NA SOLIDÃO DA NOITE
Texto escrito por Renato Rosatti
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Considerado um grande sucesso de público e crítica na sua época, "Na Solidão da Noite" (Dead of Night, 1945) foi um dos primeiros filmes de horror realizado na Inglaterra desde o começo da Segunda Guerra Mundial, pois a censura havia banido os filmes desse gênero por causa do excesso de violência e a maioria dos filmes americanos passavam despercebidos por lá até 1945.
O filme é um dos precursores de um estilo que seria muito explorado posteriormente, a apresentação de várias histórias de temas sobrenaturais em forma de antologia. "Na Solidão da Noite" é dividido em cinco contos de horror interligados por um tema central e dirigidos por quatro grandes cineastas (um deles é o brasileiro Alberto Cavalcanti), tornando-se um clássico do gênero e fonte de inspiração para várias obras que se seguiram. | Foi produzido pela "Ealing Studios", responsável também por outro filme importante com temática de fantasmas do mesmo período, "The Halfway House" (1943), dirigido por Basil Dearden.
O roteiro apresenta a história de um arquiteto, Walter Craig (Mervyn Johns), que sofre constantemente pesadelos horríveis e é convidado a passar um fim de semana numa casa de campo, onde os proprietários pretendem fazer umas reformas. Ao chegar, ele se surpreende ao encontrar exatamente as mesmas pessoas que participam de seus pesadelos. Elas, que nunca haviam visto o arquiteto antes, passam então a narrar casos fantásticos que viveram.
A primeira história, "The Hearse Driver", dirigida por Basil Dearden, é sobre um piloto de carros de corrida, Hugh (Anthony Baird), que após um grave acidente nas pistas, sobrevive milagrosamente. Ao sair do hospital, ele escapa novamente da morte ao não embarcar num ônibus que sofreu logo em seguida um trágico acidente, graças a um misterioso aviso de um agente funerário (Miles Malleson).
"The Christmas Story" é o segundo episódio, com direção de Alberto Cavalcanti. Conta a história de uma jovem garota, Sally O'Hara (Sally Ann Howes), que numa festa de natal numa velha mansão, encontra um garoto chorando na escuridão de um quarto oculto, desconhecido na enorme casa. Mais tarde ela descobre que ele havia sido assassinado naquele local, por sua irmã, dezenas de anos antes.
O terceiro caso apresenta uma das mais fascinantes histórias de fantasmas do cinema. "The Haunted Mirror", de Robert Hamer, fala de um velho espelho pertencente a um aleijado que havia assassinado sua esposa. Comprado por Joan (Googie Withers) como um presente de aniversário ao seu marido Peter (Ralph Michael), o espelho passou a refletir a personalidade doentia de seu primeiro dono, incitando Peter a tornar-se um louco homicida e tentar matar sua esposa.
Entre a narração desses acontecimentos sobrenaturais, o grupo de pessoas da fazenda discutiam o sonho do arquiteto no qual eles estavam envolvidos, e comentavam suas próprias experiências fantásticas, com o fórum de discussão sendo liderado pelo psicólogo Dr. Van Straaten (Frederick Valk), que procurava sempre encontrar uma explicação lógica e racional para os misteriosos fatos.
O quarto episódio é o mais fraco de todos, apesar de ser baseado numa história do grande escritor Herbert George Wells (autor de clássicos como "A Guerra dos Mundos", "O Homem Invisível", "A Ilha do Dr. Moreau", "Os Primeiros Homens na Lua" e "A Máquina do Tempo"). "The Golfing Story" é dirigido por Charles Crichton, com uma história de fantasmas apresentada com elementos de humor. Dois jogadores de golfe rivais, George e Larry (Basil Radford e Naunton Wayne, respectivamente), disputavam o amor da mesma mulher, Mary (Peggy Bryan), através de uma partida de golfe. Quando Larry é enganado pelo companheiro, ele comete suicídio afogando-se num lago. A partir de então, George, o trapaceiro que venceu o jogo, é atormentado pelo fantasma do oponente morto.
Alberto Cavalcanti dirigiu também o último e mais famoso de todos os episódios, "The Ventriloquist's Dummy", estrelado por Michael Redgrave. Ele é Maxwell Frere, um esquizofrênico ventríloquo que apresenta uma dupla personalidade: a sua própria e a do boneco que manipulava. O boneco, chamado Hugo, acabou induzindo-o a matar um outro ventríloquo rival, o americano Sylvester Kee (Hartley Power), sendo preso por isto. Esta história teve um paralelo interessante no clássico "Psicose" (1960), de Alfred Hitchcock, na incrível similaridade com o personagem insano Norman Bates (interpretado por Anthony Perkins), que também apresentava uma dupla personalidade, a sua própria e da falecida mãe possessiva. A história sobrenatural do boneco do ventríloquo foi refilmada diversas vezes depois. Em 1962, num episódio da nostálgica série de TV "Além da Imaginação", com o nome "The Dummy", escrito por Rod Serling e estrelado por William Shatner (o eterno Capitão Kirk de "Star Trek").  | | E ainda, no episódio "The Glass Eye" da série de TV "Alfred Hitchcock Presents". Já em 1978 tivemos um interessante filme chamado "Um Passe de Mágica" (Magic), dirigido por Richard Attenborough e com Anthony Hopkins e Burgess Meredith no elenco.
Após o relato desses casos incomuns, o arquiteto é perseguido por todos os personagens das histórias e acorda repentinamente assustado, descobrindo estar em sua própria casa novamente. Passado mais esse pesadelo, ele recebe um novo convite para pousar por alguns dias numa casa de campo e... todo seu drama se inicia novamente. Percebemos que há um ciclo fechado no tempo envolvendo os horríveis pesadelos, reais ou não, de um perturbado arquiteto.
Renato Rosatti
AS VÁRIAS HISTÓRIAS DO CLÁSSICO NA SOLIDÃO DA NOITE
por Orivaldo Leme Biagi
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A popularização do aparelhos de vídeo acabou sendo uma das grandes conquistas artísticas deste final de século: podendo alugar os filmes oferecidos pelas locadoras, o cinéfilo ficou livre das tradicionais e longas esperas por seus filmes favoritos nas programações de televisão ou mesmo nos cineclubes. Muitas obras-primas são facilmente encontráveis nas locadoras e, quando não, até mesmo em bancas de jornal.
Mas nem sempre é assim tão simples. Muitas obras-primas não chegaram nas locadoras ou nas bancas de revista, sendo que, quase sempre, sequer são lançados em vídeo. Demorou muito para que os fãs brasileiros de terror pudessem alugar e assistir tranqüilamente o clássico Drácula, com Bela Lugosi, que é uma referência suficientemente famosa para não se ter de esperar tanto tempo. Mas outros filmes não deverão ter a mesma sorte: caso lançados em vídeo fora do Brasil, dificilmente entrarão no país. Este é, infelizmente, o caso deste clássico do cinema do terror, produzido na Inglaterra, sendo inclusive dirigido e supervisionado por um brasileiro, Alberto Cavalcanti: Na Solidão da Noite (Dead of the Night) dificilmente será lançado no mercado brasileiro. |
Alberto Cavalcanti (1897-1982) é um nome famoso no mundo do cinema internacional, mas um completo desconhecido no Brasil. Na década de 20 fez filmes "avant-garde" na França, conseguindo bastante destaque pela sua criatividade com a câmera. Em 1933, foi morar na Inglaterra onde começou a fazer documentários, ficando uma figura ainda mais famosa na Europa. Voltou ao Brasil para ser produtor da Companhia Vera Cruz de cinema, cargo que exerceu de 1949 até 1952, não atingindo o mesmo nível do seu trabalho anterior. Mas foi com o filme Na Solidão da Noite que Cavalcanti, trabalhando no Ealing Studios, atingiu seu grande momento no cinema, supervisionando os episódios e dirigindo um deles, o último.
O filme, levemente baseado no universo de H. G. Wells, entre outros escritores, conta 5 episódios de terror (com um prólogo e epílogo entre eles), sendo um dos primeiros filmes de terror a utilizar esta estrutura. O filme começa quando um arquiteto (Mervyn Johns) é convidado para um fim de semana numa mansão e, lá chegando, percebe que os outros convidados são pessoas que ele vê em pesadelos. Preocupado com a situação, ele fica na expectativa do que poderá acontecer nesta reunião, enquanto que os outros presentes pedem para que um psiquiatra explique seus pesadelos. E são contados, então, 5 histórias de terror.
A primeira, dirigida por Basil Dearden, é sobre um paciente de um hospital, que é piloto de provas, que tem um sonho onde ele perde a vida e, graças à esta premonição, consegue se salvar.  | | No segundo episódio, também dirigido por Dearden, uma garotinha brinca de esconde-esconde, entrando num quarto e encontrando um menino-fantasma. Já no terceiro episódio, dirigido por Robert Hamer, um homem compra um espelho maligno que o leva para o crime. A quarta história, dirigida por Charles Chichton, é sobre dois jogadores de golfe enfrentando um fantasma - e, de longe, o melhor humorado dos episódios. E o quinto e mais famoso, dirigido por Cavalcanti, conta a história de um ventríloquo (interpretado pelo genial Michael Readgrave) que começa a ficar louco quando seu boneco, Hugo, está procurando um novo parceiro. A história, então, volta para o arquiteto, e o filme acaba sem dar maiores explicações. 
O que realmente intriga nestas histórias são que elas buscam o absurdo nas maiores trivialidades possíveis, colocando o terror nas situações mais comuns e cotidianas, aproximando o público das situações. Em muitos sentidos, podemos concluir que o filme foi muito influenciado por um diretor inglês radicado nos Estados Unidos na época: Alfred Hitchcock. A importância deste filme não pode ser medida - podemos afirmar, inclusive, que quase todos os filmes posteriores com episódios (como No Limite da Realidade - Twilight Zone - The Movie, 1983, Estados Unidos), e um grande número de seriados televisivos baseados no suspense, terror ou ficção-científica (Além da Imaginação, Suspense, entre outros) copiaram alguma coisa deste original.
O filme não foi lançado em vídeo no Brasil e, pelo que o articulista saiba, fora também. A Rede Cultura o passou duas vezes na década de 80 em versão dublada. Seria bastante conveniente para nós, amantes do terror, que esta obra-prima fosse reprisada mais vezes.
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NA SOLIDÃO DA NOITE (Dead of Night, Inglaterra, 1945) Ealing Studios, 104 minutos, Preto & Branco
Direção: Alberto Cavalcanti, Basil Dearden, Robert Hamer e Charles Crichton
Roteiro: John Baines e Angus Macphail, baseados em histórias de H. G. Wells, John Baines, E. F. Benson e Angus Macphail
Produção: Michael Balcon
Música: Georges Auric
Elenco: Mervyn Johns, Roland Culver, Frederick Valk, Mary Merrall, Renee Gadd, Barbara Leake, Anthony Baird, Judy Kelly, Miles Malleson, Sally Ann Howes, Michael Allan, Robert Wyndam, Googie Withers, Ralph Michael, Esme Percy, Basil Radford, Naunton Wayne, Peggy Bryan, Michael Redgrave, Hartley Power, Allan Jeayes, John Maguire, Magda Kun, Elizabeth Welch, Gary Marsh. Preto e Branco, 104 minutos.
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