UM DEGRAU ACIMA
E.R.Corrêa
- O que você acha de irmos tomar um café?
- Que horas são?
- Faltam vinte pra seis.
- Seis horas a gente vai.
- Mas seis horas a gente vai embora!
- Por isso mesmo: aproveitamos e tomamos um café.
- Você é um xarope mesmo, hein?!
- Sim, mas sou um xarope adocicado, queridinha. E você sabe disso...
- Queridinha uma ova!
- Que é isso?! Vem cá, não se zangue à toa. Eu sei que você está cansada. Eu também estou. Mas tenho que acabar logo com isso. Essa coisa vai ter que enxergar.
- Amanhã...
- A humanidade vem deixando tudo para o amanhã e é por isso que ainda não chegamos à Alfa do Centauro.
- Engraçadinho.
- Tudo bem. Vem cá. Vamos tomar o nosso café.
- Ué?! E o seu trabalho? O seu trabalho que não pode se atrasar nem vinte minutos?
- Já que é pra você, vou abrir uma exceção.
- É por isso que esse país não vai pra frente. Como as pessoas são volúveis e maleáveis...
- E é por isso que ainda não chegamos à Alfa do Centauro... Mas, pensando bem, foi com calma que chegamos à Marte...
Foi esse diálogo, mais ou menos entrecortado com risadinhas e gemidos de satisfação descontraída, que Douglas ouviu ao escorregar placidamente à consciência. Não via nada; era a escuridão perpétua. Não sentia o tato. Não sentia o olfato; era somente a escuridão e umas vozes indistintas e estranhas que cortavam o vácuo de sua total incapacidade de percepção e o alcançavam por algo que, ele tinha certeza, não era a audição. Uma espécie de captação pseudotelepática.
Onde estou? Como estou? Pensava ele, mas até pensar era difícil, era tortuoso. Queria abrir os olhos, mas não conseguia. Era como se tivesse sido colocado num manto negro de borracha e jogado aos abismos escuros e profundos do Oceano Atlântico. O caso é que ele tinha uma estranha sensação líquida. Líquida e pegajosa. Não havia como saber o porquê dessa sensação. Mas ele não sentia o corpo.
Espera aí! Vamos recapitular. Que droga!
Estou imobilizado, certo. Completamente imobilizado, e provavelmente deitado em algum leito de hospital com um casalzinho de enfermeiros louco para se ver longe de mim. Isto também está certo. Pois bem, vamos recapitular. Sou Douglas Nascimento de Andrade e Filho.
Ah! Que maravilha!
É isso mesmo! Eu me lembro! Sou Douglas. O velho Douglas, não é? É, o velho Douglas. Na semana passada completei meu... septuagésimo oitavo aniversário. Puxa! Estou ficando velho. Mas me lembro e é isso o que importa. Na semana passada (estou indo bem), setenta e oito primaveras, é como eles dizem nos poemas. E agora estou aqui, deitado não sei onde e não sei porquê. Mas... espera, espera!
É isso mesmo, eu bem que sabia!
Eu bem que sabia, miséria!
Não estou na flor da idade, e minha velha me falava (que Deus a tenha). Ela me falava pra tomar cuidado com a saúde. Sou quase um graveto, mas acho que escapei dessa. Pura sorte. Agora é só uma questão de tempo e acho que vou poder me mover de novo, se Deus quiser. Será que foi um derrame? Nunca tive isso, graças a Deus, mas essas coisas acontecem de surpresa. Talvez tenha sido um ataque (meu coração não anda lá essas coisas...), mas acho que foi um derrame. Quero ver a luz. Acho que escapei, mas quero ver a luz. Eu...
- Pronto? Já deu seis horas?
- Sim. Agora acho que...
- Pra quem deu às seis horas?
- Isso é maneira de falar com uma dama, seu estúpido primata? Quando te dei essas liberdades?
- Você, uma dama?
- Não importa. Acha correto...
- Olha, benzinho, estou com uma puta dor de cabeça e só estou tentando descontrair, entendeu? Por que você não faz o mesmo e relaxa, ao invés de ficar bancando a estressada? Me passe esse fiozinho azul aí.
- São essas coisas... Elas não me deixam à vontade. Principalmente essa geladeira...
- O que tem a geladeira? É tão bonita, branca, mais ou menos a sua altura (o que não é grande coisa, é verdade...).
- Lá vem você de novo com essa conversa fiada. Estou falando do que tem na geladeira, você sabe...
- Ora essa! Quanta besteira. O que tem na geladeira?
- Vamos, pare com isso. Vamos embora, vai. Já é quase seis e eu não quero mais ficar aqui com essas coisas. Tá frio aqui...
É velho Douglas, ela não quer ficar aqui com essas coisas.
O que você acha?
Na escuridão impenetrável da consciência Douglas tremia. Pelo menos ele imaginava que tremia. Era uma sensação da qual não podia ser extraído nem um tipo de temperatura ou movimento - era a neutralidade absoluta. Portanto, era impossível tremer. Mas ele estava com medo, e se pudesse tremer fisicamente, com certeza ele...
A que espécie de "coisa" ela estava se referindo? Caramba, não sou nenhuma beldade da adolescência, mas também não me tornei nenhuma uva passa completa a ponto de ser chamado de coisa! Isso também não dá o direito a ninguém de... Coisas? Um cadáver? Um... Um... Um amontoado inútil de carne rugosa e envelhecida? Será que... Meu Deus! Não! Não!
Estou vivo. Vivo! Ou como é que estaria aqui pensando, meditando, amaldiçoando essa... essazinha de voz adocicada que me chama de coisa? Para isso tenho que estar vivo, certo? Por isso estou vivo. A não ser que a morte seja a coisa mais patética que Deus criou. Há! Há! Até se torna engraçado. Já pensou: você morre e antes de ir para o Céu ou para o Inferno, você fica em total escuridão ouvindo ofensas e incoerências de um casalzinho de lunáticos?!
Será isso o purgatório? Ou será isso o próprio inferno?
Talvez seja mesmo o inferno, sem aquelas bobagens de infância como fogo, gritos, pragas, caveiras, diabos, tridentes, frigideiras (frigideiras?), petiscos humanos... Droga, estou ficando louco! Quero... Quero acordar! Quero sair daqui! Meu Deus, me tira daqui! Cadê a luz? Eu preciso de luz, preciso falar! Ei, vocês aí! Vocês podem ler pensamentos? Vocês podem...
Calma. Calma. Calma. Isso. Assim está melhor. Calma.
Você vai sair dessa. Você teve um derrame e está imobilizado, só isso. Você vai sair dessa, vai escapar. Como escapou das outras. Lembra-se de quando teve pneumonia e era só cama? É, seu velho Douglas safado filho de uma mãe! Você ficou um tempão sem levantar da cama. Era uma briga até pra mijar, lembra? Você queria andar e não podia. Só de respirar dava vontade tossir, e você cuspia como louco aquele monte de bola verde esquisita. Você queria levantar e andar; ir até a esquina jogar dominó com aqueles cabeças duras e falar da vida dos outros. Mas não podia.
Mas você superou isso, não superou? Pois bem, agora relaxe e deixe o tempo passar, e você vai sair dessa também. Tente dormir. Tente... Espere! Eles falaram geladeira!
Meu Deus, eles falaram geladeira!
Caramba, eu estou morto mesmo! Agora não há saída. Estou numa maldita geladeira. Sou um cadáver congelado e vou ser enterrado com consciência. Droga, não pode ser assim! É terrível demais! A morte não pode ser assim. Eu estou consciente, eu estou vivo! Eu estou vivo!
Ei! Ei! Ei! Vocês! Vocês aí! Eu não morri! Pelo amor de Deus crianças! Eu estou vivo... eu estou vivo... eu acho que estou...
- Pode deixar a luz acesa.
- O quê?
- Deixe a luz acesa.
- Acha que ele pode ter pesadelos?
- Agora é você que está bancando a espertinha? Sua...
- Também tenho direito, não tenho?
- Não. O único espertalhão aqui sou eu.
- Machista de uma figa.
- Pra falar a verdade, não quero que ele tenha pesadelos. Estou começando a gostar dele. Além do mais, a luz pode ajudar no estímulo das células. Pode fazê-las vibrar com mais intensidade. Entende?
- Tá bom, senhor-sabe-tudo. Agora vamos embora. Estou com fome.
- Vamos. Hoje o jantar é por sua conta. Não. Não. Não. Eu insisto, e não aceito recusas...
- !!!
"Estou começando a gostar dele". "Estou começando a gostar dele". "Estou...". Bem, agora eu já sei: se ainda não morri, vou morrer em breve na mão desses psicopatas. Malditos psicopatas que não perdoam nem os velhos! Quando a gente acorda num leito tranquilo e macio de um hospital, com um enorme vaso de flores perfumadas num canto e aquela recepção de rostos sorridentes no outro, não imaginamos que espécie de pensamentos eles estão nutrindo. Esses porcos falsos! Deixa eu sair dessa e eles vão ver uma coisa!
"Bom dia senhor Douglas! Dormiu bem? Espero que esteja confortável, e lembre-se, qualquer probleminha é só chamar. Terei prazer em vir atendê-lo"... e aí você pega no sono, eles se aproximam e dizem: "como está passando, seu velho sanguessuga filho de uma puta? Por que não morre de uma vez?"
É assim, e a gente acaba caindo na própria inocência. A velhice é mesmo terrível. O cérebro deteriora, as lembranças falham, os sentidos falham, o sentido de malícia se torna superficial e opaco, e você acaba caindo na besteira de confiar em todo mundo. Acho que é por causa das células. Elas começam a apodrecer. Mas ele... Ele falou das células! Não falou? É isso mesmo, ele falou das células e da luz (luz?). Alguma coisa... Será que sou um cobaia? Uma experiência? Tem tanta gente nova por aí, dando sopa, e eles vão pegar logo um velho que nunca fez mal a uma mosca!
Meu cérebro não presta mais pra nada! Ultimamente ando perdendo todas no dominó pro seu Antônio, que é o velho mais cabeça oca que eu já conheci. Acho que eles estão fazendo algo de errado com meu corpo. Mas talvez eu consiga sobreviver. A não ser que eles sejam esses loucos que roubam criancinhas. Bem, eu sei que não sou uma criancinha, mas talvez eu tenha alguns órgãos aproveitáveis. Eles roubam e vendem. Eu vi no Jornal Nacional. Eles roubam criancinhas e as matam para vender seus órgãos aos outros países. Tráfico, se não me engano. Ah! É terrível! Onde é que o mundo vai parar?
Já chega, seu velho!
Já chega de alimentar esperanças: você vai acordar e perceber que não tem mais as pernas. Que elas foram amputadas. Mas o que vão fazer com as pernas de um velho? Sou um graveto! Não importa: você vai acordar e perceber que não tem mais as pernas, ou talvez os braços, ou talvez os pés, ou talvez as mãos, ou os cabelos (os cabelos?), ou o fígado, ou o coração, ou os pulmões, ou os rins, ou os... Já chega! Chega!! Seu velho estúpido ignorante! Pura tolice! Seu caduco de uma figa! Você tem mais é que ficar quieto e dormir, para amanhã cedo voltar à consciência e agradecer o excelente trabalho feito por esses dois jovens médicos para a sua recuperação. Você tem certeza que eles estão fazendo o melhor possível, não é mesmo?
SIM, VOCÊ TEM CERTEZA!
Agora fique quieto e durma. Durma, durma... E sonhe com os anjos.
Douglas, de fato, sonhou com os anjos - anjos com chifres negros e asas de demônio. Ele estava num bar, tomando um café grosso e amargo. Ao seu lado havia um grupo com quatro homens zombeteiros jogando dominó e na outra extremidade uma tesudíssima enfermeira loira lhe fazia gestos obscenos. E os homens zombavam dele porque ele não podia fazer nada. Nada mesmo. A moça fazia gestos obscenos, gestos para fazer envergonhar toda a legião de demônios do círculo sexto do inferno, mas Douglas...
Bem, Douglas tinha setenta e oito anos. Mas ele estava desesperado, e flutuava, sem nenhum controle com o próprio corpo. Derrubou a xícara com café e quando ela se quebrou, viu dezenas de vermes gorduchos e gosmentos rastejando entre os cacos de vidro. Estava desesperado. Os homens zombavam e seus risos eram satânicos, distorcidos.
A enfermeira loira continuava fazendo gestos obscenos...
Quando acordou, percebeu que, além do casalzinho rotineiro, havia uma terceira pessoa no recinto, de voz gutural, mais séria. Falavam coisas confusas, ininteligíveis, para ele. Agora palavras como "realidade", "não-realidade", "cérebro esponjoso", "linha alternativa única", etc., vinham com mais intensidade do que seria de se esperar numa simples sala de hospital.
Diziam:
- ... e por que não começam tudo de novo?
- Para quê, professor? Para chegarmos novamente a esse resultado?
- É claro que não. Podem seguir por uma outra linha. Pelo que sei existem milhares de possibilidades.
- De fato, existem.
- E então?
- O senhor não percebe? Não fracassamos neste sentido. A experiência foi bem sucedida, como todas as outras. Tudo normal, até aqui. Criamos um cérebro...
"Criamos um cérebro?"
- ... e depois criamos uma realidade para esse cérebro, um universo completo de sensações e impulsos, e depois lhe demos vida: memórias, pensamentos, dores, prazeres, tudo, enfim. Para ele era um universo real e palpável como qualquer outro. Tinha sua própria personalidade e interagia com os demais de forma natural. Tudo correto.
- E então? Qual o problema?
- O problema é... Bem, professor, queríamos que ele "acordasse", digamos assim, tivesse consciência da realidade.
- Como assim, da realidade?
- Ora, da verdadeira realidade. (...) Da nossa.
- A nossa realidade? Digo, queria despertá-lo para... Ora, deixem de besteiras! Tolice! Isso é impossível!
- Impossível!? Por quê? Pelo que sei...
- Veja bem, garoto; você... digo, vocês criaram um cérebro e uma realidade para esse cérebro. Correto? E essa realidade é substancial em si mesma, pelo menos para o universo dele. Compreende? Aqui ele não existe. Jamais existirá. Isso porque simplesmente não pode ter consciência de que tudo o que viveu, seus setenta e tantos anos, é isso? Sua esposa, seus filhos, seus netos, a humanidade que o cerca, foram apenas ilusão. Ele viveu e vai morrer naquele universo.
- Espere um pouco, professor, existe uma teoria...
- Sim, já sei: a Teoria da Inter-realidade Sensorial. É pura besteira. Surpreendo-me que vocês a estejam levando a sério.
- Pois para mim não parece besteira. Acho que é possível fazer uma não-existência entrar em contato com a existência. E tem mais: a teoria em si é incompleta, mas nada impede que possamos aperfeiçoá-la com alguns retoquezinhos sofisticados para torná-la completa.
- E você conseguiu isso?
- Ainda não terminamos com a experiência.
- Mas achamos que conseguiremos, professor. Aqui estão os gráficos iniciais. Olhe.
...
- Matemática demasiada. Não compreendo.
- Na verdade é simples. Partimos do princípio de que a matéria não existe, apenas a impressão da matéria. Veja, numa inter-realidade anti-dimensional de substancialidade nula o fluxo-contínuo do espaço-tempo tende a se desvi...
- Espere. Espere. Não vejo nada de novo nisso. Pura tolice.
- O senhor não deixou eu...
- E além do mais, a questão pode ser finalizada com a única lei de Hauson-Smith: "um milhão de universos podem existir - mas um deles tem que ser o real". Percebe? O nosso é o real. Não há dúvidas quanto a isso. Se, por acaso, numa hipótese absurda, vocês conseguissem fazer com que este cérebro tivesse consciência de que seu universo é fictício, artificial, isso só poderia significar uma coisa: que o nosso também o é. E você sabe muito bem que o nosso... Merda! Nosso universo é o único. O verdadeiro!
- Como o senhor pode ter tanta certeza?
- E se...
- Olha, desculpem, mas pra mim já chega. Estou cansado de tanta conversa fiada.
- Mas o senhor...
- E sugiro que invistam melhor o seu tempo. Do contrário correrão o risco de terem as verbas cortadas. Olhem ao redor. Estão vendo? Essa aparelhagem toda é cara. Esse é um laboratório caro, não o tratem com leviandade. E agora vou indo. E... esqueçam essa tolice. Vejo vocês amanhã.
...
- É um velho miserável! Porco imundo arcaico e ortodoxo!
- Como todos os outros. Mas será que ele não terá razão dessa vez? Será...
- Até você?
- Olha...
- Caramba, eu passei os últimos nove meses dessa minha miserável vida tentando fazer uma consciência de outra realidade entrar em contato conosco para ter tudo posto em cheque pela minha própria companheira de trabalho?
- E conseguiu?
- Bem... Bem... Ainda não acabei, quero dizer, ainda não acabamos, se é que você vai querer...
- Tolinho... Eu vou até o fim, com ou sem resultado. Mas eu estive pensando: Você não mencionou a ele que queria dar uma visão ao cérebro.
- É claro que não mencionei. Não queria ser expulso dessa faculdade à pontapés. Mas é possível. A teoria é clara: inter-realidade sensorial. Com a aparelhagem completa, pelo menos a visão (que, afinal, é o sentido capaz de percepção dimensional) seria teoricamente praticável. Ele poderia ver o universo real. Não é fantástico!? Já não tenho tanta certeza quanto à audição... Mas deixa eu terminar isso e você vai ver o prêmio LEBON nas minhas mãos!
- Será? O LEBON ou a forca? Se você conseguisse isso não estaria, como ele mesmo disse, unicamente provando que o nosso universo, a nossa realidade, é apenas uma ilusão criada por alguém num universo verdadeiro, ainda mais acima?
- Talvez. Mas não deixaria de ser a verdade.
- E por falar nisso: você percebeu o medo na voz do professor? Um medo de descobrir a verdade?
- Não interessa nada disso, pois para a ciência é a verdade que importa, e não o que parece bonito ou apropriado. Quem garante que estamos mesmo no universo real?
...
- Mas chega dessa conversa. Vamos trabalhar. Que se dane aquele porco velho. O que importa é esse cerebrozinho bonito aqui e a visão que eu vou lhe dar. Concorda?
- ...
Douglas ainda flutuava na imponderabilidade. Mas já sabia o que estava acontecendo, é claro. Agora não alimentava mais nenhuma ilusão. Não estava no inferno. Tampouco no céu. Não fora raptado por alienígenas de cabeça grande e olhos vermelhos. A escuridão ainda o envolvia, o asfixiava, numa sensação líquida e pegajosa. Mas estava calmo, quase excessivamente tranquilo, apesar de tudo, e refletia, ainda quase não acreditando em nada, quase levando na brincadeira.
Pensava em tudo o que tinha vivido; todas as lembranças, emoções, sensações: falsos?
Não dá pra acreditar! Sou um cérebro esponjoso flutuando num líquido pastoso de solução nutriente. E a humanidade está toda lá, comigo.
A Hu-ma-ni-da-de. Há! Há! Que besteira. Que humanidade que nada! Foda-se tudo isso. Vivi, meti e me diverti, e é isso o que importa! Se foi tudo real ou não, dane-se! Pra mim tanto faz. Pelo menos sei que esses trouxas arrogantes também não são reais. Fazem parte de um mundo igual ao meu, ilusório. Estão apenas um degrau acima.
Um degrau acima.
Não foi isso que disseram? Sou, e daí. Eles também são, ou vocês acham que sou um imbecil? Não é isso que queriam? Dêem logo o prêmio a esse rapaz, esse gênio que acabou com a minha vida. Ou melhor, com a ilusão da minha vida. Ele merece. Se bem que não vai fazer diferença alguma. Um dia ou outro ele vai acabar descobrindo que também é um fantasma, uma sombra sem consistência ou integridade. Um vácuo. Mas deixem que a glória o cubra no momento. Deixem gozá-lo enquanto pode. De tabela acabou com a vida dele também. Se tivesse alguém aqui apostaria qualquer coisa que amanhã ele conseguirá me dar essa tal visão que tanto almeja...
... e o que verei?
Douglas caiu novamente no sono profundo.
Quando acordou, percebeu que, se tivesse apostado com quem quer que fosse, teria ganho a aposta...
Meu Deus!!!
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