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Meados de outubro de 2008, saio ligeiramente chateado do cinema após assistir JOGOS MORTAIS 5. Para mim, era uma ladeira se aproximando rapidamente, a falta de uma história consistente e o foco desvirtuado da franquia iniciada em 2004 eram sinais nítidos de desgaste, uma primeira pá de terra sobre o caixão do sepultado gênero Torture Porn.
Só que se aprendem lições a cada dia e no caso de Jigsaw a cada ano: nunca subestime um assassino de filme de terror morto. Mesmo que esteja morto há três(!) filmes. JOGOS MORTAIS 6, lançado no Brasil em 06 de novembro, três semanas após a estreia nos Estados Unidos, é indubitavelmente o melhor da segunda trilogia e fecha o ciclo de maneira respeitosa para com a mitologia da série até agora e inicia outro arco mostrando que ainda tem lenha para queimar. Mas não vá ao cinema criando falsas expectativas: É um filme muito bom - bom o suficiente para perdoarmos a equipe técnica pelos deslizes de JOGOS MORTAIS 5 - mas com problemas gritantes que disseco mais abaixo.
Vamos falar primeiro sobre a história por trás da história. JOGOS MORTAIS 5, como é de conhecimento de todos - e reservadas as devidas proporções - foi quase o STAR WARS - A GUERRA DOS CLONES dos filmes de terror, um belíssimo fiasco, mas devido ao retorno financeiro praticamente garantido e contratos já assinados, a sexta parte já foi anunciada praticamente ao mesmo tempo da estreia do quinto filme, que depois de lançado obteve a menor bilheteria proporcional da série (ainda assim bateu em mais de 11 vezes |
seu custo de produção), contudo foi suficiente para a Twisted Pictures e a Lionsgate apostarem mais uma vez nos roteiristas Marcus Dunstan e Patrick Melton para trazer Jigsaw novamente às telas (que aliás, já estão confirmados para SAW VII).
Na cadeira de diretor, David Hackl (diretor do quinto) cedeu o posto para um nome diferente, contudo familiar e de grande importância para a franquia: Kevin Greutert, editor dos cinco anteriores e que nunca havia dirigido um filme antes, foi escalado para capitanear este novo capítulo com a inglória missão de não cair no círculo vicioso da nova trilogia e entregar um filme que não deveria ser assistido apenas pela tradição e também acrescentar algo para cronologia da série. E conseguiu atar os nós e abrir novas possibilidades para série, que promete não morrer tão cedo.


As filmagens começaram em 30 de março de 2009 com o primeiro corte pronto em 6 de junho. Apresentado aos produtores em 10 de julho, foi recomendado uma nova filmagem dos últimos cinco minutos, considerados muito complexos. Um novo final foi filmado e editado em 21 de julho, encerrando a pós produção em 11 de setembro, a quase um mês do lançamento somente. A publicidade começou antes, em 20 de julho com o primeiro pôster chegando on-line e o teaser trailer lançado na
Comic-Con em 23 de julho. Tudo muito rápido, como manda a cartilha.
Sobre o roteiro, como sempre, saber menos é aproveitar mais. Tentarei ser o mais austero quanto possível, porém alerto que está recheado de spoilers de
JOGOS MORTAIS 5. A história começa com a armadilha inicial, uma das mais estranhamente hilárias da franquia. Simone (Tanedra Howard) e Eddie (Marty Moreau) acordam frente a frente separados por uma grade e uma balança, o jogo é o seguinte: aquele que fornecer mais carne para a balança em 60 segundos não morre com um aparelho similar a uma furadeira atachado a suas cabeças, o gordinho, obviamente, leva vantagem sobre a moça (hehehe...). A hilaridade está na maneira frenética em que os dois cativos decidem
"participar" do jogo, volto a este aspecto mais tarde no artigo.


Enfim, um deles ganha (não conto quem, claro) e voltamos para o final da
parte 5, com
Peter Strahm (Scott Patterson, aqui só em cenas de arquivo) morrendo nas mãos do novo
Jigsaw, o tenente
Mark Hoffman (Costas Mandylor). Hoffman aproveita o braço do detetive Strahm (só o que sobrou dele na armadilha) para usar suas digitais tentar colocá-lo como copycat do
Jigsaw original,
John Kramer (Tobin Bell, novamente).
Só que isto é conveniente demais para
Dan Erickson (Mark Rolston), que investiga o novo jogo junto com a agente
Lindsey Perez (Athena Karkanis), que foi dada como morta em
JOGOS MORTAIS 4 e ele quer amarrar as pontas do único caso dos assassinatos de
Jigsaw que foi diferente dos demais e não ficou plenamente resolvido, o assassinato de
Seth Baxter (Joris Jarsky), primeira vitima de Hoffman - ainda sem conhecer
John Kramer - mostrada no início de
JOGOS MORTAIS 5.
Enquanto isso, secretamente Hoffman se encontra com a
"viúva" Jill Tuck (Betsy Russell) para realizar o último desejo do
Jigsaw original - lembra aquela caixa misteriosa de
SAW 5? Na realidade são as instruções para uma lição/vingança cheia de detalhes (como já conhecemos) contra a companhia de seguro saúde de métodos nada éticos de trabalho que recusou a aceitar financiar um tratamento experimental que poderia curar o câncer de
John Kramer (e o
Doutor Gordon do primeiro filme é citado novamente aqui).


O foco do jogo é
William Easton (Peter Outerbridge), o executivo da empresa. Ele deverá passar por quatro testes em 60 minutos todos envolvendo suas práticas e as de seus subordinados e no meio do caminho, revelações sobre os personagens e assuntos que ficaram pendentes desde
JOGOS MORTAIS 3. Principalmente aquela carta que Amanda (Shawnee Smith) recebeu ao final do filme citado que foi determinante para sua própria morte.
De maneira que a história desperta o interesse por mostrar muito mais sobre Kramer do que Hoffman, um erro do filme anterior, pois o passado do tenente não é minimamente tão interessante quanto de seu antecessor. E em minha opinião
JOGOS MORTAIS 6 traz pela primeira vez na franquia um franco sentimento de justiça pessoal nos atos de
Jigsaw - mesmo que de uma maneira torta, é verdade, porém ainda citarei o assunto rapidamente neste artigo.


Greutert na cadeira de diretor faz um trabalho excepcional. Evita usar as câmeras caóticas em passo acelerado do diretor
Darren Lynn Bousman (
partes 2,
3 e
4) sem tirar a identidade direcional da franquia. Para mim, a ausência de tomadas externas (sumiram desde o primeiro filme) e o estilo de fotografia que abusa da escuridão e das luzes fluorescentes piscantes ainda são incômodas, porém mudar isso a esta altura do campeonato talvez seja pedir demais.
A passagem tradicional pelo resumo do roteiro na revelação final - trazendo novamente uma variação da competente trilha
'Hello Zepp' de
Charlie Clouser - é o principal veículo da característica de Greutert como diretor, parece até que ele faz um alerta para quem pegar o bastão em
JOGOS MORTAIS 7: a franquia é, ou deveria ser, sobre a complexidade de seus personagens e suas motivações, não uma exibição de armadilhas sangrentas e elaboradas e reside nessa característica minha principal impressão positiva sobre o filme. Tudo gira em torno dos personagens, flashbacks (que cobrem das
partes 3 a
5) colocam cada ponto em seu lugar e no meio de tudo isso quem ganha grande destaque é
John Kramer, mesmo morto no final de
JOGOS MORTAIS 3.


Como podem ver, citei muitas passagens e personagens dos últimos filmes da franquia, principalmente as
partes 4 e
5. Apesar de ser um roteiro de fácil assimilação e de o diretor usar o recurso de flashbacks com recorrência (um pouco mais que o necessário, em minha opinião), é interessante lembrar dos detalhes dos filmes anteriores antes de ir ao cinema para pescar todas as referências, todavia não precisa usar um guia, o filme trata de explicar mais do que complicar. Aliás, você que já é fã de
JOGOS MORTAIS, possivelmente nem vai levar minha opinião em consideração, se já assistiu todos os cinco vai ver o sexto não importa o que eu diga, hehehe...
Então, lembram dos
"problemas gritantes" que eu relatei mais acima? Então, se em
JOGOS MORTAIS 5 coloquei a tendência de que a franquia estava caminhando para a mediocridade desinteressante, este filme começa a dar sinais de que a série beira a absoluta insanidade e alguma recorrência em soluções fáceis e preguiçosas do roteiro. Faço referência a cena de abertura novamente: não bastasse a falta de um contexto adequado no roteiro para tal armadilha acontecer,
Tanedra Howard, a
"atriz" que ganhou este papel (pequeno, graças a Deus) através do reality show
Scream Queens promovido pelo canal estadunidense VH1, é um abuso a inteligência do espectador. Quando ela tenta cortar seu braço com um cutelo, sua aparência é de quem enlouqueceu e está para matar uma galinha (sem trocadilhos) o efeito é o oposto do que vemos, ao invés de nos enojarmos, acabamos dando gargalhadas, fato inédito na franquia ao meu ver.


Este é o caso exagerado, porém existem outros momentos em que o bom senso é deixado de lado para a condução do roteiro, e novamente a lei do efeito oposto é posta a prova. Claro que por
spoilers não poderei revelar por aqui neste momento. Quem sabe no artigo de
SAW 7? hehehe... Apesar de tudo, estes momentos enfraquecem pouco o resultado final, Greutert tem um tato que não permite que tais cenas se alonguem em demasia.
Falando no elenco, tenho que concordar que
Costas Mandylor finalmente está dando conta do trabalho. As diferenças dos
"Jigsaws" de
John Kramer e
Mark Hoffman fica ainda mais latente que no anterior: John agia por uma filosofia e achava que a seu modo estava fazendo um favor à humanidade, Hoffman é simplesmente um grande filho da puta sádico, vingativo e egoísta. Se simpatizar com o personagem imortalizado por
Tobin Bell já era difícil,
Costas Mandylor só faz nosso sentimento com relação a Hoffman ser de um desprezo ainda maior que seus atos. Nada de torcer pelo vilão aqui, meus caros.
Os demais recorrentes do elenco estão bem situados e familiarizados com a franquia prestando um bom trabalho, e
Tobin Bell novamente dá asas a seu personagem passando pelas fases desde
SAW 1 a
3.
Peter Outerbridge é uma grata surpresa, diferente das vitimas protagonistas de
JOGOS MORTAIS 3 (Angus Macfadyen) e
JOGOS MORTAIS 4 (Lyriq Bent), que levavam uma vida honesta e tiveram um desvio em algum momento da vida,
William Easton foi tão determinante na vida de
Jigsaw e causou tanto mal deliberadamente nas decisões que fez em sua carreira que efetivamente merece a punição que está sofrendo.

A violência ainda é o ponto chave e causa impacto e suficiente para garantir ao filme a primeira
classificação X (a mais alta possível) na história do cinema na Espanha, porém as armadilhas não são mais tão interessantes, talvez até pelos direcionamentos que o roteiro tomou neste filme. Ironicamente, a armadilha alardeada na publicidade e que até ganhou um pôster, o carrossel com seis pessoas acorrentadas, constitui na armadilha e na cena mais arrastada e morosa do filme. Mesmo porque as seis pessoas que estão presas nela, são absolutamente descartáveis e desprezíveis.
A imprensa estadunidense especializada tem celebrado muito a produção por um motivo bizarro:
JOGOS MORTAIS 6 é um filme de cunho político! Veja bem, não bastavam as lições de moral dadas as vítimas de
Jigsaw desde o primeiro filme, aqui parece que deram a
Michael Moore uma câmera e ele fez uma
"Serial Killer Edition" de
SICKO: S.O.S. SAÚDE! E foi tão bacana que eu estou sugerindo parlamentares como tema para o próximo filme...
As críticas ao modelo de planos de saúde em vigor nos Estados Unidos são ácidas e contundentes. Diálogos são pautados na indignação e, principalmente, afirmam que não há muita diferença entre os atos macabros de
Jigsaw e as práticas gananciosas das companhias de saúde, visando somente o lucro a despeito da morte dos que mais precisam delas, os doentes, claro... Uma armadilha em especial é a principal prova física deste posicionamento
[pequeno spoiler no restante do parágrafo]. Nela Erickson precisa decidir quem deve morrrer, um jovem saudável e solitário, que estatisticamente daria mais lucro à empresa, ou uma mulher de meia idade que embora leve uma vida sedentária possui uma família que depende dela. Usar o sistema de
Jigsaw ou o sistema de Willian? Na balança jaz uma vida. Razão contra emoção, desde o primeiro filme não via uma decisão tão difícil para um protagonista.
Apesar dos elogios e dos pontos de atenção que não prejudicam a produção, o filme está sofrendo nas bilheterias Estados Unidos. Rendeu só 14.8 milhões de dólares no fim de semana de abertura, a mais fraca da franquia. Se o problema não está na qualidade, o problema só pode ser a concorrência: No
Top 10 daquele final de semana ainda existem outros quatro(!) filmes de terror (o fenômeno
ATIVIDADE PARANORMAL,
ASSISTENTE DE VAMPIRO,
O PADASTRO e
ZUMBILÂNDIA) diluindo os fãs entre as salas. Oxalá tivéssemos que enfrentar este tipo de dilema no Brasil.
Apesar disso, bateu seu custo de produção (estimado em 11 milhões de dólares) e
JOGOS MORTAIS 7 (agora em 3-D) está confirmado, com o retorno quase certo de
David Hackl como diretor.
JOGOS MORTAIS 8 também está à beira do anúncio oficial. Pelos rumos da franquia e pelas possibilidades deixadas com
JOGOS MORTAIS 6, será bem aguardado e estou feliz em admitir que queimei a língua. Mas sinceramente dado minhas experiências com os filmes anteriores, peço que pelamordeDeus, desta vez não usem realities para escolher protagonistas.
NA SEXTA PARTE...
Uma coisa a franquia
JOGOS MORTAIS pode se orgulhar, em seis filmes lançados, nenhum pode ser classificado como ruim (
JOGOS MORTAIS 5 é medíocre e passável, mas não é ruim) o feito é ainda maior se levarmos em consideração que os filmes são lançados um por ano. Para ver o tamanho do que isso representa, relembro algumas franquias famosas que chegaram a
Parte 6 e que não tinham tanto do que se orgulhar naquele momento.
A franquia: SEXTA-FEIRA 13
O sexto filme: SEXTA-FEIRA 13 PARTE 6 - JASON VIVE
Entre o primeiro e o sexto passaram-se: 6 anos (1980-1986)
A maçã podre: A franquia vinha de um sólido desempenho e filmes regulares até chegar à parte 5,
UM NOVO COMEÇO de 1984, a chance de retirar
Jason Voorhees para iniciar uma nova franquia. Erro catastrófico e entregou um filme tão ruim que coube a
Tom MacLoughlin retornar com o monstro. Conseguiu, mas já não era como antes. Jason assumiu a paródia de si mesmo.

A franquia: HALLOWEEN
O sexto filme: HALLOWEEN 6 - A ÚLTIMA VINGANÇA
Entre o primeiro e o sexto passaram-se: 17 anos (1978-1995)
A maçã podre: A disputa entre
Michael Myers e o
Dr. Loomis termina de maneira melancólica em
HALLOWEEN 6, um filme sem pé nem cabeça com um roteiro obtuso imposto pelos testes medíocres da versão final e através do diretor que acabou selando o destino de
Michael Myers contrariando a visão do produtor. Precisou ser esquecido completamente para que o próximo,
HALLOWEEN H20, obtivesse êxito.
A franquia: A HORA DO PESADELO
O sexto filme: PESADELO FINAL - A MORTE DE FREDDY
Entre o primeiro e o sexto passaram-se: 7 anos (1984-1991)
A maçã podre: Difícil escolha... Mas entre a
parte 4 e a
6, fico com a sexta... Freddy já consolidado como fenômeno pop (já tinha até um rap gravado em 1988!). Um roteiro sem sal apenas para mostrar efeitos caricatos em personagens desinteressantes. Detestável do começo ao fim foi ridicularizado por público e crítica e não fosse o rumo completamente oposto tomado pelo criador
Wes Craven em
UM NOVO PESADELO de 1994, o icônico personagem estaria no limbo até hoje.

A franquia: HELLRAISER
O sexto filme: HELLRAISER: CAÇADOR DO INFERNO
Entre o primeiro e o sexto passaram-se: 15 anos (1987-2002)
A maçã podre: Se do original à
parte 4 tínhamos histórias para contar a cerca dos
cenobitas e do mais famoso deles, o notório
Pinhead, a partir da
parte 5 o desenvolvimento dos antagonistas é jogado ao relento para focar apenas os personagens que variam filme a filme e lançados direto para as locadoras. Difícil novamente escolher qual é o pior, mas entre a vagarosa-quase-parando
parte 5 (INFERNO) e a seguinte,
CAÇADOR DO INFERNO, fico com a última. Além de afetadíssimo pelo orçamento limitado, é chato e arrastado para dormir em meia-hora.

A franquia: COLHEITA MALDITA
O sexto filme: COLHEITA MALDITA 666 - ISAAC ESTÁ DE VOLTA
Entre o primeiro e o sexto passaram-se: 15 anos (1984-1999)
A maçã podre: Se a franquia
COLHEITA MALDITA jamais teve uma maçã boa, a mais podre delas certamente é a própria
parte 6, que deveria ser um equivalente ao
H20 para
HALLOWEEN acabou tendo o efeito oposto, é a pretensiosa tentativa de transformar o conto de
Stephen King numa adaptação de Shakespeare em um filme lançado direto para o vídeo. Simplesmente deplorável...

Gabriel Paixão
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