DEIXAI QUE MORRA E APODREÇA


E.R.Corrêa


Sabe, a coisa me ocorreu de maneira singular.
Tudo porque eu estava em casa, tranquilo, com uma lata de cerveja na mão (fazia um calor insuportável). Caramba, como esse país é quente! Parece um forno de pizzaria no inferno! E dizem que no deserto do Saara a temperatura chega a alcançar 50 graus na sombra. Dá pra imaginar? Não. Não dá pra imaginar. É que nem a idéia da morte própria, ou do infinito – simplesmente não dá para imaginar essas coisas. Mas de alguma forma é assim: vá até lá, consiga arranjar uma sombra (o que eu acho muito difícil) e você constatará – 50 graus, na melhor das hipóteses! Mas no planeta Mercúrio as coisas são piores. Lá, você...
Droga! Não é nada disso! Do que eu estou falando? Besteira, bobagem, esqueça...
O caso é que eu estava lá em casa, tranquilo, tomando uma cerveja e vendo aquele velho filme do Vincent Price, “O Abominável Dr. Phibes”, e a idéia me ocorreu. É um filme interessantíssimo. Um clássico. Assista. Fala de um louco psicopata desfigurado que se utiliza de métodos, digamos, pouco ortodoxos para dar cabo aos seus inimigos. Ele realiza uma vingança simplesmente espetacular. E a idéia me ocorreu.
Não tenho o costume de assistir a filmes de dia. Principalmente filmes de terror. Perde todo o clima, toda a inspiração, ainda mais num calor insuportável como este. Ah! Odeio o calor! Cadê o inverno que não chega?! Bem, até o inverno nesse paisinho chamado Brasil é medíocre. Mas quebra um galho.
E sabe, foi nessa época que eu voltei a travar conhecimento com um sujeito que empalhava animais. Era um paspalho, um idiota, e vivia matando animaizinhos para empalhá-los e vendê-los a museus e colecionadores particulares. Ele próprio tinha uma coleçãozinha. Dizia que dava uma espécie de imortalidade aos pobres bichinhos. O maior desgraçado que eu já conheci.
Quando eu era criança eu matei um tico-tico, sem querer. Veja bem: eu coloquei uma pedra no estilingue, mirei nele, no pobre coitado que estava feliz da vida em plena luz da manhã, comendo bichinhos e grãos de arroz cozido que minha mãe costumava jogar no quintal, e o matei. Eu juro: foi sem querer. Sem dúvida pareço ser o cara mais desgraçado do mundo ao dizer isso. Mas a verdade é que eu não queria ter feito aquilo, e só fui descobrir demasiado tarde. Eu não queria mesmo; mas fiz. Não vou dizer que foi um demônio interior que me incitou a fazê-lo porque estas coisas não existem, mas foi um daqueles impulsos fatais que é difícil deter. O impulso do suicídio que, tarde demais, se transforma em arrependimento. Um impulso maldito do qual aprendi a me esquivar.
Chorei amargamente por aquela morte, e durante uma semana não consegui tirá-la da cabeça. Cheguei a ter pesadelos, acreditem. Resultado; prometi a mim mesmo que nunca mais faria mal a qualquer ser vivo, e venho cumprindo minha promessa com razoável dignidade. Percebi que tinha sentimentos.
Bem, é claro que, vez ou outra, eu mato moscas, baratas, pulgas, piolhos, serezinhos pequenos e maléficos que podem nos causar inúmeros males. São pragas. Nascem aos milhões, vivem aos milhões; seria ótimo se pudéssemos nos livrar deles. Não sinto remorsos ao exterminá-los mas, podem ter certeza, até mesmo isso evito fazê-lo. Se há a alternativa de dispensá-los longe de mim eu o faço. Mas se vou dormir e encontro aquela enorme barata rondando a cabeceira de minha cama... Ah! Terrível!!
Mas, no geral, não me limitei apenas a não fazer mal aos animais; tomei a iniciativa de protegê-los quando isso estivesse ao meu alcance. Pois é. Passei a amar os animais e a amaldiçoar todos aqueles que lhes prejudicam ou lhes causam qualquer tipo de mal. Como me dói na alma ver cães acorrentados eternamente em casinhas pequenas e sufocantes sem possibilidade de expressar qualquer opinião. Se você, seu desgraçado, tem algum cão acorrentado, tente ler em seus olhos a sua opinião em relação a isto! Não vou dizer para você se colocar no lugar dele porque isso seria um clichê estupidamente banal, mas, acredite, não há desculpa para esse tipo de crueldade.
Mas o que me dói mesmo é ver pássaros engaiolados. Como isso me magoa, e eu estou sendo sincero. Eu tinha um vizinho miserável que mantinha miseravelmente pelo menos uma dúzia de pássaros engaiolados. Ah! Vocês nem imaginam! E é engraçado, mas eles cantavam pela manhã, e à tarde. Era um canto que me causava dor, mas a despeito disso as pessoas consideravam-no bonito. Assim como outros consideram bonito um leopardo grande e de olhos brilhantes que se congela eternamente num canto sinistro e abafado de um museu. Percebem? De seus olhos brilhantes já não há o brilho da vida, só isso. É sinistro, antinatural, blasfemo. Uma blasfêmia inominável contra a natureza.
Deixai que morra e apodreça, acho que é a lei.
Aprendi a ler os sentimentos dos animais, desde o mais insignificante até o mais essencial, mas não um desses idiotas pacifistas embalados por movimentos que se dizem ecológicos. Tudo isso é besteira, tolice. Politicagem. Camisas verdes uma ova! “Green Peace”? Deixa prá lá...
Uma vez espanquei violentamente um garoto ainda na minha infância. Ele era um pouco mais novo do que eu e lembro-me que arranquei sangue de seu nariz. Deu uma confusão danada. Não tenho certeza se foi antes ou depois do episódio do tico-tico. Provavelmente foi depois.
Era uma noite de verão. Uma dessas noites calorosas em que os raios da Lua parecem quentes e pulsantes, levantando poeira da estrada. E a natureza pulsava e cricrilava ao redor de tudo como uma louca. A vila onde eu morava era bem precária; não havia calçamento nas ruas e todos os demais serviços públicos eram, para ser generoso, insignificantes. De qualquer forma... Como é mesmo o nome daquele inseto? Tanajura... é, acho que é isso mesmo. Tanajura ou qualquer outra espécie de formiga com asas. Acho que eram as fêmeas. Não importa. Só sei que elas usavam esse período quente do ano e as luzes vibrantes dos postes de iluminação para sua ritualística dança de acasalamento. Mas, quase sempre, no auge da excitação, acabavam encostando nas lâmpadas para terminar prematuramente torradas na noite de núpcias.
Qualquer um que more num bairro sossegado mais ou menos afastado da cidade poderá observar, no verão, aquela impressionante auréola de insetos que se forma em volta da luz. Um espetáculo no mínimo fascinante. Também há muitas espécies de borboletas noturnas, ou mariposas, besouros, aqueles besouros enormes, negros, assustadores, com seu par de ferrões brotando ao lado dos olhos. Acho incrível! Parecem aqueles velhos símbolos egípcios.
É nessa época quente que também há uma pavorosa aparição de um dos bichinhos mais monstruosos da natureza. É mais ou menos que nem uma abelha, ou melhor, uma vespa. Uma terrível e grande vespa negra. Os mais velhos a chamam de caçadeira. Caramba! Até me arrepio de falar esse nome! Elas são tão negras que chegam a brilhar azuladas, ao reflexo da luz. Certa noite encontrei uma delas morta, próximo a uma pilha de tijolos, e levei-a para que meu pai a visse.
- É uma caçadeira. – disse ele – Foi se meter com uma aranha maior e se deu mal.
- O que? – perguntei, curioso.
E aí ele me contou uma historiazinha real do terror da natureza que me apavora até hoje. Bem, o caso é que aquela caçadeira provavelmente não morreu nas mãos de nenhuma aranha, pois esse bicho simultaneamente repulsivo e atraente dificilmente perde uma batalha, mesmo que a tal aranha seja seis vezes maior que ele. A luta dura algum tempo, e é um espetáculo raro. A caçadeira adora essas aranhas grandes, bundudas, peludas, com o abdômen apetitoso, macio e cheinho de carne. Ela costuma cercar a aranha, não a deixando que escape, para, na primeira oportunidade, lhe dar a ferroada mortal. A verdade é que a ferroada não é mortal, ao menos temporariamente. É apenas dolorosa; e, em poucos segundos, a aranha fica inteiramente paralisada. É provável que se tivesse pálpebras não poderia nem mesmo piscar. E é aí que está o terror! Por quê? Para quê? Para servir de banquete vivo?
Exatamente! Cruel, não é?
Mas é muito mais cruel do que você imagina...
O banquete vivo não é para a caçadeira, mas para o filho da caçadeira, que nem nasceu ainda. Ela arrasta a aranha para uma caverna segura e obscura, com uma temperatura agradável, e lá deposita um ovo em seu abdômen apetitoso, macio e cheinho de carne, para que seu filho exigente, ao nascer, como larva, encontre tudo fresco e pulsando com o sabor da vitalidade. A aranha, embora esteja paralisada, não está inconsciente. Talvez não sinta dor alguma, mas ela sabe o que está acontecendo. Ela sabe que vai demorar para morrer. Ela sabe que não tem escapatória. Ela sabe que é uma chocadeira viva e que a larva não ligará a mínima para o que ela está sentindo, quando seu corpo esburacado como um queijo suiço for abandonado. A essas alturas ela já estará morta, naturalmente. Uma morte terrível, por sinal.
Por isso, quando uma dessas aranhas enormes e bundudas observa uma caçadeira sobrevoando estrondosamente com suas asas negras o seu lar tranquilo e aconchegante, o medo que sente deve ser infinitamente maior àquele sentido pelos brasileiros espertos quando se cogita a possibilidade do Lula vencer a eleição para presidente.
São os fenômenos do verão.
E existe um bichinho singularmente maior e mais peludo do que a caçadeira que também se utiliza desse método pavoroso para alimentar as suas larvas. A única diferença é que esse bichinho não paralisa a vítima. É uma mosca, uma mosca grande conhecida vulgarmente como varejeira, e quando não encontra um corpo vivo e macio para botar seus ovos, para esvaziar seu abdômen peludo e inchado, ela se utiliza de carniça e até mesmos restos orgânicos de lixo. É muito mais escroto, e vive no verão, principalmente em lugares com muito mato – também é horripilante. É um berneiro, que bota larvas gorduchas e aveludadas que devoram carne. E no expediente deste fenômeno existe muita dor, não se importando nem um pouco em fazer isso com seres humanos...
Na verdade, eu conheci pessoas vítimas de tais seres. E elas diziam:
“A larva não tem piedade quando dá suas mordidas por dentro da carne. A dor é terrível. E coça. Coça muito, e você pode coçar até sangrar, mas ela continuará lá, mordendo, roendo, coçando, se alimentando. Se alimentando de você.”
Tudo é muito pavoroso, mas quem se diverte pra valer com tudo isso são os sapos. Eles, literalmente, fazem a festa em noites assim, abundantes de vidas e de fenômenos, e não é para menos. Acredite ou não, mas desde a infância nutro um especial carisma pelos sapos. Arghh!!, dizem as pessoas. Grotescos, gelados, com sua pele venenosa e sua boca gigantesca, distorcida, que não pára nunca de segregar um líquido espumoso e esbranquiçado. Seres do pântano, do charco, da lama. Pois é. Seres maldosos que entram para dentro de casa e ficam embaixo da cama, até você apagar a luz e ir dormir. E aí quem estiver dormindo no chão...
Bobagem. A realidade é que eles não são maus. São um dos seres mais importantes do ecossistema. Lembram-se dos nossos velhos amigos insetos? Como as caçadeiras e varejeiras? Não são terríveis? Pois é, risque o nome dos sapos da natureza e aí você vai ver como eles são terríveis! Os sapos são meus amigos; gosto muito deles.
E aí o garoto do qual eu arranquei sangue do nariz foi correndo e deu uma violenta bica no sapo, que voou pelo menos uns dez metros antes de cair no chão, guinchando e vomitando tripas rosadas e insetos ainda não digeridos. O coitado ficou lá, estendido de barriga para cima como se estivesse esperando o bisturi do estudante de anatomia numa aula de dissecação. Se não fosse por mim ele iria demorar para morrer, e iria se contorcer dolorosamente até que chegasse a hora final, que poderia se estender por dias – esses bichos são resistentes. Mas eu fui lá, peguei um paralelepípedo, deixei minhas lágrimas caírem, e soltei a pedra sobre ele. Esse foi o fim de seu sofrimento... e de sua vida. De sua vida!
Às vezes as pessoas me viam como um louco ou um neurótico. Um paspalho sentimental e inocente que chorava. Diziam elas:
“Esqueça, garoto. O mundo está cheio de sapos. Um a mais, um a menos não vai fazer diferença...”
Eu lembro que tinha vontade de esfaqueá-las na mesma hora e dizer, enquanto ela olhasse para mim com indagação, com as mãos na barriga sangrando, com aquela fisionomia besta de alguém que sabe que vai morrer:
“É mesmo! Que tolice a minha! Então tome, também. O mundo anda cheio de seres humanos. Um a mais, um a menos...
Ah! É lamentável! Lamentável! A vida sendo tomada como uma besteira, uma futilidade, um jogo de dados da natureza. Não importa.
Cada vida é uma vida. O sangue que corre na sua veia é seu, e você, eu tenho certeza, não quer ver ele se esvaindo por uma ferida qualquer. Cada vibrar de emoções e sensações são únicos! São diferentes! São específicos! Que droga!!
Eu defendo minha vida com unhas e dentes, e tenho certeza que você procede da mesma maneira. E aí vem um filho da puta qualquer e diz que o mundo anda cheio disso ou daquilo. O diabo!!! Às vezes eu perco a cabeça...
- Por que você bateu no meu filho, seu moleque malvado?
- Eu bati nele?
- Sim! Você bateu nele. Olhe!
- Ele matou um sapo.
Bem, é claro que eu não tinha nada que dar satisfação, mas acabei dando. Sabe como é, criança...
Quanto ao filho dela... O caso é que eu não ia ficar explicando (e na época eu já tinha maturidade suficiente para tal) que a velha senhora natureza humana insiste em se pronunciar já quando o bebê pega o brinquedo inocentemente e dá na cabeça do outro, sorrindo. É assim que essa velha sorri.
Igualzinho aconteceu com o garoto, só que numa escala significativamente mais maliciosa e perversa. Apertou o cadarço do quichute, tomou impulso, contou vantagem para os amigos, e deu a violenta bica no indefeso sapo. E voltou com sua brincadeira de criança, sorrindo... como se nada tivesse acontecido.
Aí eu fui lá e quebrei o nariz dele com uma força que eu não suspeitava que tinha. Gostei daquilo. A verdade é que eu gostei de ver o sangue descer pela sua camisa branca com um desenho do palhaço Bozo. “Alô criançada, o Bozo chegou, trazendo alegria...” Para o sapo que acabou estribuchado, o Bozo não trouxe tanta alegria assim... As coisas começaram a partir dessa época, quando eu adotei o slogan: “mate o ser humano, mas deixe os animais em paz”.
Eu cresci, e minha maturidade com relação a estes aspectos da vida cresceu ainda mais; e se desenvolveu, pode ter certeza. Mas aí eu vou e volto a trombar com aquele paspalho que adorava empalhar animais.
E ele me dizia:
- Às vezes uso certos requintes...
- De crueldade?
- ... mas também dou uma espécie de imortalidade a eles. Ficam ali, quietinhos, olhando tudo ao redor, meditando silenciosa e pateticamente, fornecendo sua beleza, cheios de palha e outras porcarias no corpo. Olha, você chega perto de um crocodilo e ele... Vlaopt!! Adeus perna! Agora não. Agora eu posso chegar perto dele e acariciar sua língua, os seus dentes, até seus pontudos e terríveis dentes se eu quiser. E ele fica ali, quietinho, só observando. Não pode fazer nada, o desgraçado! É uma pena que ele não esteja consciente...
Quando disse que ele era o maior desgraçado que eu já conheci não estava brincando. Ele era mesmo.
Que tal alguém que não vale uma placenta furada abrir seu corpo e encher ele de porcarias?! Sempre tive vontade de fazer isso com ele...
Depois, assistindo ao “Abominável Dr. Phibes”, tomando uma cerveja gelada num dia que era um inferno, as idéias começaram a se encaixar. E aí eu pensei: “É. É isso mesmo. Por que não pensei nisso antes? É assim que vou dar cabo desse sujeito”.
Esse sujeito se chamava... Pensando bem, o que importa o nome dele? O caso é que eu já conhecia ele de outros bordéis. Era um playboy cheio de grana e de mulheres, com um pomo-de-adão tão grande que parecia ter levado uma flechada atrás do pescoço.
Ganhava um dinheiro do caramba empalhando animais e isso era tudo. Entrei de mansinho em sua vida e elaborei sua ruína.
Deixa eu ver, são... 5:15 da tarde e ele está lá, agora...
Ele morava numa casa enorme, numa mansão. Havia estudado veterinária e nos trombamos na faculdade algumas vezes. Acho que as pessoas que nascem na mesma região, dividem o mesmo local na infância, estão sempre uma no caminho da outra, às vezes uma é o espinho da outra, pois bem, acho que estas pessoas estão predestinadas a conviverem juntas até que uma ou outra morra. Eu disse predestinadas mas não num sentido místico, pois se tem outra coisa que me deixa fora do sério é o misticismo, a superstição, a inocência. Acredito na coincidência, que às vezes torna difícil sair do caminho, da lembrança, do passado, entre duas pessoas. Parece mais é um cordão – um cordão cujo nó é difícil de desatar. Mas a gente acaba desatando. À vezes com um soco no nariz...
A casa dele é repleta de produtos químicos para empalhação. Logo na entrada de seu laboratório há um enorme morcego, e quem não souber levará um maligno beijo desse morcego ao entrar. É um lugar sombrio, com cheiro de mofo e produtos fortes, como formol, álcool e outras porcarias do gênero. Também há um compartimento menor, logo atrás, com muita palha, algodão, estopa e outras porcarias do gênero. Era ali que aquele desgraçado trabalhava – quero dizer (isto não é um trabalho), era ali que ele fazia aquelas coisas desprezíveis. Não sei como (talvez por ter um diploma ridículo de veterinário pendurado na parede), ele tinha certa imunidade ao trabalhar com aquilo. Ele também tinha dinheiro, e isso conta muito... nesse país.
Mas é estranho, e eu não me surpreenderia se indagassem coisas do tipo:
“Um veterinário que empalha animais? Você é louco, cara? É claro que eu não vou levar meu cachorrinho para ele tratar!... Denuncia ele, seu idiota! Isso é crime, sem autorização e fiscalização. Você não gosta dele? Denuncia ele! E ele vai à falência. Nunca mais vai tratar de bichinho nenhum...”
“Eu sei. Eu sei. Ele nunca mais vai tratar de bichinho nenhum. Mas ele não dá a mínima pra isso, seu estúpido. Ele é um playboy, e o dinheiro que ganha como veterinário talvez seja só para alimentar o seu cachorro, que vive no quintal, acorrentado! Você já ouviu falar em hobbies? Eu conheço a psicologia de pessoas que mantém um hobby. Ora, eu tenho meu próprio hobby e sei como é legal, como é divertido, portanto, caia fora!”
São 5:30. O filho da puta está lá...
Existem, ainda, diversos animais empalhados pela sua casa, principalmente pelo seu laboratório. Na entrada, além do morcego, uma enorme coruja estende suas asas num movimento eternamente congelado, e seus olhos brilham numa indignação natural.
Deixai que morra e apodreça.
Num canto mofado e esquecido, um imponente galo de briga, um desses galos mineiros (garnizé, acho que é como chamam), avermelhado, cuja espora, de ponta negra, é do tamanho de um polegar, estufa seu peito como se tivesse acabado de vencer uma batalha num desses palcos sangrentos promovidos por esses malditos caipiras que não tem o que fazer. E ao pé dele, uma coral verdadeira, com seus aterrorizantes anéis negros e brancos abraçando seu corpo avermelhado, dá um bote escancarado que nunca chegará a lugar algum. Também existem alguns cães, gatos, uma lebre legítima, do mato, alguns peixes grandes afincados em estacas, um quati e meia dúzia de aranhas peludas.
- Não são do Brasil – certa vez ele me disse, com relação àquelas aranhas.
O que mais me surpreende, no entanto, é um jacarezinho do pantanal, uma lagartixa gigante com dentes irregulares e escancarados. Um dos olhos é negro e baço, com uma horrível mancha branca do lado direito. É perfeitamente possível imaginar uma mão sangrenta pendendo daquela boca horrenda e ondulada. Ao lado dele jaz uma piranha sem a cauda.
É um recinto realmente assustador, em bastante contraste com o outro lado da casa, lá na frente, onde existe um ajeitadinho posto veterinário, com azulejos branco e azul; e, na parede de fora, inocentes grafites mostrando cãezinhos, gatinhos e coelhinhos peludos, como se tivessem acabado de sair de um desenho de Walt Disney. As crianças adoram. Numa outra parede também há alguns personagens do Maurício de Souza, cuidadosamente desenhados e coloridos.
Bem, tudo aquilo forma uma alegoria quase ilusória, não os fatos escabrosos que, vocês sabem, me levaram a tomar uma iniciativa. Uma iniciativa que considero justa.
Como é mesmo que ele dizia no filme?... Ah! Sim. “Nove a mataram. Nove deverão morrer”. Vincent Price! Fantástico! Acho que é meu ator predileto. Me identifico muito com ele. Ele é... inspirador. Foi pôr isso que comecei a elaborar tudo, com aquele desgraçado que empalhava animais.
Primeiro eu preparei a câmara. Poderia ser chamada de “câmara do pavor”, agora. Mas no começo era somente uma câmara de madeira suficientemente grande para conter um homem com exagerada folga. Eu também tenho uma casa sossegada, com um porão enorme e sossegado. E foi lá que eu ajeitei a câmara. Coloquei um sistema de ventilação nela, que manterá uma temperatura agradável, para todos eles... Também providenciei para mantê-la suavemente iluminada, não em excesso, para que ele veja as coisas. E, bem, pintei todo o interior da câmara de branco, um branco tão puro que chega a doer a vista; e estava tudo quase pronto, faltava apenas um detalhe. E esse detalhe foi um pouco demorado, mas, com persistência e dedicação, consegui solucioná-lo.
Há loucos que colecionam de tudo por aí...
Não acredita?
Ainda lembro-me de um sujeito que colecionava baratas, um inseto que sempre detestei. Tenho um pavor patológico desses seres. Um dia ainda morro do coração. Pois bem, ele colecionava baratas, e alguns outros insetos. Para que? Como é que eu vou saber?! Não tem gente que joga bombas atômicas em cidades povoadas pôr seres da mesma espécie? Não tem gente que mata toda a família só para ter o nome impresso na primeira página dos jornais? Colecionar baratas é fichinha, pode ter certeza... Vai saber o que realmente move as engrenagens do cérebro humano?!
Tem até gente que empalha animais...
Quanto a esse desgraçado eu já tinha tudo preparado, quando conduzí-lo até o meu porão, o que não foi nem um pouco difícil, e lhe apliquei uma injeção paralizante. Ele não poderá se mexer nas próximas 16 horas. Coloquei-o em minha câmara do horror e, pôr via das dúvidas, passei seguras amarras pelos seus tornozelos e pulsos. Ele irá ficar lá, tranquilo, observando a brancura do teto e das paredes, até se dar conta de que não está só. Até se dar conta que ao seu lado há, pelo menos, uma dúzia e meia de enormes, barulhentas e peludas moscas varejeiras verde-azuladas, dessas cujo barulho, ao voar, pode enlouquecer tranquilamente um homem. Todas elas prontinhas para dar a luz. Existe gente que coleciona de tudo, até mesmo moscas varejeiras.
A cada 16 horas sua carga de imobilidade é renovada. Também preparei um sistema de alimentação pôr soro, com dois caninhos enfiados no nariz. Ele vai viver e ser fonte de vida por muitos dias. É provável que a solução paralizante amenize ou mesmo impeça de todo a sua dor e coceira provocada pelas mordidas vigorosas das larvas aveludadas, que de início são pequenas, mas com os dias crescem, crescem e crescem até se tornarem elas próprias horrendas varejeiras instintivamente dotadas com o estímulo da reprodução e da desova. É, talvez ele não sinta dor.
Mas o que importa? Assim como as aranhas, ele sabe o que está acontecendo; conhece a fragilidade de sua situação, e não pode gritar. Existe, certamente, o grito mais pavoroso preso em sua garganta dolorida. Mas ele não pode gritar.
Que tal alguém abrir seu corpo e encher ele de porcarias?
Deixa eu ver... são 6:23, e o crepúsculo vai engolindo tudo, sem deixar nenhuma esperança aos seres que se alimentam da luz. O sol parece um terrível e gigantesco olho sangrento cujas veias estouraram. Estou vendo até mesmo uma nuvem apocalíptica com o impressionante e perfeito desenho de um cogumelo nuclear, e a luz arroxeada que a atinge pôr baixo dá-lhe, realmente, um aspecto catastrófico quase real, não fosse o fato de se dispersar rapidamente, conforme o avanço das sombras.
A natureza gosta de exibir seu humor negro e cáustico nas horas mais apropriadas. Mas, a despeito de tudo, o tempo parece não existir, limita-se a correr, lento, liso, inexorável, silencioso, sem remorsos, e as horas, que não param, zombam de nós. Mas ele está lá agora.
Como o tempo correrá para ele?

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