Fazer um artigo sobre um musical é tocar num dos gêneros que mais divide opiniões, talvez mais até do que o próprio terror - ou o espectador gosta ou ele odeia, sem meios termos. Por conta disso quero usar algumas palavras para descrever o que eu penso sobre este peculiar segmento da indústria do cinema: apesar de ter certas reservas aos formatos atuais, eu cresci assistindo CANTANDO NA CHUVA, O MAGO DE OZ e a fantásticas operas rock como TOMMY, PINK FLOYD - THE WALL e WELCOME TO MY NIGHTMARE, portanto posso dizer que não tenho restrições quanto a diálogos cantados e performances dançadas para representar emoções.


Quando se alia música e terror a mistura parece ainda mais indigesta, contudo se produções acima de qualquer suspeita como
MONTY PHYTON E O CÁLICE SAGRADO,
EVIL DEAD e até
THE TOXIC AVENGER possuem versões musicadas nos palcos, por que não transportar ao cinema um grande sucesso da Broadway? Neste novo filme do aclamado diretor Tim Burton acontece justamente isso. A peça sobre o barbeiro assassino foi escrita em 1973 pelo britânico Christopher Bond baseado na lenda urbana londrina do século 19. Esse texto foi modificado em 1979 por Stephen Sondheim e Hugh Wheeler virando um musical com história no cenário teatral e, enfim,
SWEENEY TODD - O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET ganha as telas grandes em uma produção que alia arte com entretenimento na sua forma mais completa.
Tudo começou em meados dos anos 80 quando Alan Parker (diretor de
PINK FLOYD - THE WALL) demonstrou seu interesse em filmar a peça
Sweeney Todd. A partir daí em cerca de vinte e cinco anos de desenvolvimento, vários diretores entraram e saíram do projeto: Sam Mendes (diretor de
ESTRADA PARA A PERDIÇÃO e vencedor do Oscar por
BELEZA AMERICANA) ficou encarregado por algum tempo e neste longo período muitos atores foram cotados para o papel principal - destes destacam-se Michael Douglas, Harrison Ford, Dustin Hoffman, Robert De Niro, Al Pacino, Gene Hackman, Russell Crowe e Jack Nicholson.
Até que finalmente a adaptação cinematográfica chegou às mãos de Tim Burton - que já havia assistido ao musical nos teatros nos anos 80. E para conceber este filme carregado de seu típico humor negro, o diretor traz à tela uma figurinha conhecida de suas obras, marcando sua sexta associação com o ator Johnny Depp - com o qual já havia trabalhado em
EDWARD MÃOS DE TESOURA,
ED WOOD,
A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA,
A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATES e
A NOIVA CADÁVER - e a esposa de Burton, Helena Bonham Carter (de
CLUBE DA LUTA).


Como o compositor Stephen Sondheim foi bastante resistente (leia-se chato e perfeccionista) em ceder os direitos do musical, todos pastaram bastante para realizar o projeto como, por exemplo, o comediante Sasha Baron Cohen (o
BORAT) que precisou cantar toda a trilha de
UM VIONILISTA NO TELHADO na presença de Burton e ter 16 horas de aulas de barbearia para pegar o papel; Johnny Depp necessitou fazer uma audição vocal com Sondheim - que dizia inicialmente que a voz do ator era muito
"orientada para o rock" - e praticou suas canções durante as filmagens de
PIRATAS DO CARIBE: NO FIM DO MUNDO.
Não teve moleza nem para a mulher do diretor que, para fugir de acusações de nepotismo, fez três meses de ensaios e gravou doze fitas demo enquanto ainda estava grávida para representar sua personagem, além de ter de aprender a fazer tortas ao ritmo das músicas.
As filmagens ocorreram entre fevereiro e maio de 2007 com os três estúdios que financiaram um pouco apreensivos em ceder 50 milhões de dólares para um musical com um tom tão violento. Todo o trabalho árduo de equipe técnica e elenco renderam mais de 80 milhões em bilheteria mundialmente e reconhecimento da crítica representados na forma de quatro indicações ao Globo de Ouro (levou dois, melhor filme de comédia ou musical e ator para Johnny Depp) e mais recentemente três indicações ao Oscar - ator, figurino e direção de arte - todos merecidos por sinal.
O roteiro conta (ou canta) a história de Benjamin Barker (Johnny Depp), um barbeiro, que foi falsamente acusado, processado e sentenciado a uma vida de trabalho duro em uma prisão na Austrália graças aos ciúmes que o corrupto e tendencioso Juiz Turpin (Alan Rickman, o Severus Snape dos filmes da franquia
HARRY POTTER) tinha da esposa de Barker, a
"linda e virtuosa" Lucy (Laura Michelle Kelly). Quinze anos depois, Ben foge da prisão retornando a Londres dando adeus ao seu amigo Anthony Hope (Jamie Campbell Bower) e agora adotando o nome de Sweeney Todd, ele volta ao seu antigo estabelecimento, a loja de cima de um sobrado na Rua Fleet.


Na loja de baixo funciona a loja de tortas de Nellie Lovett (Helena Bonham Carter), que está com problemas nos negócios por causa do preço alto da carne. Lovett diz a Todd que, depois que preso, Turpin estuprou e raptou sua mulher que por sua vez envenenou-se por causa da humilhação; e o juiz adotou a filha de Todd, Johanna (Jayne Wisener) como enteada. Essa notícia deixa Sweeney furioso e clama por vingança.
Anthony anda pelas ruas de Londres quando vê pela janela a adolescente Johanna e imediatamente se apaixona por ela. Sua atração provoca um confronto entre ele e Turpin com seu associado - ou melhor, bajulador - Bamford (Timothy Spall, outro conhecido da cinessérie
HARRY POTTER, onde interpreta Peter Pettigrew), que bate no rapaz e o ameaça caso retorne.
Neste meio tempo chega a cidade o barbeiro italiano Adolfo Pirelli (Sasha Baron Cohen) e seu jovem assistente Tobias "Toby" Ragg (Ed Sanders) vendendo um
"elixir milagroso" que diz criar cabelo até em ovo. Todd, duvidando da honestidade do italiano, o desafia para um desafio de velocidade no barbear e chama Bamford para ser o juiz. Demonstrando uma perícia na navalha maior do que as três lâminas do comercial de TV, Todd vence atraindo as atenções do público local e de Bamford.
De volta ao salão, Pirelli se revela ser o antigo assistente do então Benjamin Barker e tenta suborná-lo para que não espalhe para Londres a verdadeira identidade do barbeiro foragido. Consumido pela ira, Todd desfere uma navalhada na garganta do falso italiano que morre. Sem saber que seu mestre fora assassinado, Toby passa a trabalhar com Lovett.


O Juiz Turpin revela sua vontade de se casar com Johanna e se mostra desapontado com a recusa inicial da menina. Bamford encoraja Turpin para uma visita ao salão de Sweeney Todd para melhorar sua aparência, uma oportunidade de ouro para que o barbeiro concretize sua vingança. Contudo na hora H, Anthony irrompe pela porta da barbearia para explicar seu objetivo de fugir com Johanna e encerrar os planos de Todd.
Enraivecido, Todd resolve direcionar sua frustração nos civis,
"pois todos têm pecados e merecem morrer". Em uma discussão sobre como se livrarão dos corpos (incluindo o de Pirelli), Lovett surge a idéia de unir o útil ao agradável, usa-los como carne nas tortas de Lovett. Todd concorda e instala um maquinário na sua cadeira de barbeiro que lança as vitimas por um alçapão direto para o estabelecimento de Lovett. O barbeiro é então aos poucos sorvido pela crueldade que só terminará quando Johanna estiver a salvo e Turpin for recheio de uma torta.
Comprimir três horas de musicais em um filme de cerca de duas horas demandou mudanças. Algumas músicas perderam versos e outras foram simplesmente removidas. Uma destas músicas incluía performances de
Christopher Lee, Peter Bowles e Anthony Stewart. Declaradamente inspirados nos filmes da produtora
Amicus, Tim Burton e John Logan (roteirista) decidiram manter o foco da história no triângulo que se forma entre Sweeney, Lovett e Toby, deixando personagens como Johanna e Anthony mais centrados na parte musical.
O próprio diretor afirmou que este filme não se encaixa nem como musical e tampouco como um slasher. Verdadeiramente não é uma produção de terror na concepção mais exata da palavra e a classificação nacional de 16 anos se deve muito mais a quantidade de violência gráfica e gore, mas que não chega a ser num contexto de suspense e serve mais como uma pincelada rubra no quadro que o diretor pintou. Fica aqui registrada a exceção feita ao tenso e impressionante final que é tão belo quanto perturbador, uma tragédia digna de uma grande peça de teatro ou uma opera famosa onde não há dançarinos, apenas segredos intimistas na forma de cânticos.


Quem já é acostumado com o trabalho do diretor Burton - que já havia flertado com os musicais em
A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATES e
A NOIVA CADÁVER - encontrará aqui todas as características visuais e técnicas que o tornaram respeitado, especialmente no cuidado na fotografia sombria de Dariusz Wolski, que consegue contrastar a sombras das locações e o aspecto pálido dos personagens com o vermelho vivo do sangue derramado por Sweeney Todd de maneira que se vê muito no chamado cinema de arte. Mas que ao contrário do
"cinema de arte” não é arrastado e restrito, Burton consegue envolver o público em cada fotograma - eu particularmente não vi os 116 minutos de projeção passar. O resultado soa como se o palco do teatro, onde há o musical, houvesse se expandido para abrigar a Londres do século 19 em toda a sua beleza gótica e aristocrata.
Pode até soar estranho, porém preciso falar sobre os desempenhos musicais dos atores. Todos cantam e interpretam bastante a vontade: a química entre Depp e Helena Bonham Carter é contagiante, e até Sacha Baron Cohen, que eu pensei que seria um ponto negativo, interpreta com caricatura, mas bem adequado ao seu personagem e cantando sem comprometer o bom andamento da película.
De negativo, bem, como adiantei no primeiro parágrafo deste texto,
SWEENEY TODD será um filme espetacular apenas para dois públicos distintos - os que gostam de bons musicais e os que curtem as histórias de Tim Burton - e como eu adoro ambos, meu veredicto não podia ser diferente: Deixe a navalha de Sweeney Todd te levar em um dos melhores de 2008, mesmo que ainda seja fevereiro.

CURIOSIDADES
- Durante o primeiro mês de produção em Londres, Johnny Depp precisou se ausentar por dez dias quando sua filha Lily-Rose foi hospitalizada devido a uma doença severa (que não foi divulgado para a imprensa) e atrapalhou o andamento das filmagens;
- Anne Hathaway quase pegou o papel de Johanna, mas Tim Burton queria uma completa desconhecida e ficou com Jayne Wisener;
- Meryl Streep, Emma Thompson e a cantora Cyndi Lauper foram consideradas para interpretar Nellie Lovett;
- Helena Bonham Carter estava grávida do segundo filho dela com Tim Burton durante a produção e por conta disso ela insiste (com razão) que o tamanho de seus seios variam conforme a projeção avança, pois as filmagens foram feitas fora de ordem;
- Esta não é a primeira vez que a lenda do barbeiro maníaco ganha as telas do cinema, existe um filme homônimo de 1936 com Tod Slaughter fazendo o papel principal, contudo – ao contrário do que alguns dizem - é errôneo afirmar que a produção de Tim Burton é um remake deste filme. Para quem quiser conferir e comparar, o
Sweeney Todd mais antigo está disponível em DVD no Brasil pela Works com o título
O DIABÓLICO BARBEIRO DE LONDRES num disco em conjunto com
UM VULTO NA JANELA.
Para contato com Gabriel Paixão:
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SWEENEY TODD - O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, EUA, 2007). Duração: 116 minutos.
Direção: Tim Burton
Roteiro: John Logan baseado no musical de Stephen Sondheim e Hugh Wheeler
Produção: John Logan; Laurie MacDonald; Walter F. Parkes; Richard D. Zanuck
Produção Executiva: Patrick McCormick
Desenho de Produção: Dante Ferretti
Edição: Chris Lebenzon
Efeitos Especiais: Michael Dawson; Jason Leinster
Maquiagem: Neal Scanlan
Música: Stephen Sondheim
Fotografia: Dariusz Wolski
Elenco: Johnny Depp (Sweeney Todd); Helena Bonham Carter (Nellie Lovett); Alan Rickman (Juiz Turpin); Timothy Spall (Bamford); Sacha Baron Cohen (Adolfo Pirelli); Jamie Campbell Bower (Anthony Hope); Laura Michelle Kelly (Lucy); Jayne Wisener (Johanna); Ed Sanders (Toby); Gracie May; Ava May; Gabriella Freeman; Jody Halse; Aron Paramor; Lee Whitlock; Nick Haverson; Mandy Holliday; Colin Higgins; John Paton; Graham Bohea; Daniel Lusardi; Ian McLarnon; Phill Woodfine
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