CONSIDERAÇÕES SOBRE A CIVILIDADE NOS SERVIÇOS PÚBLICOS Alberto Santana
Sinceramente, essa é a coisa mais ridícula que qualquer pessoa possa ter pensado em escrever pra qualquer revista literária acadêmica de qualquer faculdade deste país horroroso. Mas o fato é que, por ser tão absurdo, sem pé nem cabeça e patético, pode vir a ser engraçado, ainda mais que foi fato notório e, portanto, é sempre bem-vinda uma nova abordagem a respeito. Agora, que é ridículo, com certeza, é. É tragicômico, mais cômico que trágico, absurdo e impensável, mas aconteceu. Acho que deve ter sido a maneira mais efetiva de fazer valer os princípios do direito administrativo, vou te contar!
Primeiro, deve-se começar pela irrealidade estapafúrdia do começo daquela manhã de pandemônio. Você acreditaria numa coincidência de faltas entre todos os alunos de uma comunidade acadêmica, a ausência total do corpo discente em um dia útil, uma segunda-feira em que não havia greve em curso, reunião de departamento, reunião de colegiado, evento paralelo acontecendo em outra parte da cidade pra concentrar o pessoal, absolutamente nenhuma justificativa pra que, às 8:00 da manha, ainda nem um único aluno tivesse passado pela porta de entrada do prédio? É claro que não, eu também não acreditaria. Mas foi exatamente isso que aconteceu! E, passada mais de uma hora do horário de inicio das aulas, naquele dia ninguém tinha estado presente pra assistir nenhuma delas! Você tinha os professores, sem entender nada, lógico, vagando de um lado pro outro perplexos, as moças da cantina meio inquietas olhando pras cadeiras desertas pensando que deviam ter acordado naquele dia em outra dimensão... e os funcionários vagamente surpresos, embora não tristonhos, isso eu posso dizer, por causa do deserto que estava a faculdade.
Bem, você há de concordar que foi uma situação estranhíssima e que todo mundo deve ter pensado que tinha esquecido alguma coisa de que não conseguia lembrar, por estarem presentes ali enquanto a falta de público pras aulas sem pé nem cabeça ministradas ordinariamente era absoluta. Entretanto, passado um primeiro momento, o que é que se delineia mais claramente na mente de qualquer pessoa minimamente inteligente? Que a coisa toda foi planejada! É obvio! Um complô do corpo discente como protesto à enxurrada de estupidez bestial ao qual era submetido todo santo dia dentro daquelas paredes, talvez, uma deliberação escrota de algum grupo político presente no dia-dia da faculdade, um ataque as instituições tradicionais! Com os corredores desertos, ouvindo somente o som dos próprios passos e das próprias vozes ecoando na distancia, como é que aquelas pessoas poderiam não se sentir ofendidas, atacadas, deslocadas e abestalhadas, vitimas de um truque sujo, uma destruidora, irracional, ofensiva greve estudantil relâmpago?
Imaginou o cenário no qual se deu a seqüência de acontecimentos que culminou naquela orgia de animalidades da qual, no fim das contas, todos fomos vitimas? Pois você ainda não viu nada.
No momento em que os dois primeiros carros não pertencentes a um docente desceram da Graça pro estacionamento e ali pararam sob a sombra das árvores, tínhamos, na porta da frente do prédio, três pessoas de pé olhando pra fora procurando alguma explicação possível pra estranheza e absurdo daquele começo de manhã, já que não tinham nenhuma idéia melhor e nem nada melhor pra fazer. Um jovem casal de professores inquietos testemunharam aquele abençoado sinal de vida lá fora, quando os dois carros chegaram ao pátio e pararam, já ansiosos pra verem conhecidos rostos seus e poderem perguntar pra eles que diabos era que estava acontecendo ali, acusadoramente, procurando reafirmar sua própria pretensa autoridade intelectual abalada pela peca que lhes foi pregada, dedo na cara, voz alterada e tudo mais. Ele, jovem, garboso e arrogante em sua postura austera, ela, gorducha, suína e rosada, inconsciente da própria aura de ridículo que emanava. Acompanhando-os, o porteiro.
Eles ficaram parados ali, olhando com atenção pra inquietante seqüência de eventos que se deu sob a sombra daquelas árvores, e ponha inquietante nisso.
Do primeiro carro saíram, pelas quatro portas, duas garotas da frente e três rapazes de trás. Todos eles vestindo-se com certa sofisticação, eles de camisa de terno e gravata, elas sérias e silenciosas, saltando e se ajeitando ali em pé rapidamente, tão engraçadinhos e bonitinhos quanto qualquer bichinho de pelúcia novo em folha, brancos, sadios, representantes da imbatível e indestrutível elite brasileira, emanando sucesso, dinheiro, conforto, estrelato! É sempre bom testemunhar a ascendência dessas pessoas, incute uma esperança em você, né? Em mim também. Todos estes cinco eram familiares aos professores mencionados, o que apaziguou-lhes os ânimos com a crença da volta da normalidade e da racionalidade, porém havia um toque de irrealidade que deve ter deixado-os ainda um pouco desconfortáveis. As duas garotas e os três rapazes usavam óculos escuros.
Do segundo carro, ao lado do outro e mais perto da árvore, de apenas duas portas, saíram primeiro os dois rapazes que estavam na frente, vestidos mais informalmente de jeans e pólo e três moças que estavam no banco de trás, também com roupas menos destacáveis, fazendo um agradável contra-peso estético aos cinco colegas que ocupavam o outro automóvel. Mas, repare só, nesse momento o toque de irrealidade começaria a parecer piegas e forçado, se isso fosse uma ficção; também este cinco acadêmicos estavam usando óculos escuros! Pros professores que as observavam, aquelas dez pessoas ficaram parecendo um conjunto de zumbis da contemporaneidade ou então saídas de Matrix, as lentes negras reluzindo sob o sol refletido no asfalto, deixando de parecerem uma mancha de continuidade real no esquisito da manhã e incorporando-se a esse esquisito. Credo!
Vamos prosseguir agora para o desenrolar dessa coisa aparentemente ilógica e fantasiosa que, bem ou mal, se deu no mundo dos fatos, e você ira percebendo que o nível do risível misturado com o patético vai crescendo cada vez mais. É interessante que você tenha que usar da suspensão de descrença pra acreditar em algo real, não acha?
Bom, aquelas cinco moças e aqueles cinco caras ficaram ali parados por um momento ao redor dos carros e não pareceram notar os três pares de olhos fixos neles dali da porta de entrada. De qualquer maneira, eles não corriam risco de serem incomodados ou abordados por aqueles dois professores nem muito menos pelo porteiro, pois estes se sentiram estranhamente intimidados por aquele grupo de pessoas com quem conviviam, pois uma aura de imprevisibilidade pairava sobre eles.
Deu-se o seguinte: enquanto a maioria dos dez ficava próximo, atentos aos arredores, observadores, vigilantes, quatro dos moços começaram alguma tarefa insondável no interior dos dois automóveis, dois em cada, inclinados para dentro deles, a parte superior do corpo introduzida pelas portas abertas, remexendo em algo invisível para quem estivesse de fora, com movimentos rápidos, furtivos, esguios, escorregadios e um pouco sinistros. Logo depois, o que aconteceu foi que estes quatro caras começaram a passar para a pessoa que estava mais próxima a cada um deles alguns objetos não identificáveis de imediato, que por sua vez compartilhava-os, de mão em mão, com os outros presentes. Após cerca de meio minuto, cada um dos dez parecia estar munido de um ou dois objetos que segurava com decisão, animadamente, e foi então que o casal de professores e o porteiro puderam divisar precisamente o que eram aquelas coisas: longos e cinzentos canos de metal, com aparência velha e enferrujada e grandes martelos de carpintaria, de cabo de madeira escura e cabeças de ferro também sombrias e hostis.
Rapaz, tente se colocar no lugar desse jovem e arrogante docente e da suína e rosada advogada vendo aquilo. Tente pensar o que passou pela cabeça deles quando os rapazes e as moças começaram a fazer grandes círculos no ar com os martelos, fazendo-os sibilarem, testando seu peso ou, segurando um cano com a mão direita e batendo-o na palma aberta da mão esquerda, testando sua manobrabilidade! Visualize aqueles jovens e decentes estudantes de direito fazendo-se parecer integrantes de alguma horda enlouquecida, portando instrumentos de agressão e violência junto com sua aparência empertigada de protótipos de juristas, junte com a insana falta generalizada do dia e você vai perceber porque o coração da gorduchinha ficou acelerado. De repente, parecia que tudo estava errado e fora do lugar.
Bom, o caso foi que, depois desses momentos de checagem de armas, o grupinho acadêmico-destruidor começou a atravessar o estacionamento, os olhos protegidos pelos dez pares de óculos escuros, os canos e martelos seguramente em mãos, os passos sem pressa, mas resolutos, aproximando-se da entrada do prédio sinistramente, parecendo muito intimidatórios e ameaçadores, mas de uma maneira estranhamente “civilizada” e “limpa”. À medida que chegavam mais perto, a porquinha humana parecia prestes a desfalecer nos braços do seu impenetrável colega, enquanto o porteiro se encolhia para a sua mesa, pois todos notaram que, de alguns dos malignos sorrisos de dentes arreganhados daquelas pessoas, filetes de saliva escorriam por sobre o queixo, animalmente, e eles não tinha preocupação em limpá-los. Quer coisa mais inquietante do que essa? Você terá.
O grupinho dos loucos sorridentes babões chegou até o vestíbulo da entrada da faculdade, deparando-se ali com os professores e o porteiro paralisados pelo caráter insólito dos seus integrantes, mudos, boquiabertos, olhos arregalados, compactamente juntos como se para proteger uns aos outros, no entanto todos nos sabemos que com esses três nada foi feito, o que torna desnecessário estender esse suspense cretino alem do já exposto. Como viemos a reconstituir depois, estas dez pessoas nenhuma atenção deram àqueles três seres surpresos que os viram chegar e armar-se, mas o que você não pode ter sabido com certeza é que o movimento grupal não diminuiu sua progressão nem demonstrou estar ciente da presença deles, entrando em seqüência pela porta e imediatamente dobrando a esquerda e subindo a rampa, como que animados por uma inteligência superior que os dominasse e comandasse e que mantivesse o foco de suas ações restrito apenas a seu único sangrento e mutilador objetivo, deixando os docentes referidos entregues à importância que sempre tiveram: nenhuma. E, olhe só, esta não parece uma narrativa enfeitada de um Cidade Alerta? Cada um faz o que pode!
Coloquemo-nos, então, em frente à inexorável subida das mãos armadas de canos e martelos e estremeçamos frente a dramaticidade do caminhar destes homicidas em início de carreira pelas rampas do prédio da faculdade; nada parecia detê-los na sua escalada para a orgia de violência a qual estavam dispostos concretizar, unidos pelo desejo do crime, agindo todos como um só ente inteligente, os passos sincronizados e pesados, os dedos apertando com prazer o frio do metal e a lisura da madeira, os olhos escondidos atrás das lentes pretas, os lábios as vezes se contorcendo para um lado e para o outro, as bocas deixando escapar vez por outra uma pequena risada gutural, tendo havido ate um momento em que faltou pouco pra que um dos rapazes se convencesse da sensatez de usar seu cano numa das próprias companheiras de ação, uma moça dona de uma voz insuportavelmente semelhante a de um desenho animado, excitado com a crueza do instinto despertado.
No primeiro andar, dois procuradores do estado, uma juíza e uma advogada viram a mini-horda sedenta de sangue começar a subir a rampa seguinte e, tão calados e surpresos quanto seus colegas no térreo, abstiveram-se de se dirigir a qualquer um deles ou de fazer qualquer comentário.
Saiba você que esse conjunto de atitudes me parece obscuro demais pra basear a explicação de que todos aqueles que estiveram presentes à faculdade naquela manhã tenham se recusado a fazer qualquer inferência no curso dos acontecimentos simplesmente por se sentirem intimidados, ameaçados, desprotegidos frente à latente agressividade armada daquele conjunto de pessoas! Podemos ate considerar que fosse impossível aos professores interferir na questão sem risco para a própria vida e saúde, mas como isso explica a ausência de qualquer identificação dos agressores, a falta de qualquer ação policial para o aprofundamento das investigações, o calar da mídia para além da manchete de jornal do dia seguinte, o silêncio opressivo que cobriu todas as implicações deste fato horrendo, sem manifestações por parte de quem quer que seja? Pode-se conceber algo assim? Não seria considerado viajante demais, se fosse ficção? A minha explicação é de que absolutamente todos estavam envolvidos, direta ou indiretamente, comissiva ou omissivamente na eliminação sumária que tomou parte na faculdade naquela manhã e que pensar de outra maneira é maluquice. Teoria da conspiração! O ponto de ruptura além do qual começa a surgir uma consciência coletiva, com todos os seus indivíduos componentes fixamente obcecados pela mesma idéia, atuantes em encobrir todos os reflexos anti-sociais do ato desejado pelo grupo. E, se você pensa que isso é cósmico e criativo demais, contraponha fatos que me contradigam, babaca.
O momento culminante, então. O auge da insanidade generalizada, o cume do pateticamente trágico, o fato, o evento. Chega o pelotão da morte ao segundo andar, terminando de subir a rampa e caminhando diretamente, sem perda de tempo, para o corredor. Desta vez não há ninguém presente para guardar a imagem dos dez escolhidos para a tarefa suja encaminhando-se para seu destino final, brandindo agora com fúria seus instrumentos de realização da vontade da maioria, emitindo sons estridentes e desconexos, contrastantes com a quietude com que andavam antes, acelerando o ritmo com selvagem prazer primitivo, sozinhos na paz quebrada do espaço anteriormente deserto.
Irromperam departamento adentro, quase se atropelando, gritando como os animais em que haviam se transformado, os canos e martelos antecedendo-os raivosamente, e será que eu ou você conseguiríamos nos colocar no lugar do apagado e nulo casal encarregado das tarefas administrativas departamentais desde o momento em que escutaram a bestialidade dos sons emitidos por aquelas pessoas até o segundo em que as mesmas apareceram naquela porta, adentraram o recinto trazendo o caos e a loucura e começaram a sua obra de destruição geral? Não acho que conseguiríamos! Aquelas pobres pessoas, marrentas e desprovidas de varias das noções de sociabilidade viram seu mundo ruir sobre si próprias em um ínfimo espaço de tempo, incapazes de reagirem e se defenderem.
Um dos rapazes, berrando, o rosto contorcido e vermelho de ódio, ergueu o pesado cano cinza que portava e atingiu com toda a força do corpo o balcão sobre o qual se assentavam alguns envelopes de provas, rachando-o e fazendo com que alguns deles caíssem no chão. Duas garotas histéricas, cada uma desajeitadamente sacudindo um cano e um martelo, golpearam a parte móvel da madeira para cima, fazendo-a subir e bater contra o balcão com um estrondo para que pudessem entrar, sendo seguidas das outras duas moças e outros três rapazes. Uma garota e dois dos caras, entretanto, preferiram pular o próprio balcão, aos trancos e barrancos, pisando e espalhando os envelopes marrons, sempre gritando incessantemente, todos vermelhos de tensão, parecendo prestes a se aproximarem de um ponto critico de ebulição e simplesmente explodir em pedaços.
A inexpressiva funcionária do departamento limitou-se a estremecer rapidamente com a entrada dos homicidas enlouquecidos. A novidade e a violência da situação eram tão novas e tão difíceis de serem apreendidas em sua totalidade que sua mente parecia ter parado de funcionar: ela se recolhia mais e mais para dentro de si mesma, estática, sentada atrás da mesa com o olhar parado e segurando alguns papéis. Seu colega de trabalho, semelhantemente, foi pego de surpresa no ato de datilografar, as mãos suspensas sobre o teclado da máquina, o rosto vago, os olhos vacilando por entre os alunos insanos, toda a sua cinzenta e mofada corpulência pesando-lhe, sua aparência de prisão de ventre humana parecendo mais adequada do que nunca.
Okei, até mesmo eu sou forcado a admitir que estas cenas, tivessem sido por nós presenciadas, não seriam total e completamente desagradáveis, pois cada um de nós, debaixo de um verniz de civilização e valores nobres, esconde um filho da mãe vingativo, primal, mesquinho e infantil. Entretanto, você não concordaria que, para os fins aos quais a maioria de nós consideraria esta conduta útil, o limite já não teria sido alcançado? Tudo bem, um agressivo e assustador protesto pela qualidade dos serviços oferecidos pela faculdade, uma enfática demonstração da necessidade da reciclagem dos funcionários! Porem, para os autores do fato, teve-se que ir ate o fim, exaurir as conseqüências da retribuição, satisfazer o instinto tribal dentro de si, consumando a perversidade e a covardia da agressão a um por parte de muitos.
O mesmo rapaz que havia metido o cano de metal na clara madeira do balcão avançou para o seboso funcionário do departamento e repetiu o ato usando o crânio do homem como objeto. Ergueu, sem parar de babar e berrar, o pesado e frio cano sobre a própria cabeça, e baixou-o com prazer sobre a cabeça do servidor a sua frente, sentindo o impacto do metal contra o osso suficiente para quebrá-lo e causar-lhe um afundamento instantâneo. A vitima gritou brevemente e silenciou, cerrando os olhos com força, os braços movendo-se para cima com rapidez e depois caindo sobre a maquina, o sangue espirrando para cima desordenadamente e, mal tendo a face do agredido aterrisado sobre a arcaica maquina de escrever, a garota que preferiu pular o balcão meteu-lhe o martelo sobre a nuca, também bradando com a intensa gratificação que isso pareceu lhe dar, ouvindo-se um estalo abafado provindo do pescoço que não suportou a força com que foi atingido.
Concomitantemente, três garotas e dois rapazes partiram pro ataque em massa à integridade física e a vida da outra moça, alternando gritos abstratos de ataque e exaltação da violência, gotas de saliva atravessando o ar, risos de escárnio e de vingança confundindo-se num inferno de braços e mãos que caíram sobre a mulher. Um dos rapazes ergueu o pé, não exatamente parecendo cônscio do que fazia e chutou, com uma exclamação de triunfo, o flanco da servidora, a sola áspera do sapato enterrando-se no lado do abdômen dela. Pedindo socorro, o desespero na voz, caiu a pobre no chão, os óculos voando pela sala, o cabelo subitamente desgrenhado e solto pelo impacto com o piso, as mãos procurando agarrar-se a não se sabe o quê, as feições deformadas pelo pavor! Uma das alunas martelou-lhe o braço, partindo-lhe o cotovelo, fazendo o membro pender de forma bizarra sobre o corpo da vitimada, enquanto o segundo rapaz pisava-lhe o pescoço, mantendo a cabeça estática e partindo os dentes da coitada num único vibrar do cano de metal.
A cena descrita, que nós apenas podemos imaginar enquanto uma parte nossa quer desesperadamente rir com raiva para se impedir de pirar totalmente, foi composta de vozes irreconhecivelmente alteradas pelo vigor com que a força dos sucessivos golpes de cano e martelo afundavam nos corpos do casal de serventuários. Cinco deles tomavam para si a tarefa de destruir a possibilidade de vida naquele corpo feminino, rachando-lhe todos os ossos do corpo, lavando o assoalho do recinto com sangue fresco e quente, dentes e pedaços do couro cabeludo, os sapatos escorregando para longe de sua dona. Os outros cinco, numa democrática repartição de deveres, levavam a cabo o assassínio do homem-prisão-de-ventre e a agressão descontrolada a seu corpo inerte, tendo ironicamente, pela violência da primeira investida causado-lhe uma morte mais rápida e menos sofrida do que aquela pela qual passou sua companheira, coisa não intentada originalmente. Por isso, houve uma especial preocupação com o cadáver do funcionário obeso como forma de compensar a misericórdia a que não teria feito jus. Enquanto a moça foi deixada em paz logo após morrer, os cinco que dela cuidaram juntaram-se a seus co-autores na deterioração violenta do corpo do homem: a massa sem vida foi inumeramente atingida pelos canos que pressionavam-lhe a gordura e pelos martelos que lhe rasgaram a pele em quase toda sua extensão, atingindo de tal forma a cabeça que a coesão do crânio se perdeu e tecido do cérebro escapou pelas fendas da deformação monstruosa que se tornou o encéfalo e o rosto da vitima. À luz da manhã que entrava pelas janelas, pareciam pedaços de isopor.
E, assim, a estupidez involutiva da pena de morte sentenciada e executada pelos particulares prevaleceu na faculdade de direito. Tudo isso porque alguém não dava bom-dia, porque notas que deveriam estar nos murais não estavam e mesmo assim eram assumidas como estando, porque provas desapareciam de dentro de envelopes, porque a cortesia não era uma das determinantes no trato entre funcionário departamental e alunado. Percebe a falta de correspondência entre a punição e o “crime”? Percebe o ridículo e a mesquinhez do fato ocorrido, porque, para se preservar a integridade da mente, a primeira reação é o riso descontrolado e irrefreável?
E, como todos temos conhecimento, nenhum dos alunos perpetradores do fato foi identificado. Ninguém se dispôs a dedar-lhes as identidades, ninguém prestou o serviço a justiça de apontar os criminosos, nenhuma voz se levantou no silêncio. Se você não optar pela idéia da consciência grupal geradora da omissiva participação de todos no desejo comum do duplo homicídio, a única alternativa é crer no medo da repetição dos mesmos fatos com aqueles que lhes tivessem denunciado como justificativa para a ausência de providencias jurisdicionais a respeito. Mas e o silencio da mídia a respeito, como você explicaria? Estou curioso pra saber algumas hipóteses que você possa ter formulado.
O apêndice que resta ser formulado é, justamente, aquele sobre a parte mais horripilante e mais chamativa daquela manhã infernal na faculdade de direito, aquele sobre a imagem estampada nas manchetes dos jornais do dia seguinte de forma oblíqua e dissimulada por ser muito chocante: uma foto que parecia uma pintura de arte moderna, devido aos recursos usados para torná-la digerível à vista.
Após o momento de entrega irracional ao frenético desejo homicida, pouca coisa alguém sabe sobre o comportamento dos assassinos depois de consumarem o seu crime e isso não vou me alongar em tentar reconstruir para você. Os professores e outros funcionários, aterrorizados, haviam abandonado o prédio e seguido para longe em seus carros, não tomando nenhuma atitude para alertar a polícia sobre o que tinha acontecido, o que contribui para a minha teoria da conspiração.
O corpo da mulher foi encontrado no mesmo lugar em que se deu a morte, muito danificado, jogado contra a junção da parede e do chão ensangüentados do departamento. De lá, porem saia o rastro grosso e seco de mais sangue escurecido, atravessando o corredor, seguindo para a rampa, descendo pelas duas ate o térreo, saindo para o asfalto ensolarado e levando ao corpo do homem que foi arrastado para fora pela força de não se sabe quantos dos acadêmicos destruidores, enfiado em uma longuíssima estaca de madeira cuja origem não foi descoberta, empalado nela e erguido junto à maior das árvores do estacionamento. Ali ele ficou, completamente nu, mal lembrando um ser humano, muito mutilado e irreconhecível, coberto de moscas vorazes. Seus olhos haviam sido arrancados.
E foi essa a imagem que restou da ensandecida manhã da faculdade de direito. Portanto, preocupe-se em ser gentil e cortês com os seus colegas. Se você for professor, com os seus alunos. Se você for funcionário, com aqueles que precisarem de seus serviços. Ou você gostaria de correr o risco?
Sorria. Ou morra.
betodabahia@hotmail.com
|