O CANTO DA SOMBRA
E.R.Corrêa
"Sou uma sombra - venho de outras eras, do cosmopolitismo das moneras..." - Augusto dos Anjos
... E soprando seu hálito frio e peçonhento a sombra começou a falar:
"Não há paz naquele deserto. As areias quentes que assobiam entre as rochas seculares profanam, com sua ousadia, os limites do tempo. As sombras que por ali perambulam, em seu sofrimento inacabável, gemem e soletram juntas uma só melodia, cujo teor de desgraças seria loucura eu tentar aqui descrever.
Não há limite entre o sofrimento e a desesperança, ambos se unem numa só profusão de loucura; e as criaturas indizíveis e imateriais que ali habitam sabem disso. São Demônios, terríveis Demônios, asquerosos, fétidos, esvoaçantes no céu crepuscular e sem fim, e fundem a desolação e o terrível numa só massa de infelicidade eterna.
E quando a noite despeja seu manto negro sobre a face do abismo, os tormentos momentâneos multiplicam-se em eras inomináveis e arrasadoras, dilacerando com sua arrogância secular os mais ocultos e escondidos cantos rochosos. E na escuridão que a noite traz consigo, ouve-se, ao longe, apenas o tilintar da angústia em sons tumultuosos, convulsivos e acalentadores de miséria, dispersando pelas trevas seus gemidos magoados.
No rio? Só lágrimas e sangue por ali correm...
E À sua sombra, ladeada por uma lamacenta e pútrida margem escarpada, ouvem-se, indistintas, palavras de lamentação, imersas, profundamente, num charco sanguíneo de fétido odor. Não se vêem, porém, resquício algum de corpos físicos.
Mas há uma sombra, uma sombra grande, enorme, como a de um morcego em pleno vôo, e de sua escuridão não ecoa uma só palavra, mas no córrego de sangue e lágrimas rolam palavras para a eternidade, e em sua margem escarpada, a sombra, direciona aos nossos ouvidos estas palavras. Murmúrios destinados a precipitarem-se, sempre, na quente furna de escuridão abissal. Dali não há retorno; de lá não há saída...
Existe sim, no topo mais alto daquele reino de trevas, o trono rochoso da sombra soberana, cujo alimento é a dor e o gemido daqueles que a seus pés tiritam. E é certo, ela jamais morrerá por falta de alimento...
Mas além do deserto, onde a boca do inferno lança seu hálito quente e abrasador, existe um reino de águas escuras, pântanos putrefatos, lodos indissolúveis, sangue virgem que corre sem fim para o além, e precipita-se, incólume, nas entranhas arenosas do subterrâneo. Ali esvoaçam outras sombras, que ao passar sobre as árvores secas e espinhosas, dobrando-lhes os galhos de dor infernal, lançam ventos cortantes e secos, vindo das negras e profundas gargantas de betume.
E nesta profundeza sem fim encontram-se o labirinto de espinhos das sombras perdidas, que cantam, numa só entonação, o hino que ressoa em cada canto do pântano e do deserto, numa voz profusa de milhares de seres, palavras indizíveis.
Mas de suas gargantas cavernosas não saem apenas desolação, dali para os outros cantos desérticos, saem também queixas de maldições e pragas; não deixai, enquanto vivo, que estas pragas penetrem em vossos ouvidos, cingirá de sangue a sua face branca e escorrerá no peito em direção ao coração amargo...
Não existe alma... mas existe a sombra, e ao seu modo ela sofre no reino da escuridão. Eu sou a única que escapou ao seu dono para presenciar tal festival de angústias. Desci às trevas e aqui voltei... e lá retornarei quando você morrer..."
Tentei fugir de minha própria sombra - mas em vão... ela me perseguirá até o fim, e abraçará com certeza o meu túmulo...
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