SLUGS

por Felipe M.Guerra

Lesmas assassinas carnívoras? Acredite se quiser!l


O cinema de horror e suspense já mostrou todo tipo de animal assassino. Alguns convencem por serem naturalmente "malvados" e assassinos, como os tubarões, dinossauros, leões e cobras. Outros já são mais difíceis de engolir, como aranhas, gatos, coelhos (!!!), cachorros, ratos, baratas (!!!!!) e sapos, mas o espectador até dá um desconto, porque quem sabe um dia você não encontra mesmo uma barata psicopata ou um sapo furioso por aí? Agora, convenhamos: tem filme que apela... O objeto de nossa discussão de hoje, inclusive, é um dos mais apelativos no subgênero "assassinos do reino animal" que eu já tive a oportunidade de conferir. Acredite se quiser, mas durante pouco mais de 90 minutos o filme SLUGS tenta te fazer acreditar - e aceitar - a existência de LESMAS MUTANTES CARNÍVORAS!!! Já parou de rir? Ótimo, então vamos continuar...
Eu já tinha ouvido falar poucas e boas sobre esta moderna maravilha da sétima arte, que certamente deixaria os irmãos Lumiére muito orgulhosos de terem inventado o cinema. O sempre mal-humorado Guia de Vídeo Nova Cultural, lá na sua edição de 1992 (faz tempo...), deu uma única estrelinha para o filme, sendo que só pela idéia das lesmas assassinas já merecia pelo menos umas quatro (originalidade é o forte da produção; cara-de-pau para levar tudo a sério, então...). Já o mais bem-humorado Guia de Vídeo Terror do Guilherme De Martino deu 3 estrelas. Mas o que realmente me animou a conferir foram as três estrelinhas com que o meu colega de Boca do Inferno, o Gênesis, condecorou o filme em crítica publicada aqui mesmo, no site da Boca. Pronto: agora eu já tinha motivos que chega para ver SLUGS. E passar o resto da minha vida morrendo de medo de lesmas!!!



Bom, lesma, como todo mundo sabe (ou deveria saber), é aquele bichinho viscoso que parece uma grande sanguessuga, mas tem duas anteninhas para diferenciar. E você sempre pensou que aquilo era uma sanguessuga marciana, né? (Argh! Essa foi péssima!). Mas voltando à nossa aula sobre o mundo animal: as lesmas andam à espantosa velocidade de 0,00000000001 metros por hora e deixam um rastro melequento por onde passam. Esta substância viscosa é a forma usada pelo animal para se locomover, escorregando sobre a meleca - afinal, não deve ser nada fácil andar por aí arrastando a barriga no chão! E não, as lesmas NÃO são carnívoras. Decepcionado? Mas não se preocupe, porque as lesmas de SLUGS sofreram mutação provocada por lixo radioativo (lógico!!!), e portanto ganharam este apetite voraz por carne humana. Continuam umas lesmas na velocidade, mas isso não impede os bichinhos de perseguir (quaquaqua) e devorar, em questão de segundos, pessoas maiores e muito, mas muito mais fortes que um milhão de lesmas juntas!!! Sentiu o drama??? Já parou de rir??? Ótimo, vamos adiante...

A coisa melhora ainda mais de figura quando você vai olhar os créditos do filme e vê quem é o diretor da tralha. Não, não é o italiano Bruno Mattei... Mas quase! Mattei, como todo mundo sabe, fez o "clássico" RATOS, de 1984, aquele onde ratinhos de brinquedo e porquinhos-da-índia eram atirados sobre os atores para simular o ataque de ratos carnívoros (que medo!!!). Já a "honra" de dirigir esta fábula sobre lesmas assassinas coube ao espanhol Juan Piquer Simón, que gosta de assinar J.P. Simon para parecer diretor americano. Nosso querido Juan Piquer - ou J.P., para os íntimos - não é tãoooooo escancaradamente engraçado como Bruno Mattei, mas dirigiu dois dos "melhores piores" filmes recentes: PIECES, lançado aqui com o título picareta de O TERROR DA SERRA ELÉTRICA (feito em 1982), e MANSÃO MACABRA (de 1990). Quem viu estes dois, já sabe o que esperar de SLUGS: personagens inconsistentes, violência gratuita e muitas cenas sem pé nem cabeça.



Nossa tocante história começa com um casal de manés num barquinho, bem no meio de um lago. Enquanto a loira gostosa e anônima (Karen Landberg, infelizmente em seu único papel) reclama que quer nadar, o panaca do namorado, Wayne (Erik Swanson), só quer saber de pescar e nem dá bola para a boazuda... E isso que ela está louca por sexo e até ameaça fazer um topless! Infelizmente, quando a loira está começando a tirar a blusa, o mané do Wayne cai do barco (embora seja visível que o ator está se atirando mesmo) e afunda. Não volta mais para a superfície. Ao invés de ficar preocupada, a namorada faz o que normalmente pensam as personagens secundárias de filmes de horror: acha que ele está brincando e tentando assustá-la. Depois de dezenas de gritos de "Wayne, pare com essa brincadeira sem graça!", ela descobre que a coisa é séria quando a água começa a borbulhar e liberar jorros e mais jorros de sangue, como se estivéssemos vendo um filme sobre piranhas ou tubarões assassinos!!! Então a mocinha grita e entram os créditos do filme: SLUGS - THE MOVIE!!! Eu até ia fazer uma piadinha, dizendo que o "The Movie" ("O Filme") no título era só para diferenciar o filme de SLUGS - O VIDEOGAME ou SLUGS - A SÉRIE DE TV, ou ainda de SLUGS - A ÓPERA. Mas a piadinha perdeu o sentido quando eu descobri que o "The Movie" só existe porque, acredite se quiser (e eu nem sei se acredito), existe um livro homônimo assinado por um tal de Shaun Hutson, no qual o roteiro de Simón, José Antonio Escrivá e Ron Gantman se baseia (sim, a tralha tem três roteiristas). Aí você analisa: não só tiveram a coragem de fazer um filme sobre lesmas mutantes carnívoras, mas também um livro!!! E você pensando que só o Paulo Coelho escrevia abobrinhas, né? Já parou de rir??? Ótimo, recobre o fôlego e continuemos...



Quando os créditos encerram e o filme recomeça, o roteiro não faz qualquer menção ao casal do barco. Ninguém pergunta por Wayne ou sua namorada loirinha, a polícia não investiga o desaparecimento do casal e, aparentemente, a garotinha não conseguiu voltar à terra firme para contar sua apavorante experiência, já que ninguém toca no assunto... Aliás, que conclusão podemos tirar deste episódio do barco? Sei lá, mas vou dizer a conclusão que EU tirei: as lesmas, além de mutantes e carnívoras, também são excelentes nadadoras (afinal, foram parar no meio de um lago para matar o mané do Wayne!). E também são extremamente fortes para, mesmo sem possuírem braços ou pernas, conseguirem puxar um homem de grande estatura para dentro da água - ainda não consegui criar uma teoria para explicar como elas fizeram isso. Pior: as lesminhas assassinas ainda encontraram força suficiente para afundar Wayne no lago, impedindo-o de voltar à superfície. Hmmmm... É melhor imaginar que o prólogo não tem nada a ver com o resto do filme e que os personagens foram atacados por piranhas, mesmo... Ou talvez por um tubarão faminto que estava passando por ali antes do ataque das lesmas...

Mas voltando à história: depois do casalzinho de adolescentes num lago, SLUGS não perde tempo em mostrar outro personagem-vítima clichê em filmes de horror. No caso, um bêbado xarope que aparece em cena por apenas dois minutos, mas já é o suficiente para encher o saco do espectador. No caso, ainda aparece conversando com seu cachorro (claro!), antes de ir parar na barriga das lesmas. Peraí... Lesma tem barriga? Ah, deixa pra lá! Bom, a coisa vai mais ou menos assim: o bêbado anônimo mora num casarão abandonado e não quer aceitar a ordem de despejo da prefeitura - não que isso seja importante para a história. Ele vai comer uma pizza fria, toma sua cachaça e então deita no sofá - grande atuação! No mesmo momento, começa a gritar e se debater. Que conclusão podemos tirar deste episódio do sofá? Certamente, o bêbado não viu que deitava sobre um montão de lesmas assassinas, que revidaram devorando o coitado vivo. No caso, foram rápidas e mortais o suficiente para devorarem sua roupa antes de chegar à carne propriamente dita! E o ataque foi tão fulminante que o cara nem teve tempo de levantar e sair correndo! Já parou de rir??? Então vamos em frente que tem muito mais...



Bem, já tivemos uma morte num lago e outra morte num sofá. É hora de entramos numa nova discussão: se as lesmas são o animal mais lento do universo (perdem até para a tartaruga), além de minúsculas e sem membros para agarrar suas vítimas, ou seja, são os animais mais desajeitados e menos ágeis da natureza, como é que elas conseguem agarrar suas vítimas e devorá-las sem que estas consigam sequer reagir? Porque pense bem: se você deitasse num montão de lesmas assassinas, não iria imediatamente levantar e sair correndo ao levar a primeira dentada (quaquaqua), ao invés de ficar se contorcendo até acabar devorado vivo??? E já que falamos em ser devorado: considerando o tamanho da boca e dos dentes das lesmas, uma pessoa ser comida (sem malícia) pelos bichinhos deveria levar uma eternidade, diga-se de passagem... Então, só posso pensar em algumas hipóteses para explicar a forma como as bichas atacam. Como o filme não se preocupa em esclarecer qual é a mais correta, você vai ter que escolher a sua preferida:



1-) As lesmas hipnotizam suas vítimas para que fiquem paradinhas enquanto são lentamente devoradas!

2-) A substância viscosa que as lesmas liberam para se locomover funciona como Super Bonder para os humanos, e eles ficam grudados para serem devorados!

3-) As lesmas são tão repulsivas que as vítimas ficam paralisadas de medo e nojo, sendo rapidamente devoradas!

4-) As lesmas fizeram um treinamento com o mestre Pai Mei e aprenderam a milenar técnica das "cinco mordidas que paralisam o bobalhão", ou seja, dão cinco dentadas em pontos estratégicos das vítimas e elas ficam duras que nem pedra, perdendo todo o movimento do corpo, e impossibilitadas de fugir!

5-) Lesmas são lentas para se locomover, mas rapidíssimas na hora de comer!



Voltando ao filme: o bêbado é devorado pelas criaturinhas enquanto a câmera de J.P. Simón se afasta e filma um amontoado de lesmas nojentas em close, se mexendo e roçando umas nas outras, numa tática semelhante à de Bruno Mattei em RATOS - o italiano filmava seus personagens com olhares apavorados e então cortava para cenas de closes de um montão de ratos uns sobre os outros! Devorado o bêbado, o roteiro parte para nos apresentar os personagens centrais da trama, três casais adultos - contrariando a rotina desses filmes, em que os adolescentes reinam. O casal Brady é formado pelo inspetor de saúde Mike Brady (Michael Garfield, que, apesar do sobrenome, não é gato, laranja nem gosta de lasanha, mas apareceu no filme WARRIORS - OS SELVAGENS DA NOITE) e sua esposa, a professora Kim Brady (Kim Terry). Não sei se você percebeu, mas os personagens têm o mesmo nome dos atores (Michael-Mike, Kim-Kim). Descobriu agora de onde A BRUXA DE BLAIR copiou sua tática de pôr os atores representando com seus primeiros nomes??? Quaquaquaquaqua!!!

Além dos Brady, somos apresentados ao casal ricaço da cidade, os Watson: ele é David Watson (o espanhol Emilio Linder), aparentemente um bancário, e ela é Maureen Watson (a bonitinha Alicia Moro, do trash italiano OS EXTERMINADORES DO ANO 3000). Em outro detalhe inútil do roteiro, Maureen é uma pinguça pudim-de-cana que adora enxugar uma cachacinha e coloca o marido em maus lençóis - como se isso fizesse qualquer diferença na trama!!! E além deles, temos também o casal Palmer: o sanitarista Don Palmer (Philip MacHale) e sua esposa feiosa Maria Palmer (Concha Cuetos); aparentemente, eles não têm uma filha chamada Laura Palmer, então aquela que aparece na série TWIN PEAKS pertence a outro casal Palmer...



No dia seguinte ao ataque das lesmas, Mike é chamado pelo xerife durão da cidadezinha, chamado Reese (John Battaglia, morto em 2003), para ir dar uma olhada no cadáver do bebum devorado. Porque, como todos nós sabemos, inspetores de saúde são indispensáveis em cenas de crimes - pelo menos é assim em MEDO PONTO COM!!! Neste ponto, finalmente, a câmera do espanhol Simón finalmente começa a enfocar sangue e nojeira, ao mostrar, em detalhes gráficos, o que sobrou do cadáver do bêbado, todo carcomido e repleto de vermes saindo das órbitas vazias dos olhos. Brrrr! Esperto como um Sherlock Holmes, Brady percebe um rastro viscoso que leva do cadáver até a porta do porão... e, então, chega à brilhante conclusão que foram ratos os responsáveis pela morte!!! Porque, como todos nós sabemos, os ratos normalmente deixam rastros viscosos no interior das casas e, como muito bem demonstrou Bruno Mattei, também são ferozes devoradores de carne humana... Já parou de rir??? Ótimo, vamos em frente que atrás vem gente!

Horas depois de recolhido o cadáver devorado, Brady e seu amigo Don são insistentemente chamados por uma velha e chata senhora para verificar o sistema de esgoto da rua. Don veste uma roupa amarela parecida com aquelas anticontaminação das usinas nucleares. Brady até diz: "Você vai para a Lua vestido assim?". Complementando o diálogo brilhante, Don devolve com um: "Lá embaixo não é muito diferente da Lua". Ou seja: a Lua deve ser repleta de bosta e ratos, um lugar horrível, e por isso Neil Armstrong e sua turma nunca voltaram para lá! Já no esgoto, Don utiliza um enorme gancho de metal para desentupir um cano, e de lá tira todo tipo de animal morto e parcialmente devorado. Mas, de repente, o gancho fica preso e é lentamente puxado para o interior do cano. Sim: aparentemente, as lesmas, mesmo sem braços e pernas, agarraram o gancho e o puxaram para dentro do cano!!! Sentiu o drama? Apavorado, Don sai correndo dali, mas não lembra de dizer uma única palavra sobre o acontecido - apesar de ter perdido seu valioso gancho, principal instrumento de trabalho de um sanitarista... Se tivesse contado o acontecido a Mike, provavelmente ele investigaria o "fenômeno" e ambos descobririam o fenômeno das lesmas assassinas ainda aos 15 minutos de filme, poupando um monte de personagens secundários de morrerem violentamente. Como estamos num filme de horror, nada é comentado, o assunto é esquecido e as lesmas ficam livres para agir...



A partir de então, o filme vai apresentando seus outros personagens secundários (leia-se "vítimas"), desta vez sim adolescentes com os hormônios em ebulição - e péssimos cortes de cabelo e atitudes rebeldes, já que a produção é dos anos 80!!! Aparece, também, um casal de velhinhos, Harold Morris (Juan Maján) e sua esposa Jean (Lucia Prado). Harold está na estufa de sua casa praticando seu hobby de jardinagem. Sem que ele perceba, entretanto, ovos de lesma (!!!) que estavam nas proximidades chocam com rapidez (!!!) e duas delas entram na sua luva de jardineiro. Provavelmente com os olhos fracos devido à idade, ou cansado pelo exaustivo trabalho, Harold não percebe o rastro viscoso até as luvas e nem sente as lesmas no interior da luva ao vestí-la. Só percebe que tem duas lesmas carnívoras ali quando, aparentemente, começa a levar mordidas. Então, nosso amigo grita em desespero e agonia, mas não consegue de jeito nenhum tirar a luva - lembre-se que as lesmas são fortes e devem estar segurando-a pelo lado de dentro, mesmo sem terem braços ou pernas para fazer isso. No auge do desespero, Harold chega à conclusão que a dor na mão só vai parar se ele... cortá-la fora com um machado!!!! Realmente, aposto que assim vai parar de doer na hora!!! Quaquaquaqua! Quer dizer, por que não bater com a mão na parede até esmagar as lesmas??? Mas isso seria muito complicado, é mais fácil decepar a mão... Então, depois de generosos e nojentos closes da mão levando machadadas (porque, ao contrário do que acontece nos filmes do gênero, o machado não faz o serviço de primeira, obrigando o pobre Harold a dar várias machadadas para conseguir cortar carne e osso), duas substâncias químicas perigosíssimas que o velho guardava na estufa explodem em contato com a eletricidade e mandam a estufa, junto com Harold, Jean e as lesmas, para o espaço!



Após um dia difícil no trabalho, Mike Brady volta para casa e percebe a presença das lesmas no jardim da esposa. Entendido no assunto que é, Brady declara: "Meu Deus, como essas lesmas são enormes!". E, bocó, vai tentar encostar em uma delas, levando uma dentada na ponta do dedo em close, na grande e inesquecível cena do filme!!! Acredite, você vai ficar rindo durante uns 20 minutos ao ver a boca da lesma com dentinhos e até língua, além de um olhar malvado ao morder o dedo daquele ser humano chato!!! Preocupado com a violência das lesmas em seu jardim, o inspetor de saúde recolhe algumas em um pote e leva para seu amigo cientista com sotaque inglês, John Foley (Santiago Álvarez), analisar.

Enquanto isso, o casal ricaço - os Watson, lembra - está tendo problemas. Maureen encheu a cara toda manhã e não teve tempo de fazer o almoço do pobre David. Então, decide fazer uma saladinha básica. Ainda meio bêbada, não percebe que há uma lesma dentro do alface e corta ela em pedacinhos junto com o legume. Isso sim que é cozinheira atenciosa - imagina só o que não entrou de "brinde" nos outros pratos avidamente consumidos por David nos outros dias... Quando o pobre maridão come a saladinha temperada com lesma fatiada, começa a passar mal - isso mesmo, passar mal. Eu, inicialmente, achava que a lesma não tinha morrido e estava devorando o coitado por dentro. Mas a explicação para o fenômeno é ainda pior: na cena mais nojenta de SLUGS, David está num restaurante chique fechando negócio com uns clientes ricaços e finíssimos quando começa a sangrar por todos os póros! Depois, seu rosto explode e libera um montão de vermes que estavam crescendo em seu interior e devorando-o vivo! Pode? Tudo porque ele comeu um pedacinho de lesma fatiada! Por isso, muito cuidado com o que você come a partir de agora!!! Já parou de rir e de examinar os legumes da sua casa??? Vamos adiante, então...

Claro que, num filme de lesmas assassinas, ainda temos muitas outras cenas bonitas para comentar, como uma das assassinas escapando de sua "prisão" no laboratório do dr. Foley para devorar um rato!!! Porém, não dá para deixar de citar o triste fim do casal de adolescentes tarados (outro clichê do gênero), que está transando com vontade na casa dos pais dela. Após a rápida e tradicional cena de sexo e nudez gratuita, Bobby (Kris Mann), que tem o cabelo mais ridículo do filme, vai botar o pé no chão e, em uma fração de milésimo, é atacado pelas lesmas. Acredite se quiser, mas o chão do quarto está minado de lesmas, saídas de dentro do vaso sanitário! E o pior é que a menina, Donna (Kari Rose), escorrega e cai bem no meio das milhares de lesmas, sendo rapidamente devorada viva, enquanto se contorce peladona e ensangüentada. Sem brincadeira: em questão de segundos as lesmas conseguem até arrancar um dos olhos da menina da órbita! Caramba, mas como estas lesmas mutantes são rápidas e vorazes! Já o rapaz peladão em cima da cama decide que só tem uma chance de fugir: pulando a janela. Parece incrível, mas nenhum personagem do filme pensa que é possível sair correndo e pisoteando as lesmas!!! Então, quando Bobby está quase conseguindo alcançar a janela, acaba caindo da cama e também é devorado...



A estas alturas, preocupado com tantos assassinatos, o xerife já não sabe mais o que fazer. Assim, ele trava um diálogo fantástico com seu assistente, que é mais ou menos assim:

- Assistente: "Com certeza, xerife."
- Xerife: "Sem essa de 'com certeza, xerife' a não ser que você esteja realmente certo!
- Assistente: "Mas eu estou certo de que estou certo, xerife!"
- Xerife: "É bom mesmo estar certo, ou eu vou enfiar minha bota tão fundo no seu traseiro que vai precisar de um guincho para tirá-la de lá!"

Brilhante não? E o pessoal ainda tem coragem de dizer que Shakespeare e Cervantes é que são os grandes autores!

Não demora muito (bem, talvez um pouquinho só) para que nosso intrépido Mike Brady comece a ligar os fatos: corpos devorados, rastros viscosos, grandes lesmas no jardim que mordem o dedo das pessoas... Claro, a culpa é das lesmas!!! Só que chegar à conclusão que as responsáveis pelas mortes são as lesmas mutantes carnívoras não vai ajudar muito, pois obviamente ninguém vai acreditar no pobre coitado. É o amigo Don que explica a razão das lesmas terem se transformado em assassinas: aparentemente, elas cresceram em uma parte da cidade onde, nos anos 50, a cidade depositava lixo tóxico e radioativo. Sacou? São lesmas radioativas! Assim, Brady, Don e o cientista Foley decidem se unir para destruir a ameaça antes que as lesmas devorem toda a cidade! Como clichê pouco é bobagem, o trio de heróis enfrenta a fúria do xerife, do prefeito e das lideranças da cidade. Afinal, está para ser construído no local um grande shopping-center (quaquaqua), e ninguém quer que os boatos de lesmas mutantes carnívoras (quaquaqua) se espalhe e afaste os investidores. Por mais que Brady e seus companheiros tentem conscientizar os cidadãos, mais são rechaçados e mais vítimas vão aparecendo completamente devoradas. Como deter a ameaça das lesmas assassinas???? E como fazer as pessoas acreditarem na ameaça se nem mesmo o espectador consegue aceitar a idéia????????



Enfim, se você acha que já viu tudo em matéria de trash movies, SLUGS é um filme que vai te surpreender. Eu mesmo, experiente neste tipo de tralha, fiquei fascinado (e ao mesmo tempo horrorizado) com a maneira como todo mundo no filme está levando a coisa a sério. Até a trilha sonora é séria e exagerada, lembrando aqueles filmes-catástrofe de antigamente! Já as cenas finais, em que Brady e Don descem aos esgotos da cidade para tentar eliminar o "ninho" das lesmas, são primorosas: o diretor ainda tenta fazer suspense, como se as criaturinhas fossem o mais horrível dos inimigos. hehehehe.

E os efeitos especiais meia-boca, exageradamente sangrentos e nojentos, ajudam a transformar SLUGS num obrigatório programa cômico-gore, com bastante sangue e nojeira. O responsável é o espanhol Basilio Cortijo, habitual colaborador do diretor - comandou a sangreira também em O TERROR DA SERRA ELÉTRICA e MANSÃO MACABRA. Já o supervisor de efeitos especiais é o italiano Carlo De Marchis, que começou a carreira ajudando a construir o monstro de ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO e acabou em MONSTER DOG, de Claudio Fragasso, e nesta tralha aqui!!! Não faltam incontáveis tomadas em close de lesmas se locomovendo, inseridas em meio à ação para parecer que todas aquelas lesmas de mentirinha usadas no cenário são mesmo reais! Aliás, os fãs de horror vão perceber que as enormes lesmas pretas parecem com aquelas minhocas espaciais que entram na boca das pessoas no clássico oitentista A NOITE DOS ARREPIOS, injustamente inédito em vídeo e DVD no Brasil.



Para piorar (ou melhorar, dependendo do ponto de vista), SLUGS ainda tem grosseiros erros de continuidade. Acontece que, acredite se quiser, ele foi filmado parte nos Estados Unidos, parte na Espanha, terra-natal do diretor Simón, para baratear a produção!!! Dá para acreditar nisso? Por causa deste "pequeno detalhe", um dos núcleos de personagens (Brady, seus amigos, o xerife...) nunca encontra o outro (os adolescentes, o casal de velhinhos, o bêbado morto no início do filme). As cenas com os atores americanos, tipo Garfield, que interpreta o herói, foram todas feitas nos Estados Unidos, na cidadezinha de Wayne, no interior de Nova York; já as cenas com os adolescentes e outras vítimas foram filmadas em Madri, na Espanha, onde o custo de produção é bem menor. Para piorar, todos os atores espanhóis envolvidos na produção acabaram dublados em inglês - dublagem muitas vezes visivelmente fora de sincronia. Um exemplo clássico de erro de continuidade provocado pelas filmagens em países diferentes é a morte do casal Bobby e Donna, aqueles que transavam antes do ataque das lesmas. A cena da transa e da morte dos garotos foi feita na Espanha; no dia seguinte (no filme), quando Brady e o xerife vão ao quarto das vítimas dar uma olhada nos cadáveres, o aposento É COMPLETAMENTE DIFERENTE, pois estas cenas foram rodadas nos Estados Unidos! E dá para perceber muitos outros momentos onde a edição simplesmente não fecha. Uma festa que a garotada faz no meio do mato no finalzinho do filme também foi gravada na Espanha com atores espanhóis, e por isso os atores americanos não interagem com eles neste momento... E eu pensando que só o Bruno Mattei aprontava destas! Já parou de rir??? Pois continue que está quase no fim do texto...



SLUGS é um filme demente e divertidíssimo, daqueles que, vistos com bom humor, nos fazem rolar de rir. Ainda que o roteiro se leve a sério, simplesmente não tem como acreditar que as lesmas assassinas possam representar uma ameaça. Quer dizer, você realmente teria medo de lesmas carnívoras? Se encontrasse um monte delas pela frente, não iria sair pisoteando as monstrinhas, ou mesmo chutá-las longe ou sair correndo e pulando por cima delas? Ora, o roteiro jamais explica como os animaizinhos daquele tamanho (sem pernas nem braços, volto a citar) conseguem ter força e habilidade para derrubar pessoas no chão e devorá-las. Em uma cena, por exemplo, o cadáver de uma mocinha é arrastado (isso mesmo, arrastado!!!) por um grupo de lesmas!!!! Como elas fazem isso? Empurram? Carregam nos ombros??? Ora, mas se fosse assim, na velocidade lesmática, iria demorar mais de um ano para mover o corpo um centímetro!!! Eu até achei que havia uma enorme lesma mutante gigante, tipo uma "lesma-rainha" chupada da série ALIEN, que tivesse tamanho descomunal ou coisa parecida, mas não tem nada disso... Portanto, o melhor é não tentar entender, esquecer a lógica e divertir-se a valer com bobagens como esta - e também com as lesmas aquáticas, que atacam debaixo d'água como se fossem piranhas!!!



Relançado em DVD nos Estados Unidos recentemente, pela Anchor Bay, SLUGS hoje só existe no Brasil em fita VHS, que já é até um tanto rara. Foi lançada pela extinta Transvídeo, que, curiosamente, manteve o título original, SLUGS, mais sonoro, ao invés de traduzir para algo como LESMAS ASSASSINAS ou O ATAQUE DAS LESMAS. Na Espanha, SLUGS foi lançado com outro título: MUERTE VISCOSA (Morte Viscosa). Infelizmente, o diretor J.P. Simón está sem filmar há algum tempo (desde 1999, para ser mais exato), e desde CHTULU MANSION, de 1990, que suas obras não são mais lançadas no Brasil, privando os apreciadores de podreiras cinematográficas de maluquices como este SLUGS.



Mas se você acha que lesmas assassinas é o cúmulo da apelação no cinema de horror, saiba que existem outros filmes bem mais, hã..., apelativos. Um deles é SQUIRM (inédito no Brasil, claro), que foi feito em 1976 por Jeff Lieberman e mostra uma imprevisível ataque de... minhocas assassinas!!! Por essas e por outras, eu concordo com o carrancudo xerife de SLUGS, que, ao ser informado pelo herói sobre a ameaça das lesmas carnívoras, responde com a ironia típica de homem da lei em filmes B: "E o que vai vir em seguida? Grilos psicopatas?". Olha, meu amigo xerife, do jeito que os roteiristas de cinema andam apelando, criando até mesmo geladeiras, camisinhas e bonecos de neve assassinos nos últimos anos, não é de se duvidar, viu?



Já parou de rir??? Pois eu ainda não, e nem vou parar tão cedo! Como filme de horror, SLUGS é uma excelente comédia!!!

Felipe M.Guerra

SLUGS
(Slugs: The Movie, EUA/Espanha, 1988). 92 minutos
Direção: Juan Piquer Simón
Roteiro: Ron Gantman; José Antonio Escrivá; Juan Piquer Simón, baseado numa obra de Shaun Hutson
Produção: Francesca DeLaurentiis; José Antonio Escrivá; Juan Piquer Simón
Fotografia: Julio Bragado
Edição: Antonio Gimeno; Richard E. Rabjohn
Direção de Arte: Gonzalo Gonzalo
Figurino: María Eugenia Escrivá
Maquiagem: Manu Moreno; Pedro Camacho
Elenco: Michael Garfield (Mike Brady); Santiago Álvarez (John Foley); Philip MacHale (Don Palmer); Alicia Moro (Maureen Watson); Kim Terry (Kim Brady); Emilio Linder (David Watson); Concha Cuetos (Maria Palmer); John Battaglia (Xerife Reese); Manuel de Blas (Mayor Eaton); Frank Braña (Frank Phillips); Kris Mann (Bobby Talbot); Kari Rose (Donna Moss); Juan Maján (Harold Morris); Lucía Prado (Jean Morris)



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