CONTO COLETIVO BOCA DO INFERNO
TEMA: MORTOS-VIVOS
CAPÍTULO 1: Quem é Johnny? Futilidades que merecem a morte
Filipe Pereira Lara
Era quase meio dia. Luiz, como sempre, acordava pouco antes de sua mãe chegar do trabalho e desta vez não foi diferente. Com seu cabelo todo desarrumado, levantou-se da cama e, ainda de cuecas, apanhou uma bermuda e a vestiu. Sabia que teria que ouvir outro sermão de sua mãe, pois como sempre nunca conseguira acordar antes e fazer o que ela sempre lhe pedira: preparar o almoço. Depois de algumas broncas, almoçou com suas 2 irmãs e sua mãe e foi tomar seu banho, já pensando que teria um longo caminho para a faculdade. O jovem era extremamente anti social: odiava se relacionar com as pessoas, consideradas, em sua maioria, fúteis e sem nada a lhe acrescentar. Preferia ficar com seu vasto acervo de livros e CDs, desperdiçando horas no cultivo de sua inteligência. Quando chegou na faculdade, assistiu suas 2 aulas como todos os dias da semana o faz desde que passou no vestibular de Filosofia, partiu então em direção à parada de ônibus e em seguida para sua residência. No ônibus, sempre se sentava nos bancos do fundo, onde ouvia conversas sobre mulheres, valores e criticava mentalmente o que via. Mas, neste dia, algo seria diferente:
----- Hum! Será que só sabem falar disso? - aquela discussão sobre qual atriz da novela das oito era mais gostosa havia despertado suas cordas vocais num impulso quase incontrolável. Uma breve pausa se instalou no ambiente.
----- Concordo com você, se morressem não fariam falta alguma, não acha?
Luiz levou um grande susto, já que não havia ninguém que estivesse sentado ao seu lado naquele exato momento. Ao se dirigir à voz que o atraiu, viu uma figura robusta ao seu lado. Concordou com a cabeça e disse com orgulho:
----- Com certeza!
----- São como porcos que só dizem oinc, oinc em seu mundinho fútil como o chiqueiro, esperando o abate! Não acha?!
----- Interessante essa sua colocação.
Prosseguiram a viagem, e de lá até o destino falaram sobre vários assuntos. Luiz achou o cara um pouco estranho, mas suas idéias iam de acordo com seu novo amigo. Trocaram telefones e se despediram em direção a suas respectivas residências.
Sexta feira, 22:30. Luiz estava em sua sala de aula quando se deparou com Johnny, o rapaz que conhecera no ônibus.
----- Vamos tomar uma cerva?
----- Como você sabe que estudo aqui?!
----- Sua mochila me disse. - riu Johnny.
----- Hum hum. Concordou com a cabeça olhando para o símbolo da faculdade na mochila.
-----Vamos sim, mas ficaremos pouco tempo, ok? Tenho que terminar algo em casa.
Johnny concordou com um gesto e os 2 seguiram para um bar aparentemente vazio onde rolava um som aconchegante de MPB. Conversaram como fizeram no ônibus, mas agora como se fossem velhos conhecidos. Já era mais de meia-noite, quando chegou um casal de namorados em um carro barulhento, deixando evidente músicas que Luiz e Johnny consideravam um lixo: axé, pagode, entre outros ritmos variavam na estação do carro do casal. Johnny interrompeu.
----- Pode parar com esse lixo cultural fazendo o favor?
----- Não vou não, mermão, quer encarar!? - Falou o brutamontes em sinal de briga
----- Tudo bem, tudo bem, sem problemas.
Johnny se dirigiu a mesa, enquanto o cara ficava fitando-o . Mais tarde o homem de péssimo gosto foi ao banheiro e companhia do que deveria ser sua namorada.
----- Vou ao banheiro! - Disse Johnny.
----- Tudo bem, espero aqui. - Luiz respondeu, dando um último gole na cerveja.
----- Mas antes preciso de um favor seu.
----- Fale então, amigo?
----- Preciso de um lugar pra passar um tempo, posso ficar na sua casa?
Luiz pensou um pouco, sabia que o conhecera há pouco tempo, mas, sem saber o motivo, concordou com a possibilidade de levá-lo para casa. Poderia perguntar o motivo de tal atitude, porém preferiu que aquela noite não era adequada.
----- Claro, pode sim. - Respondeu Luiz sorrindo.
----- Ok, então vou ao banheiro e volto para irmos embora.
Johnny se dirigiu ao banheiro masculino, chegando lá observou o proprietário do carro mijando, e soltou uma pequena ironia ofensiva:
----- Falta de cultura pra cuspir na estrutura!
----- Você de novo, seu merda! Vou lhe ensinar uma coisa!
Partiu para cima de Johnny o enorme gorila, inicialmente partiria ele em 2, mas Johnny o dominou facilmente, mesmo com seu porte físico mediano. Uma força incontrolável se apossou dele, fazendo com que ele manejasse o brutamontes como se fosse um boneco. Puxou-o pela gola, empurrou-o para o cubículo do banheiro e passou a navalha em sua garganta. O movimento foi tão rápido que nem chamou a atenção dos clientes do bar. Johnny foi até a porta do banheiro feminino, deu de cara com a namorada do brutamontes, tapou sua boca e passou lentamente a navalha em seu pescoço. Empurrou o corpo ensangüentado da jovem para o sanitário masculino, despejando-o juntamente com sua outra vítima. Passado alguns minutos, Johnny chegou à mesa.
----- Vamos então? Já paguei a conta.
----- Ok.
Seguiram o caminho até a casa de Luiz, onde sua mãe já o esperava no portão.
----- Chegou tarde, hein, filho?
Luiz observou o quintal de sua casa e lá se encontrava além de sua cadela chamada Antera, um vira latas de cor preta.
----- Quem é esse mãe? - Perguntou Luiz
----- Adotei ele por uns tempos. Ele está com a patinha machucada.
----- E bem típico da senhora mesmo, adora animais, ainda mais quando estão enfermos.
----- Não dei nome à ele ainda, você quer dar? - disse a senhora com aparência amigável.
----- Que tal "Johnny"? - Comentou o rapaz de mesmo nome.
Luiz achou a atitude de Johnny meio estranha, mesmo assim sugeriu à sua mãe.
----- Que tal "Johnny"? - repetiu as palavras do amigo.
----- Ótimo! Agora entre para dentro, você precisa descansar!
Os dois estavam bastante cansados, já que Luiz até esquecera de apresentar Johnny à sua mãe. Adormeceram.. Mais uma manhã se fez, Luiz acordou no horário de costume, desceu para a cozinha e se deparou com o jornal em cima da mesa do café. Observou a primeira página, onde podia ser visto dois corpos nus e degolados, um sobre o outro, numa posição sexual. Virou as páginas em direção a matéria e leu fazendo uso de sua técnica de leitura dinâmica. Após ler a respeito, ficou horrorizado: nunca vira uma foto tão horrenda em um jornal de fácil acesso ao público. O local do crime ocorrera no mesmo bar em que estava com seu amigo. Sentia que sua vida estava prestes a sofrer uma mudança realmente radical. Nesse mesmo instante ouviu os passos de Johnny pelos degraus da escada.
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filipe_myers@yahoo.com.br
Revisão e Edição: Marcelo Milici
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