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Como articulista amador, a primeira coisa em que gosto de pensar para escrever um texto sobre qualquer produção é "seja imparcial, não importa o quão odiado seja algum envolvido. Dê uma chance para que este trabalho o surpreenda". Pois bem, posso não conseguir em todo o tempo, mas, por Hitchcock, eu juro que tento.
E com uma certa fervorosidade esperançosa e um alto nível de boa vontade que assisto aos filmes dirigidos por Uwe Boll lançados no Brasil sem me deixar levar pela (justificável) hostilidade que o cerca, porém após várias experiências desagradáveis tenho caído em descrença com estas suas poucas, porém marcantes, vezes em que arruinou uma adaptação de um game de sucesso por pura incompetência.
A bola da vez é SEED - ASSASSINO EM SÉRIE, recém lançado em DVD pela distribuidora FlashStar. |
Bom, para o nosso consolo, é o primeiro filme dirigido por este infame profissional da sétima arte que não carrega o fardo de ser originário de um jogo eletrônico, o que poderia (veja bem, eu disse 'poderia') significar uma liberdade criativa maior e, vá lá, até chegar a um filme interessante, até porque nos créditos consta o nome de Olaf Ittenbach (PREMUTOS) como diretor da segunda unidade.
Após ver o tamanho da babaquice que é SEED, o pior da experiência foi a inocência minha, a princípio, em pensar que Boll seria capaz de chamar a atenção para um filme de terror por causa de sua capacidade de provocar medo ao invés de fazer uma autopromoção chula, convencida e ofensiva como suas inúmeras declarações e 'vídeos-respostas' que circulam pela Internet. Não me admira que mais de 200 mil pessoas já tenham assinado a petição anti-Boll - que a propósito eu também assinei.


Maxwell Seed (Will Sanderson, figurinha recorrente nas bagaceiras do diretor) é um assassino grandalhão desfigurado daqueles bem sádicos - a forma com que Boll opta por revelar isso ao espectador é abrindo o filme com o nosso antagonista assistindo a algumas cenas reais de crueldade animal, cedidas pela associação de proteção aos animais
PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), o que já é estranho, pois são cenas totalmente fora de contexto, destoando do roteiro e estão lá apenas para chocar o público mais sensível. Realmente são cenas fortes com certo cunho apelativo, contudo nada muito mais hediondo do que a tartaruga destroçada de
CANNIBAL HOLOCAUST.
Enfim, o festival de bobeiras continua com uma declaração através de um letreiro que existia supostamente uma lei na Califórnia do final dos anos 70 onde o condenado a cadeira elétrica que sobrevivesse a 3 choques de 15 mil volts durando 45 segundos cada seria libertado(!). Max Jenke de
HOUSE III ficaria muito feliz se soubesse disso, hehehe... Esse fato só será importante mais a frente, mas já vão se preparando por aí.


Então o filme prossegue com a exibição passo a passo da execução de um coitado na cadeira elétrica que morre já na primeira tentativa, mas esqueçam, pois esta cena não tem propósito algum além de um exercício de efeitos especiais e de revelar que o
“carrasco” (Michael Eklund, de
88 MINUTOS) está ficando neurótico com sua atividade.
Na cena seguinte outro devaneio, mas desta vez sai algo mais interessante (será que esta foi dirigida por Ittenbach?). Em um ônibus está um punhado de figurantes – reparem nas vestimentas
“quadriculadas” de um deles - uma mãe e seu bebê, um homem e
Seed. O homem reconhece Seed como sendo um serial killer, contudo seus repetidos apelos são ignorados pelos passageiros. Seed se levanta, pega o bebê das mãos da mulher e o atira de cabeça contra o pilar do ônibus, o homem grita e esperneia em desespero, mas não consegue se levantar e em seguida acorda assustado em sua cama. Este homem é o detetive Matt Bishop (Michael Pare, outro que está nas garras de Uwe) responsável pelas investigações que procuram pelo assassino.


É neste momento que ficamos sabendo mais sobre as origens do antagonista e porque ele é tão odiado: Seed ficou com o rosto destruído devido a um incêndio causado por um acidente de carro quando era criança, motivo pelo qual nunca se separou da velha máscara a lá
Leatherface e, por motivos ignorados pela história, (ainda que o roteiro de Boll clame que sua origem seja real) virou uma máquina de matar. A contagem terminou em 666 assassinatos(!) entre os anos de 1973 e 1979 (ou seja, um a cada 3 dias... Sem folga), até ser preso...mas não pára por aí, vai vendo...


Seed por algum motivo mórbido tinha o hábito de manter suas vitimas (humanas e animais) em cativeiro e filmar tudo com sua câmera VHS (Pergunta: já haviam filmadoras VHS em 1979?) enquanto elas eram decompostas pelos vermes, em altíssima velocidade, cabe dizer. Por causa de uma destas fitas, os policiais descobrem o esconderijo de Seed no meio do mato.


Agora eu dou uma pausa nesta análise para tomar fôlego e levantar ao leitor dois pontos provenientes da mente perturbada de Boll: primeiro, os policiais assistem à longa sessão de filmes do assassino desacreditados com tamanha brutalidade. Até aí tudo bem, se não fosse o fato de eles ficarem repetindo
"O que ele quer dizer com isso?!?! O que ele quer dizer com isso?!" sem chegar a conclusão alguma, tanto agora quanto no restante da projeção.


E segundo e mais importante, se você fosse o comandante de uma força policial para pegar um maníaco filho-da-puta que sozinho e sem armas de fogo matou mais do que a dengue no Brasil - e todas de maneira cruel - numa cabana sem energia elétrica e afastada da civilização, no mínimo você chamaria o exército nos moldes de
JASON VAI PARA O INFERNO, certo? Todavia o detetive Bishop achou por bem levar duas viaturas com um punhadinho de policiais sem retaguarda... Pois é, nem preciso dizer que TODOS foram massacrados violentamente por Seed com direito a
"homenagem" a
PSICOSE, todavia como o detetive estava
"virado pra lua" naquela noite, consegue ser o último homem vivo e prende Seed na maior moleza, sem o bandido oferecer resistência.


Seed é mantido preso com capuz e tudo (acho que ele é um cara tipo o Santo, que até toma banho de máscara) e, enquanto aguarda seu fatídico destino na cadeira elétrica, ainda causa confusão matando três guardas bichas que tentaram
"currá-lo" em sua cela numa pequena cena bem feita e bem violenta.


É chegada a hora da execução e nos preparativos os policiais nem se dão ao trabalho de raspar a cabeça do condenado... Tsc, tsc... E aí acontece a maior série de abobrinhas contidas numa mesma cena da história do cinema, contem comigo: Seed leva duas
"fritadas" de 45 segundos, mas mesmo banhado em sangue permanece com sinais vitais de acordo com o médico Parker Wickson (Andrew Jackson,
FORÇA SILENCIOSA). O diretor da penitenciária Arnold Calgrove (Ralf Moeller, de
GLADIADOR) decide não arriscar a terceira por causa daquela
“lei” (
Abobrinha nº1) e correr o risco do assassino sair livre (
Abobrinha nº2). Então convence o médico a declará-lo como morto ainda assim e o segredo ficaria entre os dois, o carrasco e o detetive Bishop, para enterrarem Seed vivo e espasmático (
Abobrinha nº3) por causa das descargas elétricas.


Bishop, por alguma estúpida questão moral, perde a chance de meter um balaço na testa de Seed antes de ele ser enterrado (
Abobrinha nº4) numa cova rasa (
Abobrinha nº5) perigosamente próxima da penitenciária (
Abobrinha nº6) em um caixão que parece um caixote de feira (
Abobrinha nº7) e com apenas com os pulsos amarrados (
Abobrinha nº8). Como diria Galvão Bueno,
"Haja coração, amigo"... Nestas condições não me surpreende que na mesma noite Seed saia de sua cova com plena saúde e sem nenhuma seqüela para voltar a fazer sua trilha de sangue...


No retorno do assassino padecem todos os guardiões de seu
"segredo" de morte MENOS, claro, Bishop, que leva mais de seis meses para reencontrar o maníaco, o que irá somar mais de 80 novos corpos em seu currículo. Sério... Um anticlímax catastrófico e um final aberto confuso fecham o pacote, digno do que podemos esperar de algo com o envolvimento de Boll.


Deu pra perceber pela descrição da história que
SEED é um slasher e Uwe Boll nunca havia dirigido um filme de assassinos em série antes. Não seria tão preocupante por parte do roteiro, pois todos nós sabemos como os slashers nunca precisaram ter muuuuita coerência. Só que Boll consegue realizar a proeza de tornar um slasher desinteressante justamente por causa do roteiro inacreditável, das poucas explicações em pontos chave e um desenvolvimento de personagens mais do que capenga. A maioria delas, com a exceção de Bishop e do próprio Seed, aparecem e morrem aleatoriamente numa velocidade burlesca.


A direção é pífia e não sustenta um pingo de suspense, com muitas cenas excessivamente escuras e a câmera possivelmente sendo operada por uma pessoa com um sério problema de equilíbrio (provavelmente o dito cujo estava segurando o equipamento de muletas) de tanto que ela balança e sacode. Não me lembro de nenhum outro filme que tenha me deixado mareado por causa dos movimentos de câmera; creio que a forma que o diretor conduz é de tornar broxante até um filme pornográfico.


Tão exagerado e pretensioso quanto o próprio diretor é a tag-line que a
FlashStar colocou ao alto do encarte do DVD:
"Mais violento que Freddy, mais cruel que Jason e mais sanguinário que Jigsaw", É Mole?! hahahahaha!!
Os únicos destaques positivos ficam para o elevado nível de violência e os efeitos especiais que na maioria das vezes consegue balancear os efeitos
"clássicos" e CGI sem parecer tosco, mas não posso afirmar até que ponto esta é uma qualidade que deve ser atribuída ao próprio Boll ou se trata da influência de Olaf Ittenbach, que também foi o responsável pelos efeitos e cujas produções próprias têm nestes dois pilares seus principais méritos.


Porém mesmo estas qualidades sofrem com os excessos de Boll, como por exemplo, na melhor cena do filme (e a única realmente boa), onde uma senhora
"randômica" é amarrada numa cadeira e Seed aos poucos vai tirando a vida dela com um martelo de carne - ele começa batendo devagar e gradativamente vai aumentando a força até que a mulher fique totalmente irreconhecível. Seria impecável não fosse esta seqüência gratuita se arrastar por quase 5 minutos (contados) até que estejamos cansados (no sentido tedioso da palavra) de ver sangue e reparando no que foi feito em computador.



Como eu disse no começo do texto, eu tento assistir aos filmes de Uwe Boll na maior boa vontade, sem perseguição antes da hora, mas invariavelmente ao fim, se há alguma coisa sobre eles que vale a pena exaltar, são os termos inventivos que os críticos usam para descreverem porcarias como essa. E mesmo assim para a nossa tristeza, em vez de criar vergonha na cara, se assumir e fazer filmes melhores (ou se aposentar para o bem da raça humana) Boll prefere desafiar seus detratores para lutas de boxe... Opa, acho que é melhor eu ficar por aqui então... hehehehe...
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SEED - ASSASSINO EM SÉRIE (Seed, EUA, 2007). Duração: 90 minutos
Direção: Uwe Boll
Roteiro: Uwe Boll
Produção: Uwe Boll; Dan Clarke; Shawn Williamson
Fotografia: Mathias Neumann
Música: Jessica de Rooij
Maquiagem: Nicholas Podbrey
Direção de Arte: John Alvarez
Efeitos Especiais: Olaf Ittenbach; John Sleep
Efeitos Visuais: Adam Stern
Edição: Karen Porter
Elenco: Michael Paré (Detetive Matt Bishop); Will Sanderson (Max Seed); Ralf Moeller (Arnold Calgrove); Jodelle Ferland (Emily Bishop); Thea Gill (Sandra Bishop); Andrew Jackson (Dr. Parker Wickson); Brad Turner (Larry Thompson); Phillip Mitchell (Policial Simpson); Mike Dopud (Flynn); John Sampson (Oficial D. Ward); Tyron Leitso (Jeffrey); Michael Eklund (Carrasco); Don S. Davis (Davis)
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