RETURN TO CRYSTAL LAKE
25 ANOS DE "SEXTA-FEIRA 13"

por André Bozzetto Junior

Neste ano de 2005, um dos filmes mais bem sucedidos e influentes da história do cinema de horror está completando 25 anos de seu lançamento. Trata-se do slasher-movie norte-americano "Sexta-feira 13", dirigido por Sean Cunningham em 1980, e que acabou por originar uma das mais longas e rentáveis franquias do cinema, além de elevar o personagem do serial-killer Jason Voorhees ao status de ícone pop e ídolo de toda uma geração.



Atualmente, passados tantos anos de sua estréia, e com a avalanche de imitações e cópias fajutas que se sucederam através de toda a década de 80, e que inevitavelmente ajudaram a desgastar a sua fórmula, parece quase um consenso se dizer que "Sexta-feira 13" é o exemplo máximo no que se refere a filmes com roteiro tosco, atores canastrões e produção dúbia, que praticamente resume o seu tempo de duração apresentando uma sucessão de mortes sangrentas de tantos em tantos minutos. Na verdade, essa seria, a grosso modo, a própria definição do sub-gênero slasher-movie, e certamente "Sexta-feira 13", com todos os seus clichês, foi o grande referencial para o estilo.

Ademais, é impossível de se negar que, com todas as suas falhas e virtudes, "Sexta-feira 13" se tornou uma espécie de "instituição do horror" com uma legião de fãs que só cresce ao redor do mundo, como comprova o imenso número de sites, blogs e fotologs na internet dedicados a franquia, e mesmo a quantidade avassaladora de comunidades e respectivos membros em páginas de relacionamentos como o Orkut, que também cultuam o mito e o legado de Jason Voorhees. Infelizmente, o termo "instituição" parece coerente também ao lado comercial da franquia, que tem sido explorado a exaustão ao longo dos anos, através da concepção de todos os tipos de souvenirs, como camisetas, bonés, revistas-em-quadrinhos, bonecos, jogos de videogame, e todo tipo de tralha que se puder imaginar. Até ai, não haveria nada de mais, mas o pior é que, com o passar dos anos, os próprios filmes da série foram sendo elaborados de forma cada vez mais desleixada e sem critérios, o que, além de baixar muito o nível de qualidade da franquia, acabava por fazer dos episódios verdadeiros "caça-níqueis", cujo único objetivo passou a ser lucrar o máximo possível as custas da paixão dos fãs.



Porém, fazendo uma análise mais acurada, fica mesmo difícil esperar outra coisa de uma série que, desde sua concepção, foi elaborada única e exclusivamente com o objetivo de se ganhar dinheiro. Aqui não temos nada da crítica social de George Romero, do existencialismo de David Cronenberg, ou mesmo da passional homenagem aos "filmes B" de John Carpenter. Dinheiro, só isso parecia fazer sentido para Sean Cunningham e sua trupe naquele longínquo final da década de 70, onde a sua "obra-prima" começou a ser planejada. A maior prova disso é o conteúdo revelador do documentário "Return to Crystal Lake" disponível aqui no Brasil como parte dos extras existentes na versão nacional do DVD "Sexta-feira 13", lançado pela Warner.

Neste documentário, o diretor Sean Cunningham e o roteirista Victor Miller explicam, através de depoimentos, que os últimos filmes em que haviam trabalhado juntos, no final da década de 70, haviam sido grandes fracassos. Portanto, precisavam com urgência elaborar algo rentável para não irem definitivamente à falência. Na época o filme "Halloween", de John Carpenter, estava fazendo um enorme sucesso, e não tardou para que Cunningham e Miller decidissem fazer algo na mesma linha para aproveitar o embalo do sucesso alheio. Com a maior cara-de-pau, Miller diz que assistiu ao "Halloween" e basicamente redimensionou os pontos chaves do roteiro de Carpenter para elaborar a história de "Sexta-feira 13". O resultado não foi exatamente uma cópia, mas um filme que segue a mesma linha. Por sua vez, Sean Cunningham conta que conseguiu dinheiro com investidores externos e realizou o filme de forma independente. Para mim isso foi uma surpresa, pois sempre acreditei que a Paramount havia bancado a produção, mas não, ela só adquiriu o filme depois de pronto e o distribuiu.



Outro momento esclarecedor é quando Betsy Palmer, que interpretou a Senhora Voorhees, aparece dizendo que só aceitou participar do filme porque estava precisando de dinheiro para comprar um carro novo, e que ela acreditava que o filme não obteria nenhuma notoriedade. Essa declaração derruba outro mito, que dizia respeito ao fato de Betsy ter sido escolhida por Sean Cunningham para participar do filme por ser a única que tinha carro próprio para ir até as locações. Agora sabemos que isso não é verdade.

O documentário também traz informações muito legais, como o momento em que é mencionado o trabalho de Tom Savini com os efeitos especiais, destacando a engenhosidade utilizada na decapitação da Senhora Voorhees e na morte do personagem de Kevin Bacon. E por falar em Kevin Bacon, a sua participação no filme também é destacada por Cunningham e Miller, que não escondem certo orgulho por ter no elenco um nome hoje reconhecido mundialmente pela participação em filmes como "Ecos do Além", "O Homem sem Sombra", "Linha Mortal", e o ganhador de vários Oscar "Sobre Meninos e Lobos".

Harry Manfredini, o compositor da clássica música-tema, também aparece falando como criou a composição que hoje é marca registrada da série, e explica que o famoso som que uns dizem ser "tchi, tchi, tchi...ah, ah, ah" e outros representam como "kill, kill, kill...go, go, go" é na verdade uma contração usando partes da frase "kill her, mother", pronunciada pela Senhora Voorhees durante o filme, e que portanto seria "ki, ki, ki...ma, ma, ma".



Na minha opinião, o ponto alto do documentário é quando Miller conta que a aparição de Jason, saindo do lago no final do filme, não estava no roteiro, e só foi criada por que Cunningham achou que um "susto final" tornaria o filme mais cativante. O próprio visual de Jason foi inteiramente sugerido e criado por Tom Savini, já que nem o roteirista e nem o diretor haviam pensado inicialmente em concebê-lo como um garoto deformado. Sean Cunningham também afirma que, quando uma seqüência para o filme foi sugerida, ele achou muito estúpida a idéia de aproveitar Jason como personagem central, e que isso só aconteceu por pressão dos executivos. Portanto, quem diria, o serial-killer mais famoso do cinema foi concebido de última hora, quase ao acaso. Incrível.

Mas curiosidades à parte, o que fica mesmo é a certeza de que, para os seus criadores, "Sexta-feira 13" não passou de um produto, elaborado para encher os seus bolsos de dinheiro. Nesse sentido, o objetivo foi plenamente alcançado, pois vemos no documentário recortes de jornais e listas de bilheterias dando conta que o filme lucrou muitos e muitos milhões, superando todas as expectativas. Certamente, por tudo que mencionei até aqui, "Return to Crystal Lake" é um prato cheio para os detratores da série, pois subsídios para falar mal de Cunningham e companhia não faltam. E convenhamos, com razão.



Para finalizar, quero falar agora na condição de fã, até para quem ninguém pense que escrevi esse artigo com a intenção de denegrir ainda mais a imagem já um tanto deturpada da série. Na verdade, a minha intenção inicial era aproveitar a ocasião em que se comemora os 25 anos do "Sexta-feira 13" original para escrever um artigo em homenagem a série, uma vez que me considero um fã de carteirinha do velho Jason, a ponto de comprar tudo o que já foi lançado no Brasil referente ao personagem, e ainda gastar uma nota importando um monte de bugigangas e tralhas diversas. O problema é que este mesmo Cunningham, que criou a obra original, acabou anos depois por prostituí-la completamente ao produzir bombas monumentais como "Jason vai para o Inferno" e "Jason X", que a essa altura todos já devem saber se tratar de filmes ridículos, que não respeitam a cronologia e a mitologia da série, e consequentemente, acabam desrespeitando também os próprios fãs, que gastam dinheiro com obras medíocres e pretensiosas. Como se diz popularmente, um verdadeiro "calote".



O que me serve de consolo, e que de certa forma deve consolar também a maioria dos fãs, é o fato de que, apesar da ganância e da falta de escrúpulos dos produtores, os episódios antigos da série, mais especificamente os seis primeiros, são sim, muito divertidos e tem potencial de sobra para entreter os espectadores interessados apenas na diversão, e que se deixam cativar pela relativa ingenuidade, e por que não, pelo lado trash dessas obras. Um outro aspecto que também tem relevância aqui é o "fator nostalgia", que me faz ter um apreço todo especial por esta franquia, uma vez que foi através do velho Jason que tive minha iniciação no gênero horror, quando, ainda na infância, assistia na televisão os filmes antigos da série. Aliás, esse apreço nostálgico é algo que me parece ter muita influência sobre os fãs do cinema de horror, o que justifica por exemplo, o fato de vermos algumas pessoas disputando à tapa fitas VHS usadas de filmes de Roger Corman ou Terence Fisher, cujas obras possuem qualidade para muitos tão questionável quanto os próprios filmes do serial-killer de Crystal Lake.

Do ponto de vista pessoal, nem os trambiques do Sr Cunningham, e nem mesmo a existência lamentável dos últimos episódios são suficientes para reduzir o grande prazer que sinto até hoje reassistindo os filmes antigos da série. Com certeza, devem existir muitas pessoas que pensam dessa mesma forma, e que, a sua maneira, ajudam a manter vivo o culto em torno de uma obra que a 25 anos vem habitando os sonhos e o imaginário de milhares de fãs.



André Bozzetto Junior


SEXTA-FEIRA 13(Friday 13th, EUA, 1980). 95 minutos
Direção: Sean S. Cunningham
Roteiro: Victor Miller; Ron Kurz (não-creditado)
Produção: Sean S. Cunningham
Produção Executiva: Alvin Geiler
Fotografia: Barry Abrams
Música: Harry Manfredini
Edição: Bill Freda
Desenho de Produção: Virginia Field
Maquiagem: Tom Savini; Taso N. Stavrakis
Elenco: Betsy Palmer (Mrs. Pamela Voorhees); Adrienne King (Alice Hardy); Harry Crosby (Bill); Laurie Bartram (Brenda); Jeannine Taylor (Marcie Cunningham); Kevin Bacon (Jack Burrell); Mark Nelson (Ned Rubenstein); Robbi Morgan (Annie); Peter Brouwer (Steve Christy); Rex Everhart (Enos)



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