Parte 1: O Filme Original
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Para falar sobre este filme eu poderia começar de duas maneiras. Poderia ser deste jeito - um diretor japonês cujas experiências anteriores se limitam em realizar filmes pornos gay se aventura no cinema de terror com uma produção de baixo orçamento com roteiro confuso e que não agradará todas as audiências - você provavelmente acharia que o filme é uma droga. Mas se eu colocasse assim: - trata-se de um filme complexo e intenso, onde o banho de sangue está presente, uma verdadeira pérola do novo cinema de terror japonês, onde se encontram 'AUDITION', 'BATTLE ROYALE, 'RINGU', 'ICHI THE KILLER', entre tantos outros - você certamente já estaria procurando por aí, não é? |
Esta introdução tem o simples objetivo de mostrar o modo de expor minha análise sob pontos de vista diferentes. Apesar de ambos serem corretos, podem influenciar decisões e atitudes. Essa filosofia de boteco é um dos assuntos que trata o filme 'SUICIDE CLUB', realizado no ano de 2002, dirigido e roteirizado por Sion Sono e que expõe uma casca de ferida que incomoda o Japão: a alta taxa de suicídios naquele país.
Magistralmente aplaudido em mostras e festivais de cinema por toda a parte e ao mesmo tempo apedrejado pela sua forma de conduzir, 'SUICIDE CLUB' é um filme controverso e violento, mas com uma carga de crítica social embutida. O roteiro é bastante complexo (ou confuso, como preferir) e é necessário por vezes usar a imaginação para erguer teorias e entender o que se passa na tela.


Metrô de Tóquio, dia 26 de Maio. É uma noite movimentada como todas as outras, com as pessoas retornando para as suas casas depois de mais um dia cansativo de estudo ou trabalho. No entanto, um acontecimento bizarro vai alterar toda a rotina das pessoas a partir deste dia: cinqüenta e quatro estudantes estão jogando conversa fora e caminham em direção ao local de parada do metrô, todas dão as mãos em frente a linha enquanto o metrô se aproxima e em seguida saltam para a morte em uníssono. Muito, muito sangue é espalhado pela plataforma e banha todas as pessoas aterrorizadas ao passo que alguém deixa uma misteriosa bolsa no local. Então um musical da banda fictícia de garotos
Desert (uma espécie de
Rebelde japonês), sensação do momento, canta uma música chamada
"Mail me". Durante a projeção ainda seremos interrompidos várias vezes por outras músicas cantadas pelo grupo. As letras das músicas, aparentemente inocentes, podem gerar outras interpretações não tão nobres, como incitar o suicídio, mas é cedo para tirar conclusões.


Em outro lugar, um hospital, as enfermeiras Yoko Kawaguchi (Tamao Satô) e Akko Sawada (Mai Hosho) estão ouvindo
Desert no rádio. Akko sai para comprar algo para comer e no caminho cruza com o segurança do hospital Jiro Suzuki (Takashi Nomura), que ouve no rádio a notícia do que ocorreu no metrô, mas a enfermeira demora a retornar, então Suzuki resolve subir para conversar com Yoko que também não atende o telefone. Ao chegar na sala ele encontra a janela aberta e nada de Yoko. Acaba a energia elétrica e em meio a escuridão Akko volta, conversa com ele e pula pela janela ao mesmo tempo que a força é restabelecida (a reação assustada do guardinha é de rachar de rir) e mais outra bolsa branca, agora suja de sangue, aparece.
Reunião na polícia onde estão presentes os detetives Kuroda (Ryo Ishibashi), Murata (Akaji Maro) e Shibusawa (Masatoshi Nagase), agora sabemos que as garotas que pularam no metrô eram de dezoito escolas diferentes e nenhuma conexão entre elas é descoberta. Sugere-se que se trata de uma espécie de culto, porém essa hipótese não é levada em consideração. Shibusawa recebe uma estranha ligação anônima que faz a associação dos suicídios com um site na Internet, que possui apenas diversos pontos vermelhos e brancos. A ligação sugere que o número de pontos vermelhos são as mulheres, os brancos são os homens que se mataram e a pessoa se identifica apenas como
"O Morcego".


A polícia é informada sobre o suicídio das duas enfermeiras e as bolsas brancas do hospital e do metrô são encontradas. Ambas continham em seu interior um rolo feito de tiras de pele humana devidamente costuradas. Os peritos desconfiam de que cada pedaço removido é de uma pessoa diferente, o que chegam a um total de cerca de 200 pessoas (!!), a maioria poderiam ainda estar vivas! Kuroda volta para sua casa, tão abatido e desanimado quanto as pessoas que andam no metrô junto com ele, onde conhecemos sua esposa Kiyomi (Kimiko Yo), seu filho Toru (Hajime Matsumoto) e sua filha Sakura (Mika Kikuchi), que é uma alienada fã de
Desert, e pelo que sabemos até aqui não é uma boa coisa.
Enquanto isso a onda de suicídios começa a aumentar. No telhado do prédio de uma escola, alunos planejam juntar mais pessoas e bater o recorde do metrô. É estranho (e também é engraçado de uma certa maneira sádica) como falam em se matar como se falassem em passear no shopping e ir ao cinema, planejando e confabulando. Mas todos resolvem adiantar o serviço e se dão as mãos para pularem do prédio. A polícia está embasbacada e perdida, mas desta vez ao menos não há uma bolsa branca.
29 de Maio, Mitsuko (Saya Hagiwara) caminha pela rua e um doido salta de um prédio acertando o braço em sua orelha. O maluco em questão é o seu namorado Masa (Noriyoshi Shioya), tentando seu suicídio, um pouco frustrante já que não morreu de uma vez, mas ficou tempo suficiente acordado para pedir desculpas pelo acidente (hahaha.).


Durante a autópsia de Masa, a polícia percebe que falta um pedaço de pele e que está no rolo encontrado no metrõ. A pele combina com a de Masa, pois foi cortada sobre uma tatuagem que ele tem nas costas. Mitsuko é interrogada e vistoriada por suspeita de que também lhe falte um pedaço de pele, porém apesar da tatuagem ser igual ela está "inteira" nas costas dela. O detetive Shibusawa começa a esboçar afeição pela garota e deixa um cartão para contato.
Koomori (Yoko Kamon), ou melhor,
"O Morcego" navega por uma BBS (uma espécie de fórum de discussão) na busca do tal
"Clube do Suicídio", enquanto Toru mostra ao seu pai um novo site da Internet, sendo que desta vez o signatário solicita que todos espalhem a mensagem do site para que os suicídios parem (alguém falou '
O CHAMADO' aí? hehehe..). Meu, se isto está ficando complicado agora, esta é só a ponta do iceberg.
Na delegacia, Murata atende mais um telefonema misterioso, desta vez aparenta ser a voz de um garoto, que tem dificuldade para falar e que sempre tosse ao final de cada frase. A
"voz", insiste em falar com Kuroda e apenas diz que não existe um
"Clube do suicídio". Na manhã seguinte Kuroda recebe a ligação do garoto, que afirma que a noite mais cinqüenta irão saltar no metrô e dá apenas uma pista: a sexta corrente, ou melhor, o sexto
"elo" do rolo de pele humana que também contém uma tatuagem parcial. Então no horário combinado, a polícia está no metrô esperando pelo pior, mas nada acontece.


Entretanto a onda de suicídios se sucede e atos cada vez mais numerosos e violentos cometidos por pessoas contra seus próprios corpos vão preocupando cada vez mais a polícia, que está atordoada em encontrar alguma ligação que possa encontrar um responsável. Uma sucessão de cenas antológicas (principalmente a da mulher cortando vegetais) e extremamente sangrentas - se você costuma cobrir os olhos em filmes violentos, nos próximos minutos você terá excelentes motivos para fazê-lo..hehehe..
Kuroda volta para casa e encontra seu filho morto e a casa toda suja de sangue e recebe mais um telefonema da
"voz". Koomori,
"O Morcego", é seqüestrada por um grupo de malucos sádicos liderados pelo rockeiro excêntrico Gênesis (Rolly), que afirma que o
Clube do Suicídio é dele e a polícia corre contra o tempo para encontrá-lo e prendê-lo. Então a trama volta para Mitsuko, que, inconformada pelos acontecimentos, resolve investigar por conta própria o que ocorreu com seu namorado Masa, mas a verdade é um pouco mais complexa do que se imagina.


A degradação da sociedade japonesa já havia sido explorada em trabalhos como
'BATTLE ROYALE' (2000) e no clássico animê
'AKIRA' (1988), mas Sion Sono merece um crédito, pois nenhum deles se aproxima tanto do mundo atual como '
SUICIDE CIRCLE'. Até porque a parte mais arrepiante da história não se passa dentro da tela, mas em dados estatísticos reais sobre os suicídios no Japão: em 2005 foram registrados mais de 32 mil casos de suicídio, o que segundo Organização Mundial da Saúde torna o Japão o país com a maior taxa de suicídios no mundo (24 para cada 100 mil habitantes). Destes, quase 900 eram estudantes e o governo está apavorado com o crescimento deste tipo de morte a cada ano. Sion Sono inclusive disse em entrevistas que escreveu esta história baseado em um acontecimento real, que foi o suicídio de um amigo. E através dela realiza uma forte crítica social sobre a influência da mídia e modismos. Afinal, se eles querem nos dizer como nos portar, vestir e ouvir, porque não dizer para nos matar?


O sangue jorra em profusão na maior parte da projeção e em certos momentos chega até a ser engraçado, pela quantidade empregada e pela cor alaranjada (?!) em algumas passagens, contrastando com outras cenas que é de causar asco em quem não está acostumado com este tipo de filme. Outro detalhe curioso é que não há um vilão, no sentido literal da palavra (Gênesis, que é o mais próximo de vilão que existe, não passa de um oportunista apenas).
Mas como nem tudo é perfeito, existem grandes falhas também. A primeira é que o filme nunca se decide em qual gênero vai ficar: é um filme de terror, mas tem muitas passagens características de thrillers, mistério com investigação policial, drama e até comédia e romance, misturados de uma forma que pessoas não acostumadas ao tipo de narrativa utilizada em filmes orientais podem achar confuso. Outro problema ocorre com as sub-tramas onde basicamente existem cinco: a trama de Koomori e Gênesis, a trama do detetive Kuroda e família, a trama do hospital, a trama de Mitsuko e as investigações policiais sobre o clube do suicídio. O problema é que nem todas estas histórias menores têm uma boa ligação entre si, poderiam inclusive gerar filmes diferentes para cada uma e muitas vezes uma trama é abandonada por muito tempo ou simplesmente não volta mais a se tocar no assunto, deixando o espectador com um belo ponto de interrogação na cabeça. E também não tem como falar das atuações, que são de regulares para baixo - a exceção se faz ao grande Ryo Ishibashi que convence bem como o detetive Kuroda.


Entre mortos e feridos, Sion Sono entrega um trabalho surreal, marcante e acima da média, um grande feito para uma pessoa sem experiência no ramo. Mais um excelente exemplar do cinema contemporâneo japonês, que está injustamente inédito no Brasil. Você pode até não gostar, mas, não é disso que filmes polêmicos são feitos: de opostos e controvérsias? Apenas uma opinião não basta, por isso é um filme que merece ser visto.
Curiosidades:
- O grupo pop
‘Desert’ recebe diferentes formas de pronuncia durante o filme, provavelmente de propósito, como
"Dezaato",
"Dessert",
"Dessart",
"Dessret",
- No trailer do filme, há uma cena de uma pessoa cometendo suicído passando um fax de si própria (!!). Esta cena faria parte da sub-trama que se passa no hospital. Porém Sion Sono optou por removê-la porque do contrário o filme teria mais de duas horas.


-
ATENÇÃO SPOILERS: Para quem interessou em comprar o DVD americano do filme, deve-se atentar que existem duas versões, a rated e a unrated. Elas podem ser diferenciadas por uma tarja vermelha no topo da capa e uma foto de Mitsuko na versão sem cortes. Existem seis cenas estendidas: no suicídio do início mostra-se o trem passando por cima da cabeça de uma garota, a orelha presa no prédio é mostrada sendo removida; a cena da mulher cortando os vegetais é maior e mais dramática; na apresentação de Gênesis é mostrado ele esmagando dois animais com o seu pé e o suicídio de Kuroda é inteiro on-screen
Parte 2: Teorias e Perguntas Freqüentes
Em uma coisa detratores e fãs de '
SUICIDE CLUB' estão corretos, é um filme com roteiro complexo e que muitas vezes confunde a cabeça do espectador. Então para tentar esclarecer alguns fatos que ficam vagos no filme, segue uma série de perguntas que são feitas freqüentemente e para elas estão sugeridas algumas respostas, baseadas em discussões em fóruns, fan-sites e opiniões pessoais:
(Atenção, concentração elevadíssima de spoilers por metro quadrado, leitura não recomendada para quem não assistiu ao filme.)
P: O rockeiro Gênesis afirmou veementemente que havia de fato um "Clube do Suicídio", mas as crianças afirmam o contrário. Quem está certo?
R: Gênesis é apenas um rockeiro fracassado que através do seu BBS descobriu sobre o suposto clube e por causa de seus delírios de grandeza queria levar crédito por isso, um mero oportunista. Portanto sua declaração não deve ser levada em consideração. As crianças estão corretas, não existe de fato um
"clube do suicídio".

P: Mas não existe um clube do suicídio?! Agora me embananei todo...
R: Realmente não existe um clube do suicídio e as crianças deixam isso bem claro durante o filme inteiro. Esta foi uma nomenclatura dada pelos jornais baseada em suposições sobre os suicídios em massa, embora as crianças estivessem realmente encorajando os suicídios através de mensagens subliminares, falando sobre como as pessoas que não estão conectadas consigo mesmas e com as outras pessoas. Fazendo uma analogia é mais ou menos o que Darwin sugeriu na sua teoria da evolução, aqueles que não entenderam sua conexão, acharam que encontrariam se matando, o que está errado.
P: Mas porque são representadas por crianças?
R: Uma explicação é que as crianças não foram contaminadas pela vida moderna, e eram consequentemente puros e compreendiam a conexão entre si e tudo o mais. E o chamado
"clube do suicídio" era simplesmente uma maneira de ajudar as pessoas para encontrar sua conexão com tudo (inclusive a si próprio), ou seja, conforme dito anteriormente, tal qual a teoria de Darwin, matando aqueles que não eram fortes ou certos o bastante. Purificando o mundo.

P: Eu ainda não entendi isto de "Estar conectado consigo mesmo...”.
R: As crianças são seres puros e com as almas não corrompidas removendo aqueles que eram fracos. Não se conheciam e nem compreendiam o seu lugar no mundo, como se fazem com ervas daninhas. Para compreender e reconhecer que esta conexão representa estar em sintonia com tudo e todos (inclusive a si mesmo), valorizando-se e pensando com sua própria mente. Então aqueles que não entendiam se matavam por causa das mensagens
"suicidas" nas músicas de
Desert.
P: Então as pessoas cometiam suicídio por causa das mensagens nas músicas de Desert? E sobre Mitsuko, por que não se matou?
R: Este é o que parece ser o caso. Era através do pôster do
Desert que estava no quarto do namorado de Mitsuko e nos CD's da banda que ela encontrou o código que a permitiria entrar nos bastidores do concerto do
Desert. Lá as crianças explicam que não há nenhum
"clube do suicídio" e tal. Existem duas explicações então: As pessoas se matavam porque aqueles que compreenderam a conexão pensavam que, não importa como, mesmo na morte, estariam conectadas consigo mesmas. Ou então, devido a Mitsuko aceitar isso e dizer,
"Eu posso conectar comigo mesma" e viver, pode significar que as pessoas que não entenderam a conexão escolheram apenas a mensagem
"do suicídio" e se matavam. Como Mitsuko não se matou e
Desert fez seu último concerto, a segunda hipótese é a mais provável. Ela foi a primeira e única a aceitar essa conexão.
P: O "Quarto do Prazer" de Gênesis era só uma maneira de atrair a atenção da mídia quando eles o encontraram? O que são os corpos nos sacos brancos?
R: Não era o próprio
"Quarto do Prazer" que fez atrair a atenção, mas o que acontecia dentro dele. Gênesis e seus comparsas estupravam e matavam lá dentro, isso é explicitado. O que acontecia era qualquer coisa, menos prazer para as pessoas e animais torturados nos sacos brancos, só prazer para o próprio Gênesis. Então daí vem o nome, de algo tão sádico, bruto e perturbador que pudesse ser comparado ao prazer. Ele queria a atenção da mídia pelo que estava acontecendo e conseguiu. Quanto aos sacos, alguns continham pessoas e outros animais.

P: Depois que Mitsuko encontra o código ('S U I C I D E') no telefone, ela vai ao computador e aparecem muitos números desconexos em um fundo negro, do que se trata? E como ela consegue abrir a tranca dos bastidores depois?
R: Os números são realmente confusos e não se tem muita certeza do que se tratam, devem ser apenas aleatórios mesmo. Para entrar nos bastidores com o código da tranca ela usa o mesmo artifício para o código do celular: os números do pôster do
Desert. As outras pessoas no rolo de pele também chegaram lá da mesma forma.
P: Por que o garoto que falava com o detetive tossia ao telefone?
R: Isso é realmente um mistério, mas a maioria concorda que estava limpando a garganta por causa de algum tipo de doença. Não é feito de propósito.
P: O que é a corrente de pele? Quem o coletava e quem colocava na sacola para a polícia? De quem é site com os pontos brancos e vermelhos e o BBS?
R: A corrente pode ser encarada como um cartão de visitas, ou talvez uma representação de cada pessoa que cometeu suicídio; ainda pode ser uma forma de simbolizar uma conexão entre as pessoas, já que se trata de uma
"peça" de cada um que não pode ser mais restaurada. Como as tiras são removidas antes das mortes, pode ser também uma forma de manter a promessa de se matar ou uma espécie de batismo para uma nova vida. Como é mostrado no fim do filme, o rolo é confeccionado pelas crianças e o site também está conectado com os garotos, baseado no primeiro clipe do
Desert onde aparecem estes pontos também. O BBS era do rockeiro Gênesis.
P: Como as crianças sabiam quantos pontos vermelhos e brancos estariam no site?
R: Essa é fácil: como são eles que tiravam a pele das pessoas e faziam os rolos, sabiam a quantidade de pessoas.
P: Os garotos que pularam do topo do prédio da escola, por que eles se mataram se eles não faziam parte da corrente de pele?
R: Na realidade eles são aqueles influenciáveis, a juventude de cabeça fraca. Eles se mataram apenas porque viram na TV que as pessoas estavam fazendo e acharam que seria legal fazer também. Não encontrando a conexão consigo mesmos.
P: O que acontece com "O Morcego" e a filha e a esposa do detetive Kuroda? E quanto ao homem que fica na casa de "O Morcego", ele se matou?
R: Nada é mostrado, porém é de se especular que
"O Morcego" tenha sobrevivido, sendo resgatada pela polícia e Kyiomi e Sakura morrido, baseado nos suicídios de Toru e Kuroda. O homem, o pai de Koomori, deve ter morrido nas mãos dos comparsas de Gênesis e não se matado.
P: O que o coelho e os animais representam no filme?
R: Coelhos são animais de estimação comuns no Japão e alguns afirmam que signifique um retorno a natureza e a inocência. Eu pessoalmente acho que não há ligação.
P: Os sites divulgados no filme existem?
R: o site onde estão os pontos (
www.maru.ne.jp) não está operacional, mesmo assim foram feitas muitas tentativas de se descobrir algo escondido no domínio, entretanto até agora nada foi encontrado. O site
www.jikennews.com existe e é um fórum de discussão ativo criados por mantido por fãs do filme. E finalmente
www.haikyo.com é um BBS onde você pode escrever qualquer coisa sem se registrar, assim como no filme. Apenas não caia na idéia da tradução em inglês do site (
www.ruins.com), ao menos que as pessoas se matem por produtos eróticos..hehehe..
P: Existem "Clubes de Suicídio" reais?
R: O governo japonês recentemente assumiu a existência de
"pactos de morte" desencadeados através Internet onde pessoas se conhecem via rede, se reúnem e em seguida se matam. Dados oficiais de 2005 registram 91 mortos em 34 suicídios coletivos, o triplo de 2003... É realmente um mundo muito louco...
Parte 3: Desdobramentos - Continuações, o Mangá e o Livro.
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A intenção de Sion Sono é que 'SUICIDE CLUB' seja a primeiro capítulo de uma trilogia com os desdobramentos sobre o "Clube do Suicídio". A segunda parte já foi produzida em 2005, sob o nome 'NORIKO NO SHOKUTAKU' ou 'NORIKO'S DINNER TABLE' e está sendo apresentada (e como o anterior, grandemente elogiada) em diversos festivais de cinema ao redor do mundo.
A história, dirigida novamente por Sion Sono, apresenta eventos ocorridos antes, durante e depois do filme original e procura explicar melhor alguns eventos nebulosos no primeiro filme. O foco agora é retratar a natureza da felicidade, a falta de comunicação real entre membros de uma família, junto com a alienação que ocorre com isso e também como a Internet é usada como forma de remendar essa situação, o conceito de família, tudo envolto novamente entre suicídios.
A adolescente Noriko Shimabara de 17 anos vive com sua pacata família, formada pela sua irmã Yuka, sua mãe Teako e seu pai jornalista Tetsuzo. |
Sentindo-se alienada e incompreendida por seus pais, Noriko descobrem novo site na Internet, onde conversa com outras meninas do Japão se encontram com o mesmo problema. Lá faz novos e desconhecidos amigos, sentindo-se verdadeiramente em casa e se afastando de sua vida infeliz, acaba viajando para Tóquio, onde planeja conhecer a líder do site, uma misteriosa garota que atende pelo nickname Ueno54.
A garota sai para ser a cabeça do chamado
"Círculo de família", um grupo que promete mudar as identidades de pessoas infelizes com suas vidas e faz com que comecem famílias falsas com pessoas que perderam as delas por causa de suicídios. Consequentemente Yuka foge de casa também e se junta a Noriko no círculo onde muitas outras meninas fazem exame de identidades novas. Entretanto, após o suicídio em massa onde 54 delas saltam na frente de um trem (os eventos da abertura de '
SUICIDE CLUB') a líder se torna mais sinistra e o pai de Noriko vai atrás das garotas, mas as intenções do
"Círculo de família" não são tão simples e generosas como se espera.
O filme é dividido em cinco capítulos, dos quais quatro deles tem como foco os personagens principais e cada um deles tem várias narrações em off explanando seus sentimentos e pontos de vista. As críticas tem se mostrado bastante positivas por ter uma carga dramática muito mais pesada e menos apoiada na sangueira generalizada do primeiro filme, embora o ato final, que envolve a tal mesa de jantar do título, compense o resto e também não é para todos os estômagos. O lançamento japonês do DVD deverá ocorrer no final de 2006, enquanto isso a última parte está ainda sendo idealizada por Sono e não tem nome ainda e nem previsão de lançamento.
'NORIKO'S DINNER TABLE' foi baseado no livro
"Jisatsu Saakuru: Kanzenban", escrito também por Sion Sono e foi lançado anos antes, mais especificamente em 3 de abril de 2002, alguns meses depois do lançamento do filme original. O livro também conta a história de Noriko Shimabara, do
"Círculo de família" e assim como na película, cada um dos capítulos (no livro são quatro) é narrado por um personagem central, mas com pelo menos uma diferença marcante, a onda de suicídios tomou conta do mundo todo. O objetivo do livro segundo o próprio autor era dar uma maior profundidade nas teorias e filosofias criada sobre o primeiro filme. Entretanto, o livro até o momento não foi traduzido e distribuído nem nos Estados Unidos, quiçá aqui abaixo da linha do equador...
Como quase todos os filmes japoneses de sucesso, ganhou um mangá para ampliação do universo criado com o filme. Seu lançamento aconteceu no mesmo tempo em que o DVD foi lançado no Japão e foi uma requisição pessoal do próprio criador Sion Sono para o respeitado autor Usumaru Furuya. A princípio deveria ser apenas uma quadrinização do filme, entretanto Furuya foi encorajado pelo diretor para criar uma história inteiramente nova. E assim o fez no irrisório prazo de um mês seguindo uma linha paralela e independente, sem nenhuma ligação com o filme original (apenas o suicídio em massa no metrô e o site são as referências utilizadas) e que, portanto não contém sem nenhum spoiler que poderia estragar a diversão de quem resolveu ler o mangá antes de assistir o filme.
A história do mangá começa em outro dia na cronologia do filme (31 de maio), mas a situação é a mesma: um suicídio em massa de 54 estudantes saltando nos trilhos do metrô, só que milagrosamente uma garota escapa com vida e aparentemente sem nenhum arranhão. Seu nome é Saya Kota, uma estudante tímida e excluída e que tem apenas uma amiga chamada Kyoko. Saya e Kyoko dividem um caderno desde a infância, como um diário coletivo em que escrevem suas experiências.
Através de flashbacks sabemos que Saya tem uma vida complicada, já que seu pai teve um problema mental e agora tem que posar nua para voyeurs e eventualmente se prostituindo como maneira de ganhar dinheiro para sustentar seu pai adoecido no hospital. Claro que após a tentativa de suicídio Saya é ainda mais perseguida e sofre todo tipo de humilhações dos alunos e dos professores, tendo em Kyoko a única em seu favor. Acontece que Saya não se importa mais, pois segundo ela, já que perdeu a conexão consigo mesma que no passado encontrou através de uma garota chamada Mitsuko (que não é a mesma do filme), líder de um clube que incitava o auto flagelo como forma de expressar a dor que estava em seus corações e fatalmente acabaram se matando. Então Saya funda um novo
"clube do suicídio" e Kyoko suspeita que é o espirito de Mitsuko que está nela. Então, com a ajuda do professor Takeuchi, que conheceu Mitsuko muito bem, resolvem investigar a verdade sobre o clube.
Com a participação do detetive Kuroda, o mangá é bem mais auto explicativo do que o filme, tem boas reviravoltas e além disto bate numa idéia interessante: que os clubes suicidas existem de verdade e que as líderes são possuídas pelo espírito de Mitsuko (mas não é revelado quem foi realmente a Mitsuko original) mudando de dono a cada suicídio em massa e acelerando o processo cada vez mais com a expansão da Internet, abandonando quase em completo a idéia da banda
Desert e do rolo de pele. Embora você já tenha visto este assunto (maldição fantasma) de maneira semelhante em '
RINGU' e '
JU-ON - THE GRUDGE', fica muito bem encaixado no contexto da história original de '
SUICIDE CLUB', portanto uma leitura bem interessante e recomendada tanto para quem gostou do filme quanto para quem não assistiu ainda e quer conhecer um pouco mais da criação de Sion Sono.
Gabriel Paixão
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SUICIDE CLUB (Jisatsu saakuru / Suicide Circle, Japão, 2002). Duração: 99 minutos)
Direção: Sion Sono
Roteiro: Sion Sono
Produção: Seiji Yoshida; Masaya Kawamata; Toshiie Tomida
Produção Executiva: Toyoyuki Yokohama
Música: Tomoki Hasegawa
Fotografia: Kazuto Sato
Edição: Akihiro Onaga
Elenco: Ryo Ishibashi (Detetive Kuroda); Akaji Maro (Detetive Murata); Masatoshi Nagase (Detetive Shibusawa); Saya Hagiwara (Mitsuko); Hideo Sako (Detetive Hagitani); Takashi Nomura (Jiro Suzuki); Tamao Satô (Yoko Kawaguchi); Mai Hosho (Akko Sawada); Yoko Kamon (Koomori / O Morcego); Rolly (Genesis); Kimiko Yo (Kiyomi Kuroda); Hajime Matsumoto (Toru Kuroda); Tomoe Adachi; Madoka Arai; Kyoko Baba; Hiromi Eguchi; Saon Fujita; Yasusuke Hamamoto; Seiko Hashimoto; Harina Hata; Taihei Hayashiya; Asami Hidaka; Kanako Hiramatsu; Satomi Hisanaga; Noriko Isami; Takatoshi Kaneko; Ryuji Kasahara; Mika Kikuchi (Sakura Kuroda); Toshiyuki Kitami (Shinakawa); Tomoka Kumagai; Noriyoshi Shioya (Masa); Kenjiro Tsuda (Mita)
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