O VINGADOR INVISÍVEL
Agatha Christie, Suspense e Leveza

Orivaldo Leme Biagi


Dez pessoas reunidas numa ilha, sem poder sair, sendo mortas uma à uma de acordo com a ordem de uma velha história infantil em versos, por uma assassino desconhecido... e, para piorar as coisas, o assassino é uma destas 10 pessoas! Eis o argumento básico de uma das mais conhecidas obras de Agatha Christie, O Caso dos Dez Negrinhos (Ten Little Indians), lançada em 1939. Muitos filmes foram realizados baseados neste livro, mas praticamente nenhuma superou a primeira versão, realizada em 1945, com o infeliz título brasileiro (lembrando mais o famoso seriado radiofônico) O Vingador Invisível ( And Then There Were None no original, significando E Então Não Havia Ninguém). A responsabilidade de adaptar o livro para as telas foi do cineasta francês René Clair (1898-1981) e do roteirista Dudley Nichols (1895-1960).



Nichols trabalhara com o diretor John Ford nos clássicos O Delator (The Informer, 1935) e No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939), mostrando um estilo refinado, enxuto e sensível de apresentar as situações e a personalidade dos personagens. Clair surgiu em Hollywood no meio de uma verdadeira migração de diretores franceses provocada pela vitória dos nazistas na França e de sua tomada de Paris, em 1940. Clair, especialista em comédias leves, disputava com o genial diretor Jean Renoir a excelência da produção cinematográfica francesa da época, sendo que Nichols trabalhou primeiro com Renoir nos clássicos O Segredo do Pântano (Swamp Water, 1941) e Essa Terra é Minha (This Land is Mine, 1943), unindo-se a Clair nos seus últimos cinco filmes realizados nos Estados Unidos.
Depois de trabalharem conjuntamente em O Tempo é uma Ilusão (It Happened Tomorrow, 1943), ambos repetiram a parceria na obra de Agatha Christie cujos direitos o diretor havia adquirido. As dificuldades foram imensas, como podemos perceber nas palavras de Clair, em depoimento a Anne Head:

"Quando você lê uma história de mistério, acredita nela integralmente. Mas quando a adapta para o cinema, que é mais lógico que um romance, você descobre discrepâncias... certas partes precisam ser reconstruídas."

Alterações foram realizadas para adaptar certas seqüências à lógica cinematográfica, mas sem alterar a essência do livro: dez pessoas desconhecidas entre si são misteriosamente reunidas numa isolada ilha inglesa a convite de um certo casal, os U. N. Owen (acrônimo imperfeito para "unknown", desconhecido em inglês), sendo que cada uma delas carregava uma morte mal explicada no passado. Os anfitriões não se apresentaram, mas um fonógrafo com a voz do pretenso senhor Owen acusa um a um de crimes impunes. A vingança destes crimes começa com a morte de cada um segundo os versos da cantiga de ninar sobre dez indiozinhos. Qual deles seria o assassino?
O livro de Agatha Christie mistura suspense e terror como poucas das suas obras ousaram fazer. À medida que os personagens vão sendo mortos, os sobreviventes vão passando um verdadeiro martírio de dúvidas e medos, com o clima ficando cada vez mais carregado, com cada um desconfiando mais do outro. Clair e Nichols resolveram dar um tom mais leve na história, deixando os diálogos ao mínimo indispensável para o andamento da trama, valorizando os recursos visuais para ressaltar culpa, suspense e pavor dos personagens. Inclusive os personagens Vera Claythorne e Philip Lombard tiveram um relacionamento mais desenvolvido do que em relação ao livro, criando uma identificação imediata (e romântica) com o público.



O estilo de comédias leves de Clair e o roteiro dinâmico de Nichols diminuíram o clima macabro da obra original, mas agilizaram a história deixando-a agradável ao público, que tinha trabalho de descobrir o enigma - que é justamente uma das características básicas do livro de Agatha Christie. Com excelente uso de humor e da ótima trilha sonora de Mario Castelnuovo-Tedesco, além das perfeitas gags visuais (uma das marcas registradas do diretor), o filme acabou se tornando um dos mais eficazes e simpáticos suspenses de todos os tempos. Um dos diálogos do filme, proferidos pela convidada miss Brent, demonstra sua leveza: "Foi muito estúpido matar o único criado da casa. Agora não sabemos nem onde encontrar a geléia".
Para compor esta peça de humor negro o elenco foi genial, destacando-se Barry Fitzgerald (que atuara em O Bom Pastor), Walter Huston (pai do diretor John Huston e ganhador do Oscar de ator coadjuvante no clássico O Tesouro de Sierra Madre) e Judith Anderson (famosa por ser a governanta sinistra do clássico Rebecca, de Alfred Hitchcock).
Sua última exibição no Brasil foi realizada pela TV Cultura na década de 80, com cópia dublada. Fãs do suspense e da inteligência cinematográfica precisam ver ou ver esta deliciosa obra.


VINGADOR INVISÍVEL, O (And Then There Were None, EUA, 1945). 97 minutos. Preto & Branco
Direção: René Clair
Roteiro: Dudley Nichols (a partir do romance O Caso dos Dez Negrinhos, de Agatha Christie).
Produção: René Clair; Harry M. Popkin
Música: Mario Castelnuovo-Tedesco
Fotografia: Lucien N. Andriot
Edição: Harvey Manger
Figurino: René Hubert
Direção de Arte: Ernst Fegté
Decoração de SET: Edward G. Boyle
Elenco: Barry Fitzgerald (Juiz Francis J. Quinncannon), Walter Huston (Dr. Edward G. Armstrong), Judith Anderson (Emily Brent), Louis Hayward (Charles Morley/Philip Lombard), Roland Young (Detetive William Henry Blore), Richard Haydn (Thomas Rogers), June Duprez (Vera Claythorne), C. Aubrey Smith (General Sir John Mandrake), Mischa Auer (Nikita 'Nikki' Starloff)


Artigo escrito e pesquisado por Orivaldo Leme Biagi, tendo sido publicado originalmente no fanzine "Juvenatrix", editado por Renato Rosatti.

Orivaldo Leme Biagi, Doutor em História pela UNICAMP, Professor da FAAT e Membro da Academia Literária Atibaiense (ALA).