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A nova geração ouve o nome do cineasta Wes Craven e só consegue pensar na trilogia PÂNICO e em A HORA DO PESADELO, vá lá. O pessoal da antiga certamente lembra dos primeiros trabalhos do diretor, mais sérios e violentos, tipo LAST HOUSE ON THE LEFT e QUADRILHA DE SÁDICOS. Mas poucos, e muito poucos mesmo, vão lembrar que Craven, no início da sua carreira, dirigiu uma produção barata inspirada em quadrinhos da DC Comics! Sim: SWAMP THING, a versão cinematográfica do anti-herói dos quadrinhos conhecido como "Monstro do Pântano" no Brasil, foi feito numa fase um tanto obscura da carreira do diretor, depois do sucesso de QUADRILHA DE SÁDICOS (1977) e antes do debut cinematográfico de Freddy Krueger em A HORA DO PESADELO (1984). |
Neste período, Craven fez quatro filmes que poucos viram, e sobre os quais não se fala muito.
SWAMP THING é um deles e foi realizado em 1982, quando a própria revista do Monstro do Pântano havia encerrado nos Estados Unidos!!!


Em linhas gerais, os quadrinhos do Monstro do Pântano (cuja revista foi publicada entre 1972 e 1976) contavam a história de um cientista genial, chamado Alec Holland, que descobria uma fórmula fantástica para fazer os vegetais crescerem rapidamente. Sua idéia era acabar com a fome no mundo, possibilitando que árvores frutíferas e legumes de grandes dimensões pudessem ser cultivados até nas áridas terras desertas. Porém, o laboratório onde Holland trabalhava, à beira de um pântano na Louisiana, foi atacado por um terrível vilão, chamado Mister E. Ele mata Linda, a esposa do cientista, e depois planta uma bomba no laboratório. Coberto com a tal fórmula que desenvolveu e em chamas, Alec se atira no pântano numa tentativa frustrada de sobreviver... e o que emerge dali é uma criatura disforme, que lembra vagamente um ser humano, e é mais um monstro horrendo coberto de vegetais. Transformado em Monstro do Pântano, Holland passa a combater vilões enquanto tenta descobrir uma fórmula que o faça retornar à forma humana (leia mais sobre os quadrinhos no texto no fim deste artigo).
Len Wein e Berni Wrightson foram os criadores do personagem, que lamentaram o final da revista após apenas 24 edições. Porém, em 1982, exatos dez anos após o surgimento do anti-herói, os produtores de cinema Benjamin Melniker e Michael Uslan compraram os direitos sobre o Monstro do Pântano e ofereceram a direção de um filme sobre ele a Wes Craven - que na época buscava trabalhos mais convencionais, longe da demência e brutalidade de seus primeiros filmes. Craven queria trabalhar numa produção mais leve, e viu no Monstro do Pântano a possibilidade de dirigir uma aventura com toques de horror, porém sem violência, que pudesse ser vista até por pré-adolescentes. Assim, o diretor (que aparentemente nunca leu uma revista do Monstro do Pântano) achou o enredo intrigante e resolveu encarar o desafio, escrevendo ele mesmo o roteiro baseado na série antiga do personagem.


O orçamento de
SWAMP THING, o filme, foi de 3 milhões de dólares - uma miséria para os padrões atuais, considerando que um filme como
HOMEM-ARANHA, feito 20 anos depois (em 2002), custou US$ 132 milhões. Numa época onde adaptações de quadrinhos não eram tão populares (apesar de
SUPERMAN e
SUPERMAN 2 serem sucessos estrondosos),
SWAMP THING não foi lá um grande sucesso e teve como único mérito ressuscitar a revista do personagem, que voltou a circular em maio de 1982, então rebatizada
"A Saga do Monstro do Pântano". As filmagens da adaptação dos quadrinhos em pleno pântano (em Charleston, na Carolina do Sul) foram complicadas e, em entrevistas da época, o diretor queixou-se de problemas na produção. Hoje em dia, Craven nem fala muito sobre o filme.
SWAMP THING nunca foi lançado no Brasil, nem em vídeo e muito menos em DVD. Volta e meia é exibido na madrugada da TNT e muito raramente no Corujão da Globo. Como verdadeira raridade, baixei o filme no Emule, embora a obra tenha sido recentemente relançada em DVD nos Estados Unidos, pela MGM. Eu nunca havia lido uma única crítica positiva sobre o filme, e por isso mesmo tinha certa curiosidade para ver como seria a incursão de Wes Craven por uma adaptação de histórias em quadrinhos. E só vendo eu descobri o porquê do filme ser tão oscuro: não há exagero nas críticas,
SWAMP THING é mesmo muito ruim. Aliás, tão ruim que chega a ser charmoso e merece pelo menos uma assistida.


O roteiro de Craven altera algumas coisas referentes aos quadrinhos. Para começar, inclui uma personagem feminina na história, uma agente do governo chamada Alice Cable, e interpretada pela gatinha da época Adrienne Barbeau. Apesar de ostentar o penteado ridículo dos anos 80, Adrienne tem uma beleza exótica e foi esposa de John Carpenter, aparecendo como heroína em
A BRUMA ASSASSINA e como coadjuvante em
FUGA DE NOVA YORK - infelizmente, hoje anda sumida. Na época de
SWAMP THING, o maridão Carpenter estava filmando
O ENIGMA DO OUTRO MUNDO, filme que não tinha papéis femininos. Por isso, ela participou da obra apenas como a voz do computador com quem Kurt Russell jogava xadrez! Liberada pelo esposo diretor, Adrienne acabou no set de
SWAMP THING. Sua personagem, Alice Cable, originalmente não existe nos quadrinhos, onde há apenas um amigo do Monstro do Pãntano chamado Matthew Cable. Outra mudança do diretor/roteirista foi transformar Linda Holland, que nos quadrinhos é esposa do dr. Alec, em sua irmã. Por fim, o grande arquiinimigo do Monstro do Pântano nos gibis, um cientista louco chamado Anton Arcane, virou um ambicioso industrial, que quer pôr as mãos na fórmula de Holland para ganhar muito dinheiro. O único personagem cujas características não foram alteradas é o próprio dr. Alec Holland, aquele que se transforma no Monstro do Pântano.
Ironicamente, os créditos de abertura do filme apresentam o nome do ator francês Louis Jordan (que interpreta o vilão Arcane) antes mesmo dos mocinhos. Jordan faria, no ano seguinte,
007 CONTRA OCTOPUSSY, enfrentando James Bond como um vilão bem mais interessante. Alec Holland é interpretado por um jovem Ray Wise (o pai de Laura Palmer no seriado
TWIN PEAKS) na sua forma humana - ou seja, nos primeiros 20 minutos - e pelo dublê Dick Durock na forma monstruosa. A história começa com a agente Alice sendo levada de helicóptero até o laboratório de Holland, que fica nos pântanos (claro!), para protegê-lo dos ataques de um grupo de mercenários liderados por Arcane. Acontece que Alec conseguiu desenvolver a fórmula de crescimento das superplantas, em parceria com a irmã linda (Nannette Brown, que só fez dois filmes na vida). A fórmula é um líquido verde-limão fluorescente que lembra muito o reagente criado por Herbert West em
REANIMATOR, feito três anos depois. E, num toque interessante do roteiro, o laboratório secreto fica na área onde existia uma velha igreja, com um cemitério parcialmente invadido pelo pântano.


O problema é que Holland nem tem muito tempo para comemorar o sucesso da fórmula: naquela noite, o laboratório é invadido pelos homens de Arcane, liderados pelo sádico Ferret. O bandidão é interpretado por ninguém menos que David Hess, que parece uma cópia xerox do Krug que fez em
LAST HOUSE ON THE LEFT, também de Craven. Malvado ao extremo (chega a usar uma cobra para torturar e matar um infeliz) e fumando charuto, ele tem um papel nobre, mas um final inglório. Ainda durante o ataque ao laboratório, num momento
"Scooby-Doo", descobrimos que o próprio Arcane estava infiltrado no local como se fosse um dos funcionários - chega a ser engraçada a cena que ele tira uma máscara com o rosto do tal funcionário, quase como Tom Cruise fez em
MISSÃO IMPOSSÍVEL 2, muitos anos depois. Quando Ferret e seus mercenários chacinam todo mundo, inclusive Linda, o furioso Alec acaba tomando banho com sua fórmula e pega fogo, correndo em direção ao pântano. Sobra apenas Alice, que falhou na sua missão de proteger Holland, mas consegue guardar o livro onde o cientista anotou a fórmula, e que é obviamente cobiçado por Arcane e seus homens.
A partir daí, o filme se transforma numa grande perseguição de Ferret e seus soldados a Alice, sempre pelo pântano - parece não haver civilização num raio de muitos quilômetros. Quando tudo parece perdido, surge um monstrão verde das águas pantanosas para proteger a mocinha. Trata-se do Monstro do Pântano, com um visual bem pobre e risível: é apenas um cara vestindo uma ridícula roupa de borracha verde, que dobra e enruga toda vez que o ator se mexe, e tem apenas alguns galhos colados para lembrar que supostamente é um monstro meio homem, meio planta. Na verdade, o Monstro do Pântano parece mais com o
Toxic Avenger, da famosa série da Troma, do que com sua cara-metade dos quadrinhos, o que é uma verdadeira vergonha! Craven perdeu até a chance de usar uns efeitos especiais melequentos para representar a transformação de Holland de homem em monstro-planta...


Mas voltando ao filme: quando o anti-herói entra em cena, os mercenários de Arcane se transformam de caçadores em presas, pois o Monstro do Pântano parece disposto a proteger Alice com sua própria vida, tentando manter seu único vínculo com a humanidade. E Alice, por outro lado, nem imagina que aquele ser monstruoso é Alec, por isso foge dele como o diabo da cruz!
Nesta primeira metade,
SWAMP THING tem pouco de horror e muita ação, com inúmeros tiroteios e perseguições pelo pântano, mas pouquíssimo sangue e violência. Infelizmente, o Monstro do Pântano limita-se a dar socos e jogar longe seus oponentes, sem despedaçá-los ou arrancar cabeças, como era esperado por qualquer fã de Wes Craven. Aparentemente, os bandidos que a criatura enfrentam morrem ao cair de mau jeito no chão quando são arremessados longe, ou então de ataque cardíaco por medo do Monstro - já que nunca levantam para continuar lutando. E o Monstro do Pântano se revela imune às balas e passa a maior parte do filme derrubando os mercenários na água e fazendo os barcos explodirem. Logo, porém, a criatura revela outro poder oculto: como aquele tal de Jesus Cristo (hehehe), ele tem o poder de curar ferimentos e até ressuscitar os mortos apenas com o toque!!! Vai saber de onde Wes Craven foi inventar isso... Por que o Monstro não cria uma seita em pleno pântano e vira santo, curando peregrinos e ressuscitando os mortos em troca de um dízimo bem caro? Bem mais fácil que ficar matando mercenários sem ganhar nada em troca...


A história só melhora um pouco quando o mercenário Ferret decepa um dos braços do Monstro do Pântano com um facão e o
"herói" é aprisionado, sendo levado até a mansão de Arcane. É neste ponto que o filme perde de vez o rumo, com Arcane reproduzindo a fórmula de Holland e criando novos monstros a partir dela. Inclusive o próprio vilão se transforma numa criatura monstruosa - que, na verdade, não passa de um mané com outra ridícula roupa de borracha, cabeluda e com cara de javali, quase um lobisomem trash!!! A luta entre o Monstro e o Arcane transformado em javali-lobisomem mutante (hehehe) é o ponto alto do besteirol, lembrando aqueles seriados japoneses, tipo
JASPION e
CHANGEMAN - até porque a cabeça de javali do vilão não tem qualquer expressão e nem ao menos mexe os olhos! É inadmissível pensar que Craven está levando a coisa a sério ao filmar isso, quando qualquer um vê que aqueles
"monstros" são dois dublês enfiados em roupas de uma pobreza franciscana! O diretor devia ter percebido suas limitações orçamentárias e criado um duelo final mais sutil, não essa horrenda luta trash à la
POWER RANGERS!!!

SWAMP THING até tem seus momentos interessantes, principalmente aqueles em que David Hess (gordo que nem um porco) está em cena, como o sádico Ferret. Alice também é uma personagem interessante, apresentada como mulher forte (ao contrário da média de personagens femininos do gênero). Várias vezes ela sai na porrada com os vilões homens e até pega uma metralhadora para dar seus tirinhos em determinado momento do filme. Só não dá para engolir o
"romance" (assim mesmo, entre aspas) que ela vive com o Monstro do Pântano, quando descobre que, por baixo daquela criatura monstruosa, existe o outrora simpático Alec Holland. Outra coisa que não fica bem explicada é o fato da fórmula de Holland provocar efeitos diferentes em cada pessoa - ou seja, nem todos ficarão gigantes e musculosos, como o cientista. Só para o leitor ter uma idéia, um capanga de Arcane, que já era fortão, acaba se transformando num anãozinho com cara de porco ao beber a fórmula!


Se Craven esqueceu da violência na hora de fazer o filme, pelo menos ele brinda o espectador com um pouco de nudez gratuita. As cenas foram cortadas das cópias lançadas nos cinemas e em VHS e laser disc, mas felizmente foram recuperadas e restauradas para o recente lançamento em DVD nos States. Isso provocou polêmica por lá, pois a MGM lançou o DVD com a censura original do cinema, PG, porém resgatando as cenas de nudez que haviam sido cortadas (deveria ter mudado a faixa etária do filme na capinha, mas esqueceu). Com isso, várias crianças americanas puderam aproveitar os peitos em cena. Ao perceber o erro, a distribuidora recolheu as cópias PG com nudez, que logo se transformaram em raridade. Isso porque, graças ao
"Santo Craven", podemos finalmente ver a peituda Adrienne Barbeau com seus melões de fora tomando banho de pântano - na versão original, ela aparecia apenas de lado e não dava para ver nada. Outra cena que foi restaurada no DVD é uma
"suruba light" na mansão de Arcane, com ciganas dançando enquanto fazem topless - outro detalhe muito trash do roteiro, pois a cena começa com um jantar chique entre pessoas engravatadas e logo descamba para um pseudo-bacanal com dançarinas peladas e soldados tarados!


Como toda porcaria que se preze,
SWAMP THING também empilha momentos ridículos. Num deles, que eu citei anteriormente, Arcane dá a fórmula de Holland para um de seus capangas, o gigantesco e musculoso Bruno (Nicholas Worh, de
DARKMAN), tomar. Só que a fórmula dá errado e transforma o gigante em anão... misteriosamente, as roupas vestidas por Bruno encolhem junto com ele na transformação!!! hahahaha. Pode? Em outro momento trash, Alice é atingida por uma espadada desferida por Arcane e o sangue jorra do ferimento, sujando seu vestido. Quando o Monstro do Pântano usa seu
"toque Jesus Cristo" para curar o ferimento mortal, faz desaparecer até a mancha de sangue do vestido de Alice!!! Ou seja: o toque do Monstro do Pântano certamente seria bastante cobiçado por muitas donas de casa para fazer sumir com manchas de chocolate, café, vinho tinto e etc das roupas! Ele devia parar de brigar com os invasores do seu pântano e ficar milionário lançando um tira-manchas no mercado, chamado Pantanol ou Monstrólio. hehehehe. Mas o filme não é só bobagem: o roteiro traz alguns momentos inspirados, como aquele em que o Monstro do Pântano usa a luz do sol para fazer florescer um novo braço no lugar daquele que foi decepado por Ferret - lembre-se, ele é um vegetal!!!
Mesmo muito aquém do que poderia ser,
SWAMP THING pelo menos é divertido. Rápido e rasteiro (dura apenas 1h28min), o filme não abusa de efeitos especiais, como o recente e abominável
HOMEM-COISA, que também é baseado num personagem dos quadrinhos quase idêntico ao Monstro do Pântano - mas foi criado antes e é da rival Marvel Comics. Só faz falta um pouco mais de sangue e violência, como convém ao personagem - mas parece que Craven queria abandonar a ferocidade de seus trabalhos anteriores numa obra mais convencional e
"light". Não dá para deixar de citar a trilha sonora de Harry Manfredini, aquele mesmo da série
SEXTA-FEIRA 13. As trilhas dos dois filmes são bem semelhantes. Tanto que, em alguns planos do pântano, você reconhece na música um
"tchi, tchi, tchi", e chega a ficar esperando por uma participação especial do Jason! Resumindo: se
SWAMP THING não funciona 100%, pelo menos vale como trash movie, pois é impossível não rir da pobreza da caracterização dos monstros e dos momentos menos inspirados do roteiro. O típico filme para ser visto entre amigos, preferencialmente com muitas cervejas geladas à disposição.


Depois de
SWAMP THING, Craven deixou de lado as adaptações de quadrinhos e fez mais um filme que ninguém viu, a produção para a TV chamada
INVITATION TO HELL (no Brasil,
CONVITE PARA O INFERNO). E, em 1984, virou ídolo do horror de uma vez por todas ao criar Freddy Krueger no clássico contemporâneo
A HORA DO PESADELO. O resto é história. Outros envolvidos no projeto acabariam voltando ao personagem anos mais tarde. O dublê Dick Durock, por exemplo, ficou marcado como o Monstro, que interpretou novamente numa continuação realizada em 1989, chamada
A VOLTA DO MONSTRO DO PÂNTANO, produzida pelos mesmos Melniker e Uslan, mas sem qualquer participação de Craven. Desta vez, a direção foi do especialista em filmes B Jim Wynorski (que fez tralhas como
DEATHSTALKER 2 e
SORORITY HOUSE MASSACRE 2). Mesmo sendo uma produção ainda mais barata que o original, a continuação tem uma caracterização bem melhor do monstro - desta vez com mais plantas e cipós cobrindo o seu corpo -, e um elenco interessante, com as belas Heather Locklear e Monique Gabrielle, a esquisita Sarah Douglas e, misteriosamente, Louis Jordan de volta no papel de vilão!!! Sim, apesar de ter morrido no final do original, o arquivilão Arcane reaparece na seqüência sem grandes explicações, novamente infernizando a vida do Monstro do Pântano! E a criatura também gerou um seriado, exibido na TV americana em 1990, num total de 72 episódios (novamente com Dick Durock como o Monstro).
Graças ao
SWAMP THING de Craven, a revista do Monstro do Pântano voltou a ser publicada nos Estados Unidos; logo, as histórias passariam para as mãos do roteirista Alan Moore, que mudou totalmente o conceito do personagem e transformou aquelas aventurazinhas banais de horror num dos quadrinhos adultos mais lidos da época. A revista continua sendo publicada nos EUA, tendo passado por altos e baixos - inventaram até uma filha para o Monstro do Pântano!


Os produtores de
SWAMP THING, Melniker e Uslan, continuaram investindo em filmes baseados nos quadrinhos da DC Comics. Inclusive deram muita, mas muita sorte em 1989, quando produziram um filme chamado
BATMAN, dirigido por Tim Burton. Até hoje,
BATMAN é considerado a mais lucrativa produção baseada em gibis: custou 35 milhões e rendeu a
"bagatela" de, acredite se quiser, 413 milhões de dólares ao redor do mundo (ou seja, se pagou pelo menos 11 vezes)!!!!!! A dupla também produziu, mais recentemente,
CONSTANTINE, personagem intimamente ligado ao Monstro do Pântano, já que surgiu nas revistas da criatura durante a fase de Alan Moore.
SWAMP THING pode até ser um filme ruim... Mas pelo fato de adaptar para as telas um personagem tão rico quanto fascinante - o
"Monstro do Pântano" -, pelo elenco interessante e pela curiosidade de ser uma obra menos conhecida do famoso Wes Craven, é um programa praticamente obrigatório, que, bom ou ruim, precisa ser conhecido pelos fãs de horror. Mas o Monstro do Pântano ainda aguarda por uma adaptação decente, e à altura, para o cinema... O que, com o fracasso do recente
HOMEM-COISA, infelizmente não deverá acontecer tão cedo.


Ironicamente, se esta é a única adaptação de quadrinhos feita por Craven, não foi por falta de oportunidade: em 1987, antes de filmar
THE SERPENT AND THE RAINBOW (lançado no Brasil como
A MALDIÇÃO DOS MORTOS-VIVOS), o diretor foi chamado pelos produtores da Cannon Pictures para uma reunião. Queriam dar a ele a oportunidade de filmar...
SUPERMAN 4: EM BUSCA DA PAZ!!! A história foi contada pelo próprio cineasta em uma entrevista. Só que o recentemente falecido Christopher Reeve, que interpretava o Superman e também era autor da história e um dos produtores da aventura, convenceu seus colegas a não contratarem Craven - em seu lugar, entrou o péssimo Sidney J. Furie. Será que Reeve tinha visto
SWAMP THING e temia o que vinha pela frente? Não que
SUPERMAN 4 seja um bom filme (é o pior da série), mas realmente seria curioso ver o que Wes Craven poderia fazer com o Homem de Aço... e principalmente como ele encaixaria uma cena de pesadelo na aventura!!!

OS QUADRINHOS DO MONSTRO DO PÂNTANO
Eu confesso que nunca fui um grande fã do Monstro do Pântano, e os brasileiros também sempre foram prejudicados pela péssima distribuição da revista, sendo que o ponto alto do anti-herói no Brasil foi nos anos 80. Nesta década, milagrosamente, a Editora Abril passou a investir em quadrinhos
"menos convencionais" e publicou a série escrita por Alan Moore, só que em ridículo formatinho de gibi. Ainda tenho alguns destes números, hoje raros, que mostram as primeiras aparições do mago inglês John Constantine. Depois, o Monstro do Pântano deixou de ser publicado pela Abril e ganhou algumas edições especiais aqui e ali por outras editoras. Mas série regular ele não tem mais há anos, enquanto nos EUA continua sendo publicado regularmente.
O personagem surgiu oficialmente em julho de 1971, como coadjuvante de uma outra revista. Nesta época, os roteiristas Len Wein e Berni Wrightson criaram uma única história (que deveria ser uma aventura isolada) sobre o cientista Alex Olsen. Ele explode junto com seu laboratório em uma trama urdida pelo próprio colega, Damian Ridge, que queria matá-lo para que pudesse ficar com a esposa de Olsen, Linda. Porém, a mistura dos produtos químicos do laboratório com as plantas do pântano nas proximidades ressuscitam o cientista como uma criatura vegetal que, ao contrário do que aconteceria posteriormente com o personagem, não conseguia falar. Assim, ele não tinha como explicar para Linda quem era, sendo obrigado a voltar solitário para o pântano enquanto a esposa fugia de horror ao ver aquele monstro feito de plantas...




A história fez relativo sucesso e a DC Comics - a mesma editora que publica as aventuras de Batman, Superman e outros grandes heróis - resolveu transformar o Monstro do Pântano em título regular, fazendo uma HQ que misturasse horror e aventura, mais adulta, a exemplo de outras revistas da época (como Blade e Homem-Coisa, ambas da rival Marvel Comics). A revista
"Monstro do Pântano" surgiu em outubro de 1972, desta vez recontando a origem da criatura: agora o cientista se chama Alec Holland e é vítima de um terrorista chamado Senhor E. Sua esposa Linda é morta pelos vilões e ele se transforma no Monstro do Pântano para sair em busca de vingança. Seu principal oponente era o cientista do mal Anton Arcane, e entre os personagens secundários havia Matthew Cable, que inicialmente perseguia o Monstro achando que ele era o culpado pela morte de Linda. Também nesta época surgiu Abigail Arcane, sobrinha do vilão Arcane, que viveria um
"caso de amor" com o Monstro do Pântano (ela aparece no filme
A VOLTA DO MONSTRO DO PÂNTANO).
Esta primeira série da revista durou de 1972 até 1976, quando foi publicada a 24ª e última edição. Com as baixas vendas, o título foi cancelado. Seis anos depois, o personagem foi novamente colocado em evidência graças ao filme
SWAMP THING, de Wes Craven, que, mesmo sendo mal-sucedido nas bilheterias, acabou criando uma nova geração de fãs da criatura. Assim, a DC Comics colocou nas bancas, no mesmo ano de 1982, em maio, um novo título regular, chamado
"A Saga do Monstro do Pântano", deixando de lado muitos eventos da série antiga (como o fato de Holland ter retomado a forma humana na edição nº 24, de 1976). Vários personagens voltaram, mas foram transformados para agradar aos novos leitores: Matthew Cable, por exemplo, reapareceu como um alcoólatra em recuperação e Anton Arcane foi transformado... numa aranha-robô!!! Nas histórias, enquanto combate vilões, Holland/Monstro do Pântano também busca desesperadamente uma fórmula para voltar a ser humano e abandonar aquela condição monstruosa.




A nova geração do Monstro do Pântano só mostrou a que veio na edição nº 20, quando o roteirista Martin Pasko foi substituído pelo inglês Alan Moore, o gênio por trás de quadrinhos como
"Watchmen" e
"A Liga dos Cavaleiros Extraordinários". Nesta época, Moore ainda era um célebre desconhecido, mas fez fama como roteirista de quadrinhos adultos trabalhando na revista do Monstro. Ele tirou a criatura de suas tradicionais historinhas de confrontos com vilões e colocou-a em aventuras mais místicas e filosóficas, viajando por locais exóticos em busca da sua humanidade perdida. Também colocou magia e demônios na trama. Pior: num lance corajoso que chocou a maioria dos leitores mais tradicionais, Moore escreveu a clássica história
"Lição de Anatomia", onde o Monstro era dissecado e chegava-se a uma revelação horrenda. Acredite, leitor: o Monstro do Pântano não era Alec Holland, mas sim um monte de lodo e plantas que absorveu as memórias do cientista quando ele morreu. Ou seja: o Monstro do Pântano não é uma criatura meio homem, meio vegetal, como se acreditava, mas apenas um monte de plantas com lembranças humanas! Logo, Holland realmente morreu no pântano e jamais poderia voltar à sua forma humana, como muitos dos seus fãs esperavam! Já pensou o rebuliço naquela época?
Durante esta reinvenção do personagem, Moore aproveitou para homenagear grandes escritores da literatura universal, quase sempre criando polêmica entre os fãs mais tradicionais do anti-herói. Em uma edição, por exemplo, homenageou
"A Divina Comédia", de Dante Alighieri, colocando o Monstro do Pântano numa descida ao inferno em busca da alma de Abigail Arcane. No arco de histórias posterior, Moore introduziu o personagem do mago inglês John Constantine, que posteriormente ganharia sua revista própria (
"Hellblazer") e mais recentemente o filme estrelado por Keanu Reeves. Constantine era um mago mal-humorado, loiro e com a cara do cantor Sting. Ele aparecia nos pântanos para ajudar o Monstro do Pântano a conhecer e aprender a usar seus poderes. Nesta fase, o Monstro e Constantine viajaram por vários Estados americanos, encontrando monstros clássicos, como lobisomens e zumbis, e sempre com muita discussão filosófica sobre a vida e a morte. O arco de histórias de Alan Moore é considerado o ponto alto do personagem nos quadrinhos.
Cerca de 45 edições depois, o roteirista inglês abandonou a série e foi substituído por Rick Veitch. Ele seguiu fielmente o estilo de Moore, mas saiu da revista após um caso polêmico relacionado à edição nº 88, numa história em que aparecia ninguém menos que Jesus Cristo como personagem secundário!!! Era o ano de 1988 e havia muita discussão por causa do filme
A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, de Martin Scorsese. Por isso, a editora, temendo polêmicas, censurou a história, levando o roteirista a abandonar o título. Nos anos seguintes, vários roteiristas se revezaram no cargo, e até mesmo o famoso Neil Gailman (o criador de
"Sandman") escreveu algumas histórias e um especial do Monstro do Pântano. No meio de tantas aventuras, existe até uma em que o Monstro do Pântano vai visitar Gotham City e tem um encontro com seu mais famoso habitante, o Batman.

Entre 2000 e 2002, roteiristas viajões chegaram a criar uma filha para o Monstro do Pântano, chamada Tefé Holland. Mesmo com altos e baixos, a revista do personagem continua sendo publicada até hoje nos Estados Unidos - mesmo que os fãs ardorosos da criatura lodosa continuem lembrando com saudades daquele arco de histórias oitentista concebido por Alan Moore, que até hoje seria o ponto alto do
"herói" nos gibis...
Felipe M.Guerra
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SWAMP THING (Swamp Thing, EUA, 1982). 93 minutos
Direção: Wes Craven
Roteiro: Wes Craven; Len Wein; Bernie Wrightson
Produção: Benjamin Melniker; Michael E. Uslan
Música: Harry Manfredini
Fotografia: Robbie Greenberg
Edição: Richard Bracken
Desenho de Produção: Robb Wilson King
Figurino: Patricia Bolomet; Bennett Choate
Maquiagem: Wren Boney; Tonga Knight
Elenco: Louis Jourdan (Dr. Anton Arcane); Adrienne Barbeau (Alice Cable); Ray Wise (Alec Holland); David Hess (Ferret); Nicholas Worth (Bruno); Don Knight (Harry Ritter); Al Ruban (Charlie); Dick Durock (Swamp Thing); Ben Bates (Arcane monstro); Nannette Brown (Dr. Linda Holland); Reggie Batts (Jude); Karen Price (Karen)
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