VÔO DA MORTE

por Gabriel Paixão

"I want these motherfucking zombies off the motherfucking plane!"


"Nada se cria, tudo se copia!", a grande máxima do apresentador Chacrinha, adaptada livremente de uma frase do cientista francês Antoine Lavoisier, foi formulada pensando na televisão, mas nunca foi tão atual e freqüente quanto no cinema. A falta de novas idéias e a gana por produções originais e realmente revolucionárias, salvo um ou outro destaque, faz com que fórmulas sejam reaproveitadas a exaustão, especialmente nas locadoras, criando grandes lotes de produções idênticas na essência e apenas diferente nos detalhes.

O VOO DA MORTE não é original, nem surpreendente, muito menos revolucionário. Embalado no sucesso de SERPENTES A BORDO, o diretor Scott Thomas resolveu fazer o mesmo, com mortos-vivos no lugar de cobras. PORÉM (e é importante enfatizar esta palavra), O VOO DA MORTE, tal qual seu parente famoso e mais abonado financeiramente, prima pela diversão rápida e violenta, sem se prender em um enredo pretensioso e complexo.
Nada mais para se preocupar a não ser relaxar e curtir, afinal basicamente é para isto que assistimos a filmes, não é?

Quando inicialmente era uma produção totalmente independente o título original seria PLANE DEAD, rasteiro e simples, mas depois que a gigante New Line Cinema (a mesma de SERPENTES A BORDO) assumiu a distribuição, sabe-se lá porque resolveram mudar para o florido e gigante FLIGHT OF THE LIVING DEAD: OUTBREAK ON A PLANE, entretanto imagino que já que a distribuidora é a mesma e a idéia também, poderiam despirocar de vez e colocar o nome de ZOMBIES ON A PLANE, hehehe...



Enfim, a história já começa dentro do avião: é mais uma viagem intercontinental comum se dirigindo para a França e temos três gostosíssi... digo, extremamente competentes comissárias de bordo que estão tranqüilas com a baixa lotação, apesar do temporal que se aproxima e não vêem a hora de chegar em Paris. São elas: Megan (Kristen Kerr), Stacy (Mieko Hillman) e Emily (Heidi Marnhout).

Dentro da cabine de comando o piloto Ray Bashore (Raymond J. Barry) e o co-piloto Randy (Todd Babcock) conversam sobre uma carga especial que estão transportando. Nenhum dos dois sabe exatamente o que transportam e na realidade nem querem saber, pois acreditam que se trata de algo governamental de última hora. O que desperta a curiosidade dos dois é a presença de um guarda armado no compartimento de carga e recomendações estranhas para o caso de alguma "anormalidade".

A tal "carga" vem dentro de um refrigerador (que mais parece um daqueles armários de arquivo) e seus donos são três doutores - Lucas Thorp (Dale Midkiff), Leo Bennett (Erick Avari) e Sebastian (Cliff Weissman). O que ninguém além deles sabe é que o que está dentro da geladeira é a esposa de Lucas, Kelly Thorp (Laura Cayouette), que serviu de cobaia para uma experiência fora do comum e que daqui a pouco voltaremos a falar dela.



Enquanto isso somos apresentados aos demais personagens que invariavelmente passarão por maus bocados nesta viagem: o detetive Truman Burrows (David Chisum), que está fazendo o transporte de um vigarista famoso chamado Frank Strathmore (Kevin J. O'Connor); o famoso jogador de golfe William "Long Shot" Freeman (Derek Webster) e a esposa mau humorada Anna (Siena Goines), que sairão de férias; os casais alienados Peter (Brian Kolodziej), Cara (Sarah Laine), Tony (Brian Ames) e Jackie (Ashley Bashioum), que gostam de dar uma "esticadinha" no banheiro, e por fim o malucão delegado de tráfego aéreo Paul Judd (Richard Tyson). Nossa quanta gente!

Voltando ao que interessa, o pentágono procura pelos doutores de qualquer maneira, pois eles conduzem experimentos clandestinos colocando a segurança nacional em risco. Então segurem a risada se puderem: eles encontraram um mosquito em uma região remota do Vietnã com uma variação do vírus da malária que pode regenerar tecidos mortos (hahahaha) e através de mutações conseguem agora fazer o semelhante com o corpo todo!

Agora que vocês sabem o que está naquela carga, como previsto, as coisas começam a dar errado com o avião obviamente entrando em turbulência, fazendo as bagagens caírem sobre o congelador e o guarda. O homem fica preso, a geladeira é avariada, algo sai dela, mas surpresa! Não é um zumbi! A doutora Kelly está viva, no entanto com fortes dores de cabeça.



A implacável fórmula aritmética "metralhadora + avião = péssima idéia" entra em evidência com o guarda detonando todo o sistema de comunicação, mas ainda assim acerta Kelly que aparentemente cai morta no chão e, claro, volta sedenta de sangue para o azar do rapaz.

Após o incidente, o capitão Ray manda Randy verificar a carga com Lucas e Sebastian, conforme recomendado, porém apenas Randy sai vivo de lá e relata seu desespero para o piloto. Paul entra em cena para solucionar o problema e após algumas investigações conclui a possibilidade de se tratar do prisioneiro Frank que escapou na última turbulência.

Paul chama o detetive Burrows para o compartimento de carga, mas, depois de um ataque dos dois mortos-vivos, a doutora sobe para a área dos passageiros. Sem comunicação, com uma tempestade a frente e restrições de pouso, o jogo está armado e os passageiros terão péssimos momentos neste vôo.



Scott Thomas começa devagar, ou melhor, beeeeeemmm devagar. O filme demora pra engrenar, alternando ação com marasmo, tanto que depois de uns 40 minutos cheguei até a olhar pra confirmar se era o filme certo, mas não se preocupe, é tudo por culpa da apresentação dos vários personagens secundários (se repararmos bem todos são secundários) da trama. Um mal necessário apesar de não ser nada muito profundo, porém o diretor não devia se ater demais para isto já que a maioria vai morrer mesmo.

Os zumbis são do tipo "ligeiro" e trazem uma maquiagem bem produzida, complementada com efeitos em CGI quase sempre nos pontos certos, sem poupar no sangue e algumas outras nojeiras, muito embora seja estranho os mortos-vivos se interessarem apenas pela jugular de suas vitimas, hehehe...

Agora sobre a construção do roteiro, sabe na escola quando existem grupos de trabalho em que alguns colocam o nome só pra ganhar nota? Acho que aconteceu o similar com Sidney Iwanter, Mark Onspaugh e o diretor Scott Thomas, porque não é cabível que TRÊS pessoas escreveram este fiapo de história, por mais divertida que seja. Pois apesar de haverem diversos personagens, eles não fazem nada além de coisas triviais (de uma maneira exagerada), além disso, uma explicação para a criação dos zumbis fica entre a comicidade e a ridicularidade (vírus de mosquito do norte do Vietnã?! Ah, faz favor...), embora tenha um início diferente, não justifica. Pelo menos não há nenhuma "revelação final" ou coisa do gênero, o que poderia colocar muito a perder.



Se durante a projeção você pensar "já vi um filme com esse fulano, mas não lembro seu nome", não se assuste, eternos coadjuvantes marcam presença em O VOO DA MORTE, valorizando bastante o elenco. Entre outros estão o indiano Erick Avari (que participou de mais de 100 produções de A HERANÇA DE MR. DEEDS à PLANETA DOS MACACOS remake), Richard Tyson (A RECONQUISTA, QUEM VAI FICAR COM MARY?, e por aí vai...) e Dale Midkiff (o Louis Creed de CEMITÉRIO MALDITO). Os que não são veteranos como eles pelo menos se esforçam e entram na dança fazendo excelentes personagens estereotipados, como manda o figurino.

E põe personagens clichês exagerados nisso: temos o piloto cheio de planos que está prestes a se aposentar, dois casais promíscuos, o jogador de golfe que tem problemas pessoais por causa da fama, o bandido esperto, o detetive canastrão, a freira puritana que tem duas falas no filme todo e por aí vai... Mas como isto não importa muito na hora da ação, você acaba esquecendo de tudo isso, até porque a grande maioria não para de gritar e correr.



Trocando em miúdos, é uma experiência bastante divertida que abusa de suas próprias limitações a favor do público que quer ver "apenas" zumbis e mortes. Apesar de ser uma espécie de cópia, não merece comparação com SERPENTES A BORDO porque ambos são legais a seu modo e fim de papo.

E para fechar, sintam-se orgulhosos Brasileiros, pois apesar da premiere mundial ter acontecido no mês de Abril (num festival de cinema em Bruxelas) o filme ainda não foi lançado nos Estados Unidos devido aos tramites de venda da distribuição e agora a estratégia de marketing da New Line é fazer um lançamento nos cinemas de lá, embora a tendência seja direto no disquinho mesmo. Enfim, não é sempre que podemos ver alguma coisa antes dos nossos "brothers", mesmo que seja uma bagaceira, hahaha...



Gabriel Paixão


VÔO DA MORTE (Plane Dead/Flight of the Living Dead: Outbreak on a Plane, EUA, 2007). Duração: 90 minutos.
Direção: Scott Thomas
Roteiro: Sidney Iwanter; Mark Onspaugh; Scott Thomas
Produção: David Shoshan
Produção Executiva: Kevin Kasha
Fotografia: Mark Eberle
Música: Nathan Wang
Edição: Wilton Cruz
Direção de Arte: Casey Cannon
Maquiagem: Brian Wade
Efeitos Especiais: Daniel P. Murphy; Francisco Chaigneau
Elenco: David Chisum (Truman Burrows); Kristen Kerr (Megan); Sarah Laine (Cara); Kevin J. O'Connor (Frank); Richard Tyson (Paul Judd); Erick Avari (Leo Bennett); Mieko Hillman (Stacy); Derek Webster (William 'Long Shot' Freeman); Ashley Bashioum (Jackie); Siena Goines (Anna); Laura Cayouette (Dr. Kelly Thorp); Brian Kolodziej (Peter); Heidi Marnhout (Emily); Dale Midkiff (Dr. Lucas Thorp); Ingrid Raines (Tammy); Todd Babcock (Randy Stafford); Raymond J. Barry (Capt. Bashore); Cliff Weissman (R. Sebastian); Tucker Smallwood (Col. Wolff); David Spielberg (Dr. Conroy); Michael Tomlinson (Madison); Megan Wagner (Stoops); Eric Price (Ted); Brian Ames (Tony); Brian Thompson (Frey)

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