TUBARÃO

por Luiz Henrique Oliveira

Quem de nós, que tenha mais de vinte anos de idade, nunca se deparou com uma chamada na TV dizendo "Tubarão: uma obra de suspense dirigida por Steven Spielberg!"? E, vendo a reação de meus sobrinhos a essa chamada, há um tempo atrás, eu vi que ela não causa mais tanta comoção como antes, quando as lendas sobre tubarões corriam soltas e o filme era considerado um dos melhores suspenses já produzidos. Mesmo que haja controvérsias sobre isso.



O ano de 1974 foi produtivo no que diz respeito a filmes de suspense/terror. O gênero estava em seu auge, e o talvez clássico-maior do cinema de terror havia estourado: William Friedkin havia feito "O Exorcista". No meio disso tudo, um jovem diretor estava lutando para fazer aquele que também se tornaria um marco não só no gênero, mas no cinema como um todo: uma adaptação da obra de Peter Benchley, um livro chamado "Jaws" e que foi escrito sob encomenda. Algum tempo depois, este diretor se tornaria referência no mundo todo. E hoje o conhecemos como Steven Spielberg.

"Tubarão" conta a história de uma cidade qualquer no litoral dos Estados Unidos, que de repente se vê de pernas para o ar com os ataques de um imenso tubarão branco em suas águas. E, para tentar capturá-lo, unem-se três homens distintos: Hooper (Richard Dreyfuss), um oceanógrafo arrogante; Brody (Roy Scheider), o chefe de polícia local e Quint (Robert Shaw), um caçador de tubarões. Juntos, eles precisam localizar o tubarão e capturá-lo antes que ele volte a atacar, para terror dos banhistas.



O filme tem uma premissa aparentemente simples, mas nas mãos de uma boa equipe se tornou uma história acima da média. Para a platéia da época (e boa parte da platéia atual), um simples ataque de tubarão não seria capaz de assustar ou aterrorizar ninguém. Acontece que, com um roteiro bem trabalhado por Carl Gottlieb, e a produção austera e precisa de David Brown e Richard Zanuck e, claro, na brilhante direção de Spielberg, a película é uma das mais consagradas no gênero suspense até os dias de hoje, sendo cultuada mundialmente.

Mas as coisas não foram fáceis para a equipe de produção. A realização do longa teve vários problemas, inclusive com o tubarão – que era feito com uma complicada engrenagem mecânica e quase sempre falhava na hora das filmagens, entre outros problemas técnicos. Mas, ao se ver o resultado, não se nota em nenhum momento essas dificuldades. Pelo contrário.



Devo destacar também o desenho de produção, que ficou a cargo de Joe Alves, que trabalhou novamente com Steven em "Contatos Imediatos de Terceiro Grau"; seu trabalho é exemplar, em especial com o tubarão, já citado neste texto como sendo 'o problema maior da equipe', mas muito bem desenhado e construído. Um destaque maior teve John Williams, célebre autor de trilhas sonoras e que compôs o score de "Tubarão": o tema principal está entre uma das mais lembradas pelo público, e em partes, foi a responsável pelo clima aterrorizante que o filme carrega.



No que diz respeito ao filme em si, imagino tudo como uma orquestra bem afinada: todos os elementos estão rigorosamente afiados em seus papéis, da produção à atuação – e foi essa junção a responsável pelo frisson que essa obra causou. Falando nos atores, o trio principal está impecável: o medo do mar e, visivelmente, do tubarão que o chefe Brody tem está muito bem caracterizado por Roy Scheider, que trabalhou também em uma das três seqüências (todas abaixo do esperado) que o filme teve; foi com este trabalho que Richard Dreyfuss iniciou uma dobradinha com o diretor, já que ele também foi o ator principal de "Contatos Imediatos...", e seu papel no filme é o que traz detalhes técnicos que auxiliam o público a entender mais sobre a oceanografia; e por fim, Robert Shaw, que hoje é um ator praticamente esquecido, teve um dos papéis de sua vida ao interpretar Quint, o valente e corajoso caçador de tubarões. Mas, quem rouba a cena é mesmo o impiedoso tubarão. Na cena inicial, uma banhista entra à noite nas águas e é atacada pelo tubarão. Ninguém o vê, apenas os gritos desesperados dessa mulher podem ser ouvidos e seu corpo sendo literalmente jogado de um lado para outro até ser arrastado de vez para baixo d' água pode ser visto pela audiência. Uma cena bela e assustadora ao mesmo tempo, espetacularmente concebida, pois traz o medo do desconhecido, dos perigos que uma pessoa pode correr no mar, do terror que os tubarões podem causar. Quando o animal se revela ante as câmeras, é uma imagem inesperada numa cena aparentemente corriqueira. Causou espanto em 1975, quando o filme foi lançado, e ainda causa. Associe todas essas imagens à assustadora trilha composta por John Williams e pronto: temos um clássico.



A impressão que tenho ao assistir "Tubarão" é uma coisa mista: certo medo, pois nunca fui de gostar de praia e nisso o filme ajudou, e muito; certo receio, pois nunca gostei de chegar perto de qualquer animal que possa me arrancar pedaços; e por fim, apreensão: o filme tem uma atmosfera claustrofóbica apesar da aparente tranqüilidade da cidadezinha onde ele se passa. Tudo obra das lentes de um diretor brilhante que então despontava para o sucesso, tornando-se ícone do cinema no mundo todo. Antes de ser um pop star, Steven Spielberg era um diretor despretensioso e ousado, características que foram desaparecendo de seus filmes ao longo dos anos. E, com "Tubarão", provou que pode dirigir obras de suspense com muita competência. Tanto que até hoje é considerado uma obra-prima, que levou mais de 13 milhões de brasileiros aos cinemas, um recorde difícil de ser batido.

Foi com esse trabalho que Spielberg começou a ser, de fato, notado no meio artístico. Recebeu quatro indicações ao Oscar, vencendo três: Melhor Edição (Verna Fields), Melhor Som (Robert L. Hoyt, Roger Heman, Earl Madery e John Carter) e Melhor Trilha Sonora (John Williams) – perdendo apenas o prêmio de Melhor Filme, vencido naquele ano pelo filme de Milos Forman, "Um Estranho no Ninho", tendo também o reconhecimento mais importante: foi uma das maiores bilheterias em quase todos os países por onde passou, amedrontando platéias nos mais diferentes países. Uma prova da longevidade do filme é que, quando do lançamento no formato digital, foi um dos mais vendidos nos Estados Unidos. Fatos como estes mostram que, apesar dos anos, o filme não envelheceu.

E, para todos os efeitos, "Tubarão" é, realmente, um filme maravilhoso, por conseguir alcançar seu objetivo: fazer com que quem o assiste tenha um frio na espinha, um arrepio assim que escutam a palavra tubarão. A primeira coisa que vêm à cabeça é aquela música, a trilha simples, mas avassaladora; depois, a lembrança de cenas do filme, do terror do ataque, do desespero, dos gritos de horror, do medo e, por fim, do silêncio que chega depois do ataque mortal. Aquele silêncio que paralisa a platéia, que a faz pensar duas vezes antes de encarar uma onda, ir mais pro fundo quando está nadando no mar. É aquela reação que se tem ao se imaginar num ataque semelhante. É o silêncio cauteloso de quem agora sabe o horror que as profundezas do mar podem, de fato, causar.



CURIOSIDADES

- O intérprete original do personagem Quint era Sterling Hayden, que não pôde ficar com o papel devido a problemas com o fisco americano, que ficaria com todo o cachê recebido como pagamento por sua participação em Tubarão.

- Na cena, logo no início do filme, em que é atacada por um tubarão, Susan Backlinie estava presa a correntes e mergulhadores a puxavam para baixo, para dar a exata impressão de que um tubarão a estava atacando.

- O autor do livro que deu origem a Tubarão, Peter Benchley, tinha em mente um elenco bem diferente para o filme, composto por Robert Redford, Paul Newman e Steve McQueen.

- Nesse filme Steven Spielberg começou sua parceria com Richard Dreyfuss, que seria re-editada pouco tempo depois no filme "Contatos Imediatos do Terceiro Grau".

- Tubarão levou aos cinemas brasileiros mais de 13 milhões de pessoas, ocupando, até o momento, a 2ª posição no ranking das maiores bilheterias do país.
[Fonte das Curiosidades: AdoroCinema]

Luiz Henrique Oliveira


TUBARÃO (Jaws, EUA, 1975). 124 minutos
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Peter Benchley e Carl Gottlieb, baseado em livro de Peter Benchley
Produção: David Brown e Richard D. Zanuck
Fotografia: Bill Butler
Música: John Williams Edição: Verna Fields
Desenho de Produção: Joe Alves
Maquiagem: Verne Caruso e Del Armstrong
Efeitos Especiais: Robert A. Mattey; Kevin Pike; Roy Arbogast; Richard S. Edwards; Richard Stutsman; Eddie Surkin
Elenco: Roy Scheider (Chefe de Polícia Martin Brody); Robert Shaw (Quint); Richard Dreyfuss (Matt Hooper); Lorraine Gary (Ellen Brody); Murray Hamilton (Prefeito Larry Vaughn); Carl Gottlieb (Ben Meadows); Jeffrey Kramer (Deputado Leonard 'Lenny' Hendricks); Susan Backlinie (Christine 'Chrissie' Watkins); Jonathan Filley (Tom Cassidy); Ted Grossman; Chris Rebello (Michael Brody); Jay Mello (Sean Brody); Lee Fierro (Sra.Kintner); Jeffrey Voorhees (Alex Kintner); Craig Kingsbury (Ben Gardner)

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