TERENCE FISHER O RECRIADOR DO UNIVERSO DO TERROR PELA HAMMER FILMS
Por Orivaldo Leme Biagi
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Jonathan Harker chega no castelo de Drácula numa linda tarde, embora não escute os pássaros cantando. Entrando no castelo, ele encontra sua refeição pronta e um bilhete de seu anfitrião dizendo que chegaria mais tarde. Após a refeição, Harker derruba alguns objetos da mesa e, enquanto os recolhe, ele sente a presença de uma linda mulher, de vestido branco e decote provocativo, que lhe pede ajuda para fugir do castelo. Pouco depois, ela fixa seu olhar, já uma mistura de medo e ódio, sob os ombros de Harker e afasta-se dele. Harker, virando o rosto, vê, no alto das escadas, a figura imponente de Drácula. Mais adiante Harker reencontra a mulher que repete o pedido para ajudá-la a fugir e, num abraço, ele concorda. Ela, com o olhar lascivo, vê o pescoço de Harker e, com suas presas de vampiro, o morde. Drácula, com os olhos vermelhos e a boca suja de sangue, entra no recinto e ataca a mulher e Harker. Depois, Harker, o falso bibliotecário que veio com a missão de destruir Drácula, percebe que, agora, estava contaminado com o mal do vampirismo. Seu colega nesta missão, Dr. Van Helsing, surgiria depois para matar o amigo do vampirismo e lutar contra Drácula que atacaria a noiva de Harker, Lucy, matando-a e transformando-a em vampira, e a esposa do irmão de Lucy, Arthur Holmwood, Mina Murray. |
De maneira bastante simplificada este é o resumo do clássico da Hammer Films O Vampiro da Noite (The Horror of Dracula, 1958). Podemos perceber a utilização dos personagens da história original de Bram Stocker, mas de maneira bastante alterada, inclusive em relação ao filme Drácula (1931), da Universal Pictures. Esta versão faria enorme sucesso e recolocaria os filmes de terror em evidência outra vez, além de consagrar seu diretor, Terence Fisher.
Terence Fisher nasceu em 1904. Como aprendiz a bordo do H. M. S. Conway, durante o final da década de 20, deixou a marinha e obteve diversos empregos até 1930 quando foi trabalhar na Shepard’s Bush Studios como editor, mas apenas iria dirigir seu primeiro filme em 1948, A Song for Tomorrow. Mas foi na Hammer Films que o diretor conseguiria seus mais importantes filmes.
 
Fisher já trabalhara para a Hammer Films em 1933 nos primeiros filmes de ficção-científica da produtora, Four-Sided Triangle e Spaceways. Em 1957 juntou-se ao roteirista Jimmy Sangster e aos atores Peter Cushing e Christopher Lee para refilmar Frankenstein, o clássico da Universal Pictures. Tendo Cushing como o doutor Frankenstein e Lee como a criatura (totalmente deformada, pois a produção não pode contar com as formas da criatura imortalizadas por Boris Karloff, cuja patente pertencia à Universal Pictures), o filme foi um enorme sucesso. A mesma equipe foi reunida outra vez para, no ano seguinte, filmar O Vampiro da Noite, que superou todas as expectativas e seu estupendo sucesso colocou os filmes de terror outra vez no cenário cinematográfico mundial, tendo a Hammer Films como sucessora da Universal Pictures neste terreno – tanto que esta última, em acordo, cedeu os copyrights de seus monstros para que a Hammer produzisse seus filmes.
Estas duas obras dirigidas por Fisher praticamente definiram as produções de terror até a década de 70. Além da introdução das cores neste tipo de filme, a sensualidade era também mais destacada, com a constante presença de lindas mulheres com decotes bastante provocantes e, quase sempre, com seios grandes. Os monstros também eram apresentados de maneira direta, diferentemente do que acontecia nos filmes da Universal Pictures, sempre envolvidos com problemas com a censura e com a distribuição. Mesmo assim, Fisher impunha um rígido código moral nas suas obras: o mal era sempre derrotado no final. Fisher aproveitou-se das novas condições morais menos rígidas e das novas tecnologias cinematográficas para renovar o universo de terror.   
Terence Fisher iria dirigir uma série de clássicos para a Hammer, mas nunca foi considerado um grande diretor, o que não deixa de ser uma certa injustiça, pois sua criação de imagens e de climas (uma das marcas das produções da Hammer foram as neblinas e jogos de luzes, inclusive ressaltando os olhos dos personagens e, quando em filmes de vampiros, a boca e os dentes pontudos) foram muito criativos e aterrorizantes. Mas não podemos esquecer que ele trabalhava com orçamentos bastante reduzidos, o que chegou a limitar as falar de Christopher Lee em seus papéis para este ganhar salários menores, além das próprias reclamações do ator perante os péssimos diálogos que impunham a seu personagem – em Drácula, o Príncipe das Trevas (Dracula, Prince of Darkness, 1965), por exemplo, Lee não fala uma palavra sequer.
Outro problema para que seus filmes não tenham obtido melhor reconhecimento foi seu código de moral: Drácula era sempre o vilão e do Dr. Van Helsing o mocinho, sendo que a mesma lógica passava por outros personagens em outros filmes. Esta simplificação de certa forma ajudou o sucesso destes filmes (era mais fácil para o público se identificar com esse maniqueísmo), mas limitou demais as possibilidades psicológicas dos personagens.
Fisher aposentou-se em 1973, falecendo, por causa de câncer, em 1980.
Filmografia (como diretor)
Orivaldo Leme Biagi, Doutor em História pela UNICAMP, Professor das Faculdades Atibaia (FAAT) e Membro da Academia Literária Atibaiense (ALA).
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