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No tempo em que a ordem do dia nas grandes e pequenas produtoras de filmes era "se um filme fizer sucesso, faça uma franquia" (porque hoje também tem o "se um filme for bom, faça um remake"..) várias tranqueiras tiveram frutos em produções de alto calibre como é o caso de Scanners.
A obra cultuada de David Cronemberg obviamente não poderia sair impune de produtores inescrupulosos e sua sede por dinheiro, assim gerando uma cinessérie com quatro filhos bastardos e como era de se esperar todos inferiores ao original.
Dez anos depois do lançamento do original sai "Scanners 2", dirigido por Christian Duguay ("Screamers") com roteiro de B.J. Nelson. |
Sinceramente, quando fui assistir pela primeira vez, peguei o filme com a chave de preconceito ligada, pensando que veria uma bomba ou uma piada sem graça, mas para a minha surpresa não foi bem assim. O filme realmente é muito fraco e não incorpora quase nada ao universo criado por Cronemberg, no entanto não o desrespeita e é perfeitamente assistível.
O filme começa com um scanner, sujo e esfarrapado como mendigo, fugindo da polícia e entrando em uma loja de fliperamas. Então, após comer alguns salgadinhos, ele rouba uma ficha e começa a jogar um jogo de tiro. Empolgado, passa a controlar o jogo a distância usando o poder da mente. Aumentando cada vez mais a força, logo ele perde o controle e causa uma confusão no local e foge para um depósito de manequins, onde é capturado pela polícia com o auxílio do tenente Gelson (Vlasta Vrana, que apareceu em vários filmes, entre eles "Calafrios" e "Rabid", ambos de Cronenberg) a comando do Comandante John Forrester (Yvan Ponton).




Acharam a introdução acima parecida com a captura de Cameron Vale no primeiro filme??? Eu também...
Mandado para o instituto Morse de pesquisas neurológicas (que não tem a menor diferença de uma clínica normal) comandada pelo Dr. Morse (Tom Butler, que pode ser visto em "
Freddy vs Jason") ficamos sabendo que o capturado chama-se Peter Drak (Raoul Trujillo,
"Highlander 3" e "
Frankenfish") e que Morse está testando uma nova droga, para reprimir o poder dos
scanners e obter controle sobre eles, porém a droga tem um efeito colateral: causa dependência. A droga é chamada de EPH-2 e é uma evolução da EPH-1 que Dr. Morse, em suas experiências, transformou uma horda de
scanners em verdadeiros viciados, mantidos em cativeiro no laboratório. O vício é tanto que todos os dias alguém fornece a droga para saciar sua dependência.




O comandante Forrester, aliado ao Dr. Morse, pretende usar os
scanners em um plano de escalada do poder (pouco criativo por sinal) e implantar uma
"Nova Ordem" social (do título original do filme), mas não pode contar com a droga para controlar os
scanners já que os torna praticamente zumbis. Então eles precisam de, segundo os termos de Forrester:
"um scanner limpo, de mente virgem" (hahaha.. o que é isso..)
E corta para a ponte Golden Gate, e conhecemos nosso
scanner bonzinho chamado David Kellum (David Hewlett, de "
Cubo" e do
[sarcasmo on] super-hiper-ultrafilme
[sarcasmo off] "
Boa vs. Python"). Ele é um estudante de veterinária, que arruma rapidinho um caso com a gatinha Alice Leonardo (Isabelle Mejias). Quando eu digo rapidinho, é rapidinho mesmo, em uma cena eles se conhecem e dois minutos depois já estão íntimos e se beijando...




Acontece que convidado para jantar, nosso amigo David vai as compras com sua nova namorada e dois violentos assaltantes invadem o local (usando máscaras ridículas), matam uns e fazem Alice de refém, desnecessário dizer que David se enfurece e usa suas habilidades para dar cabo dos meliantes enquanto tudo é gravado pelas câmeras de segurança.
Ferida, Alice é mandada para um hospital e Forrester assistindo a fita, toma conhecimento do
"scanner de mente virgem" (haha.. dou risada só de lembrar..)
Como você pode imaginar, Forrester busca por David e convence-o a abraçar sua causa após ambos pegarem um criminoso responsável por envenenar crianças, fazendo uns servicinhos de
scanner e o resultado você já deve ter visto milhares de vezes: arrependimento, busca pela verdade e depois tentar desfazer e impedir os planos do vilão.
Em sua busca pela verdade, David vai à casa dos pais sem saber que é perseguido por Drak e Gelson e onde é esclarecida a ele toda a história sobre o Ephemerol que já sabíamos. Ali acontece a única ligação deste com o primeiro filme:
***Início de SPOILER***
David fica sabendo que é adotivo e na verdade é filho de Cameron Vale e Kim Orbist, os protagonistas do "
Scanners" original e ainda por cima tem uma irmã, Julie Vale (A gata Deborah Raffin)
Encontrando a irmã, David descobre que ela teve um noivo
scanner e resolve voltar e terminar com toda a trama de Forrester e Morse.
***Fim de SPOILERS***



A partir daí o filme parte para os previsíveis confrontos
homem-scanner e
scanner-scanner com um final feliz e sem sal, deixando um ar de decepção.
Dois dos grandes defeitos do filme estão relacionadas à interpretação e construção dos personagens: David Hewlett se esforça, porém seu personagem é pobre, dono de uma bondade blindada que chega a irritar, o comandante Forrester de Yvan Ponton é verborrágico e inexpressivo, entretanto de longe Peter Drak é o pior: Além de ter as falas mais ridículas do filme, como a reproduzida no início deste texto, Raoul Trujillo faz tantas caretas e exagera tanto no personagem
"scanner viciado-maluco" que se fosse interpretado por Jim Carey não faria a menor diferença.
A produção tem seus bons momentos de violência e gore como no original e por ser mais moderno chega até a convencer, porém acaba parecendo que o dinheiro para a maquiagem acabou nas últimas cenas, é ver pra crer.
Duguay também transparece em certos momentos o pouco orçamento disponível, como o laboratório do Dr. Morse, que é vazio e tem apenas uns monitores e osciloscópios ligados, pra ficar bem podre só faltaram àquelas lampadinhas inúteis piscando (hehe..)
Entretanto a maior aberração de continuidade é a cena em que Drake força o chefe da polícia a se matar com um tiro e o impacto joga o corpo contra a janela. Seria normal, se não fossem TRÊS camadas de vidro em uma ÚNICA janela e visivelmente filmada em outro estúdio.
Mas sem dúvida o maior problema do filme é a falta de ousadia: O roteiro não tenta inovar, e não tem reviravoltas ou revelações bombásticas como no primeiro filme e a direção nunca chega a criar um clima realmente tenso ou desconfortável, Duguay é burocrático e segue a cartilha direitinho, mesmo que não comprometendo, está muito aquém do que Cronenberg fez.
Infelizmente, Duguay e Nelson avacalhariam de vez em "
Scanners III", mas essa é uma outra história.



Resumindo: Se você for um fã da série pode assistir sem medo de ser feliz, mas não espere grande coisa. No Brasil o filme foi lançado em VHS pela TransVídeo e em DVD pela Califórnia Filmes com o tenebroso subtítulo "A força do poder" e dá um pouco de mão de obra pra achar.
Momento de cultura inútil: Os scanners estão mais poderosos no segundo filme. A tagline do primeiro indica "20 segundos - você explode" já a tagline nacional do segundo diz "15 segundos - você explode". É um aumento de 25% no poder!! Incrível, não??
Novos Poderes: Como dizia Darwin, evoluir é preciso (se não for isso, é quase isso). E com os Scanners são a mesma coisa, neste filme nossos mutantes favoritos aprendem novas utilidades e desenvolvem novas habilidades para seus poderes. Confira o que há de novo em "Scanners 2":
Enxergar com os olhos alheios: para entrar desapercebido no laboratório do Dr. Morse, Julie ensina a David uma nova técnica. Controlando a mente do tenente Gelson ele passa a ver o que ele vê, mas têm um efeito colateral. O "Scaneado" fica com a íris branca parecendo um zumbi.
Scaneamento remoto: Não são apenas computadores que podem ser acessados remotamente por scanners. David descobre que as pessoas também, usando o tenente Gelson como câmera de vídeo, Julie vinga-se do Dr. Morse pelo que ele fez ao seu noivo.
Cura veterinária: Essa não dá nem pra comentar aqui...
Um bom momento: David tomado por um acesso de raiva explode a cabeça de um dos assaltantes do mercado que feriu sua namorada, a cena é gráfica e bem filmada.
Mas sua cabeça pode explodir quando: David em sua impenetrável bondade cura um cachorrinho sofrendo com dor de cabeça (?!?!) usando suas habilidades de scanner e depois dá o filhotinho para sua namorada Alice.(Que meigo... blergh...).
Gabriel Paixão
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SCANNERS II - A FORÇA DO PODER (Scanners II - The New Order, Canadá, 1990). Duração: 98 minutos.
Direção: Christian Duguay
Roteiro: B.J. Nelson - Baseado em personagens criados por David Cronenberg
Produção: Pierre David; René Malo
Música: Marty Simon
Fotografia: Rodney Gibbons
Edição: Yves Langlois Desenhos de Produção: Richard Tassé
Maquiagem: Kristina Birkmayer; Roxy D'Alonzo; Bill Foertsch; Serge Morache; Mike Smithson; Bob Smithson
Efeitos Especiais: Ryal Cosgrove
Elenco: David Hewlett (David Kellum); Deborah Raffin (Julie Vale); Yvan Ponton (John Forrester); Isabelle Mejias (Alice Leonardo); Tom Butler (Doctor Morse); Raoul Trujillo (Peter Drak); Vlasta Vrana (Tenente Gelson); Murray Westgate (George Kellum); Doris Petrie (Susan Kellum); Dorothée Berryman (Prefeita); Michael Rudder (Feck); David Francis (Gruner); Stephen Zarou (Walter), Tom Harvey (Chefe Stokes)
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