CARNE E AÇO


Eduardo Amaro


Grito. A incessante busca pelo caminho certo da remissão. Grito. Grito da consciência, o medo oculto pela impotência. Não há saída para esconder-me da dor. Não há nada além da dor. Além do grito. Nada além do fogo consumindo minha alma.
A mão juvenil abre a porta de madeira desgastada; imagens por toda a parede amarelado do pequeno cômodo de repouso noturno. No canto superior, à esquerda da pequena janela em formato retangular, autógrafos enquadrados de seus ídolos. O aparelho de som, tão desgastado quanto a porta, serve de suporte a um porta-retrato que acolhe o semblante sinistro, eterno e melancólico do vocalista Jim Morrison.

Cansado e com uma insana vontade de exorcizar seus demônios internos, Bruno solta seu esquelético corpo fantasmagórico sobre o colchão de molas enferrujadas. E controla-se. E suporta-se. E relaxa.

Dedos anestesiados vão ao encontro de uma caixa de fósforos ao lado. A fumaça do tabaco se faz presente na atmosfera entorpecida, como um bálsamo para aliviar sua asma psicológica. Entre névoa densa, seu pensamento se esvai, sublima-se em preto e branco recordações de sua mortalidade. As palavras do americano vagam loucamente pelo aposento: "This is the end... I'll never look into your eyes, again..."

Na estante ao lado, onde encontra-se o aparelho, de cor negra e aparência jurássica, o embalo psicodélico do conjunto The Doors parece diluir toda a dor. Ele pode vê-los, ele pode sentir as notas imaginárias dançarem monstruosamente diante de seus olhos incrédulos, adentrando seus tímpanos, possuindo seu sonho, coração e pensamento. O aço deseja a carne. Ele deseja o aço. Bruno pode sentir o fio se romper, seu fim encará-lo, rir e depois desvanecer.
Eu estou agora num lugar frio e solitário. Infinito e absolutamente vazio. Vivendo entre sombras onde o Sol não pode alcançar. Onde o tempo não passa de uma perversa ilusão, como um lapso da realidade, como uma distorção do lógico. Aqui, no fim da existência, tempo e sentimento não produzem significados. São vazios como o ambiente. São vazios como eu. A derradeira sensação que permanece é a solidão, rainha absolutista das emoções.

Eu me lembro quando perdi meu irmão. Quando não consegui mais me encarar, todos os dias, diante do espelho. Como poderia esquecer? Como poderia esquecer aquele demônio da consciência que me perseguiu por toda a vida até, por fim, consumi-la? Agora é a vez de eu pagar minha dívida espiritual e, talvez, reencontrar meu amado irmão.

Eu não agi com a razão, sei disso. Meu nome não existe, minha vida não tem importância. Nada mais faz sentido nesse lugar. Estou perdido, sempre estive. Nem a morte pôde sanar minhas cicatrizes. Nada é tudo o que resta quando perdemos a razão.
Eu sinto que minha alma foi condenada e que jamais poderia ter feito algo a respeito. Pois meu erro me condenou, meu supremo erro de não entender que o valor de um homem não é medido por sua capacidade de superar obstáculos, mas pelo triunfo sobre sua própria consciência.

amaro@uol.com.br