A ÚLTIMA DANÇA


Carlos Paraná


1

Em alguns momentos de minha vida, durante condições que sou incapaz de discernir, agi de maneira paradoxal a minha existência, experimentando sensações que não me pertenciam. Sentimentos estranhos, que num determinado momento pareciam prazerosos e agradáveis, repentinamente caíam aos pedaços, rejeitados após a recuperação de meus próprios sentidos.Em algumas manhãs, acordava no sofá da sala ou no chão frio da cozinha, após noites de temperaturas glaciais. Sentia-me levantando de um lago congelado, com meus pés descalços a ponto de gangrenar. Tinha certeza que havia adormecido em minha cama nas noites em que estes eventos ocorreram. Portanto, alguns rapidamente dirão que sou sonâmbulo. Para estes pseudoperspicazes, que no fundo são apenas mentes preguiçosas, abarrotados de opiniões e diagnósticos instantâneos, inúteis e equivocados, eu lhes respondo que meu caso é mais complexo que um distúrbio do sono.

Uma das razões que me dão certeza disto é que na grande maioria das vezes em que estes surtos ocorriam, eu não era alheio ou indiferente a eles. Tinha a percepção e a consciência do que ocorrera ou sentira, mas sabia que era inútil tentar bloqueá-los.Tudo que eu podia fazer era deixá-los seguir, complacentemente assistindo a tudo, até que eles se exaurissem, permitindo-me retornar a minha normalidade e encarar as consequências.

Recordo-me de uma quente noite de abril em meus anos de adolescência, ter cortado meu braço esquerdo várias vezes e sorrir ao ver minha pele tingida de vermelho, orgulhando-me de mim mesmo por sentir tamanha dor naqueles instantes extraordinários.A dor é o sentimento absoluto. Sim, certamente deve haver outros, mas ela é a única que me recordo agora. Muitos sentimentos humanos são falsos, ou são máscaras para encobrir outros que não queremos revelar. Como o amor, que pode significar pura e incurável luxúria, ou doentia possessão. A admiração pode ser uma maneira nobre de expressar a inveja. Isso não acontece com a dor. Ela é direta, imutável, indisfarçável. Nascemos através dela, e muitas vezes perecemos por não podermos suportá-la. Tentamos em vão entorpecer nossos sistemas para fingir que ela não se encontra ali. Mas ela apenas espera, aguardando uma nova oportunidade.

A idolatria naquela noite acabara no momento em que adormeci (o que fora um tanto difícil, devido ao êxtase em que me encontrara). Ao acordar e ver o lençol manchado e meu braço machucado e dolorido, eu chorei, não acreditando no que havia feito. Mas as cicatrizes eram provas cabais de meus atos, que me acompanham até hoje. E a dor não fora mais bem vinda.

Caminhando pelo corredor, sinto-me parte inocente, parte culpado, parte consciente, parte inconsciente. Disputado pelos efeitos de meus dois pólos, que tentam me tomar de assalto. Os meios que me trouxeram por aqui são totalmente obscuros, mas a maciez das paredes e do carpete no chão, são de uma familiaridade difícil de ignorar. Minhas paredes de gesso branco e imaculado. Não! A cor branca não é imaculada. Sempre a preferi por considerá-la o símbolo perfeito da promiscuidade. Deixa-se misturar, com qualquer cor que ouse se aproximar, permite que a penetrem profundamente, ao mesmo tempo sabendo que já possui todas as cores dentro de si. Coloquem o mundo sob uma cortina escura, retirem todas as cores de minha vida, mas mantenham o branco e jamais reclamarei.

Caminho por ele, e sinto a respiração das paredes opressoras alegres por me verem de volta. Paro e olho ao redor, como se esperasse o chamado, anunciado por uma voz silenciosa, ensurdecedora, que sussurra meu nome, chamando-me através dos meus indesejados apelidos de infância.

Sinto-me solitário, de maneira incomum e muito mais poderosa do que a experiência seria se não estivesse envolvido pelas paredes.Aqui ela é amplificada, tornando-se quase intolerável, tentando-me a ir embora. Não consigo compilar a lista de sentimentos que ela pode alterar.

Se eu temo, ela se multiplica por um fator infinito, o que não me deixa com coragem suficiente para me mover.

Se por acaso eu rio, as risadas ecoam. Vozes de pessoas que amo ou odeio, todas em uníssono, inclusive a minha. Num espetáculo em que eu sou o tolo.

Se eu odeio, não consigo me controlar. Destruindo o que estiver a minha frente. Desintegro moléculas de oxigênio com o olhar, viviseco ácaros com minha mente.Terríveis seriam os resultados se por algum motivo direcionasse todo este ódio em minha própria direção.

Quando encosto minhas mãos na parede, ela se torna intangível e posso perceber o gesso infectado por detrás dela. A intangibilidade é permitida apenas para minhas mãos, é negada veementemente aos meus outros órgãos. Afasto-me do corredor e sigo até a sala no final dele, contemplando o salão abaixo. A vista é majestosa e faz-me recordar do meu propósito. Tudo que preciso está aqui, e tenho trabalho a fazer antes de tudo começar.

Agora o propósito é claro como água, e meu suor será recompensado. Isso me faz sorrir.

O gosto é doce, a retaliação é doce.

Sim, eles terão uma festa inesquecível. Marcada em suas almas, tatuada em seus corações. Eu darei algo que suas pleuras jamais resistirão. Eles inalarão cada grama do presente que preparo a eles, e assistirei suas bocas abertas, as bolhas em suas peles, os tossidos intermináveis, minha dádiva arranhando suas entranhas. Garras gasosas, incessantes, destruidoras. Será memorável, realmente memorável, presenciar controladores de corporações, imperadores e ministros, aqueles que movem o rumo de tudo; impotentes, incapazes de controlar sua própria respiração, o grito de socorro que jamais, repito, jamais será pronunciado. Sem chance de defesa, sem argumentos.

Suas respirações pertencem a mim, e eu as desprezo.

O ar morto fará melhor uso delas.

Que comece a festa.

2

Assisto ao festival ter início, de meu local privilegiado.Uma vista panorâmica e agradável para um convidado indesejável. Ironicamente, todo o aparato de segurança elaborado não foi o suficiente para me deter. Seguro firme o controle em minhas mãos, sentindo-me tentado a iniciar o processo. Mas ainda é muito cedo, e consigo me conter.

Minhas marionetes começam a chegar. Riem, bebem, comem, desejam, cobiçam. Seu bem estar humano não os tornaram melhores, provavelmente os azedaram ainda mais. Como puderam me incriminar? Acusar-me? Com que direito? Importantes figuras destilando respeito e conhecimento através de sorrisos plásticos. Industriais que mutilam crianças em suas fábricas, abraçam seus filhos, como seu mais raro e importante souvenir. Ostentando glória podre. Só eu sinto posso sentir o cheiro? Eles me colocaram nesta posição, e sinto-me feliz em satisfazer suas expectativas. O local vai ficando cada vez mais cheio, como se insetos carnívoros descobrissem comida e o alvoroço atraísse todos os outros para o banquete.

Uma performance é executada para entretê-los e deixá-los em êxtase. Um show de ilusionismo, onde o ilusionista é um homem pálido, de feições anoréxicas. Rapidamente me identifico com ele. Pelo simples fato de sua pele ser branca como a neve. Seu palco vermelho lembra um horizonte de hemoglobina, que hipnotiza a platéia com extrema facilidade. Velhos tubarões tornam-se garotos por alguns instantes, ao testemunharem um tigre desaparecer ao tentar atacar o ilusionista. No momento em que as patas do animal chegam ao limiar do contato entre o rosto daquele que o comandava, o animal desaparece.

Numa outra ilusão, ele é preso numa cela de ferro maciço por sua assistente. Segundos depois, quando o ilusionista as toca, as barras tornam-se gelo e se estilhaçam, com um simples estalar de seus dedos. O som das palmas e do gelo destruído se confundem, criando uma belíssima sinfonia, que me esforço para ouvir de meu local. Se me permitissem intitulá-la, eu a chamaria de "Prelúdio em admiração a iminente perdição". Que pomposa introdução. Minhas palmas, embora não percebidas, e propositalmente discretas, são de verdadeira admiração.

O grande momento tem início! Os protagonistas juntam-se a festa! Como estou contente em vê-los! Eu estava ansioso, aguardando por eles, sedento, salivando por vocês dois. Após a introdução o vento vai cantar minha ópera de vendeta através da noite. Infectando a mais sã das mentes com pensamentos subversivos.

Meus dedos, tremem, excitados. Reprimo-os com dificuldade desta vez. A presença deles ofusca a brilhante atuação vista pelos outros convidados há alguns minutos. Todos caminham em direção dos dois, esquecendo-se do que acabaram de ver. Aquela então parece ter sido a última ilusão, pois os elogios e cortejos a eles vão atravessar a noite. Que bom que estou aqui para dar um novo rumo a tudo isso.

Não controlo meus dedos desta vez, não os censuro, nem os interrompo. Deixo-os seguir seu fluxo natural.Botões pressionados.A partir deste momento eu controlo as performances. Aqui é o início da festa, como eu gostaria que ela fosse.

No início, ninguém percebe a névoa densa se acumulando no teto. Reunindo-se para saudá-los. Oh, ciclopes, vocês não notarão seu algoz pairando no ar, pronto para abençoá-los? O primeiro a observar a nova atmosfera é o ilusionista. O espanto em seu rosto é sublime, belo, tanto quanto a sua libertação da cela de gelo, que foi ignorada pelos outros. Ele aponta os dedos para cima e aqueles que cercavam o casal agora direcionam sua atenção para algo mais importante. Agora eles não conseguem desviar os olhos do gás. Como se soubessem de antemão, que não há saída. Alguns, guiados pelo patético instinto de sobrevivência, que garanto ser inútil neste caso, correm como manadas de elefantes em direção às portas e saídas de emergência e as encontram trancadas. Sim, esta metódica precaução faz parte de meu plano.

O deleite é tão magnífico, imenso e reconfortante, que quase me esqueço de vestir minha máscara e minhas luvas.Minhas mais novas partes de meu corpo.

Os corpos começam a cair.O desespero, a dor dentro deles. Familiares agarrando-se, senhores calmos e sensatos, agora demonstravam sem pudor, seu sufocante pânico. Eles rastejam no caríssimo piso, alguns se ajoelham, suplicam antes do último suspiro. A última dança de todos eles. Passos improvisados e desprovidos de harmonia, mas mesmo assim, não os trocariam por nenhuma dança que a mim pudesse ser oferecida.

O ilusionista é realmente resistente, parece não sofrer os efeitos do gás, mas eu sei que ninguém pode resistir a ele. Como ele poderia? Algumas mãos tocam seus calcanhares enquanto ele caminha a esmo pelo salão, pisando em algumas delas. Sua imponência não é perdida nem mesmo durante a aniquilação. Felizmente, ele também começa a sentir os efeitos do meu presente, cambaleando de volta a seu palco. Eu aperto o botão e o gás pára de ser exalado na sala. Paro as rotativas apenas para assistir sua condenação. Que final espetacular! O homem de preto retorna para seu palco como se fosse executar mais um truque, uma ilusão que pudesse salvá-lo de tudo. Eu o pouparia, se ele tivesse meios de fazer tal feito, o deixaria ir, não aumentaria o nível do gás, se ele pudesse salvar a si mesmo. Mas aperto novamente o botão, e quase posso sentir sua maravilhosa dor e seu refinado pânico. Agora ele está ajoelhado, agora ele cai no chão, agora ele rasteja até seu horizonte carmim e o toca. Suas mãos deslizam graciosamente pelo tecido. Nada mais acontece e assisto-o desfalecer.Desligo o gás mais uma vez. Neste momento, finalmente posso iniciar as festividades solitárias em comemoração a minha vitória.

Rio com a máscara em meu rosto e, apesar do incômodo, eu não me importo, absolutamente não me importo e continuo rindo. Meu objetivo foi alcançado, tudo o mais é secundário, e poderia dizer, descartável.

Lamento por me encontrar numa sala onde pude escutar muito pouco de seus lamúrios e súplicas, gritos e preces. O máximo que pude fazer foi tentar imaginar, adivinhar os sons que emitiam através das expressões dos seus corpos, como num jogo de mímica. Extremamente bizarro, devo acrescentar. Após estas reflexões e nenhum remorso, levanto-me da sala escura, onde me senti um solitário operador de projetores num cinema decadente, que tem certeza da qualidade do filme exibido, mas os espectadores não conseguem partilhar de sua emoção, ou tardiamente dão conta do fato. Abro a porta devagar, sem nenhuma pressa.Talvez, algum deles possa estar vivo e suas respirações finais possam ser por mim captadas. As luzes no corredor estão apagadas desta vez. E seu caminho escuro que me leva até as escadas parece me aplaudir, me saudar pelo meu feito. Estou a poucos passos da escadaria agora.

No primeiro passo em direção a ela, eu posso sentir a luz do salão, a única testemunha de tudo. Apresso-me para encontrá-la, eu quase tropeço.Temendo que a queda pudesse me fazer juntar à legião ali em baixo, estragando minha vitória, paro por uns instantes.Eu me controlo, me acalmo, tentando diminuir o nível de adrenalina. Apoio-me ao corrimão por alguns segundos que parecem ser milênios para mim. Prolongam-se, tão indefinidos e desconhecidos quanto a eternidade. Gerações nascem e morrem, plástico biodegrada, o Pangea se desfaz, e eu apenas desci um par de degraus.

Sinto que involuntariamente, eu mesmo atraso o momento, não entendendo a razão para tal tolice.

Continuo descendo, passos constantes e seguros, agora sinto o cheiro da luz, tão convidativo. Ele nunca fora tão desejado. Não há mais o que adiar. Finalmente alcancei o território que almejara.

Uma congregação. É o que todos estes corpos no chão me parecem, é o que minha percepção consegue captar. Insetos mortos. Seus zumbidos foram cancelados e silenciados.Deixaram de existir. Afinal de contas, seus sistemas expirariam cedo ou tarde. Falhariam, entrariam em colapso, portanto me vejo apenas acelerando um processo inevitável, os estágios inevitáveis da vida humana. Sou Hades , e meu cerberus guarda os portões ali fora, mantendo minha privacidade. Alguns de vocês podem me perguntar. "Onde se encontra Perséfone?". É outono, portanto ela não me pertence. Poderia certamente barganhar um acordo com Cronos, que poderia fazer o resto do planeta seguir seu curso e congelar o tempo neste local. Apenas com o propósito de poder demonstrar a minha querida o meu feito. Tudo seria infinitamente mais maravilhoso se ela também pudesse contemplar minha obra.

Caminho cuidadosamente entre meus súditos, e sigo para onde jaz o ilusionista, a única criatura que estimei ali. Ele está deitado de bruços, seus braços estendidos. A frustração final. Suas ilusões não o puderam livrá-lo do amargo fim. Por um momento, penso que poderia ressuscitá-lo, mas se fizer isto, a obra não estará completa, portanto, para mantê-la perfeita,ela não deve ser retocada.Desse modo, ele deve permanecer, como todos os outros.

Estilhaços de sua cela gelada espalham-se pelo palco, e o gelo seco gera gás que ascende.Tiro a luva para sentí-lo acariciar minhas mãos. Aquele fora um excelente truque.Mas percebo que algo está faltando ali, alguma peça está encaixada erroneamente em seu palco. Algo que não está mais lá, ou que agora se dispõe de maneira diferente da qual contemplava de minha sala de condenação. Falho em perceber com exatidão o que está ausente por vários minutos. Conjecturo as imagens do palco que minha memória já deve ter deturpado e as comparo com o local atual, sem sucesso. Até perceber que seu horizonte de hemoglobina não está mais ali. O local agora é uma parede totalmente branca como todo o local.Percebo também que as mãos dele estão impregnadas de algo parecido com cera vermelha.

O contraste de cores me desperta e a minha patética e indesejada personalidade assume o controle. Instantaneamente, meus olhos enchem-se de lágrimas, produzidas pelo arrependimento, e minha mente se autoflagela com palavras e advertências que não surtem efeito. Esforço-me para manter o outro lado, aquele que sempre desejei longe de mim, no controle desta vez. Mas não consigo, falho brilhantemente nesta tentativa. Lamento em silêncio.

Mas existem sons, desagradáveis e odiosos, que por mim não foram pronunciados.

3

Há uma espécie de parada aqui, bem atrás de mim. Os insetos mortos agora são uma tropa de efígios brancos, movimentando-se em minha direção. Não são mais ciclopes, ou humanos, parecem feitos do mesmo material das paredes do corredor e, mesmo sem tocá-los, sei que eles são frios como um ponto perdido do pólo sul. Não possuem características que os diferenciem uns dos outros.Todos eles são iguais, não importa a forma que possuíam anteriormente. Seus rostos inexpressivos, moldados em gesso, os fazem parecer sentinelas, em infindável espera, e parece que meu despertar foi o sinal que eles aguardavam. Mesmo sem vida, seus rostos me acusam, me ameaçam. Eu posso sentir, sem muito esforço. Eles deixam-me sem opção, sem lugar onde eu possa me esconder, e sinto-me agora uma criança indefesa.O grande Hades apavora-se quando presencia, incrédulo, a revolta de seus súditos.

Eles estão perto demais agora. Não há tempo para barganhar, bajular ou mesmo gritar. Como último recurso, pego a arma que estava guardada, e que seria usada apenas em situações extremas, como esta.

Ao apontá-la para os efígios, não me sinto seguro em relação a quem disparar, pois eles são cópias de si mesmos. Minha indecisão custa caro, e pago um alto preço por exibí-la. Um deles, qualquer um, agarra a minha mão que os ameaçava com o revólver. Seu toque não é congelante como eu imaginava.

Ele queima.

O maldito não solta minha mão.E ela começa a alcançar temperaturas inimagináveis, fazendo o metal da arma fundir-se com o meu braço. Os dois derretem, criando uma nova liga, de múltiplas e confusas cores.

Em total desespero tiro a máscara de meu rosto usando apenas uma mão. Eu grito como se fosse a única defesa que pudesse usar contra eles. Digo a eles a verdade, que eles são ciclopes reanimados, nada mais do que isso. Nada. Nada. Nada. Nada além desta piedosa condição.

Respondendo a minha ofensa, eles me revelam suas verdadeiras faces, como se houvessem sido insultados pelas minhas palavras. Todas as frágeis máscaras caem dos seus rostos, em total sincronismo, atacando meu ouvido sem o menor sinal de piedade. O som que elas fazem ao atingir o chão e estilhaçar soa como o dobrar de um milhão de sinos, ecoando, reverberando em minha cabeça. Para sempre. Eles me fazem desejar ser surdo.

A parada olha para mim, com rostos ávidos e ansiosos, parecendo se deliciar com meu sofrimento.

A primeira revelação foi a do rosto de meu agressor. O que a máscara escondia era uma face incandescente, feita de puro magma, agitando-se, mas jamais escapando de seu rosto.Ele parecia concentrar todo a fúria oculta do centro da Terra.Agora ele movimenta sua cabeça de um lado para outro, incessantemente, numa velocidade que não consigo acompanhar. Parece querer se livrar da substância, mas não consegue. Era como se um rosto humano tentasse arrancar seus olhos movimentando-se, num violento sentimento de rejeição. Ele tenta me alcançar e tocar-me mais uma vez, estendendo a sua mão, mas não obtém sucesso.Parece conformar-se com a tentativa frustrada, pois ele se afasta, dando lugar aos outros.

Eles querem relacionar-se com minha pele, conhecer minhas terminações nervosas, tocar o delicado conteúdo da minha derme. Percebo que meu braço não está mais ferido. Uma indicação de que cada contato será uma nova e indesejada experiência. Exploradores brincando com minha anatomia, mostrando-me outras formas e configurações, novas direções para a frágil carne humana.

O próximo a se movimentar em minha direção representa a fria arquitetura da dor, em uma face que retrata um buraco negro, sufocante, destruidor e violento.O que ele causará a mim quando me alcançar? Qual será a sensação de ser atingido pela face da morte de uma estrela?

O que me farão todos aqueles outros rostos? O rosto da farsa? Do silêncio? Do ódio? Da desilusão? Da grande matéria escura que envolve nosso universo? Como será o rosto da retribuição, que me fará sentir o que causei a eles?

Tento me imaginar apreciando cada uma daquelas explorações, e me desespero, descobrindo tardiamente o que minha obsessão e ignorância impediram-me de perceber.Que existem sentimentos infinitamente mais absolutos que a dor.


CARLOSPARANA@aol.com