 |
A bela e jovem Ting desde pequena sonhava em alcançar o sucesso como atriz. Mas o máximo que conseguia eram pequenas participações em platéias de programas de auditório. Certo dia, Ting e um amigo conversavam numa mesa de um bar. Na televisão estava passando um programa no qual a garota aparece alguns segundos. Ting tenta convencer o cético amigo que sabe atuar. Numa mesa ao lado, um tenente da polícia ouve a conversa e oferece à garota uma oportunidade de emprego: atuar como vítima na reconstituição de um crime. A princípio, ela não aceita. Mas quando vê na primeira página de um jornal a reconstituição de um assassinato, percebe que esta pode ser a sua chance de ficar famosa.
Ting consegue impressionar aos policiais e aos jornalistas, já na sua primeira reconstituição. |
O realismo com que representa o sofrimento da vitima sendo esfaqueada é tão grande que o próprio assassino acaba se entregando. Rapidamente Ting torna-se uma celebridade no meio policial. Entretanto, o que nem a jovem atriz percebe é que os espíritos das verdadeiras vítimas estão ao seu lado durante as reconstituições, que se tornam uma “reprise” dos verdadeiros crimes.
Mas sua grande oportunidade surge com um caso de repercussão internacional: o desaparecimento de Meen, a ex-Miss Tailândia. Embora a polícia não tenha encontrado o corpo, as evidências apontam o ex-marido como assassino. Ting se apresenta como voluntária, mas a corporação prefere que uma de suas oficiais represente a vítima. No entanto, na noite anterior à reconstituição, a policial que se passaria por Meen sofre um ataque cardíaco. A partir deste momento, acontecimentos inexplicáveis levam Ting até a cena do crime e ao confronto final com o verdadeiro assassino da ex-Miss Tailândia.


(O parágrafo abaixo contém SPOILERS)
Esta é a sinopse dos primeiros quarenta minutos. A situação se resolve, o assassino é punido e o espectador se pergunta, vai acabar já? Durante o que podemos chamar de
“primeiro” clímax, quando Ting está tet-a-tet com o grande vilão, ouvimos um
“CORTA!”. E atordoados descobrimos que na verdade Ting está num set de filmagens, atuando numa produção sobre a vida e o assassinato da ex-miss. Um filme dentro do filme. Ambicioso, não? E começa então uma nova trama, quase independente dos acontecimentos narrados na primeira metade do filme. Nesta segunda história, a equipe técnica e os atores que trabalham na produção do filme sobre a miss são atormentados por misteriosas aparições.
Como houve uma certa simpatia entre este que vos escreve e a produção em questão, vou ignorar as inevitáveis referências
“cabeludas” aos grandes clássicos do cinema de horror oriental, “
Ju-on” e “
Ringu”. Falando em inevitabilidades, assim como a produção japonesa de filmes de terror ficou conhecida como
J-Horror, a coreana de
K-Horror, a crescente produção de filmes do gênero na Tailândia acabou sendo chamada de
T-Horror.

“
A Vítima” foi rodado na Tailândia em 2006. O leitor mais antenado sabe que não é o primeiro terror produzido no país. “
Espíritos – A Morte está ao seu Lado” foi a grande sensação entre os fãs do gênero nos anos de 2004/2005. Outros títulos de menor destaque surgiram nos anos seguintes, como por exemplo: “
Espíritos 2 – Você Nunca Está Sozinho” (Alone, 2007),
“Dorm, O Espírito” (Dorm, 2006), “
A Arte do Demônio” (Art of Devil, 2005), “
Atormentados” (Ghost of Mae Nak, 2005) e o inédito e insano
“13 Beloved” (2007).
Ousado, complexo e ambicioso, “
A Vítima” pode parecer um pouco confuso em seu desfecho. Para isto há uma solução infalível: o controle remoto. Depois de assistir novamente o final, a compreensão da segunda metade da trama pode (e deve) ficar bem mais clara. Para o espectador acostumado ao cinema pasteurizado americano, a cultura religiosa tailandesa presente no filme e as nuances do idioma tailandês que se perdem no processo de tradução das legendas podem aumentar mais um pouco a sensação de estranheza em determinadas seqüências.


Existe ainda um detalhe um tanto mórbido quanto as locações de “
A Vítima”. O filme foi rodado em cenários onde realmente aconteceram assassinatos. Não que isso faça muita diferença para nós, brasileiros. Mas os orientais, de modo geral e tailandeses neste caso específico, são extremamente espiritualizados. Não são apenas religiosos, eles realmente acreditam em espíritos e fantasmas. Daí o grande sucesso por lá dos filmes cuja temática muitas vezes se resume em fantasma-em-busca-de-vingança.
O filme foi dirigido por Monthon Arayangkoon, que traz em seu currículo, além de “
A Vítima”, o mediano e obscuro suspense
“Garuda – A Criatura Assassina” (Paksa wayu, 2004), sobre um ser alado que desperta das escavações de um metrô, e o horror inédito por aqui
“The House” (Baan phii sing, 2007), que tem no enredo uma curiosidade semelhante com um detalhe de “
A Vítima”: uma casa onde foram cometidos assassinatos na vida real. O elenco, encabeçado pela bela (e desconhecida) Pitchanart Sakakor, traz ainda Penpak Sirikul interpretando Fai, a amante da ex-Miss (sim, por lá também existe amor entre duas garotas). Anteriormente ela interpretou a personagem Maggie no ótimo (e já citado)
“13 Beloved”. A enxuta trilha sonora praticamente se resume a ruídos e batidas, que em alguns momentos soam um tanto irritantes.
Uma outra deficiência de “A Vítima” são os fracos efeitos especiais. Na segunda metade do filme, a artificialidade e o excesso de efeitos acabam atenuando um pouco o suspense. É o velho defeito de “mostrar muito”. O filme também não é indicado para aqueles que procuram filmes violentos ou com muito sangue. A violência é contida, e o horror está presente apenas na presença dos espíritos. Uma outra seqüência desnecessária é a “homenagem” a “passada de mão” coletiva do remake americano “Pulse”.
“A Vítima” foi lançado no Brasil pela distribuidora Platina Filmes, que tem em seu catálogo os ótimos longas do renomado cineasta Chan-wook Park, “Mr. Vingança” e “Lady Vingança”. No disco, como extras apenas biografias, trailers de lançamentos e comentário dos atores (não em áudio, mas em formato de texto).  | |
Enfim, não se engane com a capinha horrível ou a falta de originalidade do título (“
A Vítima” parece mais nome de novela da Globo). Aliás, o título adotado internacionalmente também não é lá muito criativo:
“Spirit of the Victim” (algo como
“Espírito da Vítima”). Não que “
A Vítima” seja uma obra-prima, na verdade está longe disso. Mas se encaixa sossegado na categoria
“não é tão ruim assim”.
Para comentar o texto e entrar em contato com João Pires Neto:
 |
A VÍTIMA (Phii khon pen,Tailândia, 2006).
Direção: Monthon Arayangkoon
Roteiro: Monthon Arayangkoon
Produção: Paiboon Pupraduk.
Música: Patai Poungchneen.
Figurino: Worathon Kritsanaklin.
Elenco: Pitchanart Sakakorn (Ting), Apasiri Nitibhon (Meen), Penpak Sirikul (Fai) e Chokchai Charoensuk (Dr. Charun).
Distribuição: Em DVD pela Platina Filmes.
|