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Seja uma cervejinha numa sexta-feira depois do trabalho, um trago de um bom uísque ou um vinho vagabundo mesmo, com moderação ou não (não dizem que é preciso ficar "ruim" para saber como é ficar "bom"?), as bebidas alcoólicas fazem parte da cultura mundial: existem ébrios em todos os lugares e classes sociais que tomam umas e outras em quantidades diferentes e por motivos diversos. Por isso o leitor pode começar a rir da minha cara quando eu digo que a bebida mata. E quando eu digo mata, é pra valer, especialmente depois de assistir ao filme STREET TRASH, uma impagável produção datada de 1987, que, de uma certa maneira bizarra, poderia ser utilizada pelos alcoólicos anônimos ou pelo departamento de trânsito para alertar os motoristas sobre os "perigos" do álcool. |
Agora falando sério, durante bastante tempo, - e ainda hoje enquanto escrevo este artigo - fico procurando uma única palavra para descrever STREET TRASH. É difícil enquadrá-lo em uma única definição, e a melhor que eu encontrei está no próprio título: Trash. E põe trash nisso: personagens estereotipados, roteiro absurdo, piadas de gosto duvidoso, gore e tudo o mais que o admirador do gênero adora - afinal só num filme como este você poderia ver coisas como necrofilia e ainda rir disto.
Fred (Mike Lackey, também um dos responsáveis pelos efeitos especiais) é barbudo e desgrenhado, não cuida da sua higiene pessoal, vive nas ruas e é o mocinho. Não só ele como muitos de seus "colegas de profissão" são chegados numa manguaça e, para reabastecer, costumam se dirigir à adega do Ed (M. D'Jango Krunch), onde conseguem sua bebida barata.



Fred vive de pequenos furtos e mora com seu irmão Kevin (Marc Sferrazza), em uma pequena mansão dentro do ferro velho capitaneado pelo obeso e mal humorado Frank Schnizer (Pat Ryan), que odeia os mendigos.
Mesmo assim não são apenas os dois irmãos que moram lá: há uma gang inteira de mendigos sob o paranóico veterano de guerra Bronson (Vic Noto), que carrega sempre uma faca feita de um fêmur humano. Bronson vive como um porco, age como um porco e fala como um porco, no entanto todos respeitam o seu poder e supremacia, pois é um homem muito violento, tanto que é capaz de cortar o bilau de um mendigo e brincar de
"batata-quente" com ele, apenas por diversão.



As coisas começam a mudar quando Ed, sabe-se lá como, encontra uma caixa muito antiga no fundo de seu depósito. O seu conteúdo é composto por uma série de garrafas de uma bebida com cheiro forte chamada Viper. Mesmo sem ter certeza sobre a procedência da birita, coloca-a a venda por um preço módico que atrai a atenção dos mendigos.
Fred entra no estabelecimento e rouba uma garrafa do tal Viper, mas, antes que pudesse dar um gole, é roubado por um outro mendigo mais
"necessitado", por assim dizer, que pega a garrafa e toma um gole no banheiro de uma construção abandonada. Acontece que o tal Viper literalmente derrete o mendigo sentado na privada, na primeira das diversas cenas nojentas e bem filmadas do longa.



A polícia investiga o assassinato de um nerd mané que cruzou o caminho do maldoso Bronson, e o tira durão, Bill (Bill Chepil), é o responsável pelas investigações. Invariavelmente Bill passará a investigar também o caso dos mendigos que estão derretendo sem explicação alguma e os caminhos o levarão a um confronto com Bronson.
No meio tempo, muitos outros eventos paralelos acontecem, como o envolvimento de Kevin com a funcionária do ferro velho Wendy (Jane Arakawa), o hilário roubo de Burt (Clarenze Jarmon), um amigo de Fred, a um supermercado, o estupro de uma grã-fina bêbada por um bando de mendigos e o envolvimento sexual (off-screen) entre Schnizer e uma cadáver - tudo isso enquanto Fred busca combater o que está matando seus colegas.



Sem querer soar maior do que realmente é,
STREET TRASH é diferente das porcarias habituais porque o diretor J. Michael Muro (que teve na produção exploitation
‘I Drink Your Blood’, sua maior inspiração) demonstra uma habilidade profissional que não é esperada neste tipo de produção. Os enquadramentos, a câmera veloz, algumas destas tomadas inclusive foram claramente influenciadas por Sam Raimi em
EVIL DEAD. E existe a violência que não é pouca e que causa um misto de enojamento e comicidade, porque quando o gore aparece não é aquela onda vermelha de sangue, mas também roxa, verde, azul, enfim, uma paleta inteira de cores intensas e nojentas.

No entanto se alguém aí pensa que este tipo de tranqueira não dá nenhuma contribuição para o cinema (como se divertir não fosse o suficiente), pois saibam que um tal de Bryan Singer trabalhou na produção de
STREET TRASH na instalação e ajuste dos equipamentos do set, um belo início de carreira por sinal, hehehe... Interessante também que por mais aclamado que
STREET TRASH fosse, J. Michael Muro não conseguiu se projetar como diretor, ficando este como seu único trabalho. A culpa, segundo Muro, foi da distribuidora nos cinemas que faliu pouco depois de lançar o filme.



Entretanto, por ironia do destino, os caminhos de Singer e Muro se cruzariam novamente no futuro, só que desta vez Singer era diretor e Muro um mero operador de câmera na produção do filme
X-MEN 2 de 2003. Muro é um profissional altamente requisitado neste ofício e também foi operador de câmera de muitos outros blockbusters, entre eles
A HORA DO RUSH 2,
VELOZES E FURIOSOS e
TITANIC.
Voltando ao filme, o trabalho da equipe de efeitos especiais consegue superar a pouca verba e entrega cenas memoráveis como a do gordinho que toma um gole do Viper e infla até explodir...e, claro, a já citada cena do derretimento no começo do filme.
De uma maneira geral, o elenco é exagerado, na realidade absurdamente estereotipado. A força do elenco não está no personagem principal, que inclusive nem aparece tanto quanto deveria, mas em Bill Chepil e especialmente Vic Noto, que interpretam o policial durão Bill e o chefe dos mendigos Bronson respectivamente. Bill dá um banho de canastrice que faria Dirty Harry mijar nas calças (quem lembra da cena da luta no banheiro sabe do que estou falando) e Vic é um ator talentoso que personifica toda a maldade de Bronson com sua paranóia, o que é estranhamente convincente. Do elenco, a maioria dos atores começaram e fizeram apenas este filme, o único que conseguiu uma carreira melhor foi o ator Tony Darrow que fez o personagem magnata Nick Duran. Sua participação é pequena, quase uma ponta, entretanto futuramente vislumbraria horizontes melhores entrando no seriado
FAMÍLIA SOPRANO.



O roteiro também, como podem perceber, abusa da comédia e dos risos propositais ou não para entreter o público. O que realmente incomoda no filme são as sub-tramas, numerosas, com muitos personagens secundários e que dificilmente levam a algum lugar no contexto geral - talvez pelo longa ter sido feito a partir de um curta. A idéia do goró tóxico poderia ser claramente mais bem desenvolvida e fazer mais vitimas, porque em certo ponto do filme ela é totalmente abandonada e apenas retomada no climax final. Como curiosidade o roteirista e produtor Roy Frumkes iniciou no terror como um extra não creditado em
DESPERTAR DOS MORTOS. Vocês podem vê-lo como o primeiro zumbi atingido por uma torta pelos motoqueiros. Em
STREET TRASH Frumkes aparece como o homem de terno atingido no rosto por um
“pedaço” de um mendigo derretendo.
Apesar dos problemas e limitações,
STREET TRASH é uma audição necessária para qualquer um que goste de bagaceiras potentes e não está nem aí para
"detalhes técnicos" como um roteiro coerente ou valores morais. O filme é tão cultuado que nos Estados Unidos tem uma versão em DVD duplo da produção que conta de ponta a ponta como foi produzida - uma aquisição que pode seguramente figurar na coleção do bom amante de podreiras.



Muito se falou sobre uma continuação, mas foi recentemente, 20 anos depois do lançamento é que esta possibilidade começou a ganhar forma. A verdade é que tudo começou durante as filmagens de
DRAGÃO VERMELHO (em 2002) em que J. Michael Muro trabalhava como operador de câmera. Um dia, Roy Frumkes foi fazer uma visita ao set de filmagem e se apresentou para o diretor Brett Ratner:
“Ele disse, ’Oh meu Deus, você produziu STREET TRASH! Eu amo este filme, é um dos meus filmes favoritos!’”, conta Frumkes. O reconhecimento fez com que Muro e Ratner cogitassem um segundo filme, especialmente depois da receptividade do DVD no Japão e principalmente na França, onde uma distribuidora estaria acertando a produção para um futuro lançamento. Um site foi criado (
www.streettrash2.com) que atualmente se encontra fora do ar. Conflitos de agenda de Muro (que atualmente trabalha na fotografia de
A HORA DO RUSH 3) podem atrasar a produção, mas a dupla manda avisar que o filme sai... Aguardemos ansiosos.



Agora, gente, me dá uma licencinha porque depois de falar tanto sobre bebida, este artigo me deu uma seca na garganta... hahaha...


FILMES QUE TÊM PROBLEMAS COM A BEBÍDA
Se você pensa que é só
STREET TRASH que possui pessoas que morrem por causa de umas doses a mais, se engana. Outras produções também têm percalços por causa da
"marvada. Então se estes cinco exemplos não te fizerem parar de beber, nada mais vai. hahaha...
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O filme: REDNECK ZOMBIES (idem, EUA, 1987)
O caso: Tinha que ser um filme da Troma mesmo. Na história, um barril de lixo tóxico se perde na mata por causa dos transportadores idiotas do exército. Em seguida, alguns caipiras dementes resolvem destilar o conteúdo do barril, misturando-o a sua própria receita de cachaça. O resultado é uma bebida esverdeada de gosto forte que vai transformando toda a população do lugar em zumbis(!) enquanto um grupo de jovens acéfalos tenta acampar na região. Típica produção Troma repleta de piadinhas e nojeiras diversas, igualmente exageradas como STREET TRASH, com a veia cômica ainda mais escrachada, mas sem o mesmo talento e profissionalismo por trás das câmeras. |
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O filme: TURISTAS (idem, EUA, 2006)
O caso: Dizem que os turistas estadunidenses vêm para o Brasil apenas para ver mulatas, carnaval e tomar uma "Caipirinha". Apenas cuidado com os traficantes de órgãos espalhados pelo Rio de Janeiro, haha... Pois então, neste filme um grupo estrangeiro se deu bem mal depois de uma noitada com bebida e narcóticos. A bem da verdade TURISTAS é uma produção clichê, embalista e ruim, no entanto mostra que existem certos porres que podem dar um pouco mais do que uma simples dor de cabeça no outro dia. |
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O filme: UM DRINK NO INFERNO (From Dusk Till Dawn, EUA, 1996)
O caso: Dois irmãos bandidos fugindo da polícia seqüestram uma família em um trailer e partem para a fronteira com o México onde encontrarão um comparsa numa espelunca de beira de estrada chamada Titty Twister. Lá motoqueiros, caminhoneiros e viajantes vão tomar todas e relaxar com as mais belas garotas, mas só não esperam que um bando de vampiros que lá residem também gostam de beber... Sangue, no caso.
Um pequeno clássico moderno que dispensa qualquer comentário, mas que não poderia de deixar de ser citado, pois além de ter "Drink" no título nacional, mostra que não é apenas o excesso ou a procedência do goró que causam problemas, mas também onde você bebe... |
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O filme: A MALDIÇÃO DOS ZUMBIS (The Vineyard, EUA, 1989)
O caso: Maldito é o cara que deu este título nacional pra The Vineyard, que, como o nome já entrega, se passa em um vinhedo. Mas o caro liquido vermelho que é produzido na vinícola do Dr. Elson Po (James Hong) não se trata apenas de um simples vinho: ele possui a formula da juventude que mantém Elson vivo por centenas de anos e, obviamente, produzido com o sangue de jovens incautas entre outros ingredientes. Para fazer sua nova safra, Elson convida um grupo de atores para uma festa regada a luxuria, morte e vinho, é claro. Uma película boba e desconexa, os tais zumbis pouco tem a ver com a trama e o resultado final é tão ridículo quanto as dancinhas que James Hong faz durante a produção. Aparentemente não foi só o Dr. Elson que bebeu, mas muita gente da equipe técnica devia não estar sã no momento das filmagens. Conclusão: Se beber não dirija, sejam automóveis ou filmes. |
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O filme: TODO MUNDO QUASE MORTO (Shaun of The Dead, Inglaterra, 2004)
O caso: A monótona vida de Shaun passa por um Pub, na verdade ele e seus colegas poderiam viver nele, ironicamente quando a cidade é infestada de zumbis é o refúgio em um Pub que pode salvar-lhes a vida. O cult instantâneo tem dois aspectos distintos sobre a bebida, um bom e um ruim. O ruim é que você não consegue distinguir um bêbado de um zumbi ao menos que ele te morda e o bom é em uma cidade infestada de mortos vivos e pub que possui excelentes armas de defesa e ataque. Se bem que fazer um coquetel Molotov de uma garrafa de uísque 12 anos dá uma dó danada... hahaha...
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Gabriel Paixão
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STREET TRASH (Street Trash, EUA, 1987). Duração: 91 minutos.
Direção: J. Michael Muro
Roteiro: Roy Frumkes
Produção: Roy Frumkes; Frank M. Farel
Produção Executiva: Edward Muro Sr.; James Muro Sr.
Fotografia: David Sperling
Música: Rick Ulfik
Edição: Dennis Werner
Desenho de Produção: Robert Marcucci
Direção de Arte: Denise Labelle; Tom Molinelli
Maquiagem: Mike Lackey; Jennifer Aspinall
Elenco: Mike Lackey (Fred); Bill Chepil (Bill); Marc Sferrazza (Kevin); Jane Arakawa (Wendy); Nicole Potter (Winette); Pat Ryan (Frank Schnizer); Clarenze Jarmon (Burt); Bernard Perlman (Wizzy); M. D'Jango Krunch (Ed); Sam Blasco (Jimmy); Bruce Torbet (Paulie); Stephen Patterson (Alfalfa); Peter Iasillo Jr. (Hefty); Glenn Andreiev (Mario); Tony Darrow (Nick Duran); Vic Noto (Bronson)
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