SIMBAD, O MARUJO
DAS LENDAS ÁRABES PARA AS TELAS DO CINEMA


Por E.R.Corrêa

"Da terra muito distante... Do mundo sem esperança e do medo... peço que apareça, Gênio" - Invocação ao Gênio da Lâmpada

Lembro-me perfeitamente quando, em meados de 1986, assisti numa sessão da tarde, pela primeira vez, um dos clássicos genuínos da aventura mitológica Simbad e a Princesa (The Seventh Voyage of Simbad, 1958) e, mesmo sendo um pirralho indiferente, lembro também de ter me envolvido de tal forma com a história que hoje, ao assistí-la, veêm-me à mente momentos indescritíveis de deliciosa nostalgia - o cinema de entretenimento feito em estado puro.
Mas a semente não morreu após o término daquele filme, e quando voltei a assistí-lo, muitos anos depois, os deliciosos momentos que marcaram aquela fase da minha infância voltaram à tona, e nesse momento já sabia que por detrás de tudo aquilo havia um trabalho, não era apenas ligar a TV e assistí-lo.
Descobri Ray Harryhausen e a gigantesca criação por ele moldada durante quase quatro décadas de pura diversão e entretenimento. Descobri um Universo inteiro criado a partir da imaginação e da fantasia, do fantástico e do inominável. Mas não me limitei apenas ao cinema, e busquei a literatura e as artes. Nelas encontrei as "Mil e Uma Noites" e a fascinante mitologia grega, que possue lendas e nuances tão absolutamente fantásticas que seria impossível passarem despercebidos por uma das invenções que mais influenciou o século XX: o cinema.
E foi no cinema que estes legados artísticos da humanidade encontraram seu ponto máximo de fascínio, despertando o interesse e a curiosidade de parte do público.
A mitologia greco-romana (a mitologia grega e a romana se fundem num único propósito e numa única aspiração, por isso irei me referir a ambas) em geral é soberba; ali se encontram verdadeiros tesouros de beleza e perfeição, com histórias, lendas, costumes, artes e ideais feitos de sobremaneira inigualáveis, tendentes, porém, ao fantástico e ao imprevisível. O alicerce artístico e cultural pelo qual se ergueu quase todas as nações do ocidente.
O Oriente, por sua vez, alcançou, igualmente, ilimitados ramos do conhecimento, tanto artísticos como científicos, que nada deve, em termos de beleza e originalidade, à cultura ocidental. Da cultura oriental nasceu, entre tantas outras coisas, "As Mil e Uma Noites", uma vastíssima coletânea de contos populares árabes que constituem, certamente, um dos maiores monumentos da literatura mundial. Não foi, contudo, um livro criado por um único autor; antigos documentos dos séculos IX e X afirmam que sua origem pode ser atribuída aos persas, que já haviam introduzido o espírito literário da obra em um livro chamado "Hazar Afsanah". Mas, com o passar dos anos, com a fusão de novas lendas e costumes e já com a forte e definitiva ligação árabe, "As Mil e Uma Noites" se tornou tão popular que muito influenciaria na cultura ocidental, embelezando e inspirando, por si mesma, com seu rico folclore, as histórias fantásticas.
Essas histórias propiciam, antes de tudo, uma vasta visão dos costumes do Oriente e traduzem, de maneira surpreendente, o verdadeiro espírito aventureiro árabe - as longas viagens pelos "7 mares", os monstros de ilhas desabitadas, os palácios luxuriantes, os haréns perfumados e transbordantes de sensualidade, os tapetes voadores e os gênios da lâmpada. Toda uma fértil imaginação germinada em séculos de cultura e conhecimento, inspirando e incendiando, pelo mundo afora, o cérebro dos grandes mestres do fantástico, como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Ray Harryhausen, entre outros. E, dentre as lendas que se encontram neste fabuloso documento artístico, certamente uma das que mais atrai as pessoas em todo o mundo é a das aventuras de Simbad, o marujo.
Foram feitos vários filmes de aventura sobre o lendário capitão Simbad, mas me limitarei apenas àqueles produzidos pelo mestre do Stop-Motion e dos efeitos especiais. Ray Harryhausen, um dos maiores animadores da história do cinema, fez a grande jogada de unir a mitologia grega à árabe, misturando monstros e personagens, e criando, através da refinada arte do Stop-Motion, cenas inesquecíveis de pura diversão e entretenimento.
Abandonando um pouco a temática dos filmes de ficção científica com monstros em preto e branco (O monstro do mar revolto, 1953; O monstro do mar, 1955; Terra contra os discos-voadores, 1956; A vinte milhões de milhas da Terra, 1957) e contando com maiores orçamentos em produções melhor elaboradas, Harryhausen volta sua atenção a um dos assuntos que mais o fascinava e cria as sequências de animação para o seu primeiro clássico colorido Simbad e a Princesa. Esse filme dá início ao que os críticos chamam de a "era dourada dos filmes de aventura " e abre uma espécie de trilogia sobre o capitão Simbad, mas onde não há nenhuma ligação entre um e outro, já que os dois filmes seguintes, assim como esse clássico de 58, são independentes, com histórias únicas.
Um lento e cuidadoso trabalho de pré-produção com o também lendário Charles H. Schnner (que trabalhou incansavelmente ao lado de Harryhausen na produção dos grandes filmes da época áurea) e com a impressionante e sugestiva música de Bernard Hermann, tornaram Simbad e a Princesa um grande sucesso comercial, onde o nome do mestre da animação aparece pela primeira vez nos cartazes de cinema, sobrepondo-se, de certo modo, ao do próprio diretor Nathan Juran.
Os cinéfilos dedicados certamente se lembrarão, sem muito esforço, das raras e inesquecíveis cenas de animação que ilustram esse clássico da aventura mitológica, não havendo, portanto, a necessidade de relembrá-las. Mas... já que insistem! Logo de cara, o telespectador é bombardeado com a sufocante sequência com o antológico cíclope-canibal, que recebe Simbad e seus fiéis marinheiros com "quatro pedras na mão", quando de sua chegada à fantástica e misteriosa ilha de Colossa, que pela sua beleza nostálgica única merecia um artigo próprio.
O caso, em termos rápidos, é o seguinte: Simbad (Kerwin Mathews), o marujo dos 7 mares, está voltando para sua terra natal com a belíssima princesa Parisa (Kathryn Grant), com quem vai se casar para dar fim a velha intriga entre seus povos. Mas, no caminho, uma tempestade terrível obriga o marujo a desembarcar na ilha de Colossa, onde salva o feiticeiro Sokurah (Torin Thatcher), que estava sendo mantido preso pelo cíclope. Mas, no momento da fuga, o gigantesco-canibal-de-um-olho-só rouba a "lâmpada mágica" do feiticeiro. A lâmpada abriga o gênio (Richard Eyer) que muito ajudará Simbad em suas aventuras, e que muito valor teria para as ambições de Sokurah, que tenta convencer o capitão a retornar à ilha para recuperá-la.
Mas Simbad se recusa, obrigando-o a fazê-lo por meios "desonestos": ele sorrateiramente encolhe a princesa dizendo que para fazê-la voltar ao tamanho normal necessita de uma poção mágica feita a partir da casca do ovo de Roc, uma gigantesca ave pré-histórica de duas cabeças que, não por acaso, habita a ilha de Colossa. As sequências que se desenvolvem a partir daí são realmente de tirar o fôlego, numa verdadeira antologia de cenas raras, como a luta de Simbad e seus marinheiros com o gigantesco Roc, ou a luta do capitão com um poderoso guerreiro caveira (que seria reaproveitado num outro grande épico mitológico de Harryhausen, Jasão e o velo de ouro, de 1963). Mas a cena mais conhecida e a que mais impressiona é, sem dúvida, a batalha final entre o cíclope e o dragão, tendo como fundo as belíssimas paisagens de uma praia espanhola.
Por fim, depois de todos esses acontecimentos impressionantes e que muito inutilmente são traduzidos por palavras, Simbad consegue derrotar Sokurah e salvar a princesa, vivendo com ela "feliz para sempre".
Mas, por trás de toda aquela beleza plástica única e nostálgica, haviam grandes problemas, principalmente no que se refere ao enquadramento das imagens, pois o animador tinha de igualar as cores das sequências reais com as cenas dos Stop-Motion's sem deixar de levar em conta a diferenciação granular da película (pois os tons entre as imagens à distância e as filmadas a partir de miniaturas eram, obviamente, diferentes).
Mas, por todo o trabalho em conjunto e pela superação dos problemas iniciais, o filme se tornou um grande sucesso, permitindo que, no ano seguinte, toda a equipe de Harryhausen mudasse para Londres, onde os custos de produção eram mais baixos e onde havia maior liberdade, longe da gananciosa indústria norte-americana. Desse novo "quartel-general" saiu novas aventuras de tirar o fôlego. Dentre elas, A viagem dourada de Simbad, também conhecido no Brasil como A nova viagem de Simbad (The golden voyage of Simbad, 1973), a Segunda história sobre o lendário capitão dos 7 mares.
Dirigido por Gordon Hessler e co-produzido por Charles H. Schnner e Ray Harryhausen, este é um outro grande épico mitológico, onde há, novamente, a mistura de elemntos orientais e greco-romanos, embora o clima e a história em si sejam puramente centrados nas lendas das "Mil e Uma Noites", com fortíssimas referências à mitologia indiana.
Neste filme, para livrar a Marábia da missão negra e diabólica do príncipe Koura (Tom Baker, mais conhecido por atuar na antiga série inglesa de ficção científica Dr. Who) e para desfazer a maldição do Grão-Vizier (Douglas Wilmer) e restituí-lo ao trono, Simbad (John Phillip Law) precisa juntar três peças de ouro que se complementam entre si e atirá-las numa fonte com águas mágicas. Mas, para chegar a tal objetivo, o capitão terá de decifrar enigmas e passar por perigos inomináveis.
Porém, o malígno príncipe Koura precisa, também, recorrer às águas mágicas para impedir seu envelhecimento precoce e fortificar seus poderes mentais; para isso ele se utilizará de seus conhecimentos de magia negra e tentará roubar a todo custo as duas peças de ouro do capitão Simbad. Somente com a junção das três peças de ouro o poder será alcançado; mas a terceira peça terá de ser encontrada tanto por Simbad quanto pelo seu rival Koura. E ambos partem, encarniçadamente, em busca dela. Para encontrar a resposta, vão à ilha mística de Lemúria, onde, em um templo com muitas faces, existe um oráculo.
Quando Simbad consulta o oráculo a respeito de onde se encontra a terceira peça, recebe a seguinte resposta: "Para o norte, para terras desertas, para lugares pagãos de grupos pagãos, diante de uma deusa de muitos membros...".
Quando, finalmente, Simbad consegue chegar ao local descrito, Koura lá já se encontra, e, por meio de magia negra, trás à vida a deusa "com muitos membros" Kali (também conhecida por Sheeva), e ordena que ela o mate.
E eis uma das cenas mais fantásticas do Stop-Motion!
Mas o capitão consegue destruí-la e encontrar a terceira peça de ouro, que estava em sua cabeça. Mas, antes de poder jogá-las às águas mágicas, terá de enfrentar o poderoso centauro-cíclope. E quando tudo parecia perdido, eis que surge Griphon (um leão-alado com cabeça de águia), para enfrentar o cíclope. Apesar de morrer na luta (em outra cena absolutamente fantástica!), Griphon enfraquece o centauro, permitindo que Simbad o destrua definitivamente.
Porém, para completar a tarefa (UFA!!), Simbad terá de enfrentar o próprio Koura. Consegue, enfim, destruí-lo e fazer com que tudo se resolva. São tantos detalhes essenciais que fica difícil fazer um breve comentário.
Mas tudo se complementa; desde a história, passando pelos atores (entre eles a belíssima atriz Caroline Munro, veterana atriz da Hammer Films) até às criaturas bizarras. Cenas antológicas como o ataque da figura de madeira ao navio, a dança de Kali frente a um altar indiano, o combate entre o centauro-cíclope e Griphon, jamais podem ser esquecidas. As cenas externas também são fantásticas; provavelmente a equipe de Harryhausen utilizou a mesma locação do filme anterior, pois Lemúria e Colossa são idênticas em características naturais, com muitas montanhas rochosas e vales com vegetação luxuriante, perfeita para a recriação de um ambiente fantástico e misterioso.
Com base no sucesso desse filme e com inspiração, ainda, nesse ambiente, surgiu, em 1977, o terceiro e último filme de Harryhausen sobre o lendário capitão dos 7 mares, Simbad e o olho do tigre (Simbad and the eye of the tiger). Dirigido por San Wanamaker e novamente produzido pelos dois mestres da aventura, esse filme fecha com chave de ouro essa temática fantástica de viagens extraordinárias. (Um filme de Simbad sem uma longa e perigosa viagem é o mesmo que um filme de guerra sem uma batalha, portanto não considerem isso como um clichê).
Dessa feita, a feiticeira Zenóbia (Margareth Whiting) transforma o príncipe Kassim (Damien Thomas) em um babuíno exatamente no momento em que ia ser coroado califa de Charak. Simbad (Patrick Wayne), retornando de uma longa viagem, encontra a cidade deserta e afogada sob o peso da maldição. Ele deseja ardentemente cessar um pouco suas aventuras e se casar com a princesa Farah (Jane Seymour), irmã de Kassim, que, transformado em babuíno, nada pode permitir.
Por isso, para se casar com a princesa e tirar a maldição que pesa sobre a cidade, o capitão Simbad resolve empreender uma longa jornada até a longínqua e assombrada ilha de Gasgda, onde acredita-se existe um sábio grego de nome Malanthius (Patrick Troughton - os mais íntimos do cinema fantástico certamente se lembrarão desse ator em outros filmes do gênero, como Jasão e o velo de ouro, onde ele interpreta o cego que vive atormentado pelas hárpias, e em Scars of Dracula, onde ele faz o papel do grotesco servo do conde vampiro), que vive solitariamente com sua filha Dione (Taryn Power).
A menos que o príncipe Kassim seja coroado antes da passagem de sete luas, perderá para sempre o seu direito de ser o califa, dando a oportunidade ao filho de Zenóbia. Por isso, não resta alternativa a não ser consultar o sábio grego. Após chegarem à ilha, Simbad e a princesa conseguem convencer Melanthius a viajar até o polo norte, onde se encontra a lendária Hiperbória, que abrigava, no passado remoto, a civilização dos Aramaspis, detentores do conhecimento profundo dos quatro elementos (terra, fogo, ar e água).
Mas Zenóbia, seu filho e o poderoso Minoton (uma enorme criatura de metal construída pela feiticeira), tudo farão para impedir o êxito da empreitada e se apoderar dos segredos perdidos dos Aramaspis. Com base no poder dessa antiga civilização, Simbad e Melanthius conseguem, enfim, trazer o príncipe Kassim ao seu estado normal e coroá-lo califa de Charak. Zenóbia, que se transformara num gigantesco tigre dente-de-sabre, morre empalada numa lança após a terrível luta com o troglodita das cavernas.
E assim, como nos demais filmes sobre Simbad, tudo acaba bem, a despeito das perigosas e "quase impossíveis" viagens à terras distantes. Mas, longe de ser considerado um velho clichê, a temática que gira em torno desses filmes não é apenas a história em si ou os efeitos especiais e as criaturas bizarras, mas o conjunto de toda a obra, que se solidifica em uma áurea de fantasia para criar o clima despretencioso de pura diversão e entretenimento. Essa produção, por exemplo, caprichou em todos os detalhes, desde a concepção das engenhosas e elaboradas criaturas, às locações exóticas e realistas (o filme, assim como parte de seu antecessor, teve locações na Espanha, Jordânia, Malta e Inglaterra), além de apresentar o roteiro enxuto e cheio de ação de Beverly Cross.
As criaturas, entretanto, podem ser consideradas um caso à parte; não são muitas, mas são excepcionais. Minoton, o gigante de metal com corpo de homem e cabeça de touro (inspirado, certamente, na lenda minóica do Minotauro), as três criaturas do fogo, o babuíno, a morsa gigante do Ártico, a abelha "gigante" e a mais impressionante de todas, o troglodita primitivo - todos trazidos à vida graças às magníficas técnicas do Stop-Motion. E, como não poderia deixar de ser, assim como em todos os outros Simbad's, existe, também neste, o confronto mortal entre criaturas. Nesse caso houve o antológico combate entre o tigre dente-de-sabre e o troglodita das cavernas, numa cena literalmente fantástica, que na realidade é uma espécie de variação do combate cíclope/dragão do primeiro filme e do centauro/Griphon do segundo, demonstrando a incrível inspiração de Harryhausen para a criação de cenas ousadas e detalhadas, que gastavam horas e horas, dias e dias, de dedicada concentração. Um verdadeiro combate de feras.
Mas todo o esforço valia a pena, e a cada filme o processo de movimentos se tornava mais elaborado e engenhoso, permitindo a criação de monstros cada vez mais bizarros. Um aspecto interessante, inclusive, desses filmes de animação, é a reutilização de criaturas, como neste caso, onde a abelha "gigante" é apenas um reaproveitamento do mesmo modelo utilizado em A ilha misteriosa (1960), de Cy Endfield.
A impressão que se tem, na realidade, ao ver tantos monstros, tantas fábulas fantásticas, tantos seres heróicos, é de que tudo isso realmente aconteceu. A imaginação se funde com a realidade e a transforma em sonho, partindo da diversão pura. Uma mitologia realmente fascinante, centrada em deuses esquecidos, templos pagãos, épocas remotas, mares longínquos; épocas que o mundo esqueceu, que os homens esqueceram (nem todos...).
Melhor do que isso só indo mesmo ao oriente antigo, beber os melhores vinhos, saborear dos melhores haréns e ler os versos de Omar Kayam. Mas é bom não misturar muito estas fantasias com a realidade, pois como já diz um antigo provérbio árabe: "Confie em Allah... mas amarre seu camelo".

E.R.Corrêa



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