COISA, A
E.R.Corrêa
A Coisa caiu do céu bem tarde da noite, quando a Lua não passava de um fiapo amarelado, bem próximo à borda do horizonte. A princípio não sabia se era um meteorito ou não, só sabia que era luminoso e chamativo. Naquele dia, para mim, a Terra havia parado, e não só: os invasores de Marte haviam pousado no quintal de minha casa, naquele momento misterioso e vazio quando as estrelas pulsam no auge de seu brilho. Era uma noite fria de inverno, e eu presenciara o fenômeno unicamente porque, como sempre, me recuso em dormir antes de bisbilhotar, com meu telescópio amador, as maravilhas do céu da madrugada. Estava em busca, talvez, daquele planeta proibido, daquela anomalia do espaço exterior que, assim como nossa velha Terra, abriga em seu revoltear pelas profundezas do vácuo as maravilhas da vida. Percebi que a coisa era um glóbulo, ou melhor, uma bolha, que se arrastava pela grama como que em busca de algo em que pudesse se agarrar, interpenetrar, assimilar, quem sabe tomar sua forma e vampirizar sua alma.
Talvez fosse um monstro meteórico, agarrado às abissais de sua mente prescutora em busca de algo para saciar sua fome de viver, depois de sua longa odisséia pelo espaço. Algo que, em meio ao gelo eterno em que estivera acrisolado quem sabe por quantos eons, viesse talvez desfrutar de uma nova era entre as camadas profundas do gelo ártico. Ou talvez algo que quisesse luz, e o calor ofuscante do sol do meio-dia. Quem sabe ali, diante de meus olhos, houvesse o prenúncio de uma nova guerra dos mundos, de uma guerra entre planetas pela posse de uma nova forma de imortalidade. Isso conquistará o mundo, pensei comigo, antes de perceber, quase na obscuridade completa de minha timidez, que a coisa, por mais aterradora que fosse, jamais suportaria a hediondez de um mundo cada vez mais louco em sua transição ao redor do sol. De um mundo sem as rédeas da situação, perdido no aquecimento de que é responsável e no desmatamento de que é criminoso. Veio do espaço, em busca de algo, mas é mais garantido que volte para as profundezas com o pesar e a preocupação em seu semblante verrugoso e indistinto. Ou melhor, em sua falta de semblante. Seria um amigo, conjeturei, afinal, depois de vê-lo se arrastar pela grama com certo grau de dificuldade. Ou seria um monstro, sedento de roubar o pouco de sangue que ainda corre em nossas veias. De repente, e num átimo, a coisa se esticou, como se, impressionada, estivesse prestes a dar a luz a si mesma, envergando para fora parte de sua própria essência pulsante; senti um arrepio, que percorreu, apressado, desde as bases da coluna até alcançar o seu fim incerto. Talvez a Terra não fosse o seu alvo final, talvez seu destino fosse a Lua – por que sermos tão ufanistas? Era improvável, no entanto, uma coisa do planeta X, dessas ilhas misteriosas do céu, vindo de tão longe dessa periferia galáctica em que arrastamos nossa existência conturbada por milhões de demônios da imaginação, para se contentar com um mundo de rocha & poeira & frio eterno & calor escaldante & gelo subterrâneo. Era o mundo em perigo de qualquer forma, eu pensava, enquanto o ser, a criatura, continuava em seus espasmos de agonia perante meus olhos incrédulos e fascinados. Qual era o seu plano, afinal? Seria uma espécie de decepção para mim, aquele plasma que fluía sem qualquer beleza em minha direção, enquanto as estrelas continuavam a pulsar sem sequer tomar conhecimento de nossos dramas mais intoleráveis? Justo eu, que sempre sonhara com a invasão dos discos voadores, estava agora ali, estupefato e perdido, me sentindo um homem encolhido, encarquilhado, diante de uma bolha assassina ou um monstro sanguinário, mas algo que, definitivamente não era o que esperara por tantas e tantas noites em meio às estrelas e ao frio da madrugada. Mas, fosse o que fosse, eu devia lutar, se necessário; impedir seu avanço pela civilização da qual sou parte. O dia em que Marte invadiu a Terra seria lembrado como o dia em que EU salvara o planeta Terra. Morte para o monstro, seja ele quem for e tenha a força que tiver! Pior para mim se não tivesse essa força, se minhas esperanças de salvação não passassem de pura fantasia perante um monstro com poderes desconhecidos. Não seria depois de uma viagem fantástica pelo universo, onde pontilham estrelas infinitas numa vastidão inimaginável, que a coisa iria se instalar justo aqui, em nosso preciso quintal, talvez o único lugar onde nos sentimos suficientemente encorajados para seguir em frente. Iria combate-la, nem que eu fosse a última esperança da Terra. Mas quem era aquele alien? E se seus planos não fossem de invasão e conquista, de morte e destruição? Haveria possibilidade de um contato pacífico? Enquanto assim pensava, a coisa finalmente terminou sua metamorfose intergaláctica e saltou para fora, como o caroço de uma ameixa madura espremida com determinação, e então eu pude contemplar sua verdadeira forma. Era uma mulher, e ela me disse:
- Venha comigo.
- Para onde?
Ela apontou para as estrelas do espaço profundo e disse:
- Para lá!
Sua voz era doce e sua beleza era incomparável. Não pude resistir ao seu encanto, enquanto algo no meu íntimo me alertava.
- Como iremos para lá? – Eu perguntei, quase acreditando que haveria essa possibilidade.
- Não se preocupe com isso – ela respondeu. – Só preciso de sua resposta. Seja ela qual for, não insistirei e respeitarei sua vontade.
- Está bem – eu disse, sem hesitação, encarando seus olhos profundos e determinados. – Confio em você. – E eu confiava, realmente.
Ela pegou minhas mãos e então senti a delicadeza de seu toque e o suave perfume de sua aproximação. O que seria aquilo? Já então deixara de fazer essa pergunta. Simplesmente não me preocupara mais. Estava me sentindo livre, vivo, forte. As estrelas, minhas companheiras inseparáveis durante todos esses anos, iriam, finalmente estar mais perto de mim, e me sentia bem. Amar o berço é preciso, e isso já foi dito, mas não se pode viver no berço a vida toda. Talvez eu estivesse equivocado, precipitado, e encontrasse meu fim de uma forma ou de outra, mas pouco me importava. Com uma espécie de confiança infantil, segui em frente. Me bastava acreditar, e pouco me importava se estivesse cavando minha própria sepultura na eternidade.
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