Esta fala do caçador Joe Taylor resume todo o filme: um alienígena que caça seres humanos nas montanhas e florestas, sem outra intenção senão a de caçar por esporte. Parece que estamos falando de "Predador" (Predator, 1987), aquele filmezinho genial estrelado por Arnold Schwarzenegger, que gerou uma seqüência, "Predador 2" (Predator 2, 1990) e um crossover com um outro alienígena de franquia, "Alien vs Predador" (Alien vs Predator, 2004). Mas não, trata-se de "Sem Aviso" (The Warning, 1980), filme que recebeu vários títulos alternativos, como Without Warning, It Came Without Warning e Alien Warning. Um obscuro, ótimo e divertido terror sci-fi trash, feito numa época em que filmes desse tipo estavam meio em baixa, apesar de sucessos recentes de filmes como "Alien, o 8o. Passageiro" (Alien, 1979). O que estava atraindo o público mesmo era o slasher, ainda mais popularizado no ano seguinte, com uma enxurrada de filmes do gênero. Tanto que o cenário de "Sem Aviso" é uma floresta com um lago, próximo a um vilarejo de caçadores caipiras, cenário ideal de um outro conhecido slasher movie que virou franquia.
Mesmo um tanto ignorado, há vários detalhes interessantes que tornam este filme uma diversão garantida. A começar pela dupla de atores, Jack Palance (Drácula 1973) e Martin Landau (das saudosas séries de TV Missão Impossível e Espaço 1999, além de interpretar Bela Lugosi, no genial "Ed Wood, de Tim Burton, em 1994), ambos dão um show de interpretação, fazendo do filme um pequeno clássico do gênero ficção-terror. Dirigido e produzido por Greydon Clark com segurança (ele chegou a atuar como figurante em "Satan's Sadists", em 1967, de Al Adamson e "Dracula vs Frankenstein", de 1971), o filme garante um bom suspense e alguns sustos, ideal para divertir crianças e marmanjos numa tarde chuvosa e escura de sábado.

Além disso, o filme conta com um ótimo diretor de fotogragia, Dean Cundey, que trabalhou em filmes como "
Halloween", "
Halloween II", "
O Enigma de Outro Mundo" (The Thing, 1982), "
Psicose 2" (Psycho 2, 1983) e "
Parque dos Dinossauros" (Jurassic Park, 1993), trabalhou em "
Sem Aviso" entre as filmagens de "
A Bruma Assassina" (The Fog, 1979) e
"Fuga de Nova York" (Escape from New York, 1981).
Deu pra sentir a influência de John Carpenter na vida do rapaz? Sem contar a trilha sonora de Dan Wyman, que também é visivelmente influenciada pelas composições de Carpenter. Isto tudo talvez compense o fato do roteiro ter sido escrito por quatro pessoas (?), Lyn Freeman, Daniel Grodnik, Steve Mathis e Ben Nott, o que poderia fazer do filme uma tremenda bagunça diante da enxurrada de influências. Mas isso não acontece; "
Sem Aviso" é um trash sim, mas um ótimo trash. Daqueles que divertem com um suspense sério, sem humor negro ou besteirol. Tem gente que compara o filme com o clássico "
Sexta-Feira 13", este é de 10/05/1980, enquanto "
Sem Aviso" é de 26/11/1980, segundo o NNDB.
No começo do filme, a câmera passeia por uma vegetação seca, próxima a um riacho, até que um caçador (Cameron Mitchell, de
"The Toolbox Murders", um excelente ator mas que só fez esta ponta no início) aparece em cena. Ele vai até o seu motor-home, acordar Randy, seu filho. Randy é um típico rapaz urbano (ele estranha até o gosto da água do riacho), oposto de seu pai (um caçador casca-grossa), ele detesta armas e caçadas, dando preferência aos livros. Pai e filho estão juntos nesse fim de semana para tentar uma aproximação, uma compreensão mútua, pois é visível a distância entre ambos. Seu pai é turrão demais, ele acredita que homem que é homem anda armado e caça, enquanto que ficar lendo livros é coisa de viado. Bom, ler é o que Randy mais gosta de fazer, tanto que ele traz vários livros em sua mochila. Os dois acabam se desentendendo e o pai vai caçar sozinho, enquanto Randy descarrega seu rifle e volta a seus livros, sendo observado pelo pai a distância que, decepcionado, chega a fazer mira sobre o filho, como se quisesse matá-lo. É quando uma estranha e pequena criatura chega voando (dá até pra ver os fios que a seguram) e gruda no pescoço do caçador, enfiando suas garras nele (o legal é que além do sangue da vítima, as criaturas soltam uma gosma amarela, ficando igualzinho a ketchup com mostarda). Quando Randy vê seu pai morrendo, tenta pegar a espingarda, descarregada, e várias criaturas voam em sua direção.

Na cena seguinte, um casal, Tom (David Caruso) e Beth (Lynn Theel), convidam seus respectivos amigo, Greg (Christopher S. Nelson), e amiga, Sandi (Tarah Nutter), para se conhecerem durante o fim de semana. Eles vão nadar num lago nas montanhas, no mesmo local onde se passou o ataque no início do filme. No caminho, param num posto de gasolina que até parece abandonado de tão largado, cheio de cabeças de animais caçados e empalhados nas paredes. É ali que mora Joe Taylor (Jack Palance) um velho caçador da região, que acaba avisando aos jovens para não irem ao lago, pois
"é temporada de caça, tem havido acidentes com estranhos por aqui". Ele parece saber da existência de algo nas montanhas.
Sandi lhe pergunta se foi ele quem caçou os animais na parede e por que fez isso. A resposta vem em forma de um sorriso nervoso e surpreso de Taylor:
"é um esporte, desde que você siga as regras". Sandi diz que não vê aquilo como esporte e que ela jamais mataria um animal.
"Depende do animal e de quem está caçando", diz Taylor,
"Além disso, não faço isto por esporte. Como o que eu mato. O esporte está no rastrear e no caçar, não em matar."
Os quatro tentam ir embora, mas são temporariamente impedidos por Taylor, que os adverte novamente sobre o perigo de irem ao lago. Eles dizem que não irão mais, mas é claro que é só para se verem livres dele.
Enquanto isso, um grupo de escoteiros/lobinhos caminha pelas montanhas, próximo ao riacho, comandados por um chefe (Larry Storch) atrapalhado e perdido (sua bússola não funciona), dizendo ainda para os meninos terem cuidado com as cascavéis
"pois elas tem germes" (brilhante conselho para crianças ficarem longe de cobras!). Dispensando a turma, o chefe se afasta do grupo para procurar ajuda e acaba encontrando o motor-home do pai de Randy. Ele ouve um ruído no mato e vai até lá e vê o livro e a espingarda de Randy no chão. Outras daquelas criaturas voadoras aparecem e grudam nas costas do escoteiro. Os garotos, que brincavam próximo ao riacho, dão de cara com algo e fogem. Só aparece uma sombra, não se sabe se o que viram foi o chefe deles, moribundo, ou uma criatura alienígena. Enquanto fogem, aparece o furgão dos dois casais de amigos ao longe, indo em direção ao lago.

Quando chegam lá, logo tiram as roupas e tomam banho. Tom e Beth, namorados há tempo, começam a se agarrar, fazendo com que Greg e Sandi, que acabaram de se conhecer naquele dia, se afastem envergonhados para dar um volta e deixar os amigos a sós. Eles caminham pela floresta, conversando e tentando se conhecerem melhor. Quando voltam, não encontram Tom e Beth. Uma hora de espera depois, ambos decidem voltar à floresta e procurá-los, antes que escureça. Na busca, encontram uma barraca do Departamento de Água da região. Quando entram, encontram os corpos de seus amigos, do chefe dos escoteiros, de Randy e seu pai, todos empalados na parede, como se fossem os animais empalhados na casa do caçador Taylor. Há algumas cenas interessantes aqui, como um cadáver sem um olho, com aquela gosma que parece mostarda amarela pingando de dentro de sua cabeça.
Greg e Sandi correm desesperados do local. Já estava quase anoitecendo. Conseguem chegar ao furgão, quando uma daquelas criaturas voadoras gruda no vidro do carro, mostrando seus dentes e garras. Algo tenta entrar pela porta de trás do furgão, mas eles conseguem ligar o veículo e fugir.
O primeiro lugar que encontram para pedir ajuda é um bar, cheio de matutos e caipiras da região. Enquanto Sandi fica no furgão, Greg vai até lá pedir ajuda. É claro que eles não acreditam logo de cara. Dá até raiva vendo Greg tentando contar o que houve e os caipiras, muito tranqüilos, pedindo para ele se acalmar e contar com mais detalhes o que aconteceu. Pelo jeito, eles adoram ouvir uma boa história de caçador.
Lá fora, Sandi vê o alienígena, mostrado apenas através de sua sombra no furgão. Ela se assusta mas, ao invés de entrar no bar, foge para o mato, até topar com Taylor.
Enquanto isso, Greg perde seu tempo contando pela décima vez o que aconteceu. É quando um sujeito que estava jogando sinuca no fundo do bar decide entrar na conversa. Sarge (Martin Landau) é um sargento aposentado, veterano do Vietnã, um paranóico que vive contando histórias sobre invasões alienígenas e discos voadores. Quando os caipiras perguntam a Sarge se Greg é seu amigo, fica claro que eles não acreditaram numa vírgula da história de Greg. Sarge, popularmente tido como louco e desacreditado por todos, pergunta a Greg se ele também viu
"as pequenas criaturas voadoras". Quando o único cara que acredita em você é o maluco da região, sua situação não deve ser das melhores! Sarge é o único que acredita em Greg, ambos vão ao furgão buscar Sandi, mas não a encontram. Greg tenta ir à floresta procurar por ela, mas é impedido por Sarge que diz que
"é no escuro que eles costumam atacar". Sinal de que conhece as criaturas.
Todos voltam ao bar, onde o clima de paranóia fica carregado, principalmente com as coisas que Sarge conta.
"Eles começam aqui, no campo. Instalam uma base. E após nos pegarem, vão para as cidades". Landau, aliás, está ótimo no papel do maluco paranóico que vê alienígenas disfarçados de humanos em tudo quanto é canto, sempre temendo por uma invasão de Ets. Grande parte dos sci-fi dos anos 50 tinham esta temática, tais como "
Vampiros de Almas" (Invasion of the Body Snatchers, 1956). Sarge parece mais um veterano da guerra fria dos anos 50 do que do Vietnã.

A dona do bar finalmente liga para a polícia, mas o xerife irá demorar por estar procurando um grupo de lobinhos desaparecidos. Joe Taylor entra no bar, carregando uma desmaiada Sandi no colo. Ela acorda e conta que viu uma criatura enorme lá fora. Taylor pergunta a eles se encontram
"o barraco onde ele guarda os corpos". De repente, as luzes se apagam e a energia é cortada. Sarge começa a ficar ainda mais nervoso, enquanto os caipiras dizem que é comum haver falta de energia na região. Há muita tensão no ambiente, provocado por Sarge, quando o xerife entra pela porta do bar, sendo atingido por um tiro de Sarge, que o confunde na escuridão com um alien. Ele começa visivelmente a enlouquecer, tendo flashbacks do Vietnã e perdendo a noção da realidade, dizendo que atirou por engano e que tudo aquilo é culpa de Greg, apontando a arma para o rapaz. Taylor domina Sarge e tira sua arma, levando Greg e Sandi do bar.
Na saída, Taylor encontra uma das criaturas voadoras grudada numa coluna de madeira, matando ela e colocando-a no bolso. No entanto, quando o casal de amigos pensam que serão levados para a cidade mais próxima, Taylor insiste para que eles o levem ao barraco onde estão os corpos. Parando em sua casa no caminho, Taylor põe a criatura que estava em seu bolso num vidro com formol e pega seu rifle de caça. De volta ao carro, ele mostra a Greg e Sandi uma cicatriz em seu braço, dizendo que uma vez ele foi atacado pelas criaturas. Como ninguém acreditou nele na época, Taylor decidiu caçar o alienígena por conta própria, parar de contar histórias por aí antes de ser tido como louco.
Quando chegam ao barraco, Taylor entra e encontra os corpos mutilados, revelando-se tão louco e obcecado quanto Sarge, mas de forma diferente (o legal é quando se assiste o filme pela segunda vez, percebendo que Taylor já era louco desde o início). Enquanto Sarge é veterano de guerra e vê o perigo de uma clássica invasão de discos voadores, com alienígenas disfarçados de seres humanos, Taylor percebe que o alien é apenas um caçador, um predador como ele (
"é aqui que ele guarda a comida" diz ele). Ambos foram atacados pela criatura e ficaram obcecados por ela, com cada um tentando provar ao outro que a sua loucura é que é a verdadeira. Ou seja, deixa-se entender que a criatura já visitava aquela região para caçar, há muitos anos atrás.
Com isso, uma das criaturas voadoras gruda em sua perna, derrubando-o. Greg e Sandi fogem, chegando até a rodovia, quando encontram um carro da polícia e entram nele. Só que o carro era dirigido pelo paranóico Sarge, que roubara o carro do xerife ferido por ele no bar. O sujeito tinha despirocado de vez, acreditando que Greg e Sandi eram alienígenas disfarços de humanos e que eles é quem tinham matado as pessoas no barraco. Ele os ameaça com a arma, levando-os a um local afastando, pedindo para que contem sobre
"a invasão". Percebendo que não há como dialogar, Greg inventa um história absurda de invasão marciana com colônias na Terra, desenhando um esquema no chão, distraindo Sarge que, agora sim, acredita em tudo que ele está dizendo (o sujeito é muito muito louco meeeesmo!). Greg aproveita para jogar areia em Sarge e fugir com Sandi. De forma idiota, ambos voltam à estrada, só para serem perseguidos de novo por Sarge. Como estavam sob uma ponte, os dois pulam na água e se livram do maluco.

Enquanto isso, Taylor consegue escapar das criaturas e voltar à sua casa, carregando um conjunto de explosivos para dinamitar todo o local onde está o barraco.
Greg e Sandi encontram uma grande casa de campo, aparentemente vazia. Eles entram e tentam usar o telefone, que não funciona. Decidem que ali dentro é mais seguro do que lá fora. Aproveitam para trocar as roupas e descansar. Enquanto Sandi dorme, Greg ficou vigiando a casa. Sandi acorda assustado com um pesadelo e vai procurar pelo amigo, encontrando-o sentado num sofá, morto, com uma criatura daquelas grudada em seu rosto. Com o susto, Sandi esbarra na lâmpada no teto e ela balança, iluminando a escuridão no fundo da sala e mostrando o alienígena pela primeira vez, numa cena arrepiante. Para saber como ele é basta olhar a capa do DVD: alto, magro, cabeçudo, azul, vestido com algo parecido com uma rede em trapos, uma roupa de camuflagem. Nada tão estilizado como o "
Predador" de 1987, lembrando mais um monstro trash, inspirado nos alienígenas da década de 50 com os recursos de maquiagem do final dos 70, pelo menos sem roupa de borracha.
Sandi foge, escondendo-se num depósito fora da casa. O alien tenta pegá-la, sendo salva por Taylor, que atira na criatura. Ele, no entanto, leva Sandi até o barraco com os corpos, dizendo que
"estamos sendo caçados". Sua idéia é deixar que o alien os siga até o barraco e explodir o lugar. É neste ponto que ele diz para Sandi a linha de diálogo que usei no começo do artigo:
"Aquela coisa não luta para sobreviver. Não é uma invasão. Aquele ser veio para cá por esporte. Ele quer alguns troféus. Neste momento, nós somos o prêmio!", mas o que a criatura não sabe, completa ele, é que ele também está caçando a criatura.
Chegando no local onde está o barraco, encontram Sarge que os ameaça de novo, pois agora ele acredita que também Taylor é um alienígena disfarçado. Não adiantou dizer que eram humanos e amigos, Sarge continua vivendo em sua fantasia paranóica. Enquanto os dois lutam, o alienígena aparece próximo ao barraco. Sarge vai até lá, depois de tantos anos obcecado pela criatura, mas fica em choque, sem conseguir atirar nela. O alien então joga aquelas criaturas em Sarge, matando-o. Aqui, vemos com clareza como o alienígena caçador ataca: as pequenas criaturas voadoras é que são suas armas! Enquanto o "
Predador" de 1987 usa armas de raios e facas afiadas, este predador trash de 1980 usa armas vivas.
Como a criatura não está tão próxima do barraco, Taylor atira nela. Seu sangue amarelo espirra longe, mas ele logo se cura, apenas colocando a mão sob o ferimento. Ela joga mais de suas armas vivas contra Taylor que, acuado, decide correr e entrar no barraco, atraindo a criatura, enquanto Sandi puxa o detonador, explodindo o lugar.
Este é o filme. Não há efeitos especiais mirabolantes como os do "
Predador", mas o suspense é ótimo, garantido pela boa atuação de Palance e Landau, os quais, apesar de já famosos na época, toparem participar desse filme de baixo orçamento, totalmente B, sem grandes efeitos gore, e uma certa mistura dos subgêneros ficção e slasher movie (muito disto, talvez, pela influência de Dean Cundey, que trabalhou em vários slashers da época, com seus movimentos de câmeras e alternâncias entre claro e escuro). Além de ser divertido ver um filme destes, feito em 1979/1980, com os atores usando as roupas e penteados da época. Nos EUA, já foi lançado em DVD, enquanto aqui no Brasil só há a versão em VHS, lançada pela América Video no início da década de 90.
Roberto Marcelo Caresia
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SEM AVISO (The Warning, EUA, 1980) lançando no Brasil em VHS pela América Video
Direção: Greydon Clark
Roteiro: Lyn Freeman, Daniel Grodnik, Steve Mathis e Ben Nott.
Produção: Greydon Clark
Música: Dan Wyman
Fotografia: Dean Cundey
Edição: Curtis Burch
Efeitos Especiais e Maquiagem: Greg Cannom e Jack Buehler
Elenco: Jack Palance (Joe Taylor), Martin Landau (Sarge / Fred Dobbs), Tarah Nutter (Sandi), Christopher S. Nelson (Greg), Cameron Mitchell (caçador), Larry Storch (o chefe dos escoteiros), David Caruso (Tom), Lynn Theel (Beth), Darby Hinton (Randy), Kevin Hall (o alienígena).
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