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Finalmente um dos filmes mais exibidos como trailer nos últimos seis meses fez sua
estréia nacional no último dia 18. A produção responde pelo nome de Terror em
Silent Hill (Silent Hill, 2006) e a boa notícia é que a espera valeu a pena, pois
a história, adaptada do vídeo-game homônimo é tão boa, interessante e assustadora
quanto o próprio jogo. Bem produzido e com um enredo que prende a atenção, Silent
Hill já figura entre as melhores produções do gênero feitas em 2006.
Não é de hoje que jogos eletrônicos fazem sucesso ao abordarem histórias de terror
e situações sobrenaturais. Tais games são marcados por terem tramas voltadas para
o bizarro e o grotesco, fugindo da linha “quem é o assassino” para trabalhar uma
história |
mais complexa e perturbadora. Os jogos costumam possuir quebra-cabeças e
através de cada decisão, tomada pelo jogador, o enredo avança para caminhos
diferentes. A ambientação é geralmente macabra, assim como a trilha sonora e
efeitos de som, que conseguem dar muito mais medo do que diversas produções
cinematográficas do gênero.


Os representantes deste tipo de diversão eletrônica, conhecida pelos aficionados
como
“survival horror”, tem como principais títulos
Resident Evil,
Alone in the
Dark,
Fatal Frame e o próprio
Silent Hill. Todos estes jogos começam com uma
introdução da história, feita de forma muito semelhante a prólogos de filmes, além
de possuírem pequenos vídeos que são apresentados durante os diversos níveis.
Silent Hill foi lançado no final dos anos 90, pela empresa Konami, para
PlayStation, ganhando também versões para Xbox, PSP, Game Boy Advance e possui
atualmente cinco jogos que não seguem uma cronologia fixa.


A história se desenvolve na cidade que dá nome ao jogo, que após um trágico
incêndio, foi abandonada pelos sobreviventes e se tornou um deserto. Desde então,
Silent Hill passou a ser assombrada por uma maldição na qual seres infernais
surgem quando escurece. Nos dois primeiros jogos, um pai, procurando respostas
para alucinações da filha, que sempre sonha com o lugar, vai para a cidade em
busca de respostas. Nos games seguintes, a trama acontece com pessoas que possuem
alguma ligação com o local.


Como em Hollywood, tudo que faz sucesso acaba virando um ou mais filmes, com
Silent Hill não poderia ser diferente. Principalmente em um período no qual o
gênero terror está sendo explorado até o bagaço, com a produção de seqüências,
pré-sequels e remakes. Além do mais, o game
Resident Evil, quando foi adaptado
para o cinema, acabou se transformando em uma bem sucedida (leia-se economicamente
rentável) série cinematográfica. Por que não fazer o mesmo com
Silent Hill? A
idéia de realizar a transposição do jogo para a tela grande surgiu em 2000, porém,
existia uma recusa por parte da empresa Konami, que era contra o projeto.


Foi através da insistência do então futuro diretor, Christophe Gans (
Necronomicon,
1993), que o filme pôde ser realizado. Para tal, ele gravou um vídeo, que foi
enviado para a Konami, no qual apresentava razões e praticamente implorava para
que o projeto fosse liberado. Gans também produziu, por conta própria, algumas
cenas que serviriam para mostrar o formato que
Terror em Silent Hill iria ter e
para isso, utilizou a trilha sonora dos games. Apenas em 2005, após muita
negociação, o filme finalmente foi liberado pela Konami.


O roteiro que daria origem à película foi escrito por Roger Avary, que utilizou os
dois primeiros jogos da franquia para servir de base para a versão
cinematográfica. Na trama para o cinema conhecemos Rose da Silva (Radha Mitchell),
uma mulher atormentada com as alucinações constantes da filha Sharon (Jodelle
Ferland), que, durante as crises, sempre grita o nome de Silent Hill, uma cidade
fantasma e que fora vítima de um grande incêndio anos atrás. Contrariando seu
marido, Rose decide ir com a menina para a tal cidade, na tentativa de encontrar
respostas para as alucinações da garota. Quando estão próximas do local, a mãe
perde o controle do carro, acaba colidindo na estrada e desmaia. Ao acordar, não
encontra Sharon e desesperada, parte para Silent Hill onde começa a seguir uma
menina que parece com a sua filha. É quando Rose descobre que sair de lá não vai
ser nada fácil.
O enredo visto nas telas pode parecer um pouco complexo (ou até confuso) para quem
está acostumado com filmes diretos e mistérios óbvios, porém, segue exatamente a
linha mostrada pelos games evitando uma história boba apenas com bons efeitos
especiais. No caso desta adaptação, claro que o aspecto visual é fundamental para
um bom resultado, mas o filme consegue ter vida além disso, possuindo uma trama
segura e bem desenvolvida, além de várias interrogações que vão sendo colecionadas
para serem respondidas no final, o que aumenta o interesse pelo enredo.

Um mundo sombrio
A produção começa com uma rápida introdução da história e sem
perder muito tempo, já leva a mocinha (e a audiência) para a tal cidade. O
primeiro ponto que merece destaque é justamente mostrar a trama pelos olhos da
heroína e não oferecer nenhuma explicação adicional, o que faz com que o público
do cinema se sinta quase como um terceiro elemento dentro do enredo, tendo medo e
ficando confuso neste mundo perturbador e que está sendo descoberto, naquele mesmo
momento, por Rose.
Deserta, abandonada, morta. É assim que Silent Hill é vista pela primeira vez no
filme. Um clima de inquietação toma conta do local ao mesmo tempo em que uma
constante fuligem cai do céu como neve. Mas não vai demorar muito para que uma
brusca escuridão se apodere do lugar para dar vida a um inferno na terra habitado
por criaturas aterradoras como vindas de um pesadelo. É nesse momento que o filme
mostra todo o seu poder de impressionar e apavorar (no mesmo nível) ao trazer para
as telas o universo visual do game. A partir de então, a trama começa a apresentar
uma série de monstros deformados e sem rostos, cenários claustrofóbicos, sujos e
escuros, grades e correntes, criando uma narrativa aterradora.


A trilha sonora também terá fundamental importância nesse pavoroso universo, pois
mais parece uma junção de estranhos sons e barulhos que, intercalados com as
cenas, recria o tom exato dos games. Tal característica não acontece por acaso,
pois o diretor Gans utilizou trabalhos assinados pelo compositor Akira Yamaoka,
responsável pela trilha e sonoplastia nos games de
Silent Hill, para incorporar ao
filme. A direção também foi bastante feliz por não perder tempo no quesito
“susto
feito por edição frenética e som digital”. Apesar de haverem alguns, o diretor
apostou mais no terror propriamente dito e sem abandonar a proposta visual do
game. E nesse quesito foram as idéias mais simples que ofereceram os melhores
resultados como quando Silent Hill é tomada pela escuridão. Tais momentos são de
fazer a espinha gelar, pois fica claro que algo de ruim e tenebroso irá acontecer
em seguida. Aliás, este anoitecer é muito bem utilizado na película, por criar
cenas em que a platéia se
esforça para ver algo, percebe que é alguma coisa perigosa, mas só é possível
enxergar alguns detalhes que a lanterna consegue alcançar.


Até a forma como algumas tomadas foram gravadas consegue criar momentos de tensão,
como na primeira vez em que Rose se depara com os estranhos seres do local.
Mostrando a fuga da moça através de um ângulo superior e que vai se afastando do
chão, a cena é simples, mas extremamente bem conduzida por apresentar a vastidão
do local e a solidão de Rose dentro deste. Os
“habitantes” de Silent Hill também
são uma atração à parte e, como cenobitas do universo
Hellraiser, são grotescos,
mas extremamente bem concebidos, quase como monstros elegantes.
A começar pelo estranho ser que possui corpo de homem, mas tem uma grande jaula na
cabeça, o que o faz ter semelhança ao deus egípcio Anúbis. Munido de estrema
força, é um dos mais perigosos monstros do lugar sendo capaz de esfolar com as
próprias mãos um ser humano. Outras criaturas igualmente assustadoras são
semelhantes a casulos com pessoas dentro, porém, que de humanos, não possuem nada.
Andando com dificuldade e emitindo estranhos sons, tais serem possuem aspecto
macabro e ameaçador. Para completar o show de horrores, existe um exército de
enfermeiras gostosas sem rosto e que, mesmo cegas, são extremamente perigosas.
Muitas destas criaturas foram interpretadas por dançarinos, para que tais seres
tivessem flexibilidade e postura diferente de seres humanos


O elenco também contribuiu para o produto final da película, a começar por Radha
Mitchell (
Em Busca da Terra do Nunca, 2004), que está muito bem como a mãe movida
por medo e amor para encontrar a filha. Fazendo par com Mitchell, coube a Laurie
Holden (
O Álibi, 1997) fazer a policial machona e braba Cybil. Merece destaque a
atriz mirim Jodelle Ferland que se reversa em dois (ou seriam três??) papéis e
consegue passar rapidamente de uma garotinha assustada para a própria
representante do mal. Deborah Kara Unger (
Highlander 3, 1994) e Alice Krige (a
rainha Borg, de
Jornada nas Estrelas – Primeiro Contato, 1996) são duas
coadjuvantes que marcam a trama como uma louca moradora de Silent Hill e uma líder
religiosa, respectivamente.


Interessante perceber que apenas mulheres têm destaque dentro do filme, afinal, no
primeiro tratamento do roteiro, não existiam homens na história. Eles só foram
inseridos após exigência dos produtores, o que fez o roteirista criar o marido
para Sharon e um policial. Quando
Terror em Silent Hill foi lançado no mercado
norte-americano, o diretor Gans declarou que a versão exibida nos cinemas era a
que ele tinha em mente quando decidiu realizar o projeto e que, de acordo com o
próprio, nenhum corte precisou ser feito. No entanto, o script original resultava
em um filme com mais de 3 horas e meia de duração, porém, segundo Gans, os cortes
foram feitos no próprio roteiro e não no filme já gravado, como geralmente
acontece.

Ao final da trama, o mistério que envolve o lugar, assim como a ligação da filha
de Rose com a cidade, será revelado em uma conclusão não convencional, mas que
funciona dentro da proposta do projeto. Ainda é cedo para saber se o filme terá
uma seqüência, mas é quase certo que sim, afinal, assim como games de terror
vendem bem e acabam ganhando adaptações para o cinema, também é verdade que se uma
película faz sucesso, ela logo ganhará uma parte 2. E como na caso de
Silent Hill,
o resultado foi duplamente positivo, pois trata-se de uma adaptação de um
eficiente produto vindo do universo dos games e que gerou um ótimo resultado como
película.
Filipe Falcão
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TERROR EM SILENT HILL (Silent Hill, Canadá/Japão/EUA/França, 2006). 127 minutos
Direção: Christophe Gans
Roteiro: Roger Avary
Produção: Don Carmody; Samuel Hadida;
Produção Executiva: Victor Hadida; Andrew Mason
Fotografia: Dan Laustsen
Música: Jeff Danna; Akira Yamaoka
Edição: Sébastien Prangère
Desenho de Produção: Carol Spier Figurino: Wendy Partridge
Direção de Arte: Elinor Rose Galbraith; James McAteer
Maquiagem: Patrick Baxter; Sarah Craig; Rose-Mary Gubala; Tim Mogg; Neil Morrill
Elenco: Radha Mitchell (Rose Da Silva); Sean Bean (Christopher Da Silva); Laurie Holden (Cybil Bennett); Deborah Kara Unger (Dahlia Gillespie); Kim Coates (Thomas Gucci/Henry Townshend); Tanya Allen (Anna); Alice Krige (Claudia Wolf/Christabella); Jodelle Ferland (Sharon Da Silva/Alessa Gillespie); Colleen Williams (arquivista); Ron Gabriel; Derek Ritschel; Amanda Hiebert; Nicky Guadagni; Maxine Dumont; Christopher Britton; Stephen R. Hart; Roberto Campanella (Pyramid Man/Colin); Emily Lineham; Michael Cota
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