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Presença garantida nas sessões da tarde dos anos 80, "As Sete Faces do Dr. Lao" é um destes filmes que não se fazem mais. Ou talvez destes que se fazem somente com o passar dos anos. Tão enigmático quanto elementar, o filme se desdobra, e mesmo sendo supostamente destinado ao público infantil, agrada as crianças e aos marmanjos.
A fábula começa quando o circo do "Dr. Lao", um simpático chinês de 7322 anos, chega à cidade de Abalone, no Arizona. O misterioso Dr. Lao encontra uma população atormentada e ameaçada pelo inescrupuloso rancheiro Clint Stark, que deseja comprar “à força” todos os imóveis do local. O circo chinês traz “atrações únicas, nunca vistas antes” que causam um enorme alvoroço na empoeirada cidadezinha.
Mas o problema de Abalone não é apenas o rancheiro Stark. Na verdade grande parte da população está contaminada por valores morais distorcidos. |
Apenas Ed Cunningham, repórter de um pequeno jornal, mostra-se um homem de bom coração. Ed é apaixonado por Ângela Benedict, uma bibliotecária viúva que se afastou dos homens após a morte do marido. Ele dedica sua carreira a defender o povo, enfrentando o poderoso Stark e denunciando os seus podres.


Mas o que acontece nos dias seguintes acaba mudando o destino de todos. Nas apresentações do circo, sem que ninguém sequer desconfie, o mágico chinês se multiplica em personagens pra lá de curiosos: o bruxo Merlin, o vidente Apolônio de Tiana, o deus da diversão Pan, a mitológica Medusa (que só é vista através do espelho), uma cobra falante que reflete as imperfeições das pessoas e o Abominável Homem das Neves.
O que poucos percebem é que as maravilhas do Dr. Lao são criadas a partir dos sentimentos e dos problemas dos moradores de Abalone. O circo é na verdade uma espécie de espelho, onde as pessoas enxergam a verdade. O misterioso mágico usa os seus personagens para mudar as vidas das pessoas. Por exemplo, quando ele se transforma no mitológico Pan, sua flauta hipnotiza Ângela Benedict, despertando em seu frio coração o amor e os desejos adormecidos. A cada atração, uma pessoa tem seu destino modificado pelo
“Dr. Lao”.
Com roteiro de Charles Beaumont inspirado no livro de Charles G. Finney, “
As Sete Faces do Dr. Lao” foi o último trabalho do cineasta George Pal, conhecido pela direção do clássico
"A Máquina do Tempo" (1960). O elenco conta com Tony Randall (num papel que inicialmente teria sido oferecido a Peter Sellers) interpretando o misterioso
“Dr. Lao” e as suas atrações, Barbara Edem (a imortal
"Jeannie é um Gênio") no papel da mocinha e Arthur O'Connell (de “
Viagem Fantástica”) como Clint Stark.


Produzido numa época em que os computadores eram objetos de ficção científica (o filme é de 63),
"Dr. Lao" é um debute visual, cujos efeitos em stop motion de Jim Danforth renderam uma indicação ao Oscar de Efeitos Especiais (quem levaria a estatueta em 1964 seria o filme da Disney
“Mary Poppins”).
“Dr. Lao” acabou levando apenas o prêmio honorário (para uma categoria que não existia) de melhor maquiagem, pelo trabalho de John Tuttle. Na história do Oscar, somente outro filme levaria um prêmio semelhante: “
O Planeta dos Macacos”, quatro anos depois. Ainda que hoje pareçam um tanto ultrapassados e deliciosamente ingênuos, tanto os efeitos quanto a maquiagem continuam sendo um dos pontos altos em “
As Sete Faces do Dr. Lao”.
Embora considerado um clássico do cinema fantástico hoje, “
As Sete Faces do Dr. Lao” foi uma grande decepção nas bilheterias na época de seu lançamento. O publico não entendeu o visual meio bizarro do filme, onde as atrações do Dr. Lao aparecem sempre ameaçadoras. Afinal era um filme infantil, não era?


Infelizmente as distribuidoras brasileiras não se interessaram por “
As Sete Faces do Dr. Lao” e o filme permanece inédito em DVD por aqui (portanto não é pecado se você conseguir uma cópia pela internet). Lá fora a
Warner lançou uma versão digital contendo apenas um disco, com trailer e um mini-documentário sobre os efeitos de maquiagem do filme chamado
"William Tuttle: King of the Duplicators".
Assustador, engraçado, filosófico, inteligente e cativante, “
As Setes Faces do Dr. Lao” esbanja diversão e filosofia. E merece uma conferida, antes que inventem uma refilmagem e estraguem toda a magia do original.

Leia um trecho onde a senhora Cassan, moradora de Abalone, vai ao encontro de Apolônio de Tiana, uma das personagens do Dr. Lao:

Diz o anúncio do circo do Dr. Lao:
“... haverá um adivinho... protegido pelo véu do mistério... profecias invariavelmente exatas...”.
A viúva Howard T. Cassan chegou ao circo, pagou sua entrada e sentou-se para escutar seu futuro. Apolônio de Tiana avisou-a de que ela ficaria desapontada.
- Não hei de ficar, se o senhor me disser a verdade – disse a senhora Cassan.
– O que desejo saber, antes de mais nada, é quando vai jorrar petróleo naquele meu alqueire no Novo México.
- Nunca – respondeu Apolônio.
- Bem... então, quando vou me casar outra vez?
- Nunca.
- Muito bem. Que espécie de homem vai surgir em minha vida?
- Não haverá mais homens em sua vida – disse o vidente.
- Bem, então do que me adianta viver, se não vou ficar rica, não vou me casar outra vez, nem vou conhecer novos homens?
- Não sei - confessou o vidente
– Só leio o futuro. Não o julgo.
- Bem, eu paguei. Leia meu futuro.
Leu então Apolônio de Tiana:
- Amanhã será como ontem e depois de amanhã como anteontem. Vejo o resto dos seus dias como uma tediosa coleção de horas. A senhora não viajará a nenhum lugar. Não terá pensamentos novos. Não experimentará nenhuma nova paixão. Sua idade aumentará, mas não sua sabedoria. Crescerá seu formalismo, mas não sua dignidade. A senhora não tem na juventude, daquela curiosa simplicidade que no passado atraiu alguns homens, nada resta, nem a senhora as poderá reconquistar. As pessoas lhe falarão ou visitarão por pena ou solidariedade. Não porque a senhora tenha qualquer coisa a lhes oferecer. Já viu uma velha haste de milho que amarelece e definha, mas se recusa a morrer, na qual alguns passarinhos pousam de vez em quando, quase sem notar sobre o que estão pousados? Isso é a senhora. Não consigo imaginar qual seja seu lugar na organização da vida. Uma coisa viva deveria criar ou destruir, segundo sua capacidade ou capricho, mas a senhora não faz uma coisa nem outra. Vive a sonhar com coisas bonitas que gostaria que lhe acontecessem, mas que nunca acontecem; e imagina vagamente por que as jovens vidas ao seu redor, às quais ocasionalmente censura por uma suposta impropriedade, nunca lhe dão ouvidos e parecem fugir à sua aproximação. Quando a senhora morrer, será sepultada e esquecida, somente isso. Os agentes funerários a fecharão num ataúde à prova de vermes, com o que lacrarão, para a própria eternidade, a argila da sua inutilidade. A julgar por todo o bem e todo o mal, toda a criação e toda a destruição que sua vida pudesse haver provocado, a senhora poderia perfeitamente jamais ter existido. Não vejo propósito em tal vida. Só vejo nela um desperdício chocante, vulgar.
- Eu entendi o senhor dizer que não julgava vidas – disse a senhora rispidamente.
- Não estou julgando. Estou apenas divagando. Hoje, por exemplo, a senhora está sonhando em achar petróleo num alqueire de terra que possui no Novo México. Não existe petróleo lá. A senhora sonha com um homem alto, moreno e belo que venha a cortejá-la. Não virá homem algum, nem moreno, nem alto, nem de qualquer espécie. No entanto, a senhora continuará a sonhar, apesar do que lhe digo. Continuará a sonhar durante a pequena ronda de suas horas, costurando, balançando-se, mexericando e sonhando. E o mundo gira, gira, gira. Crianças nascem, crescem, casam-se, adoecem e morrem, mas a senhora fica em sua cadeira de balanço, cose, mexerica e leva a vida. E a senhora tem voz ativa no governo, e um número suficiente de pessoas votando igual poderia mudar a face do mundo. Há algo terrível nessa idéia. Mas sua opinião pessoal sobre qualquer assunto no mundo é absolutamente desprezível. Não, não consigo atinar com a razão da sua existência.
- Não lhe paguei para atinar com coisa alguma. Diga apenas meu futuro e pronto.
- Estive dizendo seu futuro! Por que não ouve? Deseja saber quantas vezes ainda comerá alface ou ovos cozidos? Quer que eu enumere às vezes em que gritará bom dia para a vizinha sobre a cerca? Devo dizer-lhe quantas vezes mais a senhora comprará meias, irá à igreja, assistirá a filmes? Deverei fazer uma lista mostrando quantos litros de água a senhora ferverá no futuro para o chá, quantas combinações de cartas receberá no bridge, quantas vezes o telefone tocará nos anos que lhe restam? Deseja saber quantas vezes voltará a censurar o jornaleiro por não deixar o jornal no lugar que menos a irrita? Devo dizer-lhe quantas vezes mais a senhora se aborrecerá por chover ou deixar de chover, segundo seus caprichos? Devo calcular quantas moedas há de poupar regateando no mercado? Deseja saber tudo isso? Pois nisso, senhora Cassan, se resume seu futuro: fazer as mesmas coisas inúteis que tem feito nos últimos cinqüenta e oito anos. A senhora se defronta com uma repetição do seu passado, uma recapitulação dos algarismos na máquina de calcular de seus dias. Há apenas um algarismo brilhante, talvez: houve um pouco de amor em seu passado; mas não haverá nenhum em seu futuro.


- Bem, devo dizer uma coisa: o senhor é o adivinho mais estranho que já vi em minha vida.
- É minha cruz só ser capaz de dizer a verdade.
- O senhor já amou?
- Naturalmente. Mas por que a senhora pergunta?
- Há um fascínio estranho em sua franqueza brutal. Eu imagino uma moça, ou melhor, uma mulher experiente, lançando-se a seus pés.
- Houve uma moça, mas ela nunca se lançou a meus pés. Eu me lancei aos dela.
- O que ela fez?
- Ela riu.
- Ela o magoou?
- Sim. Mas depois disso nada me magoou muito.
- Eu sabia! Sabia que um homem com sua terrível crueldade mental devia ter sido ferido por uma mulher, em alguma época. As mulheres são capazes de fazer isso a um homem, não é?
- Creio que sim.
- Pobre homem, pobre homem! O senhor não é muito mais velho do que eu, não é? Eu também fui magoada. Por que não poderíamos ser amigos, ou mais que amigos, quem sabe, e juntos remendar os farrapos de nossas vidas? Acho que eu seria capaz de compreendê-lo, consolá-lo e tomá-lo sob meus cuidados.
- Minha senhora, eu tenho quase dois mil anos de idade, e sempre fui solteiro. É tarde demais para começar.
- Ah, como o senhor é engraçado! Eu adoro brincadeiras! Nós nos daríamos esplendidamente, os dois, tenho certeza!

- Sinto muito. Eu lhe disse que não haveria mais homens em sua vida. Não tente me fazer com que eu me desdiga, por favor. A consulta terminou. Boa tarde.
A senhora Cassan começou a dizer alguma coisa, mas não havia mais ninguém com quem falar. Ela sai da tenda. Lá fora encontra Luther e Kate.
- Querida – disse a senhora Cassan a Kate –
esse adivinho é o homem mais magnético que já vi. Vou falar com ele de novo hoje à noite!
- O que foi que ele disse sobre o petróleo? – perguntou Luther.
- Ah, ele me encorajou muitíssimo!!!
"O mundo inteiro é um circo
se você souber olhar para ele.
Como o sol se põe quando você está cansado
e nasce quando você levanta.
Isso é mágica de verdade.
O modo como uma folha cresce.
O canto dos pássaros.
Como o deserto fica à noite,
quando a luz da lua o envolve.
Oh, meu garoto...
isto é circo bastante para qualquer um.
Sempre que você vê um arco-íris
e seu coração se maravilha com isso.
Sempre que você pega um punhado de areia,
e não vê areia, mas sim um mistério,
uma maravilha em sua mão.
Toda vez que você pára e pensa:
Estou vivo, e estar vivo é fantástico!
Sempre que algo assim acontece,
você é parte do Circo do Dr. Lao."
(Dr. Lao, se justificando para um garotinho que pede para trabalhar no circo)
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João Pires Neto