AVENTURA NA TERRA DOS MORTOS
Carlos Alberto Marcante dos Santos
Adentrou num mundo emaranhado de grandes, médias e simples árvores retorcidas; e vários tipos de cipós, uns espessos e resistentes, outros simples e quebradiços. O chão era encharcado de água, provindas de um manancial, situado a noroeste da floresta. Olhando com maior precisão: era possível ver um rio nauseabundo de sangue; caveiras e centenas de corpos fétidos sendo carcomidos por vermes pestilentos. Estava sol, mas as árvores pareciam se contorcerem para dentro, fazendo com que a floresta ficasse mais aterrorizante. O clima érebo o fazia ter algumas pequenas alucinações vertiginosas com espectros hediondos, onde a lucidez, por fim, quase sempre ganhara das sensações macabras: e pouco a pouco, ele estava com seu coração mais e mais nas mãos, que resguardado ao peito titânico; ou de pedra. Estava gelado, com muito medo do ambiente tétrico e infernal.
Sentira um desejo incontrolável, de sacar de seu potente machado. Com ele nas mãos era menos assustadora a terra desconhecida, daquela floresta de clima hostil. O chão estava com água à altura dos sapatos, era muito desagradável e fazia um frio tremendo: - O que? - perguntou o guerreiro, em sua consciência.
Eram espectros amorfos, gosmentos, soberanos com escudos de adornos duma cultura maldita; espadas nas mãos.Vinham a toda ofensiva ao encontro do solitário guerreiro de terras sonhadoras. A cada forte golpe de seu aço dilacerante - forjado na ilha dos elefantes de pedra, do leste - criaturas malignas, esvaeciam em terríveis urros de ódio e sucumbiam em meio ao breu e nebulosas brumas. Porém, a cada espectro tombado - já se contava na casa dos vinte - surgia das cinzas da escuridão, uma caveira encouraçada: de espadas, e lanças, e escudos a se protegerem e atacar com morte o assassino lancinante, dos fantasmas da floresta.
O dia - essas alturas - numa fração de tempo descarregara uma noite fria, mórbida; com gritos de dor, fúria e ódio.
O soldado estava sem entender, pois o que era para ser uma simples travessia de mata densa, tornara-se a maior batalha da qual já fora, agraciado pelos deuses da guerra. E o ouro em jogo era sua própria vida: vida esta, que trazia inúmeras cicatrizes pelo corpo, cada uma simbolizando uma batalha com um sem numero de sangue e sofrimento; de ambos os lados a dor era inevitável, menos a rendição, pois, a glória era o triunfo supremo da vitória.
Já um pouco restabelecido, esbravejou o titan: ''porcos dos infernos''. Seus olhos eram sinônimos de ódio e malevolência; eram assustadores.
Seus golpes atingiam em cheio as criaturas encouraçadas, que estavam sentindo pela última vez o gosto da guerra; outras criaturas, pictóricas, sabiam a dor de vislumbrar pela última vez uma alvorada de sangue aos jorros: o aço tilintava na floresta macabra e um som de morte era a única coisa que se podia sentir, e ouvir naquele ambiente retinto. O guerreiro vociferou: “'vocês, irão todos voltar de onde vieram. E da maneira mais violenta”. Gritara com todo o poderio de seu pulmão e inferiu: “pois, esta noite matarei-vos”.
As caveiras se afilavam em grupos, vinham tenebrosas ao encontro de seu findar. Os demais seres do além batiam, com fúria, suas armas nos escudos redondos; esse som ressoava um maldito retintim do caos. Por fim, entoaram um cântico de guerra, atroz, onde pediam por sangue.
O homem, de virilidade plenipotente, era incansável, muito focado, com brio dos sagrados guerreiros incorporados em sua alma: mutilava inúmeras caveiras e espectros até que, sobrara apenas um de cada fantasma maldito e guardião da floresta do medo: “'chegara a minha vez de triunfar seus malditos de terras mortas”'. Gritou o titânico guerreiro, de terras sonhadoras e conquistadoras. Concluiu: “esta noite vocês jantarão no inferno, e o prato, será servido por satanás”'.
Seu truculento machado, não era demasiado grande, perante sua avantajada forma física; de largos peitos, e braços, e pernas com músculos extremos: suas veias saltitavam, furiosas, para fora, ganhando forma de cordões férreos num corpo quase de pedra. As sepulcrais criaturas do diabo investiam no grande guerreiro, e este, desferira dois únicos golpes precisos de sua arma letal. Pondo fim, naquela que se tornara a maior de todas as suas batalhas.
A pesada noite, fria, de brumas nebulosas se fora. O sol já apontava com raios flamejantes, que cortavam o céu de um azul suave como plumas ao ar. A terra dos mortos, realmente estava por fazer jus ao seu nome macabro, com um emaranhado de corpos em pedaços, ossadas diversas e, muito sangue: realmente as histórias das malignas ilhas do norte não seriam as mesmas, sem essa luta desigual, de hoje.
As árvores retorcidas com cipós enovelados, já não escondiam o céu azul, que não estava carregado de medo e morte. O sol, escaldante, voltara a bronzear sua pele: que conservava seus fortes músculos. Porém, ao sair daquela horrenda carnificina, fantasmagórica, deixando para trás a floresta alagadiça - e um cemitério de caveiras que voltavam à vida, para assassinar pessoas e aprisionar almas nos anais da pungência - o poderoso guerreiro se perguntara:
Aquele aventureiro que vier fazer a mesma jornada que a sua, sairá da floresta com vida? E os espectros; quantas vezes mais retornarão do inferno? Ou, quantas pessoas ali já perderam suas vidas?
Perguntas que não se calam, são perguntas sem respostas. O colosso, de braços de aço, aos poucos voltava à vida real, constatando que desta batalha saíra sem cicatrizes: algo raro numa guerra tão cruel, que certamente despertaria inverossimilhanças a quem fosse contada.
O homem, destemido, das terras do sul, sentira falta de algo extremamente normal num campo de guerra - que para uns seria sagrado - um propósito; sim, um motivo para tanto sangue e almas perdidas, para sempre na escuridão gélida do submundo das trevas. Um propósito ao brinde; ao sangue alheio, derramado em terras dos mortos. Um brinde as tantas almas perdidas naquele mundo, cruel; que descansem em paz, ou que os demônios as consumam devidamente.
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