CONTO COLETIVO BOCA DO INFERNO
TEMA: MORTOS-VIVOS

CAPÍTULO 2: Junte-se a Nós!

Gênesis Cardoso da Cruz


- Você lê essa merda apelativa? - Perguntou Johnny, ao se aproximar de Luiz.
- Você não lê jornais, Johnny?
- Eu me interesso por materiais mais subversivos, se é que você me entende.
Johnny lançou um olhar um tanto perturbador para Luiz que o deixou meio desnorteado. Ele pegou o jornal e mostrou para Johnny tentando se recuperar.
- Veja isto! Não são aqueles dois que estavam no bar ontem?
- São eles. Tiveram o que mereciam, não acha?
- Mas você não se sente meio incomo....
- Estou a fim de tomar um banho - interrompeu Johnny - Posso utilizar o banheiro do seu quarto?
- Pode, mas cuidado para não molhar o chão, minha mãe odeia quando eu saio molhado, e toma cuidado para não deixar a . - Luiz se virou mas Johnny não estava mais ali, ele escutou o barulho do chuveiro ligado, correu para o seu quarto para esperar o estranho novo amigo.
Enquanto ele aguardava seus pensamentos corriam a mil por hora. Será que fez certo ao trazer um estranho para casa? Quem será está pessoa? Afinal não conhecia nada sobre ela. Por que se sentia tão atraído pela sua presença? O chuveiro se desligou. Johnny saiu enrolado em uma toalha na cintura. Quando se virou para pegar sua camiseta na cadeira, Luiz avistou uma enorme tatuagem em suas costas, uma palavra, escrita em letras garrafais, "BAALLBERITH".
- O que é "Baallberith"? - Perguntou Luiz, vencido pela curiosidade.
- Calma, rapaz! Você logo saberá.
- Como assim? Não entendi.
- Ah! Que fome! Vamos tomar café.
Depois do café, eles foram assistir televisão. Estava passando um filme curioso, mas os dois estavam apenas olhando para a tela sem muito interesse.
- Que porra é essa que está passando?
- É um filme sobre um médico que cuida de crianças, não me lembro bem do nome agora. Você nunca assistiu, Johnny?
- Tira dessa bosta.
Trocando de canal, encontram um filme de zumbi passando, exatamente na cena onde um desses mortos-vivos atravessa a barriga de um rapaz com as mãos e todos os seus órgãos internos caem para fora, enquanto isto uma moça arranca pedaços de seu rosto diante de um espelho.
- Agora sim está bom! Você acredita em zumbis, Luiz?
- Claro que não cara, eu não tenho mais 8 anos de idade.
- Você está feliz com a vida que você leva?
- O que isso tem a ver com os zumbis, Johnny? Se tá viajando cara, você não puxou fumo aqui dentro da minha casa, né? Se minha mãe descobre uma coisa dessa ela me deserda.
- Há, há, há! Não é nada disto, vamos conversar sério. Você não tem muitos amigos, não é?
- É, é verdade! Eu prefiro meus livros, meus Cd's, meus filmes. Eu não preciso de amigos.
- Mas mesmo assim, você odeia estas pessoas não odeia? Essas mentes pobres e sem cultura de pessoas que se influenciam por qualquer porcaria, qualquer merda que jogam para elas. Lixos que consomem suas cabeças e as deixam em estado hipnótico. Mas elas não percebem, consomem cada vez mais este lixo, pensando que são felizes, mas na verdade são escravas. Elas são dominadas, dia a dia, sem descanso, por músicas pobres e programas de TV que não acrescentam nada, apenas as fazem mais burras. Este é o mundo que você quer para você? Este não é o mundo que eu quero para mim.
Luiz o olhava com cara de total espanto, apenas o encarando.
- Cara! Isto foi a coisa mais linda que eu já ouvi alguém dizer. - Disse Luiz ao término do discurso de Johnny.
- Presta atenção, Luiz! Essas pessoas já são zumbis e não sabem. As mentes delas já não raciocinam como a minha ou a sua. Elas são produtos de um sistema, não são mais seres-humanos, são zumbis, com a diferença que seus corações ainda batem.
- Você está totalmente certo! - Concordou Luiz sorrindo.
- Pessoas como nós são raras, o mundo está perdido e nós temos que fazer alguma coisa.
- Você está certo de novo cara! - Concordou Luiz esbravejando.
- E eu sei como controlar esses zumbis.
- Você está cer... Como é que é? - Perguntou Luiz, agora assustado.
- É isto mesmo que você ouviu. Eu tenho como controlá-los. Mas nós precisamos de ajuda, não vamos conseguir sozinhos. Eu fui levado até você Ele sabia que havia pessoas como eu, me convenceu a te encontrar, me convenceu a encontrar cada um de nós. Eu sei que você não suporta esses zumbis tanto quanto eu não suporto. Por isto eu te peço. Junte-se a nós!
Luiz estava sem palavras, o que mais o estava incomodando é que tudo falado por Johnny tinha sentido. Ele acreditava naquelas palavras, como algum tipo de força que ele não compreendia o fazia concordar com tudo.
- Mas como assim controla-los? Quem é Ele?
- Você pode comanda-los, ordenar que eles façam coisas para você, ser o líder destas imundices. E sobre Ele, bom, você vai conhece-lo. Se troque, coloque uma roupa leve, fácil de tirar. Vamos ao seu encontro.
Enquanto caminhavam até o local onde se encontraria com o tal "Ele", Luiz começou a pensar como poderia ser bom ter um poder desses em mãos. Fazer com que as pessoas trabalhassem para ele, preparando o almoço que sua mãe sempre o obrigava a fazer. Mas o que mais ele pensava eram nas mulheres: elas iam poder fazer com ele tudo aquilo que ele via na internet e em suas revistas proibidas escondidas embaixo da cama. Luiz nunca teve uma vida social, nunca teve amigos e, como já era de se esperar, nunca teve uma namorada. O máximo de contato que teve com uma mulher foi quando tomava banho junto com sua irmã, em seus tenros 10 anos idade. Eles começaram a brincar um com o outro, mas brincar de uma maneira diferente, gostosa, algo que ele se lembraria até hoje. Ele lembrava bem das diferenças no corpo de sua irmãzinha, diferenças essas que ele iria ver anos depois, apenas em fotos. Este fato era algo que ele nunca esquecera, mesmo com a surra que levou quando sua mãe entrou no banheiro e flagrou os dois. O prazer foi mais forte que a dor, mas sua irmã nunca mais quis tomar banho com ele.
Luiz estava tão envolto em seus pensamentos que não notou que já haviam chegado ao tal lugar, um tipo de caverna dentro de um morro alto, bem afastado da cidade. Luiz já ouvira falar que por ali eram executados rituais de magia negra, mas ele nunca acreditou nisso:
- Você vai fazer o seguinte - disse Johnny, fazendo com que Luiz voltasse seus pensamentos para esse planeta - você vai entrar nesta caverna, no fim do corredor você vai encontrar duas salas, entre na sala da esquerda, mas tem que ser na da esquerda, nem pense em olhar na sala da direita. Lá você vai encontrar um tipo de altar, ajoelhe-se diante dele pegue o sangue....
- Sangue???????
- Isto mesmo, sangue! Eu não disse que seria fácil! Para o que queremos, teremos que ser fortes. Lembre-se! As recompensas serão maiores que o seu sacrifício. Não foi fácil chegar até aqui. Lembra daquelas duas antas que apareceram no jornal?
- Sim.
- Pois então. Foi eu que as matei, eu as matei para Ele. E elas estão aí dentro. Um outro membro da nossa revolução os deixou aí dentro. Você chegou até aqui, quer continuar?
Johnny olhou para Luiz com uma cara psicótica que ele jamais vira.
- Si-si-imm!
Luiz estava mais com medo do que com vontade de fazer aquilo.
- Como eu estava dizendo. Pegue o sangue, molhe os dedos e passe em sua testa, depois tire sua roupa e derrame o sangue encima de você, levante-se e agradeça, prostrando-se diante dele.
- Eu não preciso dizer nenhuma palavra encantada ou algo assim?
- Há, há, há! Você pensa que isto aqui é o que? Algum filme de televisão. Vá logo. Mas lembre-se, não entre na sala da direita. Mesmo borrando o shorts de medo, Luiz entrou. Ao chegar ao fim de um grande corredor ele encontrou duas salas.
- Qual que eu tinha que entrar mesmo? Cacete! Por quê eu não prestei atenção no que aquele maluco disse. Que se foda, vou entrar em qualquer uma, provavelmente não vou encontrar nada. Cara maluco da porra!
Luiz entrou na sala da direita. Olhou em volta. Verificou que as paredes estava repletas de símbolos estranhos, pintados de vermelho, um vermelho escuro, parecido com sangue, mas ele duvidava que fosse sangue. No chão, em certas partes, a impressão que se tinha é que a terra tinha sido cavada. Foi quando ele avistou no centro uma espécie de mesa, em cima desta mesa o corpo de uma mulher, nua. Ele queria sair correndo dali, mas seu corpo não o obedecia, apenas o que ele podia fazer era caminhar até aquela moça.
Ao se aproximar ele constatou que ela estava morta, fora degolada e deixada ali, sua pele estava amarela e tinha manchas roxas, sua boca estava semi-aberta e seus lábios estavam azulados, em seu ventre estava escrita a palavra "Baallberith".
Luiz não podia evitar, estava atraído pelo cadáver. Ele começou a passar suas mãos pelo corpo da moça, até chegar em suas partes baixas. Ele introduziu um dedo e em seguida o levou até o nariz. O cheiro lembrava bastante o de sua irmã, aquele cheiro ele nunca esquecera, agora porém, estava mais acentuado, forte, como um bom vinho envelhecido.
Não se contendo Luiz subiu a mesa e possuiu aquele corpo inerte. Quando se deu por si já havia consumado o ato. Foi então que ele ouviu uma voz gutural.
- Você profanou o que era meu de direito! Agora todos irão pagar!
Ao olhar para a moça embaixo de seu corpo, ele percebeu um movimento de sua boca. Seus olhos se abriram e com uma força descomunal empurrou Luiz, que, literalmente, voou contra a parede.
Quando conseguiu se levantar, ele percebeu que os locais que aparentavam que haviam sido cavados, começaram a se mexer.
A moça caminhava lentamente em direção de Luiz, sua expressão era de desespero, seus olhos não tinham brilho, mas ela andava e chegava cada vez mais perto.
A única coisa que ele podia fazer era correr. Estava quase alcançando a saída quando uma mão saiu do chão e lhe agarrou o tornozelo. Era uma mão putrefata, com pedaços de carne se desprendendo, deixando a mostra partes do osso. Sem pensar Luiz começou a chutar e aquela mão se separou do corpo embaixo da terra, mas mesmo assim continuou a apertar seu tornozelo.
Enquanto corria para a saída da caverna, Luiz só conseguia pensar em uma coisa:
- Quem diabos é "Baallberith"?


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genesis@bocadoinferno.com
Revisão e Edição: Marcelo Milici