à noite ou em locais escuros.
SAW 2 seguiu a trajetória de sucesso do anterior, arrecadando 31 milhões de dólares só na semana de estréia nos Estados Unidos (!!!), já viabilizando a realização de um terceiro episódio, o que transformaria a franquia
SAW em trilogia - como aconteceu com outros sucessos do moderno cinema de horror. E as brincadeiras mortais do sádico Jigsaw já têm uma legião de fãs fiéis na internet, transformando o personagem, definitivamente, em um dos vilões mais populares do gênero nos últimos anos. Entre os sites de fãs, vale uma olhada em
www.houseofjigsaw.com, site que parece ter sido feito pelo próprio vilão, a julgar pelo visual bizarro e pela quantidade de informação. Não é pouco para um personagem que, com apenas um filme (e cinco minutos em cena), já era idolatrado ao redor do mundo, e agora, com o sucesso desta seqüência, garante seu espaço entre os grandes monstros do horror do século 21.
Agora, bem que eu queria ver aquele chato que brincava com o celular no cinema virar a próxima vítima de uma das armadilhas do Jigsaw...
PARA SABER MAIS
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Jogos Mortais
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Jogos Mortais III
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Jogos Mortais IV
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Os Quebra-Cabeças de JigSaw
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JOGOS MORTAIS 2 (Saw 2, EUA, 2005). 93 minutos.
Direção: Darren Lynn Bousman
Roteiro: Darren Lynn Bousman; Leigh Whannell
Produção: Mark Burg; Gregg Hoffman; Oren Koules
Produção Executiva: Peter Block; Jason Constantine; Stacey Testro; James Wan; Leigh Whannell
Fotografia: David A. Armstrong
Música: Charlie Clouser
Edição: Kevin Greutert
Direção de Arte: Michele Brady
Desenho de Produção: David Hackl
Maquiagem: Patrick Baxter; Sarah Fairbairn; Neil Morrill
Elenco: Donnie Wahlberg (Eric Matthews); Shawnee Smith (Amanda); Tobin Bell (Jigsaw); Franky G (Xavier); Glenn Plummer (Jonas); Dina Meyer (Kerry); Emmanuelle Vaugier (Addison); Beverley Mitchell (Laura); Erik Knudsen (Daniel); Tim Burd (Obi); Lyriq Bent (Rigg); Noam Jenkins (Michael); Tony Nappo (Gus); Linette Robinson; Gretchen Helbig; Kofi Payton; John Fallon
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