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O cinema clássico de horror deve muito a James Whale. O britânico entregou alguns dos mais fantásticos filmes da Universal; sem ele não teríamos a imagem que aprendemos a admirar de Boris Karloff como o monstro de Frankenstein, nem a visão diabólica do Dr. Pretorius em A NOIVA DE FRANKENSTEIN ou mesmo a primazia na técnica de O HOMEM INVISÍVEL.
Dono de um requintado estilo a frente de seu tempo e de um trabalho de câmera fluído e único - pesadamente influenciado pelo impressionismo alemão - sua polêmica vida particular é tão interessante como sua vida profissional, portanto, Whale merece um olhar mais profundo que você terá a oportunidade de conferir nesta grande jornada por sua fugaz e brilhante carreira.
James Whale nasceu na cidade de Dudley, Inglaterra no dia 22 de julho de 1889, sendo o sexto filho (de um total de sete) do casal William e Sarah. O pai era um operador de fornalha e a mãe era enfermeira num típico reduto operário inglês. |
Apesar da infância em colégios particulares, quando Whale chegou a adolescência precisou largar os estudos devido ao alto custo e sua força de trabalho era necessária para ajudar a família, porém o futuro diretor não era fisicamente robusto como os irmãos e entendeu que poderia sofrer nas indústrias de metalurgia.
Assim seu primeiro emprego foi como sapateiro, retendo os pregos que eram retirados das solas trocadas e vendendo em seguida como sucata para ganhar um dinheiro a mais. Na sequência, começando a descobrir seus dotes artísticos, passou a pintar letreiros para o comercio local, James usou a grana extra para pagar aulas noturnas na escola de artes de Dudley.
Em 1914 o mundo entrou em guerra pela primeira vez e Whale se alistou no exército por causa do serviço obrigatório. Treinou como oficial e se juntou às unidades de cadetes em outubro de 1915 ficando na cidade de Bristol, subindo até o posto de segundo tenente do regimento de Worcestershire em julho de 1916.



Durante a campanha de Flanders em agosto de 1917 foi capturado como prisioneiro de guerra por dois anos no campo de prisioneiros de Holzminden onde acumulou ódio pelos alemães e desenvolveu seu gosto pelo drama: Whale desenvolvia produções teatrais para serem apresentadas para os guardas e companheiros de cela. Curiosamente, também foi na prisão que Whale aprendeu a jogar pôquer, ganhou muitas apostas e depois da guerra foi cobrar seus companheiros de cela e fazer um pé-de-meia.
Retornando a Birmingham em 1919, Whale tentou trabalhar como cartunista de jornal, contudo não conseguiu um emprego em caráter permanente e resolveu trocar de ofício, trabalhando como ator, designer de sets, construtor e diretor de uma companhia de teatro.
Em 1922 encontrou com Doris Zinkeisen, apresentados pelo tutor-ator-produtor Nigel Playfair. O casal ficou noivo por dois anos (1924-1925). O noivado não seria grande coisa não fosse por um detalhe: já nesta época Whale já era abertamente declarado gay, uma coisa virtualmente impossível para a época.
Em 1928, foi Whale teve a oportunidade de dirigir duas performances da peça
Journey's End para um público fechado - a peça narra as experiências de oficiais das forças armadas britânicas durante a primeira guerra mundial. O diretor ofereceu um dos papéis principais para o futuro mega-astro do cinema
Laurence Olivier, que a princípio recusou o convite, mas aceitou após uma reunião com James.


As apresentações foram bem sucedidas e estreou no
Savoy Theatre em Londres em 21 de Janeiro de 1929, já sem Olivier no elenco, pois foi chamado para dirigir outra peça de teatro. O tremendo sucesso entre público e crítica capacitou sua exibição no Savoy por três semanas, sendo transferida para o
Prince of Wales Theatre onde foi apresentado nos próximos dois anos. Não tarda muito e o produtor estadunidense Gilbert Miller adquiriu os direitos da peça para a Broadway que também foi dirigida por Whale, estreando em 22 de março de 1929 e ficou em cartaz por mais de um ano.
A notoriedade de
Journey's End trouxe Whale para os holofotes dos produtores de cinema bem na transação dos filmes mudos para os falados, e ele tinha experiência em trabalhar com diálogos. O diretor assinou um contrato com a
Paramount como
"diretor de diálogos" do filme
The Love Doctor (1929) onde terminou seu trabalho em 15 dias. Foi nesta época que Whale conheceu David Lewis, seu companheiro pelas próximas décadas.
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Os produtores britânicos Michael Balcon e Thomas Welsh adquiriram os direitos de Journey's End para o cinema e concordaram que James Whale era a pessoa mais indicada para dirigir a película. Os produtores fizeram uma parceria com a empresa Tiffany-Stahl, um pequeno estúdio estadunidense, para rodar o filme em Nova York. As filmagens duraram menos de dois meses e o longa foi lançado em 15 de abril de 1930 nos Estados Unidos. O resultado foi o mesmo do teatro, outro êxito absoluto de público e crítica.
Em 1931 o estúdio Universal contratou Whale por cinco anos, com Waterloo Bridge ficando como seu primeiro projeto. No mesmo ano, o chefe do estúdio Carl Laemmle Jr. ofereceu ao diretor a chance de comandar qualquer filme cujos direitos estavam com a Universal. Whale escolheu FRANKENSTEIN principalmente porque nenhuma das outras propriedades da Universal lhe interessavam e ele queria realizar uma película de guerra.
Whale chamou para o elenco Colin Clive - conhecido do diretor por causa da peça Journey's End - para o papel do barão e Mae Clark como sua noiva Elizabeth. |
Para representar o monstro, ofereceu a parte para um ator desconhecido chamado
Boris Karloff (diz a lenda que
Bela Lugosi era a primeira escolha do estúdio). As filmagens começaram em 24 de agosto de 1931, estendendo-se até 3 de outubro. Já no dia 29 de outubro foram feitas as pré-estreias com lançamento em 21 de novembro. Instantaneamente a resposta do público e crítica foi aclamar o novo clássico, que estourou todos recordes de bilheteria por todo o país, rendendo ao estúdio 12 milhões de dólares no primeiro lançamento (o filme custou 291 mil dólares).
No ano seguinte foi a vez do lançamento de
The Old Dark House, creditado como uma reinvenção dos filmes de horror em casas sombrias e misteriosas. Para a produção, mais uma vez
Boris Karloff foi chamado para o papel principal. O filme foi retirado considerado perdido por muitos anos até que nos anos 60 o cineasta
Curtis Harrington encontrou um negativo nos arquivos da
Universal e levou-o para restauração. O famoso produtor e diretor
William Castle realizou um remake homônimo em 1963.



Outro sucesso de público viria com
O HOMEM INVISÍVEL (1933), com um roteiro mais próximo do material escrito por
H. G. Wells depois que 14 tratamentos solicitados pela
Universal foram escritos. A mistura de horror, humor e excelentes efeitos visuais pegou em cheio a audiência. Curiosamente, Karloff representaria o papel principal de acordo com a preferência do estúdio, mas Whale queria uma voz mais
"intelectual" para o personagem e sua primeira escolha foi o ator
Claude Rains, que pegou o trabalho.
Depois de uma comédia romântica (
By Candlelight, 1933) e um drama (
One More River, 1934), o próximo projeto de Whale foi
A NOIVA DE FRANKENSTEIN de 1935 que aceitou entre a cruz e a caldeira: era resistente em realizar uma continuação de seu mais lucrativo filme e ficar estigmatizado como diretor de horror.
Chamando o mesmo elenco principal do filme de 1931, contudo a famosa história ganharia traços mais humanos e sombrios - no corte original 21 pessoas morriam, depois de pressões da censura o número caiu para dez - e introduziu um vilão que consegue engolir o personagem principal, o
Dr. Pretorius, interpretado com maestria por Ernest Thesiger. A audiência recebeu muito bem, embora não tanto quanto o original (custou 397 mil dólares e rendeu cerca de 2 milhões até 1943). Alardeado como o mais importante filme da era clássica do horror,
A NOIVA DE FRANKENSTEIN é o trabalho de mestre de
James Whale e elevou a reputação do diretor as alturas.


Laemmle ficou ansioso para colocar Whale para dirigir
A Filha de Drácula, a continuação do primeiro grande sucesso de horror da
Universal (que terminou nas mãos de Lambert Hillyer). O receio que o diretor tinha antes de aceitar
A NOIVA... falou mais alto e convenceu o chefe do estúdio a comprar os direitos de um livro de comédia-mistério chamado
The Hangover Murders, sobre um grupo de amigos que ficaram tão bêbados numa noitada que um deles foi assassinado e nenhum deles se lembra de nada. Lançado em 28 de outubro de 1935 com o título
Remember Last Night?, a produção é uma das pessoais favoritas de Whale, mas dividiu opiniões e não despertou o interesse do público.
Imediatamente após completar
Remember Last Night?, James trabalhou no musical
Show Boat (1936) - lançado no Brasil como
MAGNOLIA - O BARCO DAS ILUSÕES - adaptação para o cinema de uma peça homônima. Este seria o último trabalho de Whale sob o comando da família Laemmle, que perdeu o controle do estúdio para J. Cheever Cowdin da
Standard Capital Corporation e Charles R. Rogers ficou na cadeira de diretor da
Universal.
A carreira de Whale começou do declínio após o lançamento de seu próximo filme,
The Road Back (1937), continuação de
SEM NOVIDADES NO FRONT (All Quiet on the Western Front) de 1930. O cônsul da Alemanha nazista em Los Angeles, George Gyssling, sabendo da produção do filme protestou no Tribunal de Arbitragem Permanente alegando que o longa daria uma
"visão distorcida do povo alemão". Gyssling se encontrou com Whale e chegou a mandar cartas para os membros do elenco ameaçando liderar dificuldades na obtenção de qualquer permissão alemã de qualquer tipo para eles e quaisquer outros associados com eles.



Somente após a interferência do
Departamento de Estado estadunidense sob pressões da
Liga Anti-nazista de Hollywood e do
Sindicato dos Atores que o governo alemão recuou. A edição original de Whale levou boas críticas nas exibições teste, contudo Rogers se rendeu aos alemães e ordenou novos cortes no material original e que rodassem cenas adicionais para serem enxertadas. Whale ficou furioso, as exigências foram atendidas, mas o filme foi banido da Alemanha mesmo assim. Além disso, o governo alemão conseguiu persuadir a China, Grécia, Itália e a Suíça para baní-lo também. Os negativos com a versão original do diretor não mais existem.
A situação entre Charles Rogers e
James Whale após o incidente com
The Road Back se tornou quase insustentável: Rogers queria romper o contrato, porém Whale não deixou, então o magnata colocou o diretor para comandar uma série de projetos de baixo orçamento sem expressão apenas para cumprir tabela, neste período apenas um se destaca, a versão de 1939 para
O Homem da Máscara de Ferro. Em 1941, Whale saía de vez dos holofotes da indústria do cinema.
Sem contrato, mas com um bom dinheiro em outros investimentos, eram oferecidos apenas trabalhos ocasionais para James que passava o maior tempo em casa, entediado. Lewis, preocupado com seu companheiro, forneceu para Whale um conjunto de tinta e tela para que ele redescobrisse o gosto pela pintura. A tática funcionou e o então ex-diretor chegou a montar um grande estúdio.


Com a explosão da segunda grande guerra, Whale volta aos negócios realizando um filme de treinamento para as forças armadas dos Estados Unidos, em seguida monta uma nova companhia de teatro, a
Brentwood Service Players. Em 1944, o diretor retorna para a Broadway para dirigir o a peça de mistério
Hand in Glove com sucesso moderado.
Em 1950, Whale dirige seu último filme, um curta dramático (que deveria ser um episódio de uma antologia) que conta a história de um homem falsamente acusado de estupro. Dificuldades em encontrar as peças apropriadas para amarrar o restante da produção foram decisivas para o abandono do projeto que nunca foi lançado comercialmente.
Seu trabalho derradeiro foi uma volta ao teatro dirigindo a peça
Pagan in the Parlour, uma comédia sobre duas irmãs solteironas que são visitadas por uma polinésia com quem seu pai casou depois que seu navio encalhou na costa.
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A turnê da peça começou em setembro de 1952, e, apesar de ser bem promissora, uma das atrizes principais, Hermione Baddeley, entrou na bebida e cada vez mais estragava o espetáculo aparecendo bêbada. Pior que ela não poderia ser mandada embora por força de contrato e os produtores foram obrigados a encerrar a turnê. Whale retorna para a California em novembro de 1952 e encerra o relacionamento de 23 anos com David Lewis por causa do chofer. Em 1954, o chofer passa a viver na casa de Whale permanentemente, tornando-se o gerente de um posto de gasolina de propriedade do diretor.
Em 1956 o diretor sofre dois ataques cardíacos e é hospitalizado e para agravar seu estado, enquanto estava se recuperando no hospital, foi diagnosticado com um quadro de depressão e tratamentos de choque. Parcialmente recuperado, James contrata um enfermeiro para trabalhar morando em sua residência, contudo seu companheiro ciumento expulsou o enfermeiro e contratou uma enfermeira em seu lugar. |
Com o tempo Whale passou a sofrer de alterações de humor, suas faculdades mentais foram diminuindo e passou a ser frustrantemente mais dependente de outros. Em seu caso crônico de depressão, o diretor cometeu suicídio se jogando na piscina de sua casa em 29 de maio de 1957 aos 67 anos (Whale não sabia nadar e tinha pavor de água).
Uma nota de suicídio ficou na posse de David Lewis por muitas décadas, até pouco antes de sua própria morte em 1987, o que fez suspeitar até então que foi um afogamento acidental. Seu corpo foi cremado a seu pedido e suas cinzas foram enterradas na cidade de Glendale, California.
No entanto seu breve trabalho no cinema foi suficiente para deixar uma herança de grande valor para o público: Um monumento foi erguido em sua homenagem em Dudley, sua cidade natal, e seus últimos meses foram retratados mesclando realidade e ficção no livro Father of Frankenstein escrito por Christopher Bram de 1995.
Livro este que serviu de base para o filme DEUSES E MONSTROS (1998) com Sir Ian McKellen no papel de James Whale - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator - e Brendan Fraser como seu companheiro.  | |
Tributos feitos com bastante justiça ao homem que trouxe o icônico monstro de
Mary Shelley para a sétima arte, mudando a face do cinema de horror para sempre.
FILMOGRAFIA
1930 - Journey's End
1931 - Waterloo Bridge
1931 - FRANKENSTEIN (Frankenstein)
1932 - Impatient Maiden
1932 - The Old Dark House
1933 - The Kiss Before the Mirror
1933 - O HOMEM INVISÍVEL (The Invisible Man)
1933 - By Candlelight
1934 - One More River
1935 - A NOIVA DE FRANKENSTEIN (Bride of Frankenstein)
1935 - Remember Last Night?
1936 - MAGNOLIA - O BARCO DAS ILUSÕES (Show Boat)
1937 - The Road Back
1937 - The Great Garrick
1938 - Port of Seven Seas
1938 - Sinners in Paradise
1939 - The Man in the Iron Mask
1940 - Green Hell
1941 - They Dare Not Love
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