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Antes de começar este artigo, quero levar o leitor a uma breve reflexão: o que é um filme trash? Entre conceitos mais elaborados do tipo, filmes de baixo orçamento com mulheres seminuas, situações absurdas, humor (proposital ou não), violência explicita, reaproveitamento de cenários e elenco repleto de amadorismo... Eu criei para mim uma definição mais simples: são filmes feitos com dinheiro de menos e criatividade de mais.
Levando isso em consideração, há um filme que sintetiza tudo o que um trash deve ser. Nascido no ano de 1985 da cabeça perturbada de um produtor chamado Lloyd Kaufman e sua pequena produtora chamada Troma, O VINGADOR TOXICO é a prova de fogo para qualquer um que queira conferir um trash oitentista genuíno: Se assistir e não gargalhar, muito provavelmente |
não vai gostar de nenhum outro. Caso contrário seja feliz, pois em todos os mais de 20 anos desde o lançamento desta obra, poucas produções conseguiram equalizar as dificuldades e ser tão definitivas como este filme.


Aos leitores que porventura leram a biografia de
Lloyd Kaufman aqui no Boca não se admirem se os próximos parágrafos tenham um sinistro aspecto de Deja Vu: é tão grande a dificuldade de separar a história da produção
THE TOXIC AVENGER à história da própria
Troma e conseqüentemente de seu mentor, estando tão intimamente ligadas que até gerou um livro:
"All I Need to Know about Filmmaking I Learned from the Toxic Avenger", a autobiografia de
Lloyd Kaufman, de 1998.
Em 1984, o gênero terror estava morto... Pelo menos é o que clamava a conceituada publicação
Variety em um artigo publicado na época. Michael Herz e
Lloyd Kaufman, fundadores da produtora independente
Troma, não concordavam em absoluto, pois, apesar de ter uma preferência na distribuição de comédias com sexo, já haviam distribuído um terror com um certo sucesso,
Blood Sucking Freaks (1976).

Lloyd Kaufman leu o artigo enquanto estava no festival de
Cannes, tomou-o como um desafio e, com a ajuda do escritor Joe Ritter, desenvolveu uma idéia adormecida desde 1975 quando trabalhava como supervisor de pré-produção no set do filme
ROCKY: um massacre em um clube. Então, com os títulos provisórios de
"Health Club" e futuramente
"Health Club Massacre", a história tomou forma adquirindo aspectos mais politicamente incorretos e uma dose cavalar de humor negro. Lloyd pegou 500 mil dólares de orçamento, dividiu a direção com o amigo e sócio Michael Herz e esta maluca versão gore de
HULK virou um cult instantâneo.
Nosso herói acima de qualquer suspeita chama-se Melvin Junko (Mark Torgl) e é um bocó completo; ele é um faxineiro metade nerd e metade retardado que trabalha na limpeza do
Clube de Saúde de Tromaville - ou uma academia, falando mais apropriadamente - e, como todo nerd de filme, é zoado sistematicamente pelos fortões e drogados do recinto, mas especialmente por uma gangue de devassos liderados pelo estereotipado Bozo (Gary Schneider, que participou de outro
"crássico" da
Troma,
Class of Nuke 'Em High).


Os delinqüentes não são apenas meros arruaceiros, são também responsáveis por uma série violenta de atropelamentos que assola
Tromaville: toda a noite Bozo e sua namorada Julie (Cindy Manion), junto com o casal Slug (Robert Prichard) e Wanda (Jennifer Prichard, que como o sobrenome acusa é casada de verdade com Robert) saem com seu carro envenenado procurando por vitimas incautas. O sangue frio destes vilões é demonstrado quando escolhem uma inocente criança passeando com sua bicicletinha na rua. Não obstante a violência do impacto Bozo ainda passa com as rodas em cima da cabeça do menino, ou seja, são odiáveis filhos da puta.
Por algumas situações constrangedoras causadas involuntariamente pelo próprio Melvin, Bozo pega uma raiva violenta contra o jovem e assim resolve pregar uma peça final: Julie finge estar atraída por Melvin e o força a vestir uma roupa de bailarina com a desculpa de ser um fetiche pela cor rosa - e o faxineiro cai como um patinho.
Ao mesmo tempo, um motorista e um ajudante totalmente chapados de cocaína transportam uma carga de lixo tóxico que será despejado em
Tromaville. Tudo nos conformes - apesar dos tonéis estarem destampados e desprotegidos ao ar livre - eles resolvem parar em frente do clube para dar uma boa cafungada, se é que vocês me entendem.


Em meio a essa série de eventos desafortunados, Melvin é defenestrado do segundo andar e cai de fantasia e tudo dentro de um dos tonéis. Uma pequena multidão fica em volta do rapaz, enquanto o mesmo agoniza de dor e derrete aos poucos; mesmo assim Melvin ainda tem forças para chegar em casa e tentar tomar um banho e tirar toda aquela sujeira, mas já é tarde demais. Aos poucos, Melvin vai se tornando uma aberração sem que sua mãe desconfie de alguma coisa.
Uma pequena pausa para falar sobre
Tromaville: basicamente se trata de uma cidade imersa em corrupção (talvez inspirada em Brasília), o obeso prefeito Belgoody (Pat Ryan de
STREET TRASH e faleceu em 1991 devido a um ataque cardíaco) faz vista grossa com relação ao caos e a violência na cidade, principalmente para desviar o foco das atenções, pois as grandes corporações pretendem fazer de
Tromaville o lixão radioativo da América. Tudo obviamente com a anuência da polícia - capitaneada pelo comandante neo-nazista Himmel (David N. Weiss, que futuramente seria mais bem sucedido como o roteirista de filmes como
SHREK 2 e
RUGRATS EM PARIS) - e quem tenta ser honesto ou é corrompido por generosos subornos ou é espancado sumariamente.
Isso quase acontece com o incorruptível oficial O'Clancy - que não aceita os caprichos da máfia e quer apenas limpar as ruas dos bandidos -, quando durante uma ronda encontra o traficante Cigar Face (Dan Snow, que também fez todas as continuações do filme) - em uma óbvia alusão ao grande
SCARFACE, de Brian de Palma - e sua gangue, que querem fazer um acerto de contas com o policial. Quando tudo parecia perdido, eis que um deformado ser emerge da escuridão com um esfregão e espanca rudemente os bandidos, nascendo assim a lenda do
Vingador Toxico (agora interpretado por Mitch Cohen), que a partir daí se torna o principal defensor dos fracos e oprimidos de
Tromaville.


Porém nosso monstro tem sentimentos (mesmo porque ainda é virgem) - e é, em um momento de aperto, que ele encontra o amor: ao impedir um violento assalto a uma lanchonete - de maneira igualmente violenta - Melvin salva do estupro uma linda garota chamada Sara (Andree Maranda), ela é cega e teve seu cão guia morto com um tiro de espingarda pelos bandidos, contudo teve sua vingança nas mãos do herói. Mesmo sem conseguir enxergar a aparência de seu salvador, Sara se apaixona pelo real Melvin que ainda existe debaixo de seu rosto deformado e se muda com ele para um depósito isolado da civilização preconceituosa de
Tromaville, onde se supõe que possam viver tranqüilos.
O que significa paz para a população atrapalha os planos de Belgoody e confederados que perseguirão e tentarão desmoralizar de todas as formas possíveis. Conseguirá nosso herói evitar todas as intempéries de ser uma aberração e viver feliz com a doce Sara? O
vingador tóxico obterá êxito em limpar as ruas da temida gangue de Bozo?
Violência desenfreada sem um motivo justificável, nudez gratuita em cenas aleatórias, personagens exagerados... Através do filme de seu herói feioso, o diretor Kaufman parece nos dizer:
"Bem vindo ao mundo da Troma". E o diretor faz uma escolha excelente ao dar mais espaço para as situações e piadinhas isoladas com os personagens e costumes de
Tromaville do que para a história do vingador em si, pois neste roteiro não há muito que se contar e, fazendo diferente, o filme teria uns 30 minutos no máximo. Algumas situações são tão absurdas e engraçadas que, mesmo se eu pudesse descrever, perderiam muita graça se o fizesse.


Todavia sem sombra de dúvida a mais marcante das características é a total ausência de caráter dos vilões. Valorizados pela direção de Kaufman (quase todos os habitantes de
Tromaville estão alistados em alguma gangue), eles protagonizam cenas tão ofensivas que poderiam causar uma polêmica dos diabos caso se tratasse de uma produção mais séria. Para citar apenas duas passagens (além das que já foram detalhadas anteriormente) temos uma espingarda apontada para um bebê de colo durante um assalto a uma lanchonete e uma velhinha que é espancada com a própria muleta. Tudo auxiliado pelo elenco descolado e provavelmente se divertindo muito. E falando em elenco, quem tiver um olho mais clínico poderá ver pontas de futuros conhecidos como Patrick Kilpatric (de
A FORTALEZA,
O PORÃO e
SCANNER COP 2) e a ganhadora do Oscar Marisa Tomei (melhor atriz coadjuvante em 1993 por
MEU PRIMO VINNY)
Tanto a maquiagem quanto os efeitos são interessantes e convincentes: levando em consideração a época e o orçamento o trabalho da
Troma é invejável: entre desmembramentos, crânios esmagados e vísceras expostas, o sangue jorra sem pudor e ao mesmo tempo em que causam gargalhadas, podem também causar repulsa.


Como a grande maioria dos
guilty pleasures, os defeitos (considerando só os despropositais) são igualmente numerosos e a maioria residindo na re-utilização de cenas em flashbacks a exaustão, o que pode ser sinal de orçamento apertado para preencher o tempo de filme, mas analisando de forma mais abrangente não chega a comprometer a edição como um todo. Também poderia citar a escolha da trilha sonora - um amontoado de baladinhas manjadas e pop-farofa do final dos anos 80 - que a despeito de adequadas à proposta do filme, ficaram datadas e não deve agradar a todos os ouvidos.
THE TOXIC AVENGER não foi um sucesso imediato porque a produtora não pode fazer uma campanha de marketing adequada devido a falta de recursos financeiros, porém, impulsionado pelo boca-a-boca após as primeiras exibições e em insistentes sessões da meia-noite nos cinemas de Nova York, foi angariando fãs e conseqüentemente mercado na vindoura explosão das locadoras de VHS.
O VINGADOR TÓXICO chegou a ser lançado no Brasil neste período pela extinta
Central Home Vídeo (com a exagerada frase de rodapé
"O Extremo da Loucura Americana"), sendo este o único filme de
Lloyd Kaufman a ser lançado por aqui. Nos Estados Unidos, o espectador interessado pode encontrar a versão completa com porrilhões de extras, como alias em 90% dos DVD's da
Troma, ao contrário de certas distribuidoras nacionais.


O reconhecimento fez com que Toxie (nome
"carinhoso" dado ao monstro) retornasse alguns anos depois em dois filmes de menor impacto e até um pouco desapontadores:
The Toxic Avenger Part II e
The Toxic Avenger Part III: The Last Temptation of Toxie, de 1989, que foram rodados com a intenção de ser uma só produção, porém com o excesso de material filmado foi editado como dois filmes (uma coisa semelhante que Quentin Tarantino faria futuramente com
KILL BILL). Em 2000 foi lançado sua quarta aventura e a última até o momento,
Citizen Toxie: The Toxic Avenger IV.
Contudo Toxie não ficou limitado a franquia cinemática e se tornou o Mickey Mouse da
Troma: Virou uma série de desenho infantil intitulada
Toxic Crusaders, que foi licenciada para virar game. Onze edições de um gibi foram publicadas pela
Marvel Comics entre abril de 1991 e fevereiro de 1992, o roteiro também virou um livro lançado em maio de 2006 chamado
"The Toxic Avenger: The Novel", que gerou um musical,
"Toxic Avenger: The Musikill", isso para não falar de toda a série de produtos e memorabilia que fez do mutante um filão bem lucrativo.

Voltando ao filme original,
O VINGADOR TOXICO, como praticamente todo cult independente, é um
"ame-o" ou
"odeie-o" - embora eu particularmente ache difícil de alguém ser tão mal humorado para detestar um filme tão divertido como esse - porém de qualquer maneira em um aspecto positivo é impossível ficar indiferente. Em um mundo justo todos deveriam ter a oportunidade de assistir a filmes assim, se você tiver esta chance não a desperdice.
CURIOSIDADES
- Para os e-mulantes de plantão: o filme possui duas versões, a censurada de 87 minutos e a
director's cut de 110 minutos. Não perca seu tempo procurando pela versão mais curta;


- A cabeça da criança que é esmagada debaixo das rodas do carro de Bozo foi feita com um melão enchido com corantes e outras coisas para dar
"consistência". O resultado é um efeito barato que ficou muito realista;
- Patrick Kilpatrick ficou revoltado após a cena em que ele teve que apontar uma espingarda para um bebê de colo e desistiu do filme. Curioso que nem a mãe da criança ficou transtornada com a cena;
- Mark Torgl (o ator que interpretou Melvin) se queimou de verdade durante a filmagem em que um policial tem suas mãos incendiadas pelo lixo tóxico;
- Mitch Cohen levava quatro horas para ficar pronto no traje de
Vingador Tóxico;


- As cenas em que aparece o caminhão que carrega o lixo tóxico foram filmados sem permissão das autoridades. Assim alguns motoristas preocupados com a maneira hedionda que os barris eram transportados ligaram para a polícia acreditando que se tratava de um fato real e causou transtorno para os produtores;
- Não se impressione com o fato de nenhum dos personagens se referir ao herói como
"Toxic Avenger". Este título foi dado após o filme estar finalizado e por sugestão de um distribuidor internacional que disse que produções com títulos chamativos e palavras fortes vendem mais.
Gabriel Paixão
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O VINGADOR TÓXICO (The Toxic Avenger, EUA, 1986). Duração: 110 minutos.
Direção: Michael Herz; Lloyd Kaufman
Roteiro: Lloyd Kaufman; Joe Ritter
Produção: Michael Herz; Lloyd Kaufman; Stuart Strutin
Produção Executiva: Joseph Solomito
Fotografia: Lloyd Kaufman; James A. Lebovitz
Música: Charlie Clouser
Edição: Richard W. Haines
Direção de Arte: Alexandra Mazur; Barry Shapir
Maquiagem: Jennifer Aspinall; Ralph Cordero; Tom Lauten
Elenco: Andree Maranda (Sara); Mitch Cohen (Toxic Avenger); Jennifer Prichard (Wanda); Cindy Manion (Julie); Robert Prichard (Slug); Gary Schneider (Bozo); Pat Ryan (Prefeito Belgoody); Mark Torgl (Melvin Junko); Dick Martinsen (O'Clancy); Chris Liano (Walter Harris); David N. Weiss (Chefe de Polícia Himmel); Dan Snow (Cigar Face); Doug Isbecque (Knuckles); Charles Lee Jr. (Nipples); Patrick Kilpatrick (Leroy); Larry Sulton (Frank); Michael Russo (Rico); Norma Pratt (Sra. Haskell); Andrew Craig (Fred); Ryan Sexton (Johnny); Sarabel Levinson (Mãe do Melvin); Al Pia (Tom Wrightson); Reuben Guss (Dr. Snodburger); Barbara Gurskey (Barbie); Donna Winter; Mary Ellen David; Dennis Souder; Joe Zarro; William Christopher Weiss; Donald O'Toole; Marisa Tomei
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