CIRCO

Cristian Valverde


Na caixa de correio, um envelope pardo não selado, provavelmente entregue pelo próprio remetente, com os dizeres escritos à mão:

"A/C Sr Francisco Alcântara Dutra. Respeitado psicanalista e amigo de muito tempo. Espero que possa me ajudar."

Francisco, intrigado, virou o envelope e leu no verso o nome Arley Lima Ferraz.
Arley fora um amigo dos tempos de ginásio. Um destes amigos que uma vez por ano mantém contato através de cartões de natal e ano novo. Vira-o certa vez numa feira de artigos de informática em um shopping de São Paulo, cidade que Francisco mora. Este o reconhecera também. Conversaram um pouco e Arley chegara a comentar que estava morando em alguma cidade que Francisco não se lembrava naquele momento. Estava ali a trabalho.
Dentro do envelope, algumas folhas brancas, tamanho ofício, digitadas e um papel amarelo por cima de todas: "Estou na cidade. Se ao ler o conteúdo do envelope ainda se interessar pelo assunto, ligue para um dos números abaixo indicados. Sei que é assunto que diz respeito a você também. E isso tem me tirado o sono. O número do telefone fixo é o do hotel em que eu estou hospedado." E abaixo destes dizeres, dois números de telefones. Um de celular e um fixo.
Com um grande interesse, Francisco seguiu para o escritório, fechou a porta para não ser incomodado e começou a ler o conteúdo do envelope.

***

14 de abril de 2001
Estarei relatando aqui algumas coisas de nossa cidade onde você e eu passamos boa parte de nossa infância. Coisas que, creio eu, você se lembrará de algumas, porém já terá se esquecido de outras. Devido a isso, peço-lhe a devida paciência e deixe com que eu siga livremente com minha narrativa. Deixe-me dizer tudo como se você tivesse apagado de sua mente este lugar amaldiçoado, como tenho tentado em vão fazer a anos.
Eu estava lá quando ele chegou. Presenciei tudo de primeira pessoa. Morávamos, minha família e eu em Sant'anna já havia muito tempo. Eu desde que nasci, meus pais eu não sei. Lembro-me bem daquela manhã de sábado. Certas coisas ficam em nossa mente um bom tempo, sabe? E creio que esta ficará o tempo suficiente para que eu morra bem velhinho, e meus netos, se eu os tiver, continuem a se lembrar.
Naquela manhã, levantei-me um pouco mais cedo que o habitual num dia de sábado, pois o calor estava insuportável. Meu quarto ficava no segundo pavimento, de modo que era possível ter um grande alcance de visão da rodovia interestadual que passava em frente à minha casa. Eu morava em uma das primeiras casas da cidade, o que não era muito longe da última, levando em consideração o comprimento de Sant'anna. Na época, eu devia ter os meus sete ou oito anos. Era filho único, por assim dizer. Meus pais tiveram uma garota antes de mim, imagine só, uma irmã mais velha, mas ela só viveu até os seis meses. Acho que eles a encontraram virada de bruços e morta. Não sei bem, não falavam mais no assunto, como se quisessem apagá-lo da mente, virar a página, passar uma borracha.
Então, alguns anos depois, como que para compensar a morte de Ana Carolina (este seria seu nome), eles resolveram me fazer. Me fazer. As vezes penso em quão engraçada é esta expressão para este tipo de assunto. Mas penso que é assim mesmo que deve ser dito. Penso que fui FEITO, como se faz um bolo de chocolate ou uma torta de maçã. Fui usado como âncora para segurar um casamento. Alguns casais, depois de algum tempo de relação, passam a evitar o sexo entre si. Talvez pela rotina, talvez não. No caso de meus pais, foi por causa de Ana Carolina. Acho que não queriam macular o lugar onde sua filhinha nascera e morrera tão jovem. E ficaram assim durante muitos meses. Pensaram em separação umas dezenas de vezes, até que resolveram mudar-se de casa, de cidade, de estado e me fizeram. Esta história toda de minha família que relato aqui, vim saber décadas mais tarde pela minha tia Cora, irmã e amiga confidente de minha mãe. Hoje, Cora, assim como minha mãe e meu pai estão falecidos.
Mas isso não vem ao caso (como se não fossem importantes pra mim...). O que importa foi aquela quente manhã de novembro. Quente e amarelada, como uma pintura envelhecida.
Ondas de calor se formavam ao longo de toda a rodovia. A estrada parecia dançar ao longo de todo horizonte, até se encontrar com o céu. O que eu via era uma espécie de paisagem desértica e triste, como naqueles filmes de Mad Max. Mas não só a paisagem como toda a cidade estava estranhamente triste e desértica naquela manhã. Dava pra sentir isso, como uma sensação de depressão mágica que envolveu a todos. Até eu, criança arteira que era senti isso. Sentia mas não entendia direito.
E, como se fosse um presságio de desgraça, um carcará pousou sobre a cerca de arame farpado que delimitava nosso quintal da estrada. A grande ave negra limpou debaixo da asa com o bico e em seguida olhou para mim. Veio-me imediatamente em mente um conto de Edgard Alan Poe, O Corvo, que os garotos da quinta série adaptaram e encenaram no colégio meses antes. Afastei aquela idéia estranha e continuei observando o carcará, enquanto ele também me observava. O silêncio era irritante. Já percebeu que certas vezes o silêncio faz pressão em nossa cabeça? As vezes a gente anseia pelo barulho, pelo som de carros, crianças gritando, etc. Compreendo aquele zelador que meteu uma espingarda na boca e apertou o gatilho depois de assassinar toda a família naquele hotel isolado nas montanhas do Colorado, nos EUA, depois de passarem vários meses isolados de toda e qualquer tipo de civilização durante um rigorosíssimo inverno. O silêncio fez com que ficasse louco e se matasse. O silêncio, que pode ser mais assustador que sussurros e gemidos na noite.
E aquele silêncio daquela manhã estava me assustando. Era, analisando hoje, como o marasmo antes da tempestade, o olho do furacão. Acontece antes de uma enorme turbulência, como se Deus quisesse nos mostrar o verdadeiro significado da palavra antítese.
Foi então que percebi algo vindo ao longe, onde o céu parecia tocar o chão. Apontara como uma aparição, uma criatura sobrenatural numa igreja antiga, contrastando com a paisagem desértica, lá longe, onde nossas vistas se perdiam da estrada. E se aproximava tão lentamente que parecia estar se deliciando com cada pedaço de chão que passava em baixo dele. Não parecia ser um automóvel pequeno, parecia maior que isso. Uma Scânia talvez. Esperei algum tempo com certa ansiedade. Hoje, analisando melhor, reconheço que foi um comportamento estranho, já que estava bem acostumado com os carros que iam e vinham. Mas aquele me pareceu "algo mais" que um veículo. Notei, algum tempo depois que era uma dessas carretas de transporte de cargas especiais, fechado dos lados. Um caminhão baú, com cores extremamente berrantes. Rosa e amarela predominavam por toda a extensão. Desenhos de palhaços e cavalinhos alados haviam sido feitos com perfeição nas partes laterais. A cabina era de um rosa mais claro, e os vidros eram sinistramente fumê, de modo que não era possível enxergar quem o estava dirigindo.
E chegou silencioso como o dia estava. Apenas o ronco do motor. Uma nuvem de poeira de chão o acompanhava como um manto, logo atrás. A ave sobre a cerca levantou vôo, assustada com a aproximação do caminhão que passou em frente da minha janela e continuou seguindo ate que em certo momento, saiu da pista interestadual e ganhou uma das ruas da cidade.
Continuei a abservá-lo durante algum tempo. Tempo suficiente para que eu o perdesse de vista entre as casas, conseguindo apenas ver ainda o seu rastro poeirento. O que havia de errado? Eu não entendia bem o que era, mas algo me dizia que havia alguma coisa terrivelmente errada.
Algum tempo depois mamãe estava chamando para o café. Sentamo-nos à mesa para comer. Papai comentou algo sobre um grupo de ciganos que se alojou nas proximidades de Sant'anna e mamãe censurou-o com o olhar. Sabia que eu tinha medo de ciganos. Vinícius, um garoto de uns quinze anos (que os garotos da minha idade e eu chamávamos pejorativamente de cavalão, ou Ser Cavalar, como queira, talvez pelo tamanho e pelas atitudes grosseiras para com garotos da nossa idade) dissera-me certa vez que os ciganos roubam crianças, matam e depois traficam os órgãos com os outros países, notícia que eu recebi com um profundo horror, apesar de não estar bem certo do significado da palavra traficar naquela época. Mas naquele dia eu não estava nem aí para histórias de ciganos. Não conseguia parar de pensar no caminhão.
- Papai, sabe algo sobre algum circo que vai ser montado na cidade?- perguntei.
- Não, nada. Porque a pergunta?- perguntou, dando uma dentada na torrada.
- É que vi um caminhão chegando hoje de manhã, e parecia algo relacionado a circo, sabe? Amarelo e rosa, palhaços desenhados nos lados.
- Apenas um? Como um circo pode ser transportado em apenas um caminhão? Deve ser um circo bem esculhambado, não? Eu também não li nada a respeito no edital da praça.- disse, cuspindo farelo de pão na toalha. Mais uma vez mamãe censurou-o com o olhar.
Papai não ligava muito para regras de etiqueta, principalmente dentro de casa. Mamãe ficava louca da vida.
- Deve estar apenas de passagem, querido -disse mamãe - Ou então está esperando os outros caminhões, para se apresentarem em alguma outra cidade. Também não ouvi falar de nada a respeito de nenhum circo nessas redondezas.
Pronto. Aquele assunto estava encerrado ali.
Terminado o café, mamãe recolheu e limpou a mesa, reclamando sempre do insuportável calor. Disse algo sobre um aparelho de ar condicionado que vira no canal de vendas. Papai deu de ombros, alegando impossibilidade financeira. Beijou-a no rosto, afagou meus cabelos (um sinal de despedida) e saiu.
Papai trabalhava numa firma de mineração que ficava na parte setentrional de Sant'anna. Na época, tínhamos terminado de quitar a hipoteca da casa e papai estava pagando o consórcio do carro, mas mamãe vivia reclamando de problemas financeiros.
As manhãs de sábado eram sempre enfadonhas e eu as passava assistindo televisão. De tarde eu ia para a igreja, onde me juntava a outras crianças para estudarmos a bíblia. Mas naquele sábado, eu quebrei a outra esquina. A esquina da direita, não a da esquerda que levava à igreja.
Marco Túlio, um vizinho que tinha uns nove ou dez anos ouviu falar de um circo que estava sendo montado na cidade, onde os moradores chamavam de Arena, um lugar descampado nas proximidades do depósito de lixo (claro que você deve se lembrar bem de lá, caro amigo; afinal, quem não se lembra da velha e divertida Arena) e veio me chamar para espionarmos. Tomei banho e me troquei normalmente, como faço todos os sábados para ir à igreja, para que mamãe não desconfiasse que eu iria ver o circo sendo montado. Normalmente não daria crédito a esta estória de circo, afinal, numa cidade onde um morador soltava um peido e todo o resto da cidade já estava ciente, talvez até se tornasse matéria de jornal, um circo sendo montado e eu ficar sabendo através de simples boatos que apenas um ou outro estava sabendo era algo quase irreal. Mas naquela ocasião eu havia visto quando ele chegara. E o meu pressentimento me dizia que era algo a ser levado a sério, não um simples boato.
A primeira coisa que notei ao andarmos pelas ruas da cidade, em direção à Arena foi o "ar" da cidade. Havia uma certa carga negativa pairando nas ruas. E não falo isso pensando nos acontecimentos seguintes. Falo porque até Marco Túlio percebeu.
- Hoje tá parecendo domingo, não? - comentou em certo momento, se equilibrando distraidamente na guia da calçada.
- É, feriado de Dia dos Mortos - corroborei.
Os domingos em Sant'anna eram sempre sinal de monotonia, por isso a analogia acima.
Seguimos pela rua asfaltada até o final, quando, a partir da esquina, começava uma outra rua de paralelepípedos. Esta passava por um posto de gasolina com apenas duas bombas, que no momento estava com uma corrente cercando toda sua volta e uma placa com o escrito "FECHADO" feito à mão. A rua seguia mais um pouco e terminava abruptamente, como um trampolim numa outra estrada, desta vez menor, mas de terra batida. O cenário ali mudava radicalmente. O horizonte à nossa frente à esquerda era todo verde e montanhoso, significando que a parte urbana da cidade havia terminado. Quem sabe uma casa ou outra no meio de um pasto, lá adiante. Víamos árvores até perderem-se de vista nas montanhas. À nossa frente à direita, os eucaliptos altos encobriam o cenário de fundo, mas dava pra notar que havia uma longa extensão destas árvores e que também se perdiam entre as montanhas. Optamos então por não seguir pela estrada de terra que nos levaria à Arena e tomamos um atalho no meio da plantação de eucaliptos no qual chegaríamos duas vezes mais rápido. Andávamos lado a lado, desviando dos eucaliptos por uns cinco ou seis minutos. Procurei afastar da minha mente a idéia de que poderia haver ciganos à espreita, como um bando lobos a espera da caça. O ar ali estava deliciosamente fresco, o que não poderia ser notado antes de entrarmos no eucaliptal. Poderíamos passar o dia inteiro ali, fugindo do calor, jogando conversa fora, e esquecer que além daquelas árvores existia um mundo quente e abafado. Poderíamos. No entanto estávamos à procura de uma novidade, algo que pudesse diferenciar de toda a monotonia de Sant'anna. Algo como aquele suposto circo. Andávamos rápido e vez por outra olhávamos para cima, na direção do topo das árvores, onde uma camada azul do céu sem nuvens era possível ser vista em meio à folhas e galhos muito altos.
Então, chegando nas proximidades da Arena, já podíamos perceber a presença do circo. Víamos por entre as copas das árvores a profusão de cores da lona, uma bandeirolazinha agitando-se velozmente acima das folhas das árvores, indicando o topo do circo, e ouvíamos uma triste marchinha de carnaval, tocando sutilmente, preenchendo o ambiente, parecendo o som de um gramofone, um setenta e oito rotações com todos os chiados e ruídos a que um tem direito.
-Caramba! - exclamei- Já montaram?
-Como assim?- perguntou Marco Túlio.
-É que eu o vi chegando pela manhã, e já se passavam das dez.
-Uau! Que velocidade!
Atravessamos silenciosamente as copas das árvores e ficamos expiando, tão quietos que até a nossa respiração parecia um ruído alto. Por alguma razão não queríamos ser notados. O circo estava lá, grande e imponente, como um rei gordo e colorido entre as árvores. Mas onde estariam as pessoas daquele lugar?
A marcha de carnaval era uma melodia que eu conhecia de algum lugar, uma daquelas melodias que a gente sempre ouve mas nunca se importa com o autor ou o nome da canção. O que me importava naquela hora era que a melodia parecia ocultar outra coisa. Demorei um pouco a perceber o que ela ocultava, mas percebi com um certo pavor reprimido que ocultava o silêncio absoluto. Era de se estranhar que não havia o piar de um pássaro naquele mundo verde, o canto de uma cigarra, ou ao menos o cricrilar de um grilo. O silêncio novamente, como estava no momento em que o caminhão chegou na cidade. Silêncio que parecia acompanhar aquele misterioso circo.
Comecei então a sentir uma imensa vontade de nunca haver estado ali. Vontade de ter ficado em casa naquele sábado, ou de não ter mentido para a minha mãe e realmente ter ido na igreja. Olhei suplicantemente para Marco Túlio e desejei que ele estivesse com o mesmo terrível pressentimento que eu. Pressentimento que algo estava errado naquele silêncio que a música tentava inutilmente encobrir. Pedi a ele para que fôssemos embora.
- Cara! Eu quero ver o que tem dentro da lona, sacou? - disse ele.
Saquei. Saquei que queria ir embora dali o mais rápido possível e iria mesmo que ele não quisesse. E pelo jeito ele não queria.
- Você não está percebendo que tem algo esquisito aqui? - Disse eu.- Que está muito silencioso para um circo? Onde estão as pessoas daqui? A mulher barbada, os palhaços, o anão, o trapezista, o escambau que for. Porque não aparecem? Porque, meu Deus, num calor destes, este povo ficaria enfurnado dentro desta lona? Tem algo muito errado aqui, e eu não quero ficar pra descobrir o que é. Estou com um péssimo pressentimento.
- Você está é com medo isso sim. Arley, a galinha humana de Sant'anna. - e começou a sacudir os braços, as mãos em baixo das axilas, imitando uma galinha. - Fique por aqui mesmo, cara! Quem sabe não te contratam? Vai ver eles estão precisando de um humano com penas. - e começou a rir como um demente.
A sensação que eu tinha ali naquele momento, pulou de um simples pressentimento estranho para um sentimento quase real de que alguém (ou algo) estava nos observando. Olhei novamente para a lona e percebi algo que para um simples observador passaria despercebido. Ou talvez fosse uma simples imagem que minha mente assustada produzira naquele instante. Uma fenda, uma simples greta onde uma parte da lona se emendava à outra. E, se minha mente estava realmente produzindo imagens, a imagem de um olho vidrado em nós também me foi produzida naquele momento. Estava lá. Um olho amarelo brilhando naquele buraco a nos fixar, sem piscar. Meu coração pareceu se embrulhar no meu peito, juntamente com meu estômago e um arrepio me subiu pelas costas. Não falei nada porque fosse o que fosse, eu não tinha certeza de o que era, e fiquei com receio de que aquilo pudesse notar que eu o tinha notado e...
Olhei novamente para Marco Túlio e disse decididamente.
- Bem, se você vai ficar aí, então tchau!
E me virei sem esperar pela resposta. É óbvio que eu esperava que ele viesse também, mas isso não aconteceu. Andei uns quinze passos e me virei novamente. Lá estava ele, de costas pra mim, inabalável, como o tinha deixado, como se eu ainda estivesse ao seu lado.
(e o olho vidrado a nos ver, sem perder nada)
- Não vem mesmo, né?
(oh, Deus! Por favor, faça com que ele venha comigo!)
Ele balançou a cabeça negativamente.
- Então estou indo mesmo. - e continuei o caminho de volta. Talvez fosse pelo fato de ele ter me chamado de galinha, ou o seu jeito de ter imitado uma, eu o tivesse deixado lá. Odeio metáforas. Realmente foi difícil deixá-lo só. Mas sei que não suportaria mais um minuto ali. Era difícil de se explicar, mas aquele lugar me era psicologicamente nocivo. Nem tanto o lugar, mas o que estava naquele lugar, a carga negativa, o silêncio (olho), pois eu já tinha estado ali pelo menos duas dezenas de vezes e era a primeira vez que me sentia assim com relação à Arena. Aliás era a primeira vez que me sentia assim com relação a o que quer que fosse.
Comecei a correr como um louco. Talvez por medo, não sei. Desviava-me das árvores como um lince ou qualquer outro animal selvagem. Covardia ou não, eu me vi correndo para salvar a minha vida. Um medo inexplicável, pois afinal aquele olho poderia ser apenas parte da minha imaginação (ou poderia não ser). E de repente o caminho de volta parecia não querer me levar ao meu objetivo. Parecia a mim que eu estava percorrendo uma distância bem maior que o que tínhamos percorrido a pouco na ida. Parecia que meu objetivo, a estrada de terra, as casas, não chegava mais. Árvores e mais árvores, cada uma passava por mim com um zunido. Desviava-me de uma e outras dezenas apareciam em seguida. Comecei a me desesperar e um súbito lampejo atingiu minha mente como uma flecha. Eu havia caído numa armadilha. O bicho papão iria comer o menininho com seus dentes pútridos e pontiagudos, sua pele cinzenta e escorregadia e os papais do pobre menininho achando que ele estava sendo evangelizado, comportando-se como estiveram esperando e só iriam desesperar com sua falta quando a noite já estivesse alta e eles descobrissem que, afinal, ele nem comparecera na evangelização. Nem ele nem seu inseparável amiguinho, cujos pais já estivessem preparando uma equipe de busca em meio às florestas que cercavam a cidade por todos os lados, até que chegassem ao...
Comecei a chorar e o choro saía junto com a respiração acelerada. "Calma Arley. Não se desespere à toa. Você se enganou, cara! O caminho é o mesmo. Você simplesmente está neurado". Pensei, querendo realmente acreditar e uma coisa que eu havia lido não sei onde (devia ser na bíblia. É claro, afinal é um salmo famoso) veio em minha mente e eu comecei a murmurar, com os lábios trêmulos.
- "Ainda que eu ande pelas sombras do vale da morte, não temerei porq..."
E de repente o caminho aberto saltou em minha frente, do meio das árvores. Estava eu novamente sobre a estrada de terra batida.
- Graças a Deus!
Ainda corria e continuei correndo até que a estrada de paralelepípedos atingiu meus pés. Então parei, exausto, sentando-me no chão, colocando a cabeça entre as pernas para respirar melhor.
Com uma rápida virada de cabeça, olhei o horizonte atrás. A floresta ainda que bastante iluminada pela luz do sol me pareceu naquele momento imensamente assustadora. E se Marco Túlio se demorasse, não era eu quem iria me embrenhar novamente pelo eucaliptal atrás dele. Não mesmo.
Fiquei ali algum tempo para recuperar o fôlego e logo depois segui para a sorveteria de uma praça que Marco Túlio e eu costumávamos ir sempre. Paguei por um sorvete de limão e fiquei sentado em um dos muitos bancos de cimento que por ali havia, rezando para que meu amigo apontasse no fim da rua. Era de se esperar que, como eu, ele não desse o vacilo de ir parar em casa naquela hora. Assim seria evidente que não teríamos comparecido na evangelização. Assim sendo, o único lugar que sobrava, que eu me lembrava, seria exatamente onde eu estava. O nosso point.
Mas Marco não apareceu, e quando o sol já estava começando a ficar ligeiramente avermelhado, resolvi voltar pra casa. Caminhei pelas ruas com um aperto no coração.
Chegando em casa, subi direto para meu quarto e fiquei por lá o restante do dia. Fiquei algum tempo olhando pela janela de meu quarto a rodovia, até que o sol se tornasse um círculo vermelho sumindo no horizonte. Depois, arrumei a minha cama e mergulhei nela, completamente sem sono ou ao menos vontade de me deitar. Apenas não estava também com vontade de ficar fazendo outra coisa, e a cama me pareceu algo mais plausível.
Desci por volta de nove e meia da noite, quando senti fome e resolvi assaltar a geladeira. Mamãe e papai ainda estavam acordados, assistindo a um filme qualquer, rindo algumas vezes. Como era bom vê-los assim, unidos. Sem despregar os olhos da TV, mamãe perguntou-me se eu estava bem. Afinal desde que eu cheguei de tarde estava trancado em meu quarto.
- Sim estou bem. - respondi, com voz arrastada. - Só com um pouco de dor de cabeça. Mas já tomei um Tilenol.
- Então não fique por aqui fazendo hora, rapazinho. - disse papai, carinhosamente. - Suba para seu quarto e trate de dormir.
- Ok! Boa noite então.
- Boa noite. Durma com os anjos. - responderam.
Em parte, obedeci.
Subi para o meu quarto, passei o trinco na porta e voltei a deitar-me, mas não consegui pregar os olhos. Ficava pensando em Marco Túlio sozinho naquela floresta. A imagem daquele olho vinha em minha mente como um filme velho em preto e branco. E se eu fechasse os olhos a imagem vinha ainda mais nítida. Por volta de onze horas, escutei a porta do quarto dos meus pais ser fechada.
Por mais que eu forçasse o sono ele não chegava. Nem que eu contasse mil carneirinhos. Li a algum tempo atrás um artigo numa revista daquelas que a gente lê em consultórios dentários (que geralmente não têm nada a ver com assuntos dentários) que o nosso cérebro age da seguinte maneira: o lado direito lida com a emoção e o lado esquerdo com a razão. Naquela noite o lado direito estava nocauteando o esquerdo. E ficou assim por bastante tempo. Até que de repente me veio à mente que talvez eu estivesse me preocupando à toa. Ora! Eu não estava usando a razão. Se Marco Túlio ainda estivesse lá naquele lugar ou em qualquer outro que fosse, em apuros ou não, e ainda não tivesse dado sinal de vida, como um telefonema ou um recado ao menos, era óbvio que eu seria a primeira pessoa a quem seus pais viriam procurar. Claro, Arley, seu burro! Vocês dois são como unha e carne, não é assim que todos dizem?
Mas ainda assim o sono não vinha.
Levantei-me e fui novamente para a janela. Já era tarde, aproximadamente duas da manhã. O cenário que eu via era o de uma cidade fantasma, exceto talvez pela pouca iluminação. Nenhum carro ou pessoa. Nada. Apenas os postes de luz de mercúrio jogando sua luz amarelada ao longo de toda a rodovia, tornando tudo ainda mais fantasmagórico. Luzes de mercúrio. Uma grande idéia do Sr prefeito Arnaldo Lima. Iluminava bem e não atraía aqueles mosquitos que são atraídos pela luz, especialmente em noites (ou madrugadas) quentes como aquela. As luzes amarelas eram a única coisa que iluminava a silenciosa rodovia até se perder no horizonte, naquela noite sem lua. Nenhum farol de carro, nenhuma casa...nada.
Foi então que, olhando melhor (talvez tivesse passado antes despercebido pelos meus olhos, ou talvez nem fosse real) eu vi algo embaixo do terceiro poste de luz a contar a partir do que ficava em frente à cerca do meu quintal, a uns 150 metros. Parecia um homem. Estava acenando pra mim. Meu coração deu um pulo e eu senti uma ânsia de vômito por causa do susto. Apertei os olhos até que fossem duas pequenas fendas em meu rosto. Minha miopia não me permitia uma melhor visão. Automaticamente, sem tirar os olhos da estrada, tateei a penteadeira ao lado da janela em busca de meus óculos usados somente em condições excepcionais.
Pude ver melhor então. Era um palhaço. Acenava, parado sobre seus pés, um saco alaranjado em uma mão, a outra estava livre.
Puxei a cortina e me escondi atras dela, mas continuei olhando. Um gemido leve e desproposital brotou de minha garganta e tive a imensa certeza de que eu iria começar a chorar de medo. Ele começou a andar, a vir em direção de minha casa. Vinha pela faixa lateral da rodovia. Andava lentamente, de um jeito peculiar, como se estivesse pisando em ovos e não tirava os olhos da direção em que eu estava. Talvez estivesse me vendo, talvez não. Por algum tempo, tornou-se apenas um vulto irreconhecível, enquanto não estava sendo iluminado pela luz do poste. Quando a luz do próximo poste já o estava iluminando levemente, reparei que continuava olhando para mim de um jeito vidrado. Parou então em baixo do outro poste, já plenamente iluminado. Pude ver melhor. Continuava olhando pra mim, mas desta vez não acenava. Seus olhos eram amarelos, lacrimejantes e, por algum louco motivo, pareceu-me que passavam ódio e tristeza ao mesmo tempo. Em seu nariz, ao invés do tradicional nariz de palhaço, duas horrendas fendas, como se a muito tempo um nariz humano já tivesse existido ali. Começou a sorrir. Sorrir e acenar novamente. Oh, meu Deus! Pude ver, para meu desespero, seus dentes em forma de navalhas. Pontudos e tortos, como armadilhas para pegar animais selvagens. E sua mão era algo como garras. Dedos muito mais grossos do que dedos uma mão humana, e com as extremidades finas como seringas. Sua cabeleira laranjada parecia tentar ocultar em vão dezenas de ferimentos amarelo esverdeados que pareciam encobrir toda a cabeça.
Definitivamente aquela coisa não era humana. Nem mesmo era algo de Deus. A pintura no rosto (não sei se poderia chamar aquilo de rosto) e a roupa de palhaço não contribuía para amenizar a grotesca aparência. Pelo contrário, piorava. E aquela coisa acenava e sorria pra mim, como se fôssemos velhos conhecidos que não se viam a muito tempo.
A criatura ficou novamente séria e começou a caminhar na direção do próximo poste. O poste em frente à minha casa. Naquela hora, naquele exato momento, tive a nítida certeza de que o demônio estava ali, sorrindo para mim, com seu sorriso repulsivo, seu corpo personalizado sob a forma de um palhaço.
(Ora vejam só, caros espectadores, querida platéia! O demônio transformou-se agora numa fantasia infantil, embora ainda mantendo-se em seu grotesco formato primitivo por baixo de toda maquiagem. Com vocês, o palhaço Pipoca... também conhecido como Lúcifer, diabo, demônio, belzebu, tinhoso, capeta. Há, há, há! Realmente é muito engraçado, senhoras e senhores!)
Fechei a cortina com tanta violência que por pouco o trilho não se desprendeu da parede e caiu tudo no chão. Corri para a minha cama, percebendo que minhas pernas estavam todas molhadas de um líquido quente. Eu estava todo mijado. Molhei minhas calças de medo. Acho que não é vergonha uma criança de oito anos molhar as calças de vez em quando. Ainda mais com aquela aterradora visão. É compreensível para um adulto, quanto mais para uma criança. Eu tremia dos pés à cabeça e os pêlos de minha nuca estavam totalmente arrepiados. E eu acho que eu estava chorando também. Não estou bem certo se era choro ou gemido.
Agarrei às cegas a bíblia que estava no criado-mudo à direita de minha cama e comecei a rezar como um beato, encolhido sobre minha cama como um animal selvagem acuado. As palavras jorravam de minha boca numa velocidade tão alucinante, que devo ter rezado o Pai Nosso pelo menos três vezes em quinze segundos. Meus olhos estavam vidrados na janela. Eu apertava a bíblia com tanta força que se fosse um animalzinho que estivesse ali no momento, talvez já tivesse com os olhos esbugalhados e com as vísceras para fora do corpo. Mas era uma bíblia. E era engraçado que eu com apenas oito anos me apegava a certos simbolismos e que estes mesmos simbolismos me tiravam de enrascadas quase sempre. Talvez o simples ato de orar é que me tirasse destas enrascadas, mas a bíblia me dava mais coragem. Sei lá. Estas coisas a gente simplesmente faz, involuntariamente. Talvez fosse minha educação religiosa, talvez não.
Quando parei de murmurar todos aqueles Pai Nossos e comecei a tomar fôlego para começar a rezar a Ave Maria, escutei aquela canção que tinha escutado no Eucaliptal. A mesma marcha circense, monótona e triste. Era tão baixa naquele momento que julguei que fosse imaginação minha, que talvez eu nem estivesse ouvindo. Mas ouvia. E pelo volume parecia estar vindo de longe, trazida pelo vento ou coisa assim. Talvez, estivesse tocando no lugar onde o circo estava, no meio das árvores. O que era longe pra burro do lugar onde eu estava. Nem tanto pela distância, mas os obstáculos que o som tinha que transpor para chegar até mim. Mas estava chegando. Talvez estivesse sendo tocado numa altura aterradora no meio daqueles pés de eucalipto. E imaginei a cena daquele lugar onde estivéramos mais cedo, agora completamente escuro, as árvores contribuindo para deixar mais sombrio o ambiente, e aquele som ensurdecedor preenchendo tudo. Era arrepiante.
Aquilo foi o ápice pra mim. A música, a escuridão da madrugada engolindo tudo lá fora, e o palhaço lá embaixo, em frente à minha casa. Desmaiei com o pavor. Confesso que não deve ter sido um desmaio cinematográfico por eu já estar deitado. Simplesmente desmaiei. Talvez um subterfúgio cerebral para evitar uma visão mais aterradora.
Acordei somente pela manhã, com o sol iluminando meu quarto. Acordei agitado, como se os fatos daquela madrugada tivessem ocorrido há apenas cinco minutos. Embora a luz do sol me desse segurança, fiquei com medo de olhar pela janela. Mas olhei. Tudo estava como sempre fora. Como se tudo não tivesse passado de um sonho absurdo. Mas eu estava fedendo à urina, e minhas calças estavam ligeiramente úmidas. E meus óculos estavam em meu rosto. Arranquei-os e corri até a porta do meu quarto, tirando o trinco. Abri-a um pouco e enfiei a cabeça pela fresta. Ninguém estava acordado ainda. Devia ser umas sete horas, e sete horas da manhã de domingo em minha casa significava território livre. Eu poderia correr ao banheiro e me lavar sem que ninguém me questionasse sobre o porquê de eu ter mijado nas calças e não na cama.
E com isso encerro o relato de algo que aconteceu de mais estranho em toda a minha existência até hoje. Talvez o motivo maior para eu ter gastado tanto tempo tentando desvendar uns bloqueios psicológicos que me acometem desde a adolescência, em "grupos de amigos" que eu reluto em chamar de terapia. Ora, entenda você que não sou uma pessoa supersticiosa, nem muito menos acredito em qualquer história de fantasma que não seja essa. Sou um sujeito que poderiam chamar de "pé no chão", não é assim mesmo que dizem? Mas acho que mesmo caras assim tem direito de devanear algumas vezes, entende o que eu quero dizer? Tenho hoje meus trinta e dois anos, sou casado, tenho dois filhos, sou católico praticante, tenho um bom emprego de programador numa das maiores empresas de informática de Belo Horizonte, recebo em média três mil reais por mês, etc. Mas se me perguntarem se tem alguma coisa que me enoja, que me coloca realmente medo, eu responderei sem a maior sombra de dúvida: Sant'anna, minha terra natal. A cidade amaldiçoada. Onde coisas estranhas acontecem a todos. E como você bem sabe, as notícias dali não se espalham, ficam por lá mesmo, por algum motivo que não consigo saber. Você já parou para pensar nisso? Lá é como um mundo à parte. Quem é de fora, na maioria das vezes nunca ouviu falar a respeito de Sant'anna. Isolada de tudo e de todos, a cidade resiste ao tempo. Algo nela faz com que resista. Sei que você também já passou maus bocados naquele lugar maldito. Gostaria de conversar com você, já que isso é uma coisa que guardo desde minha infância. Talvez se eu contasse a alguém que já passou por coisas semelhantes, poderia ajudar-me a dormir novamente. A cumplicidade poderia ajudar-nos a tirar certos pesos da consciência.
Por favor, ligue-me. Aguardo ansioso.

Arley



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