 |
A companhia cinematográfica Hammer dispensa qualquer apresentação. Entretanto, embora tenha se especializado em filmes de horror, com Dráculas e Frankensteins coloridos que se sagraram clássicos, o que poucos sabem é que o mítico estúdio foi “alavancado” por um filme de ficção científica. “Terror que Mata” (The Quatermass Xperiment ou The Creeping Unknown, nos Estados Unidos) foi a primeiro filme da produtora a conseguir projeção internacional. Fotografado em preto-e-branco, “Terror que Mata” é derivado de uma série televisiva homônima, exibida no Reino Unido em seis episódios, no ano de 1953.
Na trama, o cientista Bernard Quatermass é o responsável pelo lançamento do primeiro foguete tripulado a atingir o espaço (nesta época, o homem ainda não havia pousado na Lua). Porém, quando a nave retorna a Terra, dois dos três astronautas que formavam a tripulação desapareceram, e o sobrevivente, Victor Carroon, parece seriamente afetado. |
Quatermass e a polícia britânica investigam o incidente, enquanto o sobrevivente Victor Carroon começa a sofrer terríveis mutações, lentamente sucumbindo ao poderoso parasita alienígena que domina o seu corpo.


“
Terror que Mata”, assim como seus contemporâneos “
A Mosca da Cabeça Branca” (The Fly, 1958), “
Vampiros de Almas” (The Invasion of Body Snatchers, 1956) e “
Força Diabólica” (The Tingler, 1959), segue a linha clássica das produções Sci-Fi que marcaram os anos 50: a mistura entre o horror e a ficção. A série que originou o filme, produzida e exibida três anos antes pela rede de televisão britânica
BBC, fora um grande sucesso, marcando época e definindo os moldes a serem seguidos pelas produções semelhantes que seriam exibidas nas próximas décadas. Nigel Kneale, roteirista criador do cientista Bernard Quatermass, não aprovou a adaptação da série para o cinema, disparando críticas pesadas sobre o desempenho do ator Brian Donlevy (marido de Lillian Lugosi, viúva de Bela
“Drácula” Lugosi) na interpretação pouco carismática de seu personagem. Mas desavenças a parte,
“O Experimento Quatermass” (tradução literal do título, bem mais feliz e interessante do que a escolha das distribuidoras brasileiras), foi grande sucesso de público no Reino Unido e na América, tornado o
“Martelo” conhecido em todo o mundo. Resultado, cofres cheios para a
Hammer, portas abertas para a produção dos filmes de Horror que imortalizariam a produtora. A própria rede de televisão
BBC embarcou no êxito comercial do filme, produzindo no mesmo ano uma nova minissérie, chamada
“Quatermass 2”. Dois anos depois, em 1957, a
Hammer lançou uma seqüência para “
Terror que Mata”, o ótimo
“Quatermass 2”, com roteiro e argumento do já parceiro Kneale. Uma minissérie em seis episódios, também da
BBC, chamada
“The Quatermass and the Pit” foi exibida entre 1958 e 1959, no Reino Unido, sendo transportada para o cinema em 1967, pela
Hammer (conhecida como
“Um Túmulo para a Eternidade”, no Brasil). Em 1979, uma nova minissérie refilmagem da original, conhecida como
“Quatermass IV” foi lançada pela pouco conhecida produtora britânica
Euston Films. Em 2005, um ano antes da morte do roteirista Nigel Kneale, a
BBC prestou uma grande homenagem a série: o projeto
“Quatermass Experiment”, uma refilmagem apresentada ao vivo dos estúdios da emissora. Recapitulando e contabilizando: foram três filmes produzidos pela
Hammer, quatro minisséries e uma
“apresentação” ao vivo, fechando o ciclo (pelo menos até agora), desta que é uma das mais importantes séries de ficção científica de todos os tempos.


“
Terror que Mata” tem na direção o convencional, mas competente Val Guest, que tem no seu
“pequeno” currículo, mais de cinqüenta longas, entre eles:
“O Abominável Homem das Neves” (The Abominable Snowman, 1957, com
Peter Cushing no elenco), o também sci-fi
“O Dia em que a Terra pegou fogo” (The Day the Earth Caught Fire, 1962) e o célebre longa não oficial de James Bond
“Cassino Royale” (Casino Royale, com Peter Sellers, 1967).


Infelizmente, em 1956, a
Hammer ainda não contava com os astros
Peter Cushing e
Christopher Lee, parceiros habituais nos grandes sucessos da produtora. Em “
Terror que Mata”, o elenco, praticamente desconhecido, passa despercebido, quando não apático. Poderíamos destacar o ator Richard Wordsworth interpretando o astronauta sobrevivente Victor Carroon. Embora pronuncie apenas uma frase durante todo o filme (
“- Help me...”), seu aspecto maltrapilho e catéctico torna o personagem realmente assustador.
A Trilha sonora composta pelo colaborador freqüente da
Hammer, James Bernard, é muito mal aproveitada. A composição principal é forte e carregada de suspense, mas fica em evidência apenas nos créditos iniciais e finais.


O roteiro, de Nigel Kneale, reserva poucas surpresas e desenvolve mal o personagem Quatermass, já que pouco sabemos dele. Agora, como entender um filme com tantas limitações tornar-se um sucesso internacional e um inquestionável clássico do gênero?
Para responder a questão anterior somos obrigados a retornar ao contexto histórico da época em que foi lançado “
Terror que Mata”. No ano de 1956, em plena corrida espacial, os Estados Unidos e a União Soviética disputavam quem seriam os pioneiros na exploração espacial. Os russos sairiam na frente, colocando em órbita o primeiro satélite artificial da história, o
Sputnik 1, em 1957. Uma semana depois mandariam pro espaço a coitada da cadela Laika, no
Sputnik 2. Quatro anos depois, em 1961, a
“espaçonave” Vostok 1 colocaria o primeiro humano ao espaço, o russo Iuri Gagarin. Mas em 1969, os americanos deram o xeque-mate, enviando a nave
Apollo 11 até a Lua.


Mas o filme é anterior a todos estes acontecimentos e o imaginário popular era estimulado não só pelas possibilidades reais da exploração espacial, mas também pelos milhares de supostos avistamentos de OVNIS, sendo o episódio mais famoso o
Caso Roswell, de 1947. Aí estava a fórmula: novidades tecnológicas, viagens espaciais e invasões alienígenas. Daí para seres humanos virando vegetais era um passo. E o período foi extremamente fértil para o gênero chamado hoje de Sci-fi.
Quando a Ficção Científica e o Horror se encontram
Embora gêneros distintos, a ficção científica e o horror são partes de um gênero maior, chamado
Fantástico (tanto na literatura quanto no cinema). E ambos apresentam traços comuns, como explorar o desconhecido e o imaginário humano. Enquanto a ficção trabalha as possibilidades da ciência, o horror trabalha o medo e o psicológico do ser humano.




E a fusão entre os dois gêneros sempre rendeu obras interessantes, das quais muitas se tornaram verdadeiros clássicos. Os dois maiores exemplares atuais da junção entre sci-fi e o terror são as séries “
Alien” e “
Predador”, que juntas somam seis longas: "
Alien, o Oitavo Passageiro” (1979), "
Aliens, o Resgate” (1986), "
Alien 3" (1992), "
Alien, a Ressurreição" (1997), “
O Predador” (1987) e “
O Predador 2: A Caçada Continua” (1990); dois cross-overs: “
Alien vs Predador” (2004) e “
Alien vs Predador 2” (ainda inédito). Outra série contemporânea de relativo sucesso é “
A Experiência” (1995). Protagonizado pela bela Natasha Henstridge, a trama do longa, que rendeu ainda duas seqüências: “
A Experiência 2 - A Mutação” (1998) e “
A Experiência 3” (2004), narra a trajetória e a perseguição a um ser híbrido alienígena que escapa de um laboratório e deseja proliferar sua espécie, consequentemente eliminando a raça humana (tagline parecida com a de “
Terror que Mata”).

Mas foi mesmo entre as décadas de 50 e 70 que o cinema chamado B se alimentou da fórmula e consagrou diversos clássicos como: “
Vampiro de Almas” (1956), de Don Siegel, onde os seres humanos são substituídos por aliens saídos de vagens gigantes; “
O Monstro do Ártico” (The Thing from Another World, 1951), de Howard Hawks, refilmado por
John Carpenter trinta anos depois como “
Enigma de Outro Mundo” ou “
A Mosca da Cabeça Branca” (The Fly, 1958), cujo remake foi dirigido por David Cronemberg em 1986. Além de divertidas e nostálgicas, são obras de valor histórico que influenciaram diretamente produções mais modernas, mas que infelizmente permanecem inéditas ou não tiveram edições à altura no Brasil.
João Pires Neto