CONTO COLETIVO BOCA DO INFERNO
TEMA: MORTOS-VIVOS

CAPÍTULO 3: Os Doze

Luciano Milici


"E o limpo se sujou e no terceiro dia
ninguém ressuscitou"

Fátima - Capital Inicial


Conheça a família Verbinski.
O calor obrigou Jonas a ligar o ar condicionado da van.
Seus filhos, Carlos e Luisa, estavam agitadíssimos, o que aumentava ainda mais a temperatura no veículo.
- Ai! Vai ficar frio assim! - reclamou Marta, esposa de Jonas, afagando seu cãozinho Gore.
Independente do calor e da reclamação da mulher, Jonas estava muito feliz e satisfeito por suas merecidas férias.
- Pai, você pegou o caminho errado! - alertou Carlos.
- Ah, filho, vai jogando carta com sua irmã e deixa o caminho para o papai - afirmou, convicto, Jonas, que estava completamente perdido!
Alguma curva errada, na estrada errada, levou a família à encosta daquele estranho morro com uma caverna na base.
- Pai, quantas cartas existem de cada naipe? - perguntou Carlos.
- Eu falei treze, pai, mas o burro do Carlinhos... - disse a irmã.
- As, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, valete, rainha e rei. Treze, filho! Sua irmã está certa!
- Então esse baralho tá doido! Aqui só tem doze de espadas...
Carlos esticou a mão para entregar o maço ao pai que, por sua vez, virou-se para trás apanhando o monte.
Marta, a mãe, gritou:
- Cuidaaadooo!
A van havia atropelado alguém.

Conheça o estranho.
Caminhando pela estrada, um homem grisalho, forte e de penetrantes olhos azuis notou um estranho movimento próximo ao morro.
Enquanto olhava, escutou um estampido surdo. Poderia ser um trovão, poderia ser um tiro.
Olhou para trás e viu dois ciclistas discutindo e andando. Pensou em assustá-los e, propositadamente, jogou seu corpo na direção de uma das bicicletas.
Os ciclistas se assustaram. O homem decidiu subir o morro e ver o que estava acontecendo próximo à caverna.

Conheça Max, Brenda e Fuinha.
Max fugiu da delegacia, pulou o muro do colégio em frente, pegou a moto estrategicamente deixada por Brenda no pátio e seguiu até a boate Vakonna's, onde a moça trabalha.
Brenda o esperava em frente ao bordel usando um levíssimo e curto vestido de verão que realçava suas curvas, sua pele branca e sua aparente e ilusória inocência.
Após um beijo ardente, a moça montou na garupa e perguntou:
- Cadê os capacetes?
Max sorriu, acendeu o cigarro e respondeu:
- Viver comigo é como andar de moto sem capacete, lembra?
- Eu pensei que era apenas força de expressão! - riu a doce meretriz.
Partiram no ronco da moto para encontrar Fuinha, o fornecedor.
Lá, ganhariam identidades falsas, drogas e todo o necessário para sumirem de vez da vida de crimes.

Conheça os irmãos Braga.
Roberto e Fabiano Braga, dois irmãos que mantém uma página na internet cujo tema é filmes de terror.
Desesperados com a baixa popularidade do "olhododiabo.com", os irmãos resolveram apelar e colocar matérias realísticas no site.
Algum tempo pesquisando foi o suficiente para encontrarem informação sobre a Caverna Vrykolaka, um local onde, dizem, eram realizados cultos demoníacos de necrofagia, necrofilia, reanimação de corpos mortos,etc.
Enquanto dirigiam-se ao local em bicicletas com sua parafernália fotográfica, brigavam:
- A gente tem que montar uma lista de discussão - disse Fabiano.
- Eu já tive experiências com isso! Só dá briga! - argumentou Roberto.
Ouviram um barulho que parecia um tiro. Ficaram em silêncio por minutos, pedalando.
Em seguida, a briga continuou.
A discussão tomava tanta atenção da dupla que quase atropelaram o estranho homem que caminhava na estrada e dirigia-se ao morro.
Foi quando viram, ao longe, uma moça no meio de três estranhas figuras. Todas correndo.
- O que é aquilo? Parecem pingüins gigantes!
- Vamos lá ver...

Conheça as Irmãs Virtudes.
Num fusca amarelo, quatro freiras viajavam quando viram uma menina correndo pela estrada, toda ensangüentada e chorando muito.
- Em nome de Deus e da Santa Cruz, o que é aquilo? - espantou-se Irmã Caridade, a mais velha das quatro freiras.
Forçando os olhos, Irmã Castidade, a segunda mais velha, que viajava no banco do passageiro, falou:
- Parece uma moça! Ela está desesperada! Vamos ajudá-la?
- Não! - exclamou a temerosa Irmã Temperança - o que acha, Fé?
Irmã Fé, a mais nova de todas, também era a mais quieta. Nada disse, apenas olhou para aquela pobre alma agitada na estrada.
Pararam e a moça histérica gritava:
- Corram, corram! Eles estão vindo!!!

*.*.*.*

Ao descerem da van, Jonas e a família foram ver o que haviam atropelado.
Era um homem magro, com camisa colorida e cheio de medalhas.
Jonas notou que o homem estava morto e procurou seus documentos, mas não encontrou uma identidade e sim várias. Também achou drogas, uma arma e um iôiô.
Nesse momento, Max chegou de moto com Brenda.
Ao ver seu amigo, Fuinha, morto, Max pegou sua arma e começou a gritar:
- Só volto para a cadeia morto! - obviamente imaginando que a polícia estivesse no local.
Antes que Jonas pudesse argumentar, Luiz saiu correndo da caverna, gritando.
Max o imobilizou, mas o jovem dizia coisas sem sentido:
- A morta, a mulher, Johnny, onde está? Porta errada! Zumbis...
As mulheres da família começaram a chorar ao verem o estranho rapaz ensandecido e o louco armado recém chegado na motocicleta. Estranhando a situação, Brenda pegou outra arma na moto.
Foi quando Marta notou:
- Onde está Gore? Cadê o meu cãozinho? - questionou em prantos.
Escutaram um latido vindo da caverna, depois um ganido de dor.
Gore surgiu em pedaços, estripado, cujos pedaços foram lançados no colo de Luisa, a filha do casal, sujando-a de sangue.
Assustada, Bruna atirou às cegas na entrada da caverna.
Todos saíram correndo gritando na direção da van que estava aberta, apenas Luisa correu para a estrada.
Mesmo Max, que estava chocado com o atropelamento de Fuinha, espremeu-se dentro da van, tremendo.
Ao olhar para trás, Luisa viu três pessoas saindo da caverna. Brancas, pálidas, ensangüentadas...
Pareciam famintas.
Chegando na estrada, Luisa foi amparada pelas freiras.
- Corram! Eles estão vindo!!
Foram necessárias três das quatro freiras para segurarem a moça que só chorava e falava de seu cão, do atropelamento, de monstros saídos de uma caverna.
Irmã Fé largou Luisa e deu dois passos para trás. Foram os últimos passos que deu em sua vida.
Repentinamente, as estranhas figuras saídas da caverna atacaram a freirinha que gritava ao ser devorada.
Com o susto, as irmãs restantes soltaram Luisa e correram morro acima. Luisa ergueu-se e correu com elas enquanto os três estranhos seres comiam lentamente Irmã Fé que gritava num misto de dor e estranho prazer.
Por correrem gritando, chamaram a atenção dos irmãos Braga que subiram de bicicleta atrás delas.
Enquanto isso, trancados na van, Jonas, Marta, Carlinhos, Max, Brenda e Luiz observavam a caverna imaginando que terríveis abominações existiam naquele ambiente profano.
Luiz começou a ter espasmos, virou sua cabeça para os lados, seus olhos embranqueceram e sua boca se abriu.
Dela, não saiu uma voz, mas o som gutural de milhares de almas pecadoras. Naquele momento sua boca tornou-se a Boca do Inferno.
E a Boca do Inferno proferiu:

"Primeiro vem o eclipse
não cicatriza mais o corte
então chega o apocalipse
é o início do reino da morte

Irmão matando irmão
Para provar a carne dos pais
Não haverá perdão
Para os mortos canibais

Hóstias de carne, sangue no vinho
Madalena se masturba com a cruz
Não há verdade, não há caminho
Adorem todos o falso Jesus

Doze serão subtraídos do rebanho terrestre na noite em que Baallberith for despertado.

E se os doze apóstolos do erro perecerem na alvorada do Mestre Negro, os belos filhos de Satã finalmente voltarão a brincar na terra."

A boca de Luiz fechou-se e ele despertou sem saber o que havia acontecido.
Max apontou a arma para ele:
- Que-que-que droga é essa? - questionou o marginal.
Todos estavam assustados, Jonas pegou um taco e colocou sua mulher e seu filho atrás dele.
- Quem são vocês? Por que estão olhando para mim? - perguntou Luiz.
Carlinhos começou a chorar junto com sua mãe. Brenda gritou:
- Onde está a chave do carro? Vamos embora daqui! Isso tudo é muito estranho!
Jonas apalpou seu bolso, Luiz olhou na janela e balbuciou "Johnny".
De repente, uma batida na porta da van, todos gritaram. Eram as freiras com Luisa.
- Filha, graças a Deus! - aliviou-se Marta.
As moças, apavoradas, entraram imediatamente na van.
- Liga o carro! Vamos embora! - gritou Irmã Caridade.
Jonas continuava procurando a chave. Outra batida na lateral do carro.
- Algum problema aí, pessoal? - perguntou Roberto, um dos irmãos Braga que seguira as freiras em sua bicicleta junto com seu irmão.
Alguém, naquela bagunça, deu a idéia de saírem da van para uns procurarem a chave enquanto outros montavam guarda olhando para a entrada da caverna e para o mato.
Os nervos acalmaram-se e o transe de Luiz foi contado a todos.
O jovem aproveitou para detalhar sua história com Johnny.
- Zumbis? - eu não acredito! - disse Marta.
- Você viu o que eles fizeram com o cachorrinho, não é? - argumentou Brenda.
Luisa levantou os olhos e disse:
- Vocês não viram o que eles fizeram com a pobre freira que estava com elas. - apontou para as freiras ajoelhadas. As irmãs começaram a rezar, Fabiano organizou os pensamentos:
- "Quando Baalberith for despertado..."
- "Ave Maria, cheia de graças..."
- "Alvorada do Mestre Negro..."
- ."..o Senhor está convosco..."
- "Provar a carne dos pais..."
- "...bendita Sois Vós entre as mulheres..."
- "Mortos canibais..."
- "...bendito é o fruto de Vosso ventre Jesus..."
- "Doze apóstolos do erro..."
- "Santa Maria, Mãe de Deus..."
- "Doze subtraídos do rebanho terrestre..."
- "...rogai por nós, pecadores..."
- "Doze signos, uma carta faltando no baralho..."
- "...agora e a hora de nossa morte..."
- Nossa morte! É isso!!! - gritou Fabiano, unindo seus pensamentos à oração das freiras.
Todos olharam para o jovem que levantou-se e contou:
- Um, dois, três...sete....doze! Estamos em doze! "Doze serão subtraídos do rebanho terrestre"!
- Claro! - exclamou Roberto, irmão de Fabiano - Estamos no meio de um ritual inconcluso e somos as oferendas! Temos que sair daqui logo, pois se os doze morrerem até o amanhecer...
- "os belos filhos de Satã finalmente voltarão a brincar na terra."
Era o estranho da estrada que surgia do nada.
Além de completar a frase, o estranho homem abriu um saco de onde caiu e rolou a cabeça de um dos zumbis que havia saído da caverna.
- E-E-Ele destruiu uma das criaturas!
- É, fiz isso durante minha subida - disse o estranho, calmamente - mas não se empolguem! Eles se multiplicam como coelhos. Coelhos do inferno...

*.*.*.*


Enquanto os doze, mais o estranho, conversavam e procuravam a chave da van, um dos zumbis restantes atacava um ônibus de viagem que passava na estrada de baixo.
O outro, por sua vez, invadia uma parada de caminhoneiros há dois quilômetros dali.
Espreitando, escondida no breu da caverna, estava a moça despertada por Luiz.
Ela ria e girava o molho de chaves da van em seu dedo.
Ela sentia que, naquele momento, muitos outros como ela estavam subindo o morro para cumprir a profecia.

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luciano_milici@hotmail.com
Revisão e Edição: Marcelo Milici