SEE NO EVIL

por Gabriel Paixão

"Um típico slasher a moda antiga, mas com um toque de modernidade".

Existe uma velha máxima que diz que "de onde menos se espera é onde não aparece nada mesmo". Pois este ditado não se aplica a SEE NO EVIL, um slasher bacanudo que foi injustamente recebido com uma certa frieza pela critica na época de seu lançamento nos Estados Unidos e que aguardamos uma estréia no Brasil.
O primeiro motivo que nos faz desconfiar de SEE NO EVIL é o fato de ser um lançamento da Lions Gate, a mesma distribuidora de JOGOS MORTAIS, o que significa que poderíamos ter uma cópia sem vergonha e sem personalidade de um dos filmes mais cultuados dos últimos anos. O resultado, como veremos mais tarde, é que isso é só uma meia verdade. A produtora é o segundo motivo: a World Wrestling Entertainment (WWE), como o nome acusa, é especializada em produções de luta livre fake que esta mais pra comédia do que pra qualquer coisa e garante a presença de mais um ator-lutador de talento duvidoso no cinema.
E finalmente a equipe técnica com o diretor Gregory Dark, co-fundador da produtora de filmes pornôs Dark Brothers, cujo maior sucesso foi o pornô-cult
New Wave Hookers com Traci Lords e Ginger Lynn, e que tem o roteiro assinado pelo iniciante Dan Madigan, tinha tudo para dar errado. Pois não deu e apesar dos pesares é um filme que você pode colocar todos os defeitos, menos que é lento e chato, o que em um ano em que tivemos filmes como STAY ALIVE é uma boa coisa.



A história é básica: Frank Williams (Steven Vidler) era um policial de patrulha que foi fazer uma batida em uma casa do subúrbio, porém mal sabiam ele e seu parceiro que aquele local era o reduto de um perigoso serial killer que tem por fetiche arrancar os olhos de suas vitimas com suas longas e sujas unhas. Ao encontrar uma garota ainda viva, mas sem os olhos, o assassino aparece e mata o parceiro de Frank. O assassino então, tenta dar cabo de Frank também, entretanto "apenas" arranca o seu braço antes que o policial revide com um tiro, fazendo o maníaco cair desacordado.

Frank é resgatado e quatro anos depois, nos dias de hoje, é um agente penitenciário que foi incumbido de levar oito condenados, quatro homens e quatro mulheres para um velho hotel abandonado depois de um incêndio vinte anos atrás, a fim de realizarem serviços comunitários por um fim de semana e reduzirem suas penas.



Sobre os tais delinqüentes não são muito diferentes de vitimas habituais de slashers: tem a gostosa vadia, a mulher-macho, o bandido FDP que só sacaneia todo mundo, o branquelo cagão... Só faltou mesmo o gordinho tarado e o maluco gozador, ainda bem que neste aqui não tem, hehehe...

Pois então, tudo começa muito bem no hotel, até que um deles tem a brilhante idéia de vasculhar os andares superiores em busca de um tal "tesouro perdido" no incêndio. É aí que o troglodita aparece e com seu gancho amarrado em uma corrente arrasta o rapaz para o elevador.



O cenário está armado, a desculpa para colocar o gigantesco assassino em ação está feita e começa mais um slasher: com correria, algumas cenas de nudez, muita burrice e esse tipo de coisa. De vez em quando aparecem alguns flashbacks tentando colocar uma certa motivação nos atos do matador - isso é bom porque isto o torna um pouco mais do que uma máquina de matar sem sentido (sim, eu estou falando de Jason) e humaniza o vilão.
O filme começa muito mal, porque na introdução dá aquele ar de ser um filme sujo, monocromático, com edição e direção tentando copiar suas maiores referências, JOGOS MORTAIS e HOSTEL, o que já está virando clichê, mas até aí tudo bem. Só que em toda a seqüência da transferência dos prisioneiros para o hotel, onde conhecemos nossas vitimas, o diretor tenta colocar Hip-Hop na trilha sonora e vários ângulos de visão que nos remetem ao seriado OZ, e não a um Slasher.

Chegando ao hotel, aquele ar sujo retorna, mas não dá para não fazer comparações mentais com aquelas referências que são indiscutivelmente muito mais envolventes e mais inspiradas do que SEE NO EVIL, a coisa só engrena de verdade quando o matador começa o seu trabalho.

Outro problema é um defeito recorrente na maioria dos slashers: alta previsibilidade.
Quem esteve vivo nos últimos 25 anos, já conhece toda a história só de ver os personagens; não que eu esteja exigindo reviravoltas surpreendentes, mas podia sim ter pelo menos algumas partes anticlichê que renderiam um resultado final bem melhor para a produção.
Ao meu ver a caracterização dos personagens principais foi um erro também: são oito condenados pela justiça, alguns com crimes graves como tráfico de drogas, só um policial de guarda, que ainda por cima não tem um braço, e só um deles individualmente tenta fugir? E pior, alguns se portam como se estivessem em férias no hotel, embora os atores não sejam todos ruins. Fico pensando que se fosse uma galera do PCC, o vilão da história seria outro, hehehe... Isso sem falar que as presidiárias são todas atraentes e gostosas, não que eu esteja reclamando, é claro.
Entretanto, tudo isso não importa muito quando estamos falando de um slasher e os pontos positivos são muito mais fortes, com todo o destaque indo para o grandalhão serial killer Jacob Goodnight "interpretado" pelo famoso lutador de luta livre Kane, cujo nome real é Glen Jacobs: Ele é grande, sujo, feio, malvado, impiedoso e usa métodos práticos e dolorosos para matar, resumindo, excelente. Inclusive existe uma cena que me deixou particularmente transtornado e vai te fazer nunca mais esquecer de desligar o celular quando entrar no cinema...
É ai, quando Kane aparece, que a direção enérgica de Gregory Dark, a fotografia escura e suja de Ben Nott e a edição caótica de Scott Richter ganham força e o filme passa de um quero-ser-JOGOS-MORTAIS para um slasher veloz, dinâmico e porque não dizer, interessante e até um pouco tenso - por tanto não me admiraria nada se futuramente SEE NO EVIL virasse uma franquia.

Não será o próximo candidato ao Oscar, também não acrescenta nada ao gênero, porém é uma boa pedida para quem quer deixar um pouco de lado o atual cinema-pretensão e busca apenas 84 minutos de diversão rápida e rasteira.



Gabriel Paixão

SEE NO EVIL (See No Evil , EUA, 2006). Duração: 84 minutos.
Direção: Gregory Dark
Roteiro: Dan Madigan
Produção: Joel Simon
Produção Executiva: Peter Block; Matt Carroll; Vince McMahon
Fotografia: Ben Nott
Música: David Banner; Tyler Bates; James Root
Edição: Scott Richter
Desenhos de Produção: Michael Rumpf
Maquiagem: Lynne O'Brien; Lisa Sheehan
Direção de Arte: Adam Head
Efeitos Especiais: Craig Clarke; Jason Bath; Andrew Hellen; Nicola Scarrott; Andreas Wanda; Martin Wiseman
Elenco: Glen Jacobs (Jacob Goodnight); Christina Vidal (Christine); Michael J. Pagan (Tyson); Steven Vidler (Frank Williams); Samantha Noble (Kira); Penny McNamee (Melissa); Craig Horner (Richie); Tiffany Lamb (Hannah Anders); Luke Pegler (Michael); Cecily Polson (Margaret); Rachael Taylor (Zoe); Sam Cotton (Jovem Jacob); Corey Parker Robinson (Blaine); Annalise Woods; Zoe Ventura; Tim McDonald; Trent Huen; Matthew Okine; Jason Chong; Greg Skipper; Mikael Wilder

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