TERROR QUE MATA
(Quatermass Xperiment , Inglaterra, 1956)

Direção: Val Guest.
Roteiro: Richard H. Landau, Val Guest e Nigel Kneale.
Produção: Anthony Hinds e Robert L. Lippert.
Edição: James Needs.
Música: James Bernard.
Elenco: Brian Donlevy (Professor Bernard Quatermass), Jack Warner (Inspetor Lomax), Margia Dean (Judith ), Richard Wordsworth (Victor), David King Wood (Dr Gordon Briscoe), Thora Hird (Rosemary 'Rosie' Rigley), Gordon Jackson; Harold Lang (Christie); Lionel Jeffries (Blake); Sam Kydd; Jane Aird (Mrs. Lomax).
Distribuição: Inédito em DVD no Brasil.


SINOPSE
O professor Bernard Quatermass é o responsável por enviar ao espaço o primeiro foguete britânico tripulado. Mas um incidente no retorno a terra resulta no desaparecimento de dois astronautas. Victor Carroon, o único sobrevivente, foi afetado por um enigmático organismo alienígena que provocou misteriosas alterações em seu corpo o transformando num gigantesco monstro vegetal


“A história mais fantástica já contada.”

A companhia cinematográfica Hammer dispensa qualquer apresentação. Entretanto, embora tenha se especializado em filmes de horror, com Dráculas e Frankensteins coloridos que se sagraram clássicos, o que poucos sabem é que o mítico estúdio foi “alavancado” por um filme de ficção científica. “Terror que Mata” (The Quatermass Xperiment ou The Creeping Unknown, nos Estados Unidos) foi a primeiro filme da produtora a conseguir projeção internacional. Fotografado em preto-e-branco, “Terror que Mata” é derivado de uma série televisiva homônima, exibida no Reino Unido em seis episódios, no ano de 1953.

Na trama, o cientista Bernard Quatermass é o responsável pelo lançamento do primeiro foguete tripulado a atingir o espaço (nesta época, o homem ainda não havia pousado na Lua). Porém, quando a nave retorna a Terra, dois dos três astronautas que formavam a tripulação desapareceram, e o sobrevivente, Victor Carroon, parece seriamente afetado.
Quatermass e a polícia britânica investigam o incidente, enquanto o sobrevivente Victor Carroon começa a sofrer terríveis mutações, lentamente sucumbindo ao poderoso parasita alienígena que domina o seu corpo.



Terror que Mata”, assim como seus contemporâneos “A Mosca da Cabeça Branca” (The Fly, 1958), “Vampiros de Almas” (The Invasion of Body Snatchers, 1956) e “Força Diabólica” (The Tingler, 1959), segue a linha clássica das produções Sci-Fi que marcaram os anos 50: a mistura entre o horror e a ficção. A série que originou o filme, produzida e exibida três anos antes pela rede de televisão britânica BBC, fora um grande sucesso, marcando época e definindo os moldes a serem seguidos pelas produções semelhantes que seriam exibidas nas próximas décadas. Nigel Kneale, roteirista criador do cientista Bernard Quatermass, não aprovou a adaptação da série para o cinema, disparando críticas pesadas sobre o desempenho do ator Brian Donlevy (marido de Lillian Lugosi, viúva de Bela “Drácula” Lugosi) na interpretação pouco carismática de seu personagem. Mas desavenças a parte, “O Experimento Quatermass” (tradução literal do título, bem mais feliz e interessante do que a escolha das distribuidoras brasileiras), foi grande sucesso de público no Reino Unido e na América, tornado o “Martelo” conhecido em todo o mundo. Resultado, cofres cheios para a Hammer, portas abertas para a produção dos filmes de Horror que imortalizariam a produtora. A própria rede de televisão BBC embarcou no êxito comercial do filme, produzindo no mesmo ano uma nova minissérie, chamada “Quatermass 2”. Dois anos depois, em 1957, a Hammer lançou uma seqüência para “Terror que Mata”, o ótimo “Quatermass 2”, com roteiro e argumento do já parceiro Kneale. Uma minissérie em seis episódios, também da BBC, chamada “The Quatermass and the Pit” foi exibida entre 1958 e 1959, no Reino Unido, sendo transportada para o cinema em 1967, pela Hammer (conhecida como “Um Túmulo para a Eternidade”, no Brasil). Em 1979, uma nova minissérie refilmagem da original, conhecida como “Quatermass IV” foi lançada pela pouco conhecida produtora britânica Euston Films. Em 2005, um ano antes da morte do roteirista Nigel Kneale, a BBC prestou uma grande homenagem a série: o projeto “Quatermass Experiment”, uma refilmagem apresentada ao vivo dos estúdios da emissora. Recapitulando e contabilizando: foram três filmes produzidos pela Hammer, quatro minisséries e uma “apresentação” ao vivo, fechando o ciclo (pelo menos até agora), desta que é uma das mais importantes séries de ficção científica de todos os tempos.



Terror que Mata” tem na direção o convencional, mas competente Val Guest, que tem no seu “pequeno” currículo, mais de cinqüenta longas, entre eles: “O Abominável Homem das Neves” (The Abominable Snowman, 1957, com Peter Cushing no elenco), o também sci-fi “O Dia em que a Terra pegou fogo” (The Day the Earth Caught Fire, 1962) e o célebre longa não oficial de James Bond “Cassino Royale” (Casino Royale, com Peter Sellers, 1967).



Infelizmente, em 1956, a Hammer ainda não contava com os astros Peter Cushing e Christopher Lee, parceiros habituais nos grandes sucessos da produtora. Em “Terror que Mata”, o elenco, praticamente desconhecido, passa despercebido, quando não apático. Poderíamos destacar o ator Richard Wordsworth interpretando o astronauta sobrevivente Victor Carroon. Embora pronuncie apenas uma frase durante todo o filme (“- Help me...”), seu aspecto maltrapilho e catéctico torna o personagem realmente assustador.

A Trilha sonora composta pelo colaborador freqüente da Hammer, James Bernard, é muito mal aproveitada. A composição principal é forte e carregada de suspense, mas fica em evidência apenas nos créditos iniciais e finais.



O roteiro, de Nigel Kneale, reserva poucas surpresas e desenvolve mal o personagem Quatermass, já que pouco sabemos dele. Agora, como entender um filme com tantas limitações tornar-se um sucesso internacional e um inquestionável clássico do gênero?

Para responder a questão anterior somos obrigados a retornar ao contexto histórico da época em que foi lançado “Terror que Mata”. No ano de 1956, em plena corrida espacial, os Estados Unidos e a União Soviética disputavam quem seriam os pioneiros na exploração espacial. Os russos sairiam na frente, colocando em órbita o primeiro satélite artificial da história, o Sputnik 1, em 1957. Uma semana depois mandariam pro espaço a coitada da cadela Laika, no Sputnik 2. Quatro anos depois, em 1961, a “espaçonave” Vostok 1 colocaria o primeiro humano ao espaço, o russo Iuri Gagarin. Mas em 1969, os americanos deram o xeque-mate, enviando a nave Apollo 11 até a Lua.



Mas o filme é anterior a todos estes acontecimentos e o imaginário popular era estimulado não só pelas possibilidades reais da exploração espacial, mas também pelos milhares de supostos avistamentos de OVNIS, sendo o episódio mais famoso o Caso Roswell, de 1947. Aí estava a fórmula: novidades tecnológicas, viagens espaciais e invasões alienígenas. Daí para seres humanos virando vegetais era um passo. E o período foi extremamente fértil para o gênero chamado hoje de Sci-fi.

Quando a Ficção Científica e o Horror se encontram

Embora gêneros distintos, a ficção científica e o horror são partes de um gênero maior, chamado Fantástico (tanto na literatura quanto no cinema). E ambos apresentam traços comuns, como explorar o desconhecido e o imaginário humano. Enquanto a ficção trabalha as possibilidades da ciência, o horror trabalha o medo e o psicológico do ser humano.



E a fusão entre os dois gêneros sempre rendeu obras interessantes, das quais muitas se tornaram verdadeiros clássicos. Os dois maiores exemplares atuais da junção entre sci-fi e o terror são as séries “Alien” e “Predador”, que juntas somam seis longas: "Alien, o Oitavo Passageiro” (1979), "Aliens, o Resgate” (1986), "Alien 3" (1992), "Alien, a Ressurreição" (1997), “O Predador” (1987) e “O Predador 2: A Caçada Continua” (1990); dois cross-overs: “Alien vs Predador” (2004) e “Alien vs Predador 2” (ainda inédito). Outra série contemporânea de relativo sucesso é “A Experiência” (1995). Protagonizado pela bela Natasha Henstridge, a trama do longa, que rendeu ainda duas seqüências: “A Experiência 2 - A Mutação” (1998) e “A Experiência 3” (2004), narra a trajetória e a perseguição a um ser híbrido alienígena que escapa de um laboratório e deseja proliferar sua espécie, consequentemente eliminando a raça humana (tagline parecida com a de “Terror que Mata”).



Mas foi mesmo entre as décadas de 50 e 70 que o cinema chamado B se alimentou da fórmula e consagrou diversos clássicos como: “Vampiro de Almas” (1956), de Don Siegel, onde os seres humanos são substituídos por aliens saídos de vagens gigantes; “O Monstro do Ártico” (The Thing from Another World, 1951), de Howard Hawks, refilmado por John Carpenter trinta anos depois como “Enigma de Outro Mundo” ou “A Mosca da Cabeça Branca” (The Fly, 1958), cujo remake foi dirigido por David Cronemberg em 1986. Além de divertidas e nostálgicas, são obras de valor histórico que influenciaram diretamente produções mais modernas, mas que infelizmente permanecem inéditas ou não tiveram edições à altura no Brasil.

João Pires Neto




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