VILA, A

por Renato Rosatti

Em 03/09/04 entrou em cartaz nos cinemas brasileiros mais um filme dirigido pelo indiano M. Night Shyamalan, "A Vila" (The Village), dando sequência à conhecida e famosa série de produções com temática fantástica feita pelo cineasta como "O Sexto Sentido" (99), sobre fantasmas e o "menino que via pessoas mortas", "Corpo Fechado" (2000), uma história diferente sobre quadrinhos e super-heróis, e "Sinais" (2002), sobre invasão alienígena e questionamento da fé religiosa. Seus filmes normalmente tem um grande apelo popular, com números significativos de bilheteria e elencos com atores famosos como Bruce Willis, Samuel L. Jackson e Mel Gibson, porém sua filmografia tem dividido bastante a opinião dos críticos, através de impressões bem opostas.



Como fã e apreciador do cinema fantástico, eu particularmente gostei de todos os seus filmes, os quais possuem uma interessante inclinação para a exploração de situações de suspense, mistério, horror e ficção científica, tendo como característica comum em todos eles a apresentação de um final surpresa. No caso de "A Vila" não foi diferente, com o cineasta também produzindo e escrevendo o roteiro, contando uma história atraente com momentos sutis de horror sugerido, mostrando um pequeno vilarejo em 1897 (informação obtida graças a uma inscrição na lápide de um túmulo logo no início do filme), localizado no interior de uma floresta imensa, e longe de qualquer cidade. As pessoas vivem isoladas do mundo externo, mantidas organizadas como uma sociedade disciplinada através de um grupo de dirigentes liderados por Edward Walker (William Hurt). Os mais jovens são ensinados na escola da comunidade rural a temer uma raça de criaturas lendárias carnívoras que vivem ocultas na floresta que cerca toda a vila, chamados por eles de "Aqueles de Quem Não Falamos", existindo um acordo histórico entre ambas as partes para não haver invasão de seus respectivos domínios.

Porém, quando morre o filho pequeno de um dos dirigentes, August Nicholson (Brendan Gleeson, de "Extermínio"), devido à falta de cuidados médicos, um jovem inconformado chamado Lucius Hunt (Joaquin Phoenix, que também esteve em "Sinais") pede autorização para cruzar o limite da floresta e procurar por remédios na cidade, indo contra a vontade de sua mãe, Alice (Sigourney Weaver), e causando um clima de instabilidade na vila. E quando uma bela jovem cega, Ivy Walker (Bryce Dallas Howard, filha do diretor Ron Howard), decide atravessar a fronteira proibida da floresta também em busca de medicamentos para um amigo ferido num acidente envolvendo o deficiente mental Noah Percy (Adrien Brody), uma série de incríveis mistérios e segredos são revelados sobre as origens da vila e as temíveis criaturas que assombram a floresta.



"A Vila" é um filme com pouca ação e uma história mais voltada para a sugestão de um horror à espreita, com um grande elenco e repleto de mistérios e revelações que tentam surpreender a quem procura uma leve e despretensiosa diversão no cinema. Um dos fatos que mais dividiu as opiniões dos espectadores foi justamente a surpresa final, numa inteligente e oportuna crítica social que pode ser considerada decepcionante ou satisfatória dependendo da reação de cada um (no meu caso foi bem aceita), mas independente disso o filme apresenta uma história interessante e atrativa que merece ser enaltecida.

Entre as curiosidades, vale destacar que no início o filme iria se chamar "The Woods" (A Floresta), mas como o nome já pertencia a uma outra produtora, os realizadores mudaram o título para o definitivo "The Village", corretamente traduzido como "A Vila" no lançamento no Brasil, que aliás ocorreu pouco mais de um mês após a estréia americana em 30/07. As filmagens ocorreram em aproximadamente dois meses, com um orçamento de 60 milhões de dólares. Outro detalhe curioso foi a presença rápida do próprio diretor Shyamalan numa cena onde sua imagem pode ser vista discretamente refletida na porta de vidro de um armário de remédios.






O MISTÉRIO QUE SE ESCONDE NA VILA
Apenas para quem viu o filme!

Coletamos algumas dúvidas dos infernautas sobre o filme "A Vila" e vamos tentar responder nas linhas abaixo:

1) Por que o vermelho era uma cor temida pelas "criaturas"?
R: O vermelho, além de representar o pecado, é a cor do sangue, da violência. Assim os moradores da vila evitariam entrar em conflito e até mesmo se machucar. Para o diretor é uma forma de novamente utilizar a cor que foi amplamente usada no filme "O Sexto Sentido" como representação da presença constante da morte.

2) Quem estava matando os animais e pintando as portas?
R: Com a "assembléia" organizando o mito, fica evidente a participação de Noah nos atos ilícitos já que era o único que não participava mas conhecia as "regras". O personagem também demonstrava desafiar a vila entrando constantemente na floresta, agindo de forma violenta com os outros moradores. Na cena em que uma "criatura" quase pega Ivy, a jovem cega, Noah não se vestiu já que ele estava na casa. Provavelmente o pessoal da "assembléia" queria que o assassino de animais parasse de provocar a lenda - eles não sabiam que era Noah o responsável pelos atos.

3) Por que a cega corria pela vila e parecia enxergar normalmente as outras pessoas?
R: Ela nasceu cega, mas conseguia ver luzes e entender cores, as quais ela atribuia como auras. Como ela viveu a vida inteira na vila, a jovem conhece cada canto, buraco, elevação e casa da região (ora, qualquer cego é assim). Quando ela se afastou dos limites da vila e entrou na floresta, tudo era novo e exigia uma atenção maior da garota - como usar o tato para identificar as árvores e buracos.



4) Por que o pai de Ivy deixou a filha entrar na floresta ao invés dele mesmo ou outro morador com visão normal?
R: Primeiramente, o pai desejava que a lenda permanecesse viva. Ela provavelmente não "enxergaria" a realidade e sua inocência seria preservada. A intenção dele era que ela fosse com dois acompanhantes até a estrada de pedra e daí seguisse sozinha, mas os rapazes ficaram com medo das criaturas. O pai também sabia que os outros moradores imaginavam que as criaturas não fossem capazes de atacar pessoas inocentes (como Noah, por exemplo). Se ele fosse no lugar da filha, a lenda perderia crédito, já que qualquer um imaginaria ser capaz de atravessar os limites.
Ainda assim, ele entregou algumas moedas para que eles acreditassem estar segura diante do perigo. Quando os acompanhantes desistiram, ela jogou fora.

5) Por que os personagens de Hurt e Weaver, quando estavam sozinhos, falaram sobre a possibilidade do ataque às residências ser atribuído a coiotes? Ora, se estavam sozinhos poderiam conversar normalmente sobre a farsa, né?
R: Naquela cena, Weaver diz que as marcas eram muito altas para pertencerem a coiotes, logo, ela quer dizer que o responsável pelos atos só pode ser alguém da vila (disfarçado ou não). Em nenhum momento, ela atribui o ataque às criaturas lendárias, mas exclui a possibilidade de outros animais estarem ativos na região.

6) Parece que no final do filme há um erro de edição. A cena em que o pai revela à filha a farsa ocorre antes do ataque a Ivy na floresta. Se não há criatura, a cena perde um pouco de suspense. Houve erro mesmo?
R: Não. Quando o pai revela a farsa à filha, ele diz que a lenda não surgiu à toa, partiu de algumas lendas da região sobre possíveis criaturas no bosque. Na cena em que Ivy é perseguida a fala do pai é repetida para o espectador, deixando uma certa dúvida sobre a possibilidade dos monstros realmente existirem (ora, e se a lenda for verdadeira?). Ou será que você imaginava se tratar de uma pessoa disfarçada que perseguia a jovem?

7) Por que o pai pede que a garota encoste na roupa da criatura ao invés de falar diretamente a ela sobre farsa? Foi só para criar uma cena de suspense?
R: O pai queria que a filha descobrisse por conta própria a farsa e ao mesmo tempo perdesse o medo das criaturas. Assim, a jovem aprendeu sozinha, o que é uma lição muito melhor do que palavras....O diretor não costuma criar cenas de suspense gratuitas...



8) Quais as mensagens do filme?
R: O filme apresenta uma clara mensagem contra a violência urbana e o constante medo da população diante de ataques terroristas. Rodado na Pensylvania, há uma referência a Tom Ridge, o secretário de Segurança Interna do governo Bush e criador do sistema de cores que simboliza a situação de alerta dos EUA As cores variam do azul (tranquilidade) ao vermelho (pesadelo). A Vila seria os Estados Unidos; as criaturas seriam o restante do mundo; Lucius Hunt (aquele que caça a luz) é a ponte que une os dois universos sempre em conflito direto.
È interessante também notar que a única pessoa capaz de "enxergar" a realidade é uma pessoa cega e que age com o coração e e não com a razão em busca dos remédios (soluções) para seu amor (a fraca luz).


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Renato Rosatti

A VILA (The Village, Estados Unidos, 2004). Touchstone / Buena Vista, 110 minutos
Direção e Roteiro: M. Night Shyamalan
Produção: Sam Mercer, Scott Rudin e M. Night Shyamalan
Fotografia: Roger Deakins
Música: James Newton Howard
Edição: Christopher Tellefsen
Desenho de Produção: Tom Foden
Direção de Arte: Michael Manson e Chris Shriver
Elenco: Joaquin Phoenix (Lucius Hunt), William Hurt (Edward Walker), Sigourney Weaver (Alice Hunt), Bryce Dallas Howard (Ivy Walker), Adrien Brody (Noah Percy), Brendan Gleeson (August Nicholson), Cherry Jones (Sra. Clack), Celia Weston (Vivian Percy), John Christopher Jones (Robert Percy), Frank Collision (Victor), Jayne Atkinson (Tabitha Walker), Judy Greer (Kitty Walker), Fran Kranz (Christop Crane), Michael Pitt (Finton Coin), Jesse Eisenberg (Jamison).


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