$LA$HER$

Por Felipe M.Guerra

Enfim, um reality show que vale a pena assistir!

Eu odeio com todas as minhas forças estes reality shows idiotas tipo BIG BROTHER BRASIL e sempre me perguntei o que leva milhares de espectadores em todo país a acompanhar a rotina cretina de um bando de manés pela TV, mesmo tendo como alternativa tantos livros para ler, filmes para assistir e discos para ouvir... O pior é que a febre dos reality shows chegou até minha casa, invadiu a privacidade do meu lar, onde meus pais ficam fascinados assistindo o "emocionante" dia-a-dia daquele punhado de idiotas semi-analfabetos que não fazem outra coisa além de falar bobagem e se queimar ao vivo - a "febre" seduziu até meu irmão mais novo, que tentou se inscrever no próximo BIG BROTHER, mas aí é outra história.

Agora, imagine se num destes episódios de reality shows, logo depois das Cidas, Bambans, Dhominis e o escambau falarem sua milésima besteira diária ao vivo para todo o Brasil, um grupo de assassinos invadisse a casa e matasse brutalmente todos eles, com os assassinatos sendo transmitidos via satélite para todo o Brasil? Não seria bem mais divertido??? hahahaha. Pois é justamente esta a trama básica de $LA$HER$, um filmaço canadense feito em 2001, mostrando que excelentes produções independentes estão vindo daquele país, enquanto os vizinhos Estados Unidos se perdem em seus remakes e continuações furadas. Infelizmente, $LA$HER$ não foi lançado no Brasil, mesmo que recentemente tenham chegado às locadoras várias produções feitas no Canadá, tipo a excelente trilogia POSSUÍDA e o meia-boca DECOYS.



Basicamente, esta produção baratíssima dirigida por Maurice Deveraux (que já havia assinado outros filmes de horror baratos, desconhecidos por aqui) é uma mistura divertidíssima do japonês BATTLE ROYALE e do americano O SOBREVIVENTE, aquele filme em que o Arnold Schwarzenegger é um prisioneiro que também enfrenta um programa mortal, onde os participantes são perseguidos por assassinos. Não lembro exatamente que filmes de horror foram lançados em 2001, mas certamente coloco $LA$HER$ na lista dos melhores daquele ano. Certamente, foi um dos melhores que eu vi ESTE ano (2004). E também é uma das produções mais violentas dos últimos tempos, repleta de tripas, pessoas feitas em pedaços com motosserras, vítimas esfaqueadas de todas as formas possíveis, cabeças decepadas, tudo no bom e velho esquema "sangue falso e maquiagem", sem apelar para a artificialíssima computação gráfica, tão em voga no cinema de horror moderno.

Todo o filme se desenrola como se fosse um episódio de $LA$HER$, que vem a ser o "reality show extremo" mais popular do Japão, em um futuro não muito distante onde a TV terá que mostrar assassinatos ao vivo para levantar a audiência. A proposta do programa é a seguinte: seis competidores entram em um gigantesco estúdio dividido em diversos cenários, quase como um trem-fantasma, onde precisam sobreviver aos ataques de três assassinos profissionais contratados pela produção do programa. Como acontecia em O SOBREVIVENTE, a atração do programa não são os participantes em si, mas sim os assassinos, os verdadeiros astros, ovacionados pela platéia por meio de cartazes e gritos apaixonados!!! Neste programa, ao contrário do BIG BROTHER, "eliminar um concorrente" tem um sentido totalmente diferente. hehehehe

O objetivo do jogo é sobreviver ao labirinto mortal durante o tempo de duração do programa e encontrar a saída, recebendo um prêmio equivalente a 12 milhões de dólares. Mas há algumas regras: quanto mais participantes sobreviverem, mais pessoas precisarão dividir o prêmio (o que nos leva à velha questão da cobiça, que fará muitos jogadores pensarem em eliminar, literalmente, os colegas). E, como bônus adicional, se um participante conseguir matar um dos assassinos do programa, ganhará mais 2 milhões de dólares por assassinato!

No início, o espectador assiste à abertura de $LA$HER$ (prepare-se, a musiquinha vai ficar na sua cabeça por um bom tempo!), e depois acompanha uma colagem com os melhores momentos dos últimos episódios, onde jovens japoneses são barbaramente esquartejados de todas as formas possíveis: um tem a perna decepada com uma motosserra, outro o braço cortado, uma garota tem a garganta aberta a golpe de bisturi, outro rapaz vê suas próprias tripas sendo arrancadas, entre outros takes violentíssimos, tudo mostrado sem cortes. Os efeitos são baratos e eficientes.



Então entra em cena um apresentador brega (Takaaki Honda), tipo um Celso Portiolli japonês, que anuncia: "Bem-vindos ao reality show extremo número 1 do Japão... $LA$HEEEEEEER$!!!". A platéia vai ao delírio, sacudindo cartazes de apoio e manifestações de carinho aos assassinos que participam do programa, enquanto as dançarinas do programa, as "Slasherettes", fazem sua coreografia sacundido caveirinhas ao invés de pompons - tudo ao som do DJ "Slash", que só sabe repetir "Super fun! Super fun!"!!! Surge então a apresentadora do programa, Miho Taguchi (Claudine Shiraishi), que anuncia um "programa especial": pela primeira vez na história da TV japonesa, o reality show será transmitido via satélite para os Estados Unidos, e por isso os seis competidores daquele programa serão jovens americanos.

Logo somos apresentados a eles, tão manés quanto os verdadeiros participantes de reality shows verdadeiros (o que torna a crítica por trás do roteiro ainda mais engraçada), e interpretados por péssimos atores, o que confere um grau de realismo ao filme - parece que são pessoas comuns mesmo. O grupo é formado por Devon White (Tony Curtis Blondell), um musculoso ex-boxeador; Michael Gibbons (Kieran Keller), um nerd almofadinha que quer fazer algo corajoso na vida; Rebecca Gailley (Carolina Pla), uma bela garota com doença terminal que quer viver intensamente seus últimos momentos; Rick Fisher (Jerry Sprio), um arrogante segurança de boate; Brenda Thompson (Sofia de Medeiros), uma modelo louca por fama, e a gatinha Megan Lowry (Sarah Joslyn Crowde), uma menina chorona cujo objetivo no jogo é obscuro. Tirando Blondell e Sprio, todos os outros são estreantes no cinema e por enquanto só tem este único filme no currículo.

"Do outro lado do ringue" estão os três maníacos profissionais que perseguirão os competidores. O habituè no programa, e o mais querido pelo público, é Chainsaw Charlie (Neil Napier), um caipira do Texas que usa máscara representando uma criança e persegue suas vítimas com uma motosserra, ameaçando-as com seu sotaque caipira. Também há um novato, pela primeira vez no programa, chamado Preacherman (também interpretado por Napier), um padre sinistro que usa uma máscara demoníaca e uma longa espada em forma de cruz. E, como atração especial, os produtores trouxeram de volta da aposentadoria o famoso Dr. Ripper (Christopher Piggins), astro de outras edições do programa, que estava aposentado, e usa armas como bisturi e uma enorme tesoura metálica para esquartejar suas vítimas.

Todos se encontram antes que o jogo comece, e é desnecessário dizer que o público ovaciona freneticamente os três assassinos, gritando "dead meat! dead meat!" (carne morta) para os seis participantes do reality show. O trio de matadores entra antes no cenário do programa e os seis participantes logo depois. "Are you game?" (Você está no jogo?), pergunta Miho para cada um deles. Todos respondem afirmativamente e passam pela porta vermelha com o símbolo de caveira. Uma vez dentro do cenário, é impossível sair, a não ser que se fique vivo até o final do programa.



Há algumas regras que tornam o jogo mais emocionante. Os participantes são seguidos todo tempo por um cameraman que não pode ser ferido nem atacado (ou seja, toda a história é filmada em primeira pessoa). Todos (jogadores e assassinos) levam no pescoço um colar metálico (estilo BATTLE ROYALE), que provoca dores atrozes caso os participantes desobedeçam alguma das regras, ou então tentem se mexer no momento dos comerciais. Isso mesmo: esta é a parte mais engraçada de $LA$HER$! Como o programa é ao vivo, várias vezes durante sua duração a apresentadora Miho pede que os participantes e assassinos fiquem como estão, numa pausa para os comerciais. Isso rende pelo menos uma seqüência muito engraçada e tensa ao mesmo tempo, quando o Preacherman imobiliza uma das garotas e está para apunhalá-la e, justo naquele momento, entra a pausa para os comerciais. Os dois então têm que ficar paradinhos naquela situação tenebrosa por cinco minutos até que o programa volte ao vivo, levando choques pelos colares caso tentem se mexer!!!

Uma outra regra importante é que os competidores podem usar qualquer coisa que encontrem à mão como arma (pedaços de madeira, pernas de mesa, as próprias armas dos assassinos, se conseguirem pegá-las) para se defender.

Começa o jogo e os seis participantes são enfiados dentro de um cenário de pesadelo. Há diferentes ambientes por onde os jogadores passam: um é decorado com fotos dos competidores mortos em outros programas; outro imita um circo, com balões; outro uma câmara de tortura, com vários cadáveres pendurados nas paredes; também há um corredor em homenagem aos maníacos do cinema, com bonecos imitando Jason e Freddy Krueger, e assim por diante. Há ainda a "Ponte da Morte", repleta de estacas de metal caso alguém caia, e a impagável "Sala do Amor" - os competidores que chegarem até ali podem ganhar bônus caso façam sexo ao vivo numa cama redonda vermelha; se transarem, não são perseguidos pelos assassinos e nem mortos durante o tempo em que estão mandando ver! hahahaha

Quando os competidores entram na "arena", $LA$HER$ começa a trabalhar com o suspense. Afinal, os rapazes e garotas não sabem direito o que os espera (e nem o espectador), enquanto o trio de assassinos aparece de surpresa todo tempo, saltando de trás do cenário ou mesmo agarrando suas vítimas através das paredes, sempre pegando os jogadores (e muitas vezes o espectador) de surpresa. No começo, eles fazem tortura psicológica, perseguindo os jovens sem intenção de matar, apenas para ameaçar e assustar. Mas logo começam a fazer o trabalho sujo, rendendo algumas das cenas mais memoráveis do cinema de horror recente.



Em uma delas, uma vítima agarrada por Chainsaw Charlie é presa a uma parede e lentamente serrada com a motosserra na altura da cintura, até que suas pernas desgrudem do corpo e caiam no chão, seguidas pelas tripas da vítima, que jorram de dentro da outra metade do corpo. Tudo on-screen!!! Em outra cena, uma vítima pega de surpresa pelo Dr. Ripper tem sua cabeça decepada pela enorme tesoura metálica (que lembra a arma de Cropsy, no filme CHAMAS DA MORTE), também on-screen. São efeitos baratos, mas muito bem realizados e bastante sangrentos.

Assim que o jogo começa, $LA$HER$ passa a mostrar, também, as motivações de seus personagens. A chorona Megan, por exemplo, é uma ativista dos direitos humanos que não quer participar do jogo. Ela na verdade entrou com a intenção de ser morta em frente às câmeras, ao mesmo tempo em que faz um discurso contra a violência na TV, ao vivo. O problema é que logo que ela encontra o Dr. Ripper pela primeira vez, descobre que não vai ser nada divertido morrer em frente às câmeras, e então se desespera e passa a lutar por sua vida. Para se vingar da covardia da moça, toda vez que o médico psicopata a encontra, rasga sua blusa, deixando-a de peitões de fora! Infelizmente para quem gosta de nudez gratuita, a bonitinha atriz passa o filme inteiro cobrindo os seios - como se alguém que foge de um maníaco com uma motosserra iria se preocupar com isso -, mostrando-os por pouco tempo numa cena de maior desespero.

Ao mesmo tempo, o roteiro brinca com a busca de fama e fortuna dos demais participantes. A modelo Brenda, por exemplo, resolve tirar a blusa logo no começo do jogo para aumentar a audiência e suas chances de ficar mais "famosa" após sair do programa - se sair! Tipo as modelos sem cérebro que participam desses BIG BROTHERS da vida e fazem de tudo para aparecer com pouca roupa ou peladas, já sonhando com o contrato com a Playboy depois.

Com um tema macabro como esse (um jogo de assassinatos reais ao vivo), era de se esperar que $LA$HER$ tivesse muito humor negro e crítica aos meios de comunicação. E tem. Em uma cena, por exemplo, Rick e Chainsaw Charlie se confrontam. Quando o valentão ameaça agarrar-se ao assassino e atirá-lo da ponte com estacas de ferro, matando ambos instantaneamente, o carrasco fica com medo de morrer e tenta negociar, alegando ter família lhe esperando em casa. Outro momento divertido, infelizmente cortado na edição final do filme (mas presente entre as cenas cortadas no DVD americano), é quando Preacherman conversa com sua vítima na hora dos comerciais: "Olha, não é nada pessoal, isso é apenas um trabalho para mim. E você precisa ver quanto eles pagam!", justifica o assassino iniciante à sua futura vítima.

Só que nenhum filme independente é de ferro, e por isso $LA$HER$ cai um pouco nos últimos 20 minutos. Até porque também começam a cair os próprios assassinos, quando os participantes se revoltam e começam a caçar e matar seus perseguidores. Entretanto, eles despacham os algozes com certa facilidade, o que me leva a pensar que os jogadores nos outros episódios do programa eram completos idiotas para não terem conseguido fazer o mesmo - ainda mais considerando que Chainsaw Charlie e Dr. Ripper são veteranos do programa e, teoricamente, não deveriam cair tão fácil nas armadilhas dos "heróis". A reviravolta final envolvendo um dos jogadores, que tem um passado secreto, também me fez perder um pouco do interesse pelo filme, mas a conclusão é interessante.



Claro que isso nem chega a ser um ponto fraco. $LA$HER$ tem um ritmo dinâmico que prende o espectador na poltrona do início ao fim. A partir do momento em que os personagens entram no cenário do jogo, praticamente é só correria, brigas, discussões, nudez gratuita e sangreira desatada até o final. O espectador fica o tempo todo esperando que um dos assassinos vá pular em cima dos jogadores na próxima curva ou canto escuro, sendo mantido em permanente suspense. Já as cenas de ação e morte são bem coreografadas, com rápidos cortes para poder acertar os efeitos especiais (lembrem-se que, supostamente, estamos assistindo a um programa de TV ao vivo!). A maior parte do filme é apresentada em longos takes, como se tudo estivesse sendo exibido ao vivo mesmo. Algumas cenas são tão bem feitas que o espectador quase nem percebe o "corte", quando o ator de verdade é substituído por um "boneco" para ser esquartejado! Engraçado é que, no fim dos créditos, aparecem comerciais dos supostos patrocinadores do programa. Um deles é o cigarro Coffin Nails (Pregos no Caixão)!!! hahahaha

Para passar uma idéia mais próxima de um verdadeiro programa de TV, $LA$HER$ foi totalmente filmado com câmera digital (uma HDCAM da Sony), o que só aumenta os méritos dos produtores do filme, que conseguiram transformar uma produção amadoríssima, feita com um orçamento irrisório (estimado em 165 mil dólares, ou 450 mil reais!!!), em uma das maiores surpresas dos últimos anos. Atualmente, segundo o site oficial da produção, o diretor Deveraux procura por desenhistas para transformar em história em quadrinhos uma espécie de "prequel" da obra, contando como o programa se transformou no reality show mais popular do Japão (o que deve render mais uma pá de críticas ao sensacionalismo da mídia).

O mais curioso é que quem entrar na página do filme na Internet, que é feita para parecer que o programa existe de verdade (www.slashersthemovie.com/index.html), vai encontrar uma ficha técnica com os assassinos que participam do programa, inclusive os três que só são mostrados de relance no filme, na colagem de cenas de "melhores momentos" dos episódios gravados no Japão. Entre estes, há um assassino vestido de palhaço (Slasho), outro de pirata, que usa seu gancho para eviscerar uma japonesinha (Pirate Pite), e um terceiro vestido de samurai, com uma espada (Switchblade Sam). A página também tem o status de cada um deles. Por aí é possível saber, por exemplo, que Switchblade Sam foi morto por um dos competidores japoneses, Slasho tem paradeiro desconhecido e Pirate Pete está aposentado, por isso não encararam o programa com os participantes americanos. Na mesma área do site, dá para ver os números de cada um dos assassinos mostrados no filme: Dr. Ripper, em toda sua "carreira" no programa, teria matado 24 participantes; Chainsaw Charlie matou 17 e feriu nove, e o Preacherman nenhum, porque é um assassino iniciante. Ainda na página, dá para ver um perfil de cada um dos seis competidores, e até informações sobre os jogadores eliminados nas edições anteriores - eliminados literalmente, diga-se de passagem!

Para todos que ficaram curiosos graças a esta minha apaixonada análise (e é paixão mesmo, adorei o filme), esta preciosidade do cinema classe B está disponível para venda em sites que trabalham com DVDs importados a um preço módico: em média, 48 reais. Bem diferente dos 70 ou 90 reais que normalmente nos cobram pelos disquinhos vindos dos States. E o melhor é que o DVD de $LA$HER$ (distribuído com o selo da revista especializada em horror Fangoria) está repleto de extras - aquelas coisas que nós, brasileiros, nem sabemos direito o que são, porque elas nunca vêm nos discos lançados aqui! Você poderá passar horas muito agradáveis vendo, por exemplo, cenas cortadas que mostram alguns violentos assassinatos da edição "japonesa" do reality show. Também pode ver featurettes onde os assassinos se apresentam ao público. E, por fim, making-of e comentários do diretor, quando ele fala sobre as dificuldades que teve para fazer o filme - teria escrito o roteiro em 1998, penando por três longos anos até conseguir o (pouco) dinheiro para poder filmá-lo. O DVD tem até uma entrevista com Chainsaw Charlie como se o personagem existisse mesmo e fosse um ídolo da TV mundial! Vale a pena: 50 reais muito bem investidos.



$LA$HER$ é um filme com uma mensagem cada dia mais atual. Do jeito que a televisão vem apelando - a brasileira principalmente -, não é de admirar que logo logo surja um reality show nestes termos... Se bem que nem precisa: é só você ligar a TV num Datena, Ratinho ou "Linha Direta" da vida para ver coisa bem pior, real e sem cortes Resumindo: uma gema que os fãs de horror, suspense e, principalmente, muito gore não podem perder. E que, infelizmente, não deverá sair por aqui tão cedo, apesar dos brasileiros serem ávidos consumidores de reality shows (daqueles sem graça, onde os participantes só ficam falando bobagem mesmo, sem motosserras nem peitos de fora...).

MORTE AO VIVO


Um futuro onde a TV irá apresentar violência e mortes reais ao vivo para satisfazer seus telespectadores. Este tema, que é a base do excelente $LA$HER$, já foi visto em vários outros filmes de diferentes nacionalidades. A relação violência/TV parece seduzir os roteiristas, e o resultado são diferentes filmes tratando de jogos mortais, reality shows extremos e mortes transmitidas em rede nacional. Confira alguns deles:

O SOBREVIVENTE (The Running Man, 1987, EUA). Direção: Paul Michael Glaser.
$LA$HER$ bebe da fonte desta divertidíssima aventura de ficção científica, violenta como eram os filmes do início da carreira de Arnold Schwarzenegger. O gigante austríaco interpreta um soldado preso injustamente que tem o fim de muitos outros presos políticos, em um futuro próximo: participar de um programa ao vivo na TV chamado "The Running Man", onde os criminosos fogem de sádicos assassinos louquinhos para eliminá-los ao vivo. A sociedade (tanto a classe baixa quanto a classe alta) acompanha tudo urrando de prazer e concorrendo a prêmios como o videogame do programa (hahahaha). Schwarzenegger e seus amigos são perseguidos por vilões como Dinamo (que dispara raios elétricos), Fireball (que usa um lança-chamas) e Buzzsaw (com uma motosserra, mas sem cenas tão violentas como as de Chainsaw Charlie em $LA$HER$). O roteiro é baseado num livro que Stephen King escreveu com o pseudônimo Richard Bachman.


THE NEW GLADIATORS (I Guerrieri dell'ano 2072, 1984, Itália). Direção: Lucio Fulci.
Filme parecidíssimo com O SOBREVIVENTE, porém feito três anos antes. Trata-se de mais uma das produções fracas da fase ruim do diretor italiano Lucio Fulci, que saiu de clássicos como THE BEYOND e A CASA DO CEMITÉRIO para porcarias tipo essa e MURDER ROCK. A história até é interessante, porém o filme foi mal-executado. No roteiro, prisioneiros condenados à morte são obrigados a participar de violentos programas de TV (numa trama bem parecida com a de THE RUNNING MAN), onde, como gladiadores, combatem uns aos outros até a morte, usando armas cortantes e motocicletas velozes. A produção do programa arma uma cilada para que o campeão de um outro show de TV, interpretado pelo canastrão Jared Martin, seja preso, condenado e obrigado a participar do programa. O filme tem um final-surpresa dos mais ridículos e pouquíssima violência - que era o mínimo que se esperava de Fulci com um roteiro desses.

O SOBREVIVENTE (Series 7: The Contenders, 2001, EUA). Direção: Daniel Minahan.
Feito no mesmo ano de $LA$HER$, guarda grandes semelhanças com o filme canadense. Ambos são filmados como se fosse um programa de TV real (este tem até as chamadas para os próximos capítulos). Só a trama é ligeiramente diferente. Aqui, cidadãos comuns são sorteados pelos números da loteria, ganham uma arma carregada e são obrigados a matar os outros participantes - ou esperar para serem mortos por eles. O filme pega pesado na tensão e principalmente na ironia e no humor negro, mostrando até um casal de pais que compra um colete à prova de balas para a filha participante do programa e ainda leva a menina de carro até o local onde ela irá matar um dos rivais! Milagrosamente, passou até no cinema no Brasil, onde foi lançado com o ridículo título O SOBREVIVENTE pela sua semelhança com o filme de Schwarzenegger. Foi lançado também em DVD, que eu infelizmente nunca vi em nenhuma locadora.


KOLOBOS (idem, 1999, EUA). Direção: Daniel Liatowitsch e David Todd Ocvirk.
Outro filmão que injustamente está mofando nas locadoras brasileiras. Cinco jovens respondem ao anúncio para fazerem um teste de atuação - com a promessa de estrelarem um futuro filme. Eles são confinados a uma casa repleta de câmeras, que monitoram a turma 24 horas por dia. Subitamente, as portas e janelas são cobertas por um paredão de aço intransponível e as pessoas no interior da casa começam a ser mortas da forma mais brutal e sangrenta - tudo filmado pelas câmeras nos cômodos da casa. A solução do mistério pode estar num misterioso personagem chamado Kolobos, que uma das personagens, sensitiva, enxerga em suas alucinações. Fãs do cinema italiano dos anos 80 e principalmente de Lucio Fulci, os dois diretores fizeram um dos filmes mais sangrentos dos últimos anos, mostrando pessoas cortadas ao meio, tripas expostas, membros decepados e até uma recriação sangrenta da clássica "cena do olho" de ZOMBIE. Aqui, uma loirinha tem seus olhos lentamente perfurados nos chifres de uma cabeça empalhada de veado! Procure na locadora e surpreenda-se!

O OLHO QUE TUDO VÊ (My Little Eye, 2002, Inglaterra). Direção: Marc Evans.
Cinco jovens são convidados para participar de um reality show transmitido via Internet. São levados até uma casa, no meio do nada, com a obrigação de ficarem ali por seis meses. A regra principal é que se alguém do grupo deixar a casa, todos os participantes perderão o prêmio: um milhão de dólares. Faltando poucos meses para encerrar o prazo, coisas estranhas começam a acontecer: armas aparecem pela casa, vultos são vistos na escuridão e a produção do programa cessa o suprimento de comida. Os jovens pensam que é um plano sórdido para obrigá-los a deixar o local e perder o prêmio, mas a solução do mistério é bem mais chocante do que eles pensam. Outro ótimo filme que lida criativamente com a relação "morte ao vivo", agora usando a Internet como veículo da mídia ao invés da TV. Um dos únicos da lista que foi exibido com estardalhaço no Brasil, passando nos cinemas e depois indo para as locadoras com relativo sucesso. Final surpresa e bastante violência complementam o programa, que tem cenas de tortura psicológica e tensão muito bem executadas.


EXECUÇÃO AO VIVO (Witness to the Execution, 1994, EUA). Direção: Tommy Lee Wallace.
Trata-se de uma produção bem ruinzinha feita para a TV e disponível em vídeo no Brasil, com direção do famigerado Tommy Lee Wallace (amigão de John Carpenter e diretor do polêmico HALLOWEEN 3). A outrora famosa porém ainda bela Sean Young (de BLADE RUNNER, lembra?) interpreta a diretora de uma poderosa estação de TV, que tem uma tática sórdida para bater todos os recordes de audiência nos Estados Unidos: exibir, ao vivo, a execução na cadeira elétrica de um famoso assassino. O problema é que a moça começa a simpatizar com o criminoso, se apaixona por ele e desconfia que o tal bandidão é inocente. Aí começa a tradicional corrida da mocinha contra o tempo para tentar descobrir a verdade e "fazer justiça", esquecendo a crítica ao sensacionalismo da mídia, que deveria ser o grande mote de um filme com este enredo! Perda de tempo...

CUT AND RUN (Inferno a Diretta, 1985, Itália). Direção: Ruggero Deodato.
Neste retorno do diretor Deodato ao território que o celebrizou no clássico CANNIBAL HOLOCAUST, uma dupla de jornalistas americanos vai à Amazônia em busca do coronel Horne (interpretado por Richard Lynch), que vive recluso no meio da selva cercado por uma tribo de selvagens que ele lidera - e que tem esquartejado traficantes de drogas na região. Como os repórteres levam uma câmera e uma conexão portátil com satélite, podem transmitir ao vivo do meio da floresta a qualquer momento. E o ápice do filme é justamente uma transmissão, em rede nacional, da execução de um dos personagens centrais. Um filmaço de Deodato, com sangue aos borbotões e algumas das cenas de morte mais gráficas que o cinema já mostrou - tanto que o diretor teve que filmar cenas mais "soft" para a versão censurada, lançada nos Estados Unidos.
Leia o artigo sobre o filme, clicando aqui.

Felipe M.Guerra


$LA$HER$($la$her$, Canadá, 2001). 99 minutos.
Direção: Maurice Devereaux
Roteiro: Maurice Devereaux
Produção: Maurice Devereaux
Fotografia: Denis-Noel Mostert
Edição: Maurice Devereaux
Música: Martin Gauthier
Efeitos Especiais: Adrien Morot
Desenho de Produção: Jean-Phillippe Hebert
Elenco: Sarah Joslyn Crowder (Megan Lowry); Kieran Keller (Michael Gibbons); Tony Curtis Blondell (Devon White); Sofia Demedeiros (Brenda Thompson); Jerry Sprio (Rick Fisher); Neil Napier (Chainsaw Charlie e Preacherman); Carolina Pla (Rebecca Galley); Claudine Shiraishi (Miho Taguchi); Takaaki Honda; Erik Rutherford; Christopher Piggins




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