ABOMINÁVEIS CRIATURAS


E.R.Corrêa


- Era terrível! Eles chegavam aos montes em enormes discos-voadores prateados, com raios de calor e luzes cintilantes que ofuscavam a vista! O horizonte inteiro estava repleto deles, por todos os lados; sobre as casas, sobre os campos, os prédios. Um tumulto geral, entende?
- E como eles eram? Verdes, vermelhos, pequenos, grandes, cabeçudos? Como?
- Eles eram grotescos, horríveis, verdadeiros monstros de feiúra e imundície. Pareciam... Pareciam... Sei lá! Nem dá para explicar - eram indizíveis!
- Descreva-os melhor.
- Não dava para ver a pele. Enormes roupas prateadas refletiam um brilho que doía a vista. E é engraçado como aquilo causava realmente uma espécie de dor... E isso não é nada: por trás dos enormes capacetes transparentes, que pareciam gigantescas bolhas de sabão, haviam centenas, talvez milhares, de microfilamentos alongados, com um brilho estranho, na extremidade. Talvez fossem minúsculos tentáculos negros... alguns eram amarelos... Confundiam-se num emaranhado tumultuoso uns sobre os outros, e outros escorregavam pela face grotesca da criatura e ocultavam-lhe os olhos. É difícil descrever!
- Você tem certeza disso?
- Claro! Eu pude ver alguns de perto... Além de tudo, eles eram enormes - provavelmente tinham três ou quatro vezes o nosso tamanho. E se locomoviam rápido, muito rápido, por aqueles dois tentáculos duros... Pareciam bestas gigantescas a correr atrás de nós. Como é natural, eu não conseguia correr direito, tropeçava, caía, escorregava, ora aqui, ora lá, no chão ensanguentado. Minhas pernas pareciam amortecidas pelo medo e pelo pavor! Quanto mais rápido eu queria ir, mais devagar eu ia.
- Isso é natural...
- Cara, era pavoroso!
- E houve guerra?
- Naturalmente! Apesar de tudo, nós conseguíamos derrubar alguns deles, que caíam inertes, no chão. Mas era difícil matá-los. A roupa, ou o que quer que aquilo fosse, era muito grossa. Então, naturalmente, passamos a quebrar os capacetes transparentes com enormes pedras, enquanto eles estavam no chão. Eram duros, resistentes, mas quebravam. Sufocavam - levavam dois enormes tentáculos a altura do que talvez fosse o pescoço e em seguida inchavam-se de vermelho até explodir... E uma gosmenta massa rolava pelo chão, em meio à lama. Mas haviam muitos... Enquanto matávamos um deles, eles matavam vinte, talvez trinta de nós...
- E como eram as armas? Eles usavam armas?
- ... enormes, incandescentes. Soltava um raio vermelho-amarelado que desintegrava. Vi muitos de nossos caírem à minha frente, rastejando, implorando por ajuda, enquanto as pernas iam derretendo progressivamente até alcançarem... Era horrível, demasiado horrível!... Corríamos para cá e para lá, sem saber o que fazer, aonde ir, no meio do caos frenético e avassalador. Houve um momento em que me joguei embaixo de algumas latas de lixo que estavam num canto mais escondido. Funcionou por algum tempo... Mas ao longe, avançando cada vez mais perto, eu podia ouvir os terríveis estrondos das explosões, o gritar frenético da multidão, o caminhar feroz das bestas gigantes...
- Eles conversavam entre si? Falavam alguma coisa? Ajudavam uns aos outros quando vocês conseguiam acertá-los? Porque deve...
- Acho que não. Acho que eles não conversavam - talvez fossem telepatas, ou usassem algum tipo de rádio sob o capacete. Mas garanto que não pude ouvir nad... Espere!... Sim! É, eu ouvi alguma coisa quando um deles estava ferido, no chão, sem o capacete! É isso mesmo, antes de avermelhar e explodir ele balbuciou alguma coisa. Alguma coisa como... como... é... Droga!! Está na ponta da língua, esta manhã eu disse, mas agora não consigo me lembrar!... Era algo impronunciável, tenebroso, vindo diretamente de uma garganta horrenda e fétida, como as cavernas quentes do inferno!
- Deve ter sido realmente horrível!
- É, foi horrível cara! Foi horrível! Eu nunca tive um sonho tão real como este em toda a minha vida!...
- Pelo que você me contou, e pela maneira como
você se remexeu o tempo todo na poltrona, isto não deve ter sido um sonho, e sim um pesadelo... - É mais provável... Ah! Lembrei-me daquilo que balbuciou a criatura! Eu sabia que conseguiria me lembrar!
- Mas você não disse que era algo impronunciável?
- Sim, mas eu me tornei um especialista em transformar nomes impronunciáveis em nomes pronunciáveis.
- É, você deveria parar de ficar lendo estas revistinhas de ficção científica... E como era o nome?
- Era algo como,... "TERRA"!
- Como o quê?... "TTE..R..RRR....AAAAH"??
- É, "TE..RRAA"- ou coisa parecida...