DELIRIUM TREMENS
E.R.Corrêa
"... esta noite horrível tornou inexpressivas, todavia, as minhas experiências anteriores." - Shakespeare
Senhores, vós todos tem razão: somos loucos. Sim, somos loucos! Mas será que a loucura tem uma designação diretamente proporcional à própria idéia em termos análogos? Ou será ela apenas título de desprezo colocado por pessoas que a buscam, mas que não a tem?! Uma mente perturbada pode, muitas vezes, tomar-se de súbita inspiração e repassar ao mundo uma obra! Não é mesmo?
Da loucura nasceram grandes obras, da loucura nasceram grandes idéias. Não foi de certo Hamlet que, num turbilhão incompassado de loucura e sanidade, se voltou em amargas lembranças e tétricas visões para vingar-se de um crime? Não foi Reinfield que, em lampejos escuros da mente, abriu as portas das trevas para um banho de sangue e orgias? A loucura, às vezes, revela grandes obras, grandes filosofias, grandes idéias. Ela soprou no espírito de Nietzsche sua mais alta revelação, e este, por sua vez, soprou em nossas cabeças os ares mais elevados da criação e da humanidade. Então porque olham-na com desprezo?...
É de certo loucura meditar e filosofar com o crânio de Vincent Price ou Edgar Allan Poe? Não! Não é... Isto é inspiração, no seu mais alto nível! Mas não adianta... Hoje todos me olham com insegurança...
Não me importo. Jamais me importei, pois como já dizia o grande Poe: "Como posso preocupar-me com o juízo de uma nação se desprezo cada indivíduo que a constitui?". Vê, senhores? Isto é reflexo de meu pensamento. E, tal qual a posse de água mais límpida da Terra, reflitirei a vós uma história real que teve como impulso esta máxima expressão.
Há anos vinha martelando no meu cérebro a idéia de tornar-me um escritor. E jamais esta idéia me escapou do pensamento. No entanto, não é uma coisa fácil; requer, além de muita vontade e dedicação, talento e originalidade, assim como palavras puras e dígnas de serem levadas a sério. Debruçar-se sobre os livros e lapidar idéias durante a infância, a adolescência e tornar-se homem com o mesmo entusiasmo não é o suficiente. Mas é o início... E se isso florescer de forma correta e duradoura, as probabilidades de um entusiasta tornar-se um escritor são grandes.
Mas, durante todo o percurso, milhares de fantasias obscurecem a mente. E creio que também tive os meus momentos de fantasia, cruéis fantasias. Mas quem não as tem?!
Fui poeta.
Enchi e abarrotei dezenas de cadernos com centenas de poesias. Mas não bastava; eu queria ser reconhecido e amado, não importando o quanto de sacrifício teria de fazer para conseguí-lo. Mas as minhas idéias frutificaram-se demasiado tarde. Nasci na época errada, e sempre me lamentei por isso. Jamais vou perdoar o tempo que me lançou num mundo medíocre e estúpido, envolto por atmosferas baixas e depressivas, possuidora de mesquinhes e idiotice. Maldito seja! Concordam, senhores? Não nascemos porventura num mundo demasiado medíocre? Numa época medíocre? Pior do que sentir a impressão de ser uma barata, é sentir a impressão de ser uma barata sendo esmagada! E assim o tempo procede: ele nos esmaga e nos calunia, tirando às vezes os momentos de maior inspiração para jogar-nos no branco do pensamento. Mas existe a poesia...
Alimentei-me dela por muito tempo, e ainda hoje assim o faço. Peter Cushing acertou em cheio quando disse a seguinte frase em um de seus grandes filmes: "Na literatura estão guardados os maiores tesouros da humanidade". São pensamentos assim que faz-nos reconhecer os homens de gênio. São poucos, mas existem; e geralmente encontram-se longe do turbilhão apressado e sem propósito da massa humana. Por isso são tão raros...
Hoje praticamente não escrevo, não consigo - sou deveras tomado por lembranças terríveis; por isso apenas medito e filosofo a respeito da vida e de suas brincadeiras fúteis. Outrora fui prolífico, chegando a publicar muita coisa. Mas foi tudo em vão; tudo foi apagado pelo vento Ashaverus, e hoje se encontram dispersos nos cantos escondidos da humanidade mesquinha.
Tive uma conduta por demais excêntrica para ser aceita. Mas assim quis o destino, e diante dele torna-se inútil qualquer tentativa de lutar ou impor-se. É, eu compus... E a sombra de Azevedo lançou sobre mim o seu manto frio mas acolhedor, deixando uma centelha de sua genialidade incendiar os meus neurônios.
Poe, na sua atitude serena porém perturbadora, jogou-me na alma um turbilhão de imagens mirabulosas e fantásticas, cuja igualdade, talvez, possa ser percebida com a viagem multi-colorida dos reflexos transmitidos pelo ópio.
Sim, ele me inspirou, mais do que qualquer outro! Seu universo é gigante, ilimitado, fantástico, imprevisível, assustador. Frank também o idolatrava...
Na parede do meu gabinete se estendia um imenso e quase humano retrato de Poe. E entre uma composição e outra eu era, muitas vezes, surpreendido pela sua contemplação. Seu olhar me transmitia as mais profundas idéias da desolação e do terrível. Era impossível compor sem contemplar aquele quadro, embora fosse tudo uma tortura. Mas ao mesmo tempo era fantástico, e às vezes minhas tentativas malograram em composições medíocres. A alma de Poe tinha que estar nos meus escritos, o brilho de seus olhos tinha que refletir em minhas páginas.
E refletiram...
Chamaram-me de louco, queimaram meus poemas, zombaram de mim. Mas minha conduta e meus pensamentos, tal qual um pilar grego, manteram-se firmes, não vacilando sequer uma vez. Mas jamais usei sua literatura como cópia ou plágio, jamais... Eu apenas apreciava suas idéias, sua postura, não procurando delas extrair o que já havia sido exposto, tanto é que meus escritos jamais foram comparados aos dele. Não que eu seja presunçoso, mas uma admiração pode, muitas vezes, causar idéias conturbadas, levando muitos a acreditar (os mais tolos) numa possível cópia de personalidade. Mas ele me indicava, com seus olhos brilhantes, o caminho espinhoso e psicótico do profundo e verdadeiro terror. Seus olhos brilhavam e sua influência levou-me à loucura...
Tive, naquela época, acessos incontidos de neurose. Tudo parecia me oprimir e me insultar - havia um complô, tenho certeza, eles queriam me arruinar! E aqueles que me rodeavam, principalmente Frank, puderam presenciar essas deliberações fantasmagóricas.
Frank, velho Frank de olhos azuis perturbadores...
Mas por que ele zombou de mim? Por que riu dos meus ideais? Por que ele não compartilhou de meus pensamentos? Poderíamos ter sido dois revolucionários na literatura. Sim, poderíamos! Mas não! Ele tinha que me insultar!...
Eu tinha muitas extravagâncias, e elas, quase sempre, agrediam todos que me cercavam. Eu tinha um crânio. Um crânio grande, de gesso, e ele era perfeito.Tinha as mesmas características de um crânio humano normal, inclusive a fina camada de verniz que lhe cobria, dava-lhe um aspecto sombrio de polido envelhecimento. O crânio e Poe! Ah, como eles me inspiravam! Sentia-me o próprio Hamlet quando, às altas horas da noite, detinha-me a monologar com ele! Era de gesso, sim! Mas para um monólogo filosófico e sombrio na madrugada ele servia, e como servia...
Louco? Acham que sou louco? Talvez...
É verdade, aquele crânio me exaltava, e Poe, no seu olhar de tétrico incentivo, deixava claro a sua felicidade. E aí veio Frank, com seus olhos azuis perturbadores... Ele também era poeta - mas era medíocre, fraco, arrogante, dono de uma pose refalsada, vazia, sem arte. Eu sempre tentei ajudá-lo; mas isso, para ele, era uma ofensa. Ele me chamava de excêntrico e zombava de minha conduta. Zombava de meus escritos; mas ele era fraco, e eu não tinha a intenção de prejudicá-lo.
Porém, numa noite terrível, onde a tempestade caía sem piedade dos humanos e em vão tentava lavar suas misérias, Frank foi além do que eu poderia permitir. Ele quebrou o crânio de gesso; jogou-o no chão, e sua natural fragilidade fez-se em pedaços. Poeira, só restava poeira... Frank me olhava e ria, dizendo:
- Vamos, Nicolau, molhe agora a sua pena no nanquim que estava naquele crânio!
Olhei para Poe - ele estava sério, e seus olhos refletiam a mais incontida e exaltada expressão de ódio que um simples retrato poderia lançar. Fiquei a contemplá-lo. Frank ria, zombava, dilacerava com palavras os meus mais profundos sentimentos. Mas não pude parar de contemplar aquele quadro; fiquei inteiramente submerso em sua escuridão vazia e infinita, interrompida apenas pelas pequenas e quase imperceptíveis luzes vermelhas que emitia. Passaram-se segundos? Minutos? Horas? Dias? Não sei! Não consigo me lembrar...
As mais profundas idéias e palavras para exprimir o que a alucinação e a loucura podem causar, são infinitamente insignificantes e sem sentido perto das reais vertigens de insanidade que realizei por um período que em vão eu tento calcular.
Mas eu voltei, foi incrível, ninguém acredita, mas eu voltei!...
E quando eu dei conta da situação, ví que fora vítima do mais horrendo ato de abominação que um ser humano poderia conceber. Minhas roupas estavam sujas de sangue, suor, vinho, estavam rasgadas e contorcidas, parecia que eu tinha travado uma luta terrível nos momentos de alucinação.
Ardia em febre...
Sobre minha mesa viam-se restos de carne humana, em meio a sangue, pedaços de cérebro, peles desfiadas e corrompidas, e duas órbitas oculares de brilho azulado, que causavam, ainda, inquieta perturbação. E no chão, no meio de imensas poças de sangue, haviam peças cortantes de aços reluzentes. Na última prateleira, a quase dois metros do solo, brilhava, com inigualável limpidez e clareza, demonstrando que fora cuidadosamente polido, um grande e verdadeiro crânio humano.
Fiquei perplexo!
Olhei para Poe - ele sorria...
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