WOLF CREEK - VIAGEM AO INFERNO

por Filipe Falcão

"30.000 mil pessoas são consideradas desaparecidas todo ano na Austrália. 90% delas são encontradas depois de um mês. Algumas são encontradas depois de um ano. Outras nunca mais são vistas."

Aplaudido como um dos melhores filmes do gênero nos últimos anos, a produção australiana Wolf Creek - Viagem ao Inferno (Wolf Creek, 2005), estreou em circuito nacional no último dia 03, trazendo consigo o currículo de ter sido um sucesso quando exibido nos prestigiados festivais de Cannes e de Sundance do ano de 2005. O filme, inspirado em acontecimentos reais, é realmente uma boa surpresa do gênero, por narrar uma história simples e com um roteiro criativo que conduz os personagens, e o público, através de uma trama apoiada no medo e fugindo da maioria dos clichês que assombram o gênero atual.
Baseado no caso real conhecido como "Assassinatos dos Mochileiros", que aconteceu na Austrália, em 1999 (leia mais em A Verdadeira História), Wolf Creek causou polêmica por onde foi exibido, pelo sadismo em explorar o sofrimento dos personagens. O filme acompanha a viagem de três jovens amigos, que estão conhecendo algumas regiões da terra do canguru e antes de voltarem para suas casas, decidem visitar um local conhecido como Woof Creek, um ponto turístico real e isolado do Sul da Australia, onde um meteóro caiu há milhares de anos, abrindo uma cratera imensa no meio do deserto, originando uma pequena floresta no centro.



Quando eles decidem partir, ao final do dia, o carro não funciona. Os três entram em pânico, afinal, estavam em um local inóspito, no meio do nada e longe de qualquer contato com a civilização, até que um caminhão aparece e um simpático motorista oferece ajuda levando os três para o seu acampamento, uma espécie de mina abandonada, para consertar o carro do trio. Ao amanhecer, cada um dos viajantes vai perceber, da pior maneira possível, que o motorista é na verdade um insano psicopata, disposto a torturar e matar cada um deles da forma que lhe parecer melhor.

A primeira impressão que um fã desavisado de filmes de terror possa ter ao ler uma rápida sinopse de Wolf Creek é que se trate de mais uma produção semelhante à imensa lista de filmes sobre assassinos de estradas que matam todo o elenco, deixando viva apenas a mocinha. Puro engano. Wolf Creek consegue realmente ser uma produção interessante, por conseguir escapar da maioria dos clichês que infestam o gênero, como previsibilidade, algo que o filme consegue não ter; susto fácil, onde uma porta bate e faz o som de um trovão; ou final conclusivo.



Para começar, Wolf Creek tem apenas três pessoas que vão ser perseguidas pelo assassino e isso já é um ponto positivo para que o roteiro consiga explorar algo dos personagens, que por sinal, são bastante simples, sem os gerais estereótipos aos quais o gênero está repleto, como a loira peituda, o valentão ou o gordo engraçado. Os personagens de Wolf Creek poderiam ser os seus vizinhos, ou mesmo seus irmãos, o que aumenta um interesse por eles. Quanto ao assassino, o de Wolk Creek não usa máscaras nem é deformado, mas um típico caipira meia idade sujo, que passaria total confiança pelo seu jeito cortês.

Um dos pontos positivos de Wolf Creek é justamente a transição do sujeito simpático em um louco assassino capaz de torturar e matar com requintes de crueldade as suas vítimas, no caso, o pobre trio de amigos que vai ser pego de surpresa e, sem qualquer chance de defesa e até o restante do filme, serão vítimas de angùstia, dor, medo, tortura psicológica e violência. Aliás, as cenas de sadismo do filme são de fazer parte da audiência se contorcer de agonia ao ver o que foi reservado para cada membro do trio. Não que Wolf Creek seja um novo Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre, 1974), que continua imbatível nesse aspecto, mas realmente possui cenas de fazer platéias mais sensíveis ficarem agoniadas. O medo dos personagens consegue ser real diante da situação e esta é uma qualidade de Wolf Creek, que apostou em narrar uma história equilibrada no medo e não na carnificina. A violência acaba sendo (também) psicológica na forma de tortura e na realidade em que os três se encontram: no meio do deserto com um louco capaz de torturá-los por semanas até matá-los.



Um outro ponto importante do filme é que em determinado momento fica realmente difícil saber quem morre e quem vive dos três e os rumos que a trama vai tomar próximo ao seu final, aliás, desde que o trio de amigos se vê vítima do caipira psicopata, que a ligação deles com o público torna-se ainda mais estreita, pois, a partir deste ponto do filme, o futuro torna-se uma incógnita, tanto para os personagens, quanto para nós, observadores passivos. Crédito do diretor estreante australiano Greg McLean, que também foi responsável pelo roteiro e pela produção do filme. O elenco, formado por jovens atores da televisão australiana estão bem em seus papéis, enquanto coube ao veterano John Jarratt dar vida ao louco assassino de Wolf Creek.

Por todos estes pontos positivos, Wolf Creek se mostra como uma boa produção do gênero e por isso merece ser conferido. O filme pode não ser um clássico, mas não deixa de ter o seu valor e destaque por ousar no seu enredo, de forma a conseguir realmente prender a atenção do público, que em certo momento, começa a temer pela vida dor personagens quase como um quarto integrante da trama. Como filme, cumpre o seu papel de provocar reações no seu público e por isso deve ser conferido.



A História Verdadeira

Os eventos que serviram de inspiração para o filme Wolf Creek aconteceram na Austrália na década de 90 e ficaram conhecidos como "assassinatos dos mochileiros". Na ocasião, as investigações em busca de pessoas desaparecidas terminaram quando a polícia encontrou, no dia 20 de maio de 1999, os restos de nove corpos enterrados dentro de uma caverna isolada na região de Snowtown, Sul da Austrália. Em todos os cadáveres foram encontradas marcas de tortura e alguns membros decapitados. O autor deste massacre foi identificado como Ivan Milat, na época com 49 anos, que após forte operação policial, foi encontrado, preso e condenado à prisão perpétua.
De acordo com informações policiais, as vítimas foram torturadas antes de serem executadas com tiros. Essas pessoas aparentemente não possuíam nenhuma semelhança, com exceção de estarem viajando pelo país. O inquérito policial descobriria mais tarde que os crimes teriam sido motivados pelo ódio que Ivan nutria de homossexuais, pedófilos e pessoas gordas.
Não se sabe se suas vítimas possuíam tais características, embora um dos cadáveres tenha sido encontrado sem o pênis e com marcas de queimadura na região dos testículos.

Apesar dos corpos terem sido encontrados em 1999, é certo que Ivan tenha agido durante toda aquela década até ser preso. As primeiras informações sobre a existência de um serial killer surgiram em 1994 quando um turista britânico procurou a polícia australiana com informações de que um homem havia lhe oferecido carona e depois lhe ameaçado com uma arma. O turista conseguiu escapar graças a um outro carro que passava pelo local, procurando então as autoridades locais onde fez um retrato falado do suspeito. Após a prisão de Ivan, a polícia encontrou na casa onde ele morava os pertences de suas vítimas, além de armas de fogo e facas.

Filipe Falcão


WOLF CREEK - VIAGEM AO INFERNO (Wolf Creek, Austrália, 2005). 99 minutos
Direção: Greg McLean
Roteiro: Greg McLean
Produção: Greg McLean e David Lightfoot
Produção Executiva: George Adams; Martin Fabinyi; Michael Gudinski; Gary Hamilton; Matt Hearn; Simon Hewitt
Fotografia: Will Gibson; Brandon Trost
Música: Frank Tetaz
Edição: Jason Ballantine
Desenhos de Produção: Robert Webb
Direção de Arte: Robert Webb
Maquiagem: Jennifer Lamphee; Fiona Rees-Jones
Efeitos Visuais: Mark Chataway
Elenco: Peter Alchin (Oficial de Polícia); John Jarratt (Mick Taylor); Cassandra Magrath (Liz Hunter); Andy McPhee (Bazza); Kestie Morassi (Kristy Earl); Guy Petersen; Nathan Phillips (Ben Mitchell); Gordon Poole; Jenny Starwall; Aaron Sterns; Greg McLean


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