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Ao lançar seu livro “O Código Da Vinci” em 2003, o escritor Dan Brown se viu envolto em uma rede de polêmicas. Seu livro tem início com um assassinato do curador do museu do Louvre, Jacques Saunière, que guarda um segredo importante. Bezu Fache, um incansável policial, chama Robert Langdon, um famoso professor de simbologia para analisar o corpo pois Saunière, antes de morrer, deixou pistas no Louvre e em si mesmo. Ao perceber que ia ser preso injustamente, Langdon é salvo pela criptóloga francesa Sophie Neveu e tem início uma grande escapada para provar a inocência de Langdon e descobrir o porquê do assassinato de Saunière e qual o misterioso segredo que ele guardava. |
Falando assim bem por alto, nem dá pra entender como o livro gerou tanta polêmica, afinal trata-se de praticamente um Sidney Sheldon da vida e derivados. A diferença é que Dan Brown lançou vários questionamentos no livro que iam de armações da Igreja até o a falsa divindade de Jesus Cristo. Claro que sempre tem aqueles fundamentalistas religiosos que acusaram o livro de ser uma blasfêmia e pintaram Dan Brown como o Anticristo. Exageros à parte, o livro “O Código Da Vinci” é muito bom, apesar de Dan Brown não ser o que podemos chamar de escritor excepcional, mas ele consegue dar luz à uma trama envolvente e bem sacada que não faz você largar o livro até terminá-lo. O problema é que muitas pessoas não viram o livro de Dan Brown como entretenimento e sim como uma trama policial recheada de fatos supostamente reais, onde ele discute teorias polêmicas sobre a divindade de Jesus Cristo ser uma farsa, seu casamento com Maria Madalena dando origem a seus descendentes entre muitas outras coisas.


Depois de tanta polêmica (o que alavancou as vendas consideravelmente), era mais do que compreensível que o livro virasse um filme. A estréia foi dia 19 de maio de 2006 e uma semana antes resolvi finalmente ler o livro que devorei em 10 horas. Virei fã instantâneo da obra de Dan Brown, mas meu sonho de ver uma adaptação à altura se foi quando fui pesquisar sobre quem estava envolvido no projeto. O diretor Ron Howard até que dava pra engolir, mas o roteirista….Um tal de Akiva Goldsman pelo qual nutro um profundo asco (sim, agora é opinião pessoal mesmo). Dias antes do filme estrear eu previ: será uma bomba.
“
O Código Da Vinci” é uma aula de Cinema. No caso de como se destruir uma adaptação literária em duas horas! O interessante é notar que o filme ultrapassou a barreira de adaptação para simplesmente desvirtuar várias situações do livro. O filme começa exatamente como no livro com o assassinato de Saunière (Jean-Pierre Marielle) pelo albino Silas (Paul Bettany) dentro do Museu do Louvre, em Paris. Paralelo a isso está ocorrendo a palestra do professor Robert Langdon (Tom Hanks) sobre símbolos em diferentes culturas. Em certo momento ele é abordado pelo Tenente Collet (Etienne Chicot) que o mostra a foto do curador do Louvre, Jacques Saunière, morto. Atordoado pela visão de uma pessoa a quem era admirador, Langdon concorda em ajudar na investigação pois ao que parece antes de morrer, Saunière conseguiu deixar pistas no museu do Louvre usando inclusive o próprio corpo! Ao chegar no Louvre, Langdon é apresentado ao capitão Bezu Fache (Jean Reno), com cara de poucos amigos. Lá nota que Saunière deixou várias pistas usando o sangue de seu corpo e uma caneta especial que revela mensagens quando iluminada com luz negra. Após lançar várias teorias eles recebem a visita da criptóloga Sophie Neveu (Audrey Tatou), que discretamente avisa Langdon que este está correndo perigo pois Fache quer incriminá-lo mesmo Langdon sendo inocente. A partir daí inicia-se uma corrida contra o tempo, com Langdon e Sophie fugindo de Fache e ao mesmo tempo tentando descobrir os segredos deixados por Saunière. Já viram aquele filme com o Nicolas Cage chamado
“A Lenda do Tesouro Perdido”, onde ele e um grupo de pessoas querem encontrar um tesouro e para isso procuram pistas nas notas de dólares, na proclamação da Independência e em diversos lugares? Bem, o filme do “
Código da Vinci” é quase a mesma coisa, só que não é emocionante e nem tem nem um pingo de suspense como o filme com Nicolas Cage!


O diretor Ron Howard (
Uma Mente Brilhante) não é de todo ruim, mas conseguiu a façanha de escalar pra roteirizar o livro a anta chamada Akiva Goldsman, simplesmente o responsável pela bomba
Batman & Robin. Talvez ele seja um dos piores roteiristas atualmente. Abusa de fórmulas gastas, é esquemático e seus personagens são unidimensionais. Sem contar que ele quer ser artista já que na faixa de comentários do filme
Constantine (por pouco ele não roteirizou, graças a Deus!) onde ele é um dos produtores, se achava praticamente
“o cara” fazendo piadinhas sem graça a todo momento. Ai de nós que teremos que agüentar a nova versão do livro de Richard Matheson
“I am Legend” (que já foi adaptado para o Cinema como “
Mortos que Matam” e “
A Última Esperança da Terra”) roteirizada por esse incapaz.
Não que se precise de alguém talentosíssimo para adaptar um livro como “
O Código Da Vinci”, já que a obra não tem nada de mais. Dan Brown não é um escritor excepcional mas consegue te manter ligado na história e com vontade de terminar o livro logo para saber que fim levam os personagens, e isso é um grande mérito. O marketing todo em cima do livro (exagerado, confesso) foi mais provocado por religiosos fanáticos que conseguiram enxergar tudo na obra, desde pacto com o demônio a heresia, só não viram mesmo que se tratava de uma obra de ficção. O livro no fundo não passa de um Sidney Sheldon ou Agatha Christie com uma trama religiosa - e quando digo isso não falo de modo pejorativo.
O grande problema do roteiro de “
O Código da Vinci” é que ele não somente adapta e sim tem a ousadia de desvirtuar um monte de coisas do livro e sinceramente não sei como Dan Brown conseguiu aprovar isso - no mínimo a grana falou mais alto. O roteirista ainda cria piadinhas estilo
“Zorra Total” ou
“A Praça é Nossa” a todo momento, muitas delas saem da boca de um Tom Hanks insosso. O engraçado é que o roteirista se esqueceu que no livro Langdon não tem lá um senso de humor muito aflorado e o alívio cômico fica por conta de Sir Teabing - um historiador amigo de Langdon que em certa parte da trama passa a fugir com eles e a ajudar na solução dos mistérios - que por sua vez não diz lá suas piadas, mesmo com Ian McKellen dando um show (talvez o único ator que salva o filme). Tom Hanks como Langdon não oferece nenhum atrativo, já Audrey Tatou como Sophie Neveu se limita a ser a mocinha burrinha que sempre faz perguntas (diferente do livro onde é bastante inteligente, contrariando ironicamente a mensagem original do livro de adoração ao feminino); e um de meus atores preferidos, Jean Reno, está apagadíssimo parecendo que foi obrigado a atuar e não passa o nervosismo nem a determinação de Bezu Fache. Quando eu estava lendo o livro imaginei como Fache outro ator excelente, Tchéky Karyo, que, em
“O Beijo do Dragão”, mostrou como se deve perseguir um fugitivo. No entanto foi uma surpresa imensa ver o veterano Jurgen Prochnow (que apareceu em “
À Beira da Loucura” e na bomba “
House of the Dead”, além de vários filmes de horror) como André Vernet, o presidente da filial do banco de Zurique em Paris. Outro que rouba a cena é Paul Bettany como Silas, o albino homicida e fanático religioso pertencente à Opus Dei (uma prelazia do Vaticano que existe mesmo no mundo real). Silas a todo momento se auto flagela com uma cinta de cilício (uma cinta com ganchos que cravam na pele) e um chicote. As suas cenas de auto-flagelação com certeza arrancarão gemidos de nervoso da platéia.


O diretor Howard, apesar de não ser um diretor digamos
‘autoral’, consegue criar belas cenas usando os mesmos truques digitais já vislumbrados em
“Uma Mente Brilhante”, mas nada que passe disso. Também são incluídos alguns flashbacks históricos só que alguns deles não dizem nada, só estão ali pra enfeitar e dar um pouco de ação à uma história com muitos diálogos. No fim das contas, pra quem leu o livro, o filme soará extremamente covarde e preconceituoso. Pra quem não leu, é capaz até que goste, mas fato é de que polêmico o filme não tem nada. Como eu já ouvi dizerem:
“se não tem colhões pra fazer, não faça!”. Espero que daqui a alguns anos surja uma refilmagem por mãos mais capazes.
OS PROBLEMAS DO CÓDIGO
As diferenças gritantes entre o livro e o filme
A adaptação cinematográfica de “
O Código Da Vinci” não se contentou em simplesmente adaptar, e fez questão de desvirtuar totalmente a mensagem e fatos do livro, transformando o filme em algo covarde e preconceituoso. Vejam alguns exemplos:
ATENÇÃO: OS FATOS A SEGUIR CONTÉM SPOILERS E CONTAM REVELAÇÕES IMPORTANTES DO LIVRO E DOS FILMES, LEIA POR SUA CONTA EM RISCO
- O simbologista Robert Langdon praticamente virou um coroinha defensor da Igreja católica. Em sua conversa com Teabing na mansão discorda ferozmente do historiador quase chegando às vias de fato quanto a tal divindade de Jesus é questionada, ao passo que no livro, Langdon raramente discorda dele. Isso gerará uma coisa perigosa. Já que Langdon é o
"herói" e Teabing é revelado o
"vilão" no fim, o filme passa a dar a idéia de que as teorias defendidas por Teabing não passam de delírios de um velho louco e psicótico!
- O curador do Louvre, Sauniére ainda por cima é tratado como não sendo avô de Sophie e um homem violentíssimo em certos momentos.. e ainda a tal explicação do Hiero Gamos (a cerimônia sexual pagã, que tinha objetivos mais nobres do que o simples orgasmo) a qual Sophie presenciou NUNCA é explicada no filme, DANDO a entender pra quem não viu o livro, que Sauniére não passava de um velho tarado, e paganismo fica relacionado à simples suruba!
E o que dizer da promessa de relacionamento amoroso entre Langdon e Sophie? No filme dá a entender que eles nunca ficarão juntos pois Hollywood, COVARDE que só ela, deu a entender que Sophie por ter sangue de Jesus, do nada virou uma
"semi-santa" que só por ter tal sangue, não pode se relacionar carnalmente. E ainda fez questão de sugerir que ela tinha poderes curativos por causa disso!
Bruno C. Martino
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O CÓDIGO DA VINCI (The Da Vinci Code , Hong Kong, 2006). 149 minutos
Direção: Ron Howard
Roteiro: Akiva Goldsman, baseado em livro de Dan Brown
Produção: John Calley e Brian Grazer
Música: Hans Zimmer
Fotografia: Salvatore Totino
Desenho de Produção: Allan Cameron
Direção de Arte: Giles Masters e Tony Reading
Figurino: Daniel Orlandi
Edição: Daniel P. Hanley e Mike Hill
Elenco: Tom Hanks (Robert Langdon); Audrey Tautou (Sophie Neveu); Ian McKellen (Sir Leigh Teabing); Alfred Molina (Bispo Aringarosa); Jürgen Prochnow (André Vernet); Paul Bettany (Silas); Jean Reno (Bezu Fache); Etienne Chicot (Tenente Collet); Jean-Pierre Marielle (Jacques Sauniere); Clive Carter (Inspetor-chefe); Seth Gabel (Michael); Marie-Françoise Audollet (Irmã Sandrine); David Bark-Jones (Richard); Jean-Yves Berteloot (Remy); Daisy Doidge-Hill (Sophie Neveu - 8 anos); Paul Herbert (Pai de Sophie - jovem); Peter Pedrero (Pai de Silas - jovem)
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