A MOSCA


E.R.Corrêa


Ele já estava ficando irritado com aquela mosca. Seus malditos vôos, rápidos, indefinidos, acrobáticos, zunindo por todo o quarto, penetrando, sem permissão, o silêncio da noite, eram torturantes. Era sempre a mesma coisa: pouco antes de dormir, por volta das onze horas, ele sentava-se em sua confortável cama e chamava o sono com uma leve leitura. Mas naquela noite ele estava de mau humor e não iria permitir irritação, tivera um dia terrível, cansativo, mas o sono, como ele previra, tardaria a chegar. Por isso, como sempre, ia até a estante e pegava um volume qualquer para acelerar a letargia necessária. Mas ali estava ela, no teto, próximo à luz, esperando, quieta, a hora de começar a zunir...
E quando o silêncio se fazia completo, ela vinha, como sempre, zunindo... zunindo, rápida, indefinível, perturbadora, acrobática... maldita!
Mas ele ia dar um jeito! Eram seus últimos momentos. Naquela noite seus zunidos iriam se extinguir, para sempre... para sempre...
Ele foi até a estante, sim!... Mas não para pegar um livro, mas para pegar o veneno, aquele que iria acabar, para sempre, com a vida daquele perturbador inseto. Ele pegou, e seu sorriso era pleno. O cilindro, contendo doses mortais de inseticida concentrado, fétido, necessário, seria, finalmente, o salvador.
Em pouquíssimos segundos o quarto estava envolto naquela densa atmosfera química!
Ha! Ha! Ha! Era o fim... o fim... a mosca e seu detestável zumbido será silenciado!
Mas ele tinha o pulmão fraco, e não tivera a prudência de abandonar o recinto, tão grande era a vontade de ver o minúsculo inseto totalmente aniquilado.
Ingerindo grandes quantidades de veneno, seu pulmão começara a dar sinais de insuficiência; em poucos minutos, já sem força, agonizando, rasteijando e rezando por oxigênio, sua vida se esvaía... para sempre!
Ele era velho, imprudente, morava sozinho, não tinha amigos... mas tinha um inimigo! Seu velório foi calmo, poucos compareceram, e entre aqueles que estavam em volta do féretro, destacava-se, única, a mosca; sobrevoando, inexoravelmente, à volta do defunto, querendo, talvez, botar ovos em suas narinas algodoadas.
A procissão seguira lenta, chovia, mas lá estava ela, no cemitério, zunindo, voando, e quando, finalmente, o velho fora tragado pelas entranhas da terra, ela o deixou... e sumira no horizonte cinzento...
Mas deixara, lamentavelmente, no seu nariz algodoado, o fruto de uma nova geração - maldita!
Mas também fracassara... finalmente fracassara - tão logo a vida aflorasse na carne, seria igualmente aprisionada pelo inexorável peso do destino... e junto com a face pútrida do velho, suas larvas iriam encontrar o fim de sua existência, tal qual os zumbidos de terror, para sempre... para sempre!...

Esse conto foi originalmente publicado no fanzine “Astaroth” número 21, de Abril de 1999.

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