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Ao contrário da nova geração atual, tive a sorte de ter passado minha juventude na época de ouro do videocassete no Brasil, os anos 80. Nesta época, distribuidoras de todos os tamnhos (e qualidades) enchiam as videolocadoras com todo tipo de filme, dos melhores aos piores. E, quando em memória retorno a esta época, lembro que A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS foi um dos filmes que eu mais vi na infância, lado a lado com FUGA DE NOVA YORK e EVIL DEAD. Antes de conseguir um segundo videocassete para poder piratear meus filmes preferidos (veja só como as coisas eram difíceis naquele tempo...), e muito antes de poder comprar a fita original e depois o DVD importado, eu costumava pegá-lo a cada dois meses na locadora da minha cidade. Revi tantas vezes que decorei cenas, rostos, personagens e frases inteiras (“Vazar? Nunca! Isso é material feito pelo exército!”, é uma das minhas preferidas). E como sempre acontece quando a gente gosta MUITO de um filme, é inevitável ficar decepcionado com as continuações. |
Principalmente quando elas são muito inferiores ao original, um triste destino no caso das seqüências do meu amado A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS. Com isso, é hora de analisar o terceiro filme da série, atualmente no seu QUINTO capítulo (mas eu parei de ver no terceiro).
Embora melhorzinho que o pavoroso e horroroso (no mau sentido) segundo capítulo, A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS 3 ainda está anos-luz distante de ser bom, ainda mais em comparação à perfeição que é o original. Sem a participação dos produtores do primeiro filme, esta seqüência foi dirigida em 1993 por Brian Yuzna. O próprio Yuzna, vale ressaltar, havia assinado A NOIVA DO REANIMATOR, continuação fraca de um outro filmaço de zumbis (REANIMATOR). E a trama dos dois filmes (A VOLTA 3 e A NOIVA...) é muito parecida, envolvendo um rapaz apaixonado que tenta trazer sua amada de volta dos mortos.


Com uma abordagem mais centrada e
“romântica”, o roteiro de John Penney para este terceiro filme podia seguir o original de maneira interessante. Infelizmente, após um início bastante promissor, a história se perde numa ridícula e interminável perseguição, onde são apresentados personagens idiotas cuja única finalidade na trama é se transformar em zumbis. Para piorar, como é comum nas seqüências com outra equipe técnica envolvida, a história não respeita a mitologia do original, com diversos furos em relação ao já clássico
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS.
A pobreza da produção (custou 2 milhões de dólares, contra os 4 milhões do original) fica evidente desde as primeiras cenas, quando um ultrasecreto laboratório do exército é representado na forma de corredores acinzentados que parecem sobra do cenário da nave espacial de algum filme de quinta categoria. Ali, uma equipe de cientistas liderados pelo coronel John Reynolds (Kent McCord) realiza experiências de reanimação de cadáveres com uma substância velha conhecida nossa, a
2-3-5 Trioxina, mesmo gás que ressuscitou os mortos no filme original.


Nestas cenas iniciais - que, ressalto, são a melhor parte do filme -, fica evidente a tentativa de manter certa fidelidade ao roteiro de
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS. Inclusive somos apresentados ao coronel Peck (James T. Callahan), que teria trabalhado no desenvolvimento da Trioxina e conta a mesma história narrada por Frank (James Karen) no filme original de 1985: que o gás foi criado para destruir plantações de maconha, até que, em 1969, vazou e ressuscitou os cadáveres num hospital; como o exército não encontrou uma forma de destruir os zumbis, eles foram simplesmente aprisionados em enormes tambores metálicos, como visto nos dois primeiros filmes - e neste terceiro, ao que parece, os militares finalmente recuperaram os tais tambores extraviados...
Reynolds pretende provar que a Trioxina pode ser utilizada como arma de guerra - algo compreensível no mundo do cinema de horror, onde até pythons de 30 metros já foram desenvolvidas como provável arma de guerra... O milico criou um composto que, quando injetado no cérebro, adormece os zumbis na hora - como se fosse um botão liga-desliga -, permitindo aparentemente controlar os pedaços de carne morta. Numa demonstração ao coronel Peck e à tenente-coronel Sinclair (Sarah Douglas, vilã de
SUPERMAN 2), três cientistas com roupa anti-contaminação trazem de volta à vida um cadáver amarrado e amordaçado, utilizando o gás retirado de um daqueles tambores onde os zumbis de 1969 foram aprisionados. Em seguida, os cientistas conseguem fazer o morto-vivo adormecer disparando um tiro com a fórmula criada por Reynolds direto na testa do monstrengo. Sucesso, hein?
"As guerras nunca mais serão as mesmas!", comemora o coronel Peck. Sei lá, mas não consigo imaginar soldados zumbis no Iraque...


Só que a dose do tal composto não foi suficiente, e o zumbi logo
“acorda”. Descontrolado, abre o crânio de um dos cientistas e parte para cima dos outros, até ser desacordado por um segundo tiro no meio das guampas. Quando tudo parece controlado, eis que o primeiro homem que havia sido atacado pelo zumbi, e que estava morto quieto num cantinho, também ressuscita e ataca os outros dois ex-colegas. Sem ter o que fazer, Reynolds ordena que o laboratório seja trancado para não espalhar o contágio e, horas depois, perde o comando devido ao fracasso da experiência. No seu lugar, assume a tenente-coronel Sinclair, que tem um projeto de criar biosoldados a partir de zumbis presos a bizarras armaduras metálicas - e se o projeto anterior já era ridículo, esse então é o ó do borogodó!
Por esta introdução, o espectador já tem uma idéia do que esperar do restante do filme. Bem, vamos começar analisando as incongruências da trama em relação ao original. Primeiro, em
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS a zumbificação não era transmitida pela saliva ou pela mordida dos mortos-vivos, como acontece neste terceiro filme, mas apenas pela contaminação com a própria Trioxina, seja diretamente em forma de gás ou através da chuva contaminada (a prova disso é que dois punks que foram mortos pelos zumbis, mas não estavam na chuva, nunca ressuscitaram no filme de Dan O’Bannon, o que alguns desavisados consideram furo do roteiro). Segundo, os mortos-vivos do original não tinham sinais vitais. Lembra quando os paramédicos dizem a Frank e Freddy que não encontraram sinal de pulsação e batimentos cardíacos neles, e que tecnicamente ambos estariam mortos? Pois é: pois neste
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS 3, quando o cadáver é ressuscitado durante a experiência, a primeira evidência disso é que seus batimentos cardíacos começam a aparecer num monitor de freqüência cardíaca, embora ele esteja completamente morto - e, logo, seu coração não deveria nem deveria estar funcionando!


Mas o mais incrível de tudo é que a experiência ultra-secreta está sendo realizada num laboratório ultra-secreto do exército, e mesmo assim dois jovens patetas que não têm nada a ver com a base militar assistem tudo de camarote. Eles são Curt (J. Trevor Edmond) e Julie (a gostosíssima Mindy Clarke), sendo que o rapaz é filho do comandante e a moça é sua namorada gótica e esquisita, fascinada pela idéia da morte. Por algum misterioso motivo, Julie achou que seria divertido invadir o laboratório onde trabalha o sogrão.
Assim, mesmo correndo o risco de ambos serem presos, ou fuzilados por sentinelas, ela força o namorado a roubar o crachá do comandante, para que ambos possam ter acesso ao local. Incrível, ainda, que ambos consigam não só entrar na base, mas também no laboratório, com a maior facilidade, já que não há qualquer segurança no local - e os produtores tentaram contornar a falta de orçamento com uma conversa entre os militares, dizendo que estão trabalhando em condições improvisadas devido a cortes no orçamento, mas a desculpa não cola! Bem, não bastasse entrar na base, entrar no laboratório e ficar zanzando por lá sem problemas, o casal ainda consegue encontrar um duto de ventilação que milagrosamente dá visão privilegiada de toda a experiência de reanimação do cadáver que está sendo realizada no laboratório. Assim é fácil, não?


Depois que toda a situação caótica de ataque de zumbis na base é finalmente controlada, Curt e Julie transam na casa do rapaz, mas a garota não consegue tirar aquela experiência da cabeça. É quando o coronel aparece para avisar o filho que ele foi afastado do projeto e que ambos terão que se mudar em uma semana. Curt, claro, fica puto, já que faz seis meses desde a última mudança e ele já terá que deixar para trás sua amada e todos os amigos que fez na cidade. E o rapaz resolve que é muito mais fácil brigar com seu pai e fugir de moto com Julie. No caminho, ambos juram fidelidade com frases como
“Ficaremos juntos para sempre” e
"Nunca vou deixar que você se vá", que, claro, são uma forma de alertar o espectador que um dos dois logo vai morrer...
Quando uma brincadeira idiota faz com que Curt perca o controle da moto, ele sai da estrada, atinge um poste e Julie morre na hora, ao quebrar o pescoço. O namorado fica desconsolado, mas só por uns três segundos – ele logo vê o cartão magnético que roubou do pai (e por algum misterioso motivo ainda leva junto em sua fuga), e resolve usar a Trioxina para reviver a amada.


E é neste momento que você percebe que o tal laboratório ultra-secreto e a própria base militar onde ele está situado são coordenados por completos INCOMPETENTES: Curt não só consegue invadir o local novamente sem ser importunado, como desta vez ainda leva a NAMORADA MORTA com ele, primeiro na garupa da moto, depois nas próprias costas!!! E não é parado por nenhum soldado ou segurança no caminho até o laboratório!!! Pior: apesar de um teste fracassado que resultou na morte de alguns cientistas ter sido realizado no lugar apenas algumas horas antes, a sala não está trancafiada (mas pelo menos todo o sangue foi limpo...), e o tambor com o gás continua lá, dando sopa, bem como uma daquelas roupas anti-contaminação, que Curt usa para se vestir!!! Com uma segurança e organização assim, fico admirado que não tenha acontecido merda muito antes naquela base!!!
Curt então arrebenta o tambor para libertar o gás que ressuscitará a finada Julie, mas, no processo, liberta o zumbi que estava aprisionado no recipiente. E é um daqueles completamente deformados, estilo o Tarman do
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS original, só que menos purulento e melequento - você percebe a quilômetros de distância que aquela maquiagem fuleira é puro látex, e nada mais. Após uma cena legal, em que a pele do rosto do tal zumbi se separa da cabeça, deixando apenas o crânio liso à mostra, Curt e Julie fogem do laboratório, e quem se fode com a burrada da dupla é um pobre soldado que deu o azar de passar por ali, e que é atacado pelo morto-vivo gosmento libertado do tambor. Sim, o cara não apareceu durante todo o tempo em que Curt estava andando pelos corredores carregando a namorada morta nas costas, mas em compensação deu as caras bem na hora que um morto-vivo sedento de miolos circulava por aí! Bem-feito pra ele!!!


Novamente, os dois jovens não têm qualquer dificuldade para sair da base, embora os alarmes estejam tocando, zumbis correndo para lá e para cá, e tudo mais. Julie custa a acreditar que morreu e foi trazida de volta à vida, mas reclama que está morrendo de fome. Por isso, Curt resolve parar numa lojinha de conveniência, uma daquelas bem clichê, com um coreano no balcão (Dana Lee) e uns mal-encarados (latinos, para manter o clichê) jogando fliperama. Eles são Santos (Mike Moroff, de
UM DRINK NO INFERNO), Mogo (Fabio Urena), Felipe (Sal Lopez) e Alicia (Pía Reyes, que foi coelhinha da Playboy). Detalhe: o jogo que eles disputam é
STREET FIGHTER 2, mas o sonoplasta trocou as bolas e meteu uns
"plins" e
"bloms" que não têm nada a ver com o jogo em questão, e pensou que ninguém iria perceber... Humpf!
Desesperada, sem saber que sua fome é por cérebros humanos, Julie ataca o setor de donuts da loja, enquanto Curt arruma encrenca justamente com os valentões jogadores de fliperama. Começa uma confusão generalizada, que resulta em Mogo mordido no braço pela garota-zumbi e no dono da mercearia tomando um balaço na barriga, disparado por Santos. Os mexicanos marginais fogem prometendo vingança e, com a polícia prestes a pintar por ali, Curt e Julie pegam a van do coreano baleado para levá-lo ao hospital. Mas a van é perseguida pela polícia, que acredita estar atrás de assaltantes perigosos. E, durante a fuga, os policiais manés ainda dão um tiro bem no meio das guampas do pobre dono da mercearia, que cai na parte traseira da van sem metade da cabeça. Julie, claro, aproveita para fazer um lanchinho, alimentando-se dos miolos da vítima, espalhados pelo piso do veículo. Enojado, Curt pára a van e xinga a namorada. Como a polícia se aproxima, eles escapam pelo sistema de esgoto - porque sempre tem uma tampa de bueiro no meio da rua bem no lugar onde os personagens cinematográficos param, e sempre é fácil erguer estas normalmente pesadas tampas...


A partir deste ponto, a imbecilidade do filme segue em escala progressiva: apesar do dono da mercearia ter morrido com um tiro nos cornos, nunca ter sido contaminado com a Trioxina e nem ao menos levado uma mordida de Julie (ela apenas recolheu os miolos do cara que estavam espalhados no chão, nem tocou no cara!), o sujeito inexplicavelmente se transforma num zumbi tosco, sem metade da cabeça, que sai da van atacando os policiais com um pé-de-cabra. Numa cena até legalzinha, ele enterra o ferro (opa, sem malícia!) no olho de um dos homens da lei e arrebenta a sua cabeça para poder comer o cérebro como se fosse um aperitivo qualquer, enquanto o outro tenta inutilmente descarregar seu revólver contra o zumbi. Felizmente, surge um pelotão de operações especiais do exército, liderado por Reynolds (lembra dele?), para aprisionar os zumbis e conter a contaminação. Resta, agora, aprisionar Curt e Julie, que se mandaram pelos esgotos.


E no momento em que o filme vai literalmente para o esgoto (ou para o brejo?), qualquer possibilidade de dar uma direção criativa para
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS 3 se esvai bueiro abaixo, junto com o casal de protagonistas. O roteiro tinha mil-e-uma possibilidades a seguir, como enfocar as dificuldades da relação de Curt com sua namorada morta. Aliás, torna-se necessário dizer que Yuzna não foi macho suficiente para filmar uma cena de
"pseudo-necrofilia", com o rapaz e a zumbi transando. Julie descobre que sentir dor elimina o desejo irresistível de comer miolos (já que seu cérebro está
"pifando" e ela vai, progressivamente, se transformando numa zumbi irracional e agressiva). Por isso, a moça começa a se automutilar, cortando a pele com ferros, pedaços de vidro e outros tipos de sucata, até virar uma figura bizarra coberta de vidro e metal. Infelizmente, também, o roteiro nunca dá o enfoque devido à situação: será que Curt realmente pensa que pode levar uma vida normal ao lado da namorada-zumbi? Como ele vai alimentá-la? O que ele vai fazer quando a garota começar a se decompor?
Enfim, há uma porrada de questões interessantíssimas que nem ao menos são cogitadas pelo rapaz, pois o roteiro se preocupa mais em mostrar o casal fugindo dos marginais mexicanos pela tubulação de esgoto. Sim, você lembra daqueles quatro caras do fliperama? Pois eles começam a perseguir a dupla querendo se vingar de Julie por ter mordido o braço de Cholo. Acontece que o cara ficou mal, com a pele amarelada, os olhos saltados das órbitas, enfim, aqueles sintomas típicos de quem está para virar zumbi. Numa análise fantástica, digna dos melhores médicos, Santos olha para Cholo e diz:
"Ela te passou uma doença das brabas, cara... Talvez a vadia tenha raiva!". Genial! Na próxima vez que eu ficar com pele amarelada e olhos saltados das órbitas, vou direto procurar o
"dr. Santos" para ter um diagnóstico confiável...


Enquanto isso, nos esgotos - e no auge da falta de imaginação -, Curt e Julie encontram um mendigo negro que vive ali, e que o roteiro nem se preocupa em batizar (chamando-o apenas de
"River Man", ou
"Homem do Rio"). O tal homem ajuda os dois apaixonados, levando-os até sua
"casa", onde eles tentam se defender do iminente ataque dos bandidos. Enquanto isso, na superfície, Reynolds e os militares continuam procurando por Curt e Julie.
O mínimo que se esperava de um filme da série
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS é o mesmo teor apocalíptico dos outros dois. Tanto no clássico primeiro episódio quanto na fraca segunda parte, por exemplo, a contaminação se espalha pela cidade e os heróis enfrentam hordas de mortos-vivos, alguns putrefatos e caindo aos pedaços. Até hoje, as cenas em que os personagens do original tentam se defender dos ataques dos cadáveres, barricados dentro da casa funerária, não me saem da cabeça. Nesta Parte 3, infelizmente, as já comentadas restrições orçamentárias não permitiram fazer um ataque apocalíptico de zumbis, muito menos de cadáveres apodrecidos. Assim, os poucos mortos-vivos em cena são pessoas contaminadas há pouco tempo, e que por isso nem têm tanta maquiagem. E como a contaminação nunca se espalha, sobram apenas Julie e mais dois ou três zumbis perambulando pelos esgotos. Yuzna até dá um jeito de estourar um cano com vapor quente na fuça dos mortos reanimados para que o vapor pelo menos deforme um pouco o rosto dos monstros, deixando-os mais assustadores do que apenas figurantes com o rosto pintado de branco.


Pelo menos os 20 minutos finais capricham um pouco no sangue, mostrando cenas de lábio arrancado, cabeça decepada pendurada pela espinha dorsal (à la
FOME ANIMAL) e até um zumbi tendo seus membros sistematicamente explodidos com uma espingarda. E Yuzna ainda tenta recriar uma cena do original, quando Curt e o Homem do Rio fazem uma barricada na porta da
"casa" do mendigo, onde tentam segurar os zumbis do lado de fora a golpes de pedaços de pau e marreta. Pouco, muito pouco para o que se espera de um filme chamado
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS 3, mas pelo menos sangrento o suficiente para manter a atenção do espectador, que a estas alturas já está quase caindo em sono profundo.


Se há um detalhe original em
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS 3, é o fato de que a história mostra poucos mortos-vivos sendo perseguidos por humanos. Em geral, como sabem os fãs de filmes de zumbis, estas produções costumam mostrar justamente o contrário: pequenos grupos de humanos obrigados a fugir de uma horda de mortos-vivos. Mas a trama fraquíssima fica muito aquém de suas possibilidades: Yuzna parece mais interessado em enfocar a automutilação de Julie do que a probabilidade do caso de amor de Curt e sua namorada zumbi acabar espalhando a praga dos mortos-vivos pela cidade inteira. E, numa falta de imaginação tremenda, a conclusão da história volta para onde tudo começou, o tal laboratório da base militar, com ainda menos segurança e vigilância do que no começo, por mais incrível que isso possa parecer!!!
O roteiro de John Penney, embora promissor em alguns detalhes (como ao explicar que os zumbis comem miolos para
"absorver a eletricidade dos neurônios"), logo se revela um verdadeiro atentado à inteligência do espectador. Não bastasse o fato de qualquer um poder entrar e sair da base militar e do laboratório do exército a qualquer hora, e de os zumbis escaparem e atacarem os soldados a todo momento (como é que ainda sobrou alguém lá se eles simplesmente não conseguem manter os mortos-vivos presos por algumas horas?), o roteiro ainda cria personagens cretinos apenas para transformá-los em zumbis minutos depois (tipo os bandidos chicanos e o
"Homem do Rio").


Entre outras idiotices, é preciso destacar ainda: por que Curt insiste em defender Julie dos zumbis, inclusive arriscando a própria pele, se ela é uma morta-viva e os outros zumbis não podem fazer qualquer mal a ela? E o que dizer de uma suposta morta-viva que respira ofegante, se engasga e quase se afoga, quando, pela lógica, NEM DEVERIA ESTAR RESPIRANDO??? Mais: como é que os quatro chicanos conseguem encontrar o casal escondido no esgoto em meio a quilômetros e quilômetros de túneis subterrâneos? GPS, talvez?
E o elenco também não ajuda em nada. A única que mais ou menos se salva é Melinda (Mindy) Clarke, mas mais pelos seus atributos físicos - e pela
"sensualidade mórbida" de sua zumbi mutilada - do que pelos dotes de interpretação, já que as caras e bocas que faz nos momentos dramáticos e/ou assustadores são de chorar. Tanto que a moça não conseguiu ir muito longe na sua curta carreira: ela depois apareceu peladinha e em cenas de sexo na seqüência picareta
UM TOQUE DE SEDUÇÃO 2 (1995) e fez uma das inimigas de Spawn no pavoroso
SPAWN - O SOLDADO DO INFERNO (1997), posteriormente desaparecendo direto para o elenco secundário de séries de TV. Mas sua morta-viva gostosona entrou para uma seleta galeria de
"pin-ups" zumbis do cinema de horror, composta ainda por Kathleen Kinmont (
A NOIVA DO REANIMATOR), Linnea Quigley (
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS) e Jennifer Baxter (a
"Número 9" de
TERRA DOS MORTOS).


Os outros
"atores" são ainda piores, com destaques para o galãzinho Edmond, que não consegue mudar as expressões do rosto para demonstrar sentimentos (ele fica feliz e triste com a mesma cara!), e para o ator que faz seu pai, repetindo linha por linha a cartilha
"como interpretar um militar norte-americano xarope". Outras
"interpretações" são até engraçadas, desde que o espectador assista no clima certo - repare nos olhos esbugalhados de Basil Wallace, o
"Riverman"!!!
A própria direção de Yuzna, acostumado a trabalhar com orçamentos paupérrimos, fica aquém do esperado. Este filme pertence à fase anterior aos seus trabalhos baratos na Espanha (quando ele abriu uma produtora e lançou bombas tipo
FAUST), e o cineasta até tinha certo renome na área, já que sua estréia como diretor foi no fantástico
A SOCIEDADE DOS AMIGOS DO DIABO, de 1989 (até hoje seu melhor trabalho). Infelizmente, Yuzna jogou sua carreira no lixo partindo para continuações mequetrefes de filmes que não eram dele, tipo
A NOIVA DO REANIMATOR, este
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS 3 e até
NATAL SANGRENTO 4!!! Embora tenha feito alguns filmes menores e mais interessantes (gosto muito de
O DENTISTA), o destino do coitado já estava traçado.


Já os efeitos sangrentos e maquiagens repulsivas, que são o que realmente importa numa tralha como esta, ficam entre o mediano e o interessante. Alguns zumbis, como o coreano com metade da cabeça faltando, são visivelmente bonecos inexpressivos; outros efeitos ficam prejudicados pela pobreza da película, como quando Julie arranca o lábio de Felipe e os dentes verdadeiros do ator aparecem por baixo da dentadura falsa utilizada para criar o efeito. Já a cabeça decepada de Santos é tão diferente do ator que devem ter pegado emprestada de um outro filme!


Se resta um consolo, é tudo sangue, látex e meleca, sem apelar para a famigerada CGI... Quem assina os efeitos é Steve Johnson, que começou sua carreira trabalhando na equipe do mestre Rick Baker - em filmes como
UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES e
VIDEODROME -, até fazer o próprio nome em tranqueiras tipo esta e
A NOITE DOS DEMÔNIOS 2. Hoje o sujeito deve estar faturando alto, já que ajudou a criar os cadáveres falsos para
A GUERRA DOS MUNDOS, de Spielberg, e as próteses do dr. Octopus em
HOMEM-ARANHA 2!


Ah sim: muito olho vivo na cena inicial, da experiência que dá errado, para identificar Brian Peck (que interpretou Scuz em
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS e vários zumbis em
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS 2), no papel de um dos técnicos do laboratório, e o cineasta Anthony Hickox (diretor de
A PASSAGEM e
HELLRAISER 3) como o
"dr. Hickox", o cientista que tem sua cabeça arrebentada quando o zumbi usado como cobaia consegue escapar. São duas participações especiais que tornam o filme mais divertido.
Enfim, esta é uma seqüência tosca e desrespeitosa de um grande clássico - e o nível parece que só caiu mais nas Partes 4 e 5, feitas recentemente. Confesso que antigamente até achava este terceiro filme divertido, mas revê-lo hoje, com um pouco mais de senso crítico, foi traumatizante. Se dependessem do cérebro dos envolvidos neste filme para se alimentar, os zumbis de
A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS 3 provavelmente morreriam uma segunda vez... DE FOME!
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A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS 3 (Return of the Living Dead III, EUA, 1993). Duração: 097 minutos
Direção: Brian Yuzna
Roteiro: John Penney
Produção: Gary Schmoeller; Brian Yuzna
Produção Executiva: Lawrence Steven Meyers
Fotografia: Gerry Lively
Música: Barry Goldberg
Maquiagem: Steve Johnson; Silvi Knight; Christopher Allen Nelson; Rodney Petreikis; Timothy Ralston
Efeitos Especiais: Trevor Alyn; Elaine Alexander; John Axford; Norman Cabrera; Jackie Caydam; Bill Corso
Edição: Christopher Roth
Elenco: Kent McCord (Coronel John Reynolds); James T. Callahan (Coronel Peck); Sarah Douglas (Tenente Sinclair); Melinda Clarke (Julie Walker); Abigail Lenz (Mindy); J. Trevor Edmond (Curt Reynolds); Jill Andre (Dr. Beers); Michael Decker; Billy Kane; Mike Moroff (Santos); Julian Scott Urena (Mogo); Pía Reyes (Alicia); Sal Lopez (Felipe); Dana Lee; Michael Deak; Michael Northern; Basil Wallace (Riverman); Joe Sikorra; David Wells; Clarence Epperson; Anthony Hickox (Dr. Hickox); Brian Peck; Christopher Landry; Gary Schmoeller
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