JASON VAI PARA O INFERNO A ÚLTIMA SEXTA-FEIRA 13
Texto escrito por Felipe M.Guerra
 | Passaram-se quatro anos entre o "Jason Takes Manhattan" e esta que deveria ser a "Última Sexta-feira 13" - mas não (acho que você já deve ter ouvido falar de "Jason X"). Lembro que na época (1993) li uma entrevista com o diretor Adam Marcus na revista SET. Ele falava sobre suas "novas idéias" para este filme, que seria o melhor da série. Com o retorno de Sean S. Cunningham à série, como produtor deste novo filme, acreditava que poderia-se conseguir um elo interessante com os velhos (e melhorzinhos) episódios.
Que nada ! Este "Jason Vai Para o Inferno" só não é um lixo completo pela ótima produção e pela iniciativa de tentar mudar a história. Iniciativa esta que logo revelou-se equivocada: mudaram MUITO a história original, transformando Jason em um espírito demoníaco que pula de corpo em corpo, num filme simplesmente ridículo. |
O roteiro é, na verdade, um caldeirão onde foram misturados elementos de todos os filmes de horror de sucesso dos últimos anos. Senão, vejam só: Jason tem uma irmã (como o Michael Myers, de "Halloween") que jamais foi citada ou deu as caras nos 13 anos que separam a primeira matança, no "Sexta-feira 13" original, e este filme. Ela, por sinal, mora em Crystal Lake, uma cidade turística (!) que usa a fama de Jason para ganhar dinheiro. Repentinamente, Jason começa a procurar esta irmã querendo matá-la, embora ela sempre tivesse morado ali. A idéia do espírito que possui diversos corpos é uma chupação de "The Hidden - O Escondido", um bom filme da década de 80. Existe no balaio até um livro misterioso na casa dos Voorhees, bem parecido com aquele de "Evil Dead". Voilà, temos aqui a história mais doida de toda a série.
Não é um fiasco completo, pois tem algumas boas idéias. O começo, por exemplo: aparentemente, parece igual a todas as outras seqüências: uma bela moça vai, sozinha, para uma casa deserta, escura e assustadora bem no meio da floresta, em Crystal Lake. Não demora para Jason aparecer e persegui-la - o personagem, por sinal, está meio "fora de forma", parecendo bem gordo e com a máscara bem deformada, pois o roteirista teve a excelente idéia de que a "pele começou a crescer por cima da máscara".
Ei, peraí! Alguém sabe me explicar como Jason voltou dos esgotos de Nova York para Crystal Lake ??? Será que foi nadando ou ele "pegou carona" em outro barco ???
Enfim, a perseguição à moça termina em uma clareira onde Jason descobre que aquilo era uma emboscada: uma força especial do Exército espera, com vários homens armados até os dentes, que crivam o assassino de balas antes que uma bomba exploda seu corpo em pedacinhos.
 
EXCELENTE IDÉIA !!!! Por que nunca pensaram em algo assim antes ??? Entretanto, seria uma boa forma de ACABAR um filme da série, e este, pelo contrário, está apenas começando.
Os pedaços de Jason são levados ao necrotério (existia necessidade disso ????) para necrópsia. O legista começa a examinar o picadinho e fazer comentários bem engraçados durante os créditos iniciais. É quando a coisa começa a ficar forçada: o espírito maligno de Jason possui o legista, que sai do necrotério matando todo mundo que encontra - inclusive um agente do FBI interpretado por Kane Hodder, o homem por trás da máscara de Jason nos filmes da série.
A partir daí, "Jason" vai pulando de corpo para corpo à medida que estes vão ficando fracos - quando levam muita porrada e tiros, por exemplo. Ele sai no encalço da tal irmã, que tem uma filha, conseqüentemente sobrinha do assassino.
Existem outras boas idéias dispersas, como um famoso caçador de recompensas que se dispõe a agarrar Jason. É um ótimo personagem, mas completamente desperdiçado pelo roteiro, que insiste em deixá-lo atrás das grades até perto do final - o embate entre o assassino e um profissional em caçar cabeças certamente geraria ótimas cenas de ação, nas mãos de um roteirista um pouquinho mais interessado.
Outra excelente idéia é colocar Jason como tema em um programa de TV sobre assassinos seriais americanos. Afinal, em nenhum dos episódios anteriores, apesar de tantos crimes, Jason tinha conseguido fama nacional, sendo um nome conhecido apenas em Crystal Lake, e olhe lá.  | |
Por fim, dá para dar boas risadas com a lanchonete que explora produtos alimentícios temáticos de Crystal Lake, como JasonBurguer (a carne é cortada no formato da máscara de hóckey do assassino) e Dedos de Jason.
O problema é justamente esse: trata-se de um monte de boas idéias dispersas, em um roteiro que nunca chega a lugar nenhum. Pior: sofre do "Mal de Sexta-feira 13 Parte 3, Parte 4, Parte 5 e Parte 7", onde toda e qualquer pessoa que aparece no filme, mesmo que seja apenas um figurante de meio minuto, precisa morrer. Neste filme, ninguém tem vez: acreditem, até um repórter de TV dá um jeito de aparecer em Crystal Lake para morrer nas mãos do Jason descarnado. Ele não poupa ninguém, arrasa lanchonete, uma delegacia inteira, jovens campistas bobocas - credo, como será que Crystal Lake ainda tem habitantes ???
O personagem principal que confronta Jason também não tem carisma, o que estraga qualquer possibilidade do espectador simpatizar com a história. Pelo menos o filme é bem curto (87 minutos), o que torna menos dolorosa a experiência de assisti-lo pela primeira vez - rever, aí já é coisa de masoquista. Há quem sugira ("Guia de Vídeo/Terror", página 67) que o filme tem esta curta duração por não estar em sua versão integral: várias cenas mais nojentas e violentas teriam sido cortadas, e de minha parte não sei se isso é bom ou se é ruim.  |
No final, o espírito maligno volta no "corpo" do Jason original para um último confronto com os (poucos) sobreviventes. Não emociona nem um pouquinho, na verdade dá até um alívio quando toda esta verdadeira bagunça acaba. O problema é que o final não ajuda, e ainda faz uma citação explícita ao vilão de outra famosa série de horror, Freddy Krueger, que sai sabe-se lá de onde para agarrar a máscara de Jason. Explica-se: na época, a New Line tinha a "excelente" idéia de reunir Freddy e Jason em um confronto sangrento, em um filme que se chamaria "Freddy Versus Jason". (N.E.: em fase de produção). |
O pior mesmo é que nem se trata do último filme com o assassino mais desrespeitado do cinema de horror - afinal de contas, "Jason X" já foi concebido e com um roteiro difícil de se levar a sério (o assassino é congelado e reanimado centenas de anos no futuro, onde trata de trucidar ao velho estilo a tripulação de uma nave espacial). Detalhe: já tentaram fazer o mesmo com o assassino baixinho de "O Duende", em "O Duende 4", e também com as criaturas do filme "Critters" (lembram ?), em "Criaturas 4" - eta, a birra é com o número 4 mesmo. Será que "Jason X" terá cacife para salvar esta arruinada série que periga ir ainda mais para o fundo do poço, com um filme ainda pior do que a Parte 5 ?
CURIOSIDADES
- Este foi o primeiro filme pertencente a New Line, que comprou os direitos da Paramount.
- Depois que Stephen corre com seu carro sobre Robert, Jessica está na delegacia informando onde ele está. Então ela diz que o rapaz está na Casa dos Myers (citação ao Michael Myers)
- Os policiais que cercam Jason no princípio do filme vem de Cunningham County. Uma homenagem do diretor Marcus ao produtor da série, Sean S. Cunningham (que também dirigiu a fita original).
- No porão da casa dos Voorhees, há uma caixa onde está escrito: "Expedição do Ártico - Julia Carpenter - Horlicks University". Esta mesma caixa foi utilizada no filme "Creepshow", de George A. Romero.
- O braço de Freddy Krueger, que aparece no final do filme, pertence também a Kane Hodder.
Jason Goes to Hell - The Final Friday, 1993, EUA - Direção: Adam Marcus - Elenco: John D. LeMay, Kari Keegan, Erin Gray, Allison Smith e Kane Hodder. - Duração: 87 minutos - Lançado em vídeo pela Europa
Texto: Felipe M.Guerra
N.E.: Esse artigo foi cedido pelo autor Felipe M. Guerra para publicação no site Boca do Inferno, extraído originalmente do prestigiado site www.myers.cjb.net ("Halloween - o site brasileiro de Michael Myers"), editado por Alexandre Sobrino.
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